sábado, agosto 14, 2004

Bush Tem Razão!

Por ANTÓNIO VILARIGUES
Público, Quarta-feira, 11 de Agosto de 2004

ssisti a uma recente conferência de imprensa de Bush. Traço mais saliente que retive: o tom messiânico de todo o discurso. Daí não viria mal ao mundo, se estivéssemos perante de um qualquer pastor de uma qualquer seita protestante. Mas não. Quem falava era o Presidente da superpotência dominante. Aí fiquei seriamente preocupado.

Mas numa coisa Bush tem razão: a comparação entre a guerra do Vietname e do Iraque é despropositada e não faz sentido. E volta a ter razão quando diz que a comparação faz mal ao moral das tropas...

O Vietname é um país com mais de 4000 anos de história. Juntamente com a China é uma das identidades nacionais mais antigas do planeta.

Os vietnamitas conseguiram defender por mais de dois milénios não só o seu território, mas também o seu estilo de vida, o seu idioma, a sua psicologia específica, o seu humor e a sua maneira de pensar. A fronteira setentrional manteve-se praticamente intacta ao longo deste período. A sua identidade positiva forjou-se numa luta constante contra a natureza e contra os invasores. Fossem eles chineses, mongóis, siameses, japoneses, franceses ou americanos. A todos resistiram e a todos derrotaram.

Neste país forjou-se uma plêiade de dirigentes que no século XX não só dirigiram a resistência e derrotaram quatro invasores, como souberam, durante 30 anos, manter uma correcta linha político-militar, baseada numa análise concreta da realidade concreta. Aos amigos e aliados diziam: "Muito obrigado, camaradas, pelo vosso preciosíssimo conselho que estudaremos com a máxima atenção." Enquanto serviços secretos e jornalistas procuravam descobrir quem era pró-soviético ou pró-chinês, eles eram pró-vietnamitas.

Foi neste país que os Estados Unidos intervieram logo após a assinatura do Tratado de Genebra em 1954. Conferência em que os EUA, participaram mas onde não assinaram o Acordo.

De 1956 a 1965 procederam ao envio de dezenas de "conselheiros" militares para o Vietname do Sul. Depois, centenas. Por fim, milhares. Fomentaram e praticaram eles próprios a repressão e a tortura sistemática de homens, mulheres e crianças (100.000 presos políticos em 1956). Os golpes de Estado palacianos e os assassinatos políticos. Impediram as eleições de 1956, que visavam a unificação do país. Inventaram o termo "vietcong" (abreviatura de guerrilheiro comunista), para desacreditar a luta da FNL, o que só contribuiu para dar mais prestígio aos comunistas. Criaram as "aldeias estratégicas", verdadeiros campos de concentração e de trabalhos forçados.

No âmbito da teoria do "dominó" (de Eisenhower e Nixon) de contenção do comunismo, em 4 de Março de 1965 iniciou-se a intervenção militar aberta, ordenada pelo então Presidente Lyndon Johnson. Os vietnamitas eram vistos pelos americanos (como antes pelos franceses) como uns camponeses sujos e aparentemente atrasados, que pareciam passar a maior parte do dia mergulhados até aos joelhos e às coxas em campos cheios de lama. Os americanos acreditavam piamente na sua missão civilizadora. E trataram de a levar à prática.

Enviaram um corpo expedicionário de 600.000 homens. No auge da guerra os EUA puseram em acção 68 por cento de todas as suas forças terrestres, 60 por cento do corpo de "marines", 32 por cento das forças da aviação táctica, 50 por cento da aviação estratégica. Num total, mobilizaram quase nove milhões de soldados. Largaram 7.850.000 toneladas de bombas, gastaram 352.000 milhões de dólares (a preços de 1975). Usaram a guerra química, o "napalm", o agente azul, o gás laranja. Massacraram aldeias inteiras. A destruição foi total. Alargaram a guerra ao Laos e ao Camboja. Um milhão de mortos vietnamitas e 58.000 mortos americanos depois, os EUA retiravam sem glória.

Durante 30 anos, os dirigentes vietnamitas mantiveram-se fiéis aos princípios que haveriam de confundir as organizações militares e políticas da França e dos Estados Unidos. A ênfase no efeito político de toda e qualquer acção militar foi a tónica dominante.

Afirmar, como o fazem historiadores americanos, que a ofensiva do Tet foi uma brilhante vitória militar americana significa que, mais de 30 anos depois, ainda não perceberam o que acima foi enunciado. Faz lembrar o episódio, verídico, da guerra por computador. Só que, veja-se lá, os guerrilheiros vietnamitas não se comportavam como o computador queria...

Durante a ofensiva do Tet (ano lunar vietnamita), a 30 de Janeiro de 1968, foram simultaneamente atacados 140 centros urbanos, incluindo o quartel-general do comando militar americano, os quatro quartéis-generais zonais do comando militar americano-saigonês, juntamente com oito dos onze quartéis-generais divisionários, 37 das então 40 capitais provinciais, dois quartéis-generais operacionais americanos e - entre 18 alvos da máxima importância em Saigão - a embaixada dos EUA parcialmente ocupada por guerrilheiros. Tudo sem que os americanos tivessem conseguido descobrir a tempo o que aí vinha.

O objectivo dos vietnamitas não era a vitória militar. Era, como sempre, apesar da envergadura militar da operação, essencialmente político. E foi atingido em toda a linha. O comandante-chefe, general Westmorland, foi destituído. O Presidente Johnson recusou-se a empenhar mais tropas, aceitou uma proposta de negociações do Vietname do Norte e anunciou que não concorreria às presidenciais de 1968. O movimento contra a guerra do povo americano, o "principal aliado" nas palavras de Ho Chi Minh, entrou em imparável ascensão. Após cinco anos de prolongadas negociações, acompanhadas da "vietnamização" da guerra e de violentíssimos bombardeamentos sobre Hanói (onde foram abatidos quase metade dos B-52), já com Nixon na presidência, em 27 de Janeiro de 1973, foi finalmente assinado em Paris um acordo para pôr termo à guerra.

A história não se repete. Comparar esta realidade com a do Iraque é, no mínimo, forçado. Podemos, isso sim, encontrar alguns paralelos: erros de análise tácticos e estratégicos, mentiras à opinião pública, visão paternalista e até sobranceira sobre a realidade no terreno, etc...

Especialista em sistemas de comunicação e informação