sábado, agosto 14, 2004

O Algarve

POR José Manuel Fernandes
Público, Quinta-feira, 12 de Agosto de 2004

O Algarve era uma jóia, hoje é quase todo ele um pesadelo a que só se escapa fechado nalguns, raros, paraísos protegidos

Há sensivelmente vinte anos fiz para o "Expresso" uma reportagem com o seguinte título: "O Algarve à beira da catástrofe". No sábado em que saiu fui insultado pelo então governador civil, de seu nome Cabrita Neto.

De que é que falava esse artigo? Do excesso de ocupação do Algarve. Das praias poluídas onde era perigoso tomar banho. Da megalomania dos projectos de construção que esperavam aprovação. Dos riscos da Nacional 125. Da aposta exclusiva no binómio sol e praia, sem que outras alternativas fossem oferecidas. Das arribas que ameaçam ruir e das construções em dunas que poderiam ser submersas pelo mar.

Nestes vinte anos quase tudo piorou. Algumas praias, apesar dos muitos milhões que se gastou em tratamento de esgotos, continuam a estar poluídas, como a da Quarteira. Os projectos que aguardavam luz verde para avançar, avançaram quase todos e outros se lhes sucederam. Os índices de ocupação tornaram-se irrespiráveis em quase todo o litoral. E os preços subiram e continuam a subir. Aqui e além há excepções e até alguns pequenos paraísos, as vias de comunicação melhoraram e já há restaurantes que oferecem qualidade e não apenas preços altos, mas a receita fundamental continua a ser a mesma: sol e praia, apimentada com algum golfe e mais umas marinas.

Por isso não me surpreende aquilo de que hoje se queixa o governador civil de então, entretanto transfigurado em líder do sector hoteleiro: as coisas estão mal, os índices de ocupação são baixos, há indicadores de... catástrofe anunciada.

Infelizmente quem que me atacava há vinte anos dá-me hoje razão - mas sem reconhecer que a catástrofe tem responsáveis, entre os quais ele próprio. A região encheu-se de hotéis, alguns deles de luxo, esperando por turistas endinheirados, mas quase só recebe vagas de ingleses tatuados que partem mal ganham pele cor de lagosta. Nos hotéis, onde os índices de ocupação baixam, estão mais portugueses e menos estrangeiros. Serve-se mal na maior parte dos estabelecimentos de restauração e abusa-se nos preços. A ganância ainda é a regra, o desordenamento territorial a imagem de marca e os serviços insuficientes (designadamente os de saúde, com crónicos problemas nos hospitais da região).

Por outras palavras: o Algarve não percebeu que, com a mudança dos destinos turísticos e com o aparecimento de viajantes mais exigentes, o seu sol abundante e a suas bonitas praias não chegavam. Que há ofertas iguais ou melhores em destinos tropicais por preços idênticos ou até mais acessíveis. E como não percebeu nem resistiu à tentação de ocupar cada milímetro de solo para construir, o Algarve está a perder os turistas estrangeiros e a ficar com os nacionais, sobretudo os que se empenharam numa casinha ou num apartamento. E contam os tostões.

Há vinte anos, nessa reportagem, os especialistas apenas identificavam algumas áreas onde os exageros já tinham levado ao ponto de não-retorno, à impossível requalificação, como Quarteira, Armação de Pêra ou a Praia da Rocha. Hoje estou convencido que concordariam em que toda a região, apesar das suas imensas potencialidades, já as desbaratou, e que se arrisca a viver cada ano pior do que o anterior, com mais queixas, menos turistas e menos qualidade. Por culpa própria e dos seus autarcas e investidores.