terça-feira, agosto 10, 2004

"Auf Wiedersehen" à Economia do Lazer

Por DANIEL SHWAMMENTHAL
Público, Sábado, 07 de Agosto de 2004

Era Primavera para os sindicatos na Alemanha. Durante os meses de Maio e Junho de 1984 autocolantes enormes, representando um sol sorridente e defendendo um horário laboral de 35 horas semanais, estavam por todo o lado. Centenas de milhares de pessoas saíram às ruas em nome de horários de trabalho mais reduzidos. Cerca de 70 mil trabalhadores fizeram greve, enquanto os patrões deixavam outros 130 mil em "lock-out" antes de, finalmente, cederem e aceitarem a redução do horário laboral sem cortes salariais.

Ao mesmo tempo que as revoluções de Reagan e de Thatcher estavam em plena força, a Alemanha desprezava o legado de Adam Smith. Enquanto os EUA e a Grã-Bretanha enfatizavam os juros baixos, a desregulamentação e o trabalho duro, os dirigentes sindicais alemães concebiam a sua visão de "economia do lazer". A redução obrigatória das horas de trabalho devia, miraculosamente, combinar a "humanização do ambiente de trabalho" com um programa gigante de partilha laboral. À medida que as pessoas trabalhavam menos horas, a teoria dizia que os patrões apenas teriam de contratar mais pessoas para aumentar a produção.

Só que, ao pagarem o mesmo por menos trabalho, os patrões ficaram menos dinheiro, e não mais, para contratar. O desemprego cresceu em vez de diminuir, os juros aumentaram para pagar os subsídios adicionais de desemprego e a economia estagnou, obrigando os governos a acumular cada vez mais dívidas para financiar o estado de bem-estar. No entanto, apesar destas indesejáveis, embora previsíveis, consequências, o tema das 35 horas semanais permaneceu um tabu.

Até agora. Neste Verão, a Primavera dos sindicatos alemães - a par das 35 horas semanais - chegou a um fim abrupto. Mas, em vez de convocarem uma greve geral, os sindicatos deram a sua bênção às horas de trabalho alargadas - e depois negaram que algo tivesse realmente mudado.

Tudo começou quando o gigante electrónico Siemens AG chegou a um acordo com os trabalhadores relativamente ao aumento do tempo de trabalho em duas das suas fábricas para 40 horas por semana - sem compensações salariais. Sem surpresa, os sindicatos minimizaram o significado deste evento. A linha oficial era a de que o acordo era apenas uma excepção para ajudar uma companhia em crise e que a semana das 35 horas se mantinha para o resto da indústria.

Contudo, a confiança dos sindicatos depressa se evaporou. "Temos de ter cuidado em não deixar a porta do celeiro aberta e toda a gente entrar e depois teríamos a semana das 40 horas em todo o país", afirmou Jürgen Peters, presidente do sindicato dos metalúrgicos. Mas parece que o gado já está à solta. Cerca de 100 empresas estão a entrar em negociações para acordos semelhantes, entre as quais alguns pesos-pesados como a MAN, a Philips e a Deutsche Bahn. Há duas semanas, a Daimler-Chrysler levou a cabo um plano de cortes nas despesas de 500 milhões de euros - o que incluiu aumentar o horário semanal para 39 horas para os 20 mil empregados do sector dos serviços. A Retailer Karstadt pretende chegar às 42 horas.

"Semanas laborais maiores transformar-se-ão no padrão na Alemanha. Brevemente estaremos a falar de 43 horas", já prognotiscou o presidente da Continental, Manfred Wennemer, do seu escritório em Frankfurt. O que mudou? Com uma taxa de desemprego duas vezes mais alta do que nos EUA e com uma "recuperação" (projecções para este ano indicam um crescimento económico de 1,7 por cento) que seria considerada estagnação na América, os alemães já não estão tão seguros quanto ao seu modelo económico.

Na forma típica alemã, esta auto-dúvida está a dar lugar a profecias de ruína e tristeza. Livros que prevêem o fim iminente do país excepto se acções drásticas forem tomada, preenchem as listas dos mais vendidos. Aí se incluem títulos como "Pode a Alemanha ainda ser salva?", Werner Sinn, um dos principais economistas do país ou "Alemanha - O declínio de uma super estrela", da autoria do antigo jornalista Gabor Steingart.

As profecias de ruína parecem ter tido algum efeito. Após anos de oscilação, o Chanceler Schröeder embarcou por fim num projecto de reforma prudente para restringir os custos exponenciais do estado do bem-estar. Por mais tímido que possa ser, o pacote de reformas do ano passado não tem, no entanto, precedentes na sua extensão. Os alemães, que viram o seu estado de bem-estar expandir-se por mais de cinco décadas, têm agora que de chegar a acordo com cortes reais nos sistemas de saúde, pensões e desemprego.

O semanário "Der Spiegel" classifica a situação de "Despedida do paraísoe e que tem sido acelerada pela chegada de dez novos membros à União Europeia. Foi a ameaça de deslocalização de locais de produção para a Hungria que chamou a atenção dos trabalhadores da Siemens. No início deste mês, a Bosch ameaçou deslocalizar uma fábrica de peças de automóveis de França para a República Checa, salvo se os trabalhadores concordassem com a extensão das horas de trabalho em troca do mesmo salário. Uma esmagadora maioria concordou com o acordo, incendiando o debate dentro do governo francês sobre a sua semana de 35 horas.

A discussão sobre um aumento das horas semanais de trabalho é, ao fim e ao cabo, um debate sobre os elevados custos laborais da Alemanha. Os custos para o empregador adicionam habitualmente mais 78 por cento ao salário base dos trabalhadores e as reformas do governo nada têm feito para alterar a situação. Isto tem levado as empresas a tomarem as suas próprias medidas.

Graças à nova competição vinda do Leste, os alemães estão a descobrir que, se querem manter os seus padrões de vida, têm que trabalhar mais e por mais tempo. Em suma, a Alemanha tem de se tornar mais como a América para que permaneça como Alemanha. Esta, no entanto, não é uma noção muito popular num país onde as "condições americanas" são ainda uma mancha comum que invoca imagens do trabalhador americano infeliz levado à escravatura, num medo constante de perder o seu emprego e sem tempo para aproveitar a vida. Nesta caricatura alemã da realidade americana, existem apenas milionários e habitantes de guetos.

A sorte é que, para além dos livros mais vendidos que prevêem o fim iminente dos alemães, estes têm agora a opção de se ler, durante as suas longas férias de Verão, o livro de um antigo correspondente nos EUA de um semanário económico acaba de publicar um livro que contraria muitas das ideias inconcebíveis que os seus compatriotas sobre o "american way of life". Chama-se "Condições americanas: o mal orientado medo alemão do capitalismo cowboy". Exclusivo PÚBLICO/"The Wall Street Journal Europe"