terça-feira, agosto 10, 2004

Cuba - Balseros - 10 anos

ÊXODO DE "BALSEROS" FOI HÁ 10 ANOS
Público, Quinta-feira, 05 de Agosto de 2004

Uma fuga como a de Agosto de 1994, que levou de Cuba mais de 36 mil pessoas, pode voltar a acontecer se se mantiveram as medidas de rigor decretadas por Havana em resposta ao agravamento do embargo norte-americano à ilha - "só falta uma faísca", diz um diplomata. Texto de Fernando Sousa. Foto de Luís Ramos

á mais de um ano, um grupo de cubanos tomou de assalto um "ferry" que fazia a ligação entre dois portos da ilha. Usaram uma arma de fogo, sequestram a tripulação e estiveram quase a deixar Cuba em direcção aos Estados Unidos, como outros tinham feito em 1994 para fugir da ilha.

Mas as coisas correram mal. A polícia conseguiu aproximar-se e os inexperientes piratas renderam-se. O processo foi sumário: julgamento, condenação à morte e fuzilamento. Tinham posto em perigo a "segurança nacional".

Foi por casos destes que as autoridades proibiram o transporte nos barcos de passageiros entre os dois lados da Baía de Havana de uma série - aparentemente um pouco estranha - de coisas. Armas de fogo e facas são objectos proibidos - e isso é compreensível. Mas pessoa que queira seguir viagem não pode levar caixas de cerveja e de refrescos, querosene e gasolina. E até empadas. Porque foi numa que tudo começou.

Foi dentro de um pastel, em Julho de 1994, que sequestradores ocultaram pelo menos uma faca para tomar o controlo de uma das várias embarcações, para as obrigar a seguir para a Florida, a costa de todos os murmúrios da ilha, o sonho de muitos cubanos, um episódio acompanhado por milhares de pessoas no Malecón, a marginal da capital, com pessoas a atirar pedras à polícia. A cidade andava em grande agitação, incluindo confrontos entre população e polícia. A perda dos regimes aliados de Europa Oriental e as medidas de extremo rigor do chamado "período especial", decretadas em 1990, tinham acentuado as contradições e abeirava-se uma ruptura social e política.

Para aliviar a pressão, até porque tinham ocorrido outros incidentes semelhantes, um deles, um dos mais noticiados, no porto de Mariel, onde um grupo desejoso de fugir matou um tenente da Marinha e mandou borda fora quatro marinheiros, o Presidente Fidel Castro declarou as fronteiras abertas para quem quisesse ir embora. Mal acabou de falar, milhares de pessoas deitaram-se à água a bordo de tudo o que tivesse algum espaço e flutuasse, barcos de fabrico caseiro, câmaras-de-ar de tractor e balsas.

Seis semanas de "cavanço geral"

Seguiu-se a maior vaga de "balseros" desde 1980, com multidões a deixarem o país. O êxodo marcou Cuba (e toda a sua literatura dos últimos anos - Ana Menéndez, Ena Lucía Portela, Jesús Díaz, Zoé Valdés e outros). Entre a ilha e a Florida vão apenas 150 quilómetros, mas de águas revoltas e infestadas de tubarões. Nas seis semanas que durou o "grande alvoroço, o cavanço geral" (Ena Lucía Portela em "Cem garrafas numa parede"), fugiram cerca de 36 mil pessoas, desconhecendo-se quantas morreram - crê-se que uma em cada quatro ficou pelo caminho.

Feliz Izquierdo, 31 anos, largou no dia 14 de Agosto, teve sorte por não morrer, azar por ter sido apanhado pela Guarda Costeira americana e enviado para a Guantánamo, a base da Marinha dos Estados Unidos na ponta leste de Cuba, e sorte outra vez por ter sido autorizado a emigrar, tempos e contratempos que não esquece.

"Éramos três numa câmara-de-ar de um tractor, com dois remos", recordou a semana passada numa entrevista à AFP. "Tínhamos uma bússola velha e dirigimo-nos para Norte", contou. A certa altura, o susto: "Um tubarão andava à nossa volta. Era maior do que a nossa bóia, podíamos ver os seus olhos", lembra-se.

Apanhado pela vigilância americana, foi recambiado para Guantánamo, onde ficou suspenso entre o repatriamento e a autorização de emigração - que acabaria por lhe ser concedida ao fim de 16 meses.

Izquierdo casou e tem uma filha, e mora com a família nos arredores de Miami. Tem dois carros e não lhe falta trabalho. Não gosta de Fidel Castro. Mas acha também que os exilados mais velhos são muito intolerantes. "Se pensas de uma maneira diferente, és logo comunista", queixa-se. O jovem cubano pensa por exemplo que é tempo de os americanos levantarem o embargo a Cuba por não ter atingido os seus objectivos.

No auge da tragédia, os Estados Unidos do Presidente Bill Clinton outorgaram 20 mil vistos de entrada no país por ano, medida que levou os cubanos a encararem outros processos de saída da ilha e conteve a fuga, a maior desde 1980, quando 125 mil pessoas atravessaram, em seis meses, o Estreito da Florida.

Só falta "uma faísca" para

acontecer outra vez

Não é impossível que ocorra uma nova fuga. As medidas de reforço do embargo decretadas recentemente pelo Presidente George W. Bush, limitando as viagens de americanos ou de cubano-americanos a Cuba, ou o envio de remessas de emigrantes (900 milhões de dólares anuais) forçaram Havana a declarar uma espécie de estado de emergência económico. Muitos produtos desaparecerem do mercado e os que se encontram são a preços astronómicos. Um frango pode custar três dólares, um tubo de pasta dentífrica 75 cêntimos, um sabonete 40, tudo isto vendido nas lojas de dólares e se houver. Os cubanos ganham em média 12-15 dólares por mês. A repressão aumentou. Há já quem fale de um novo "período especial".

Mas desta vez os cubanos estão mais desprotegidos. Os Estados Unidos já avisaram que recorrerão à força para evitar que se repita outro 94. Muitos refugiados preferem por isso outros rumos, como as Honduras. "Estão reunidas todas as condições para outra fuga de 'balseros', só falta a faísca", disse um diplomata ocidental.