sábado, agosto 14, 2004

O Espírito dos Jogos Olímpicos e o Nosso Tempo (1)

Por JORGE SAMPAIO
Público, Quinta-feira, 12 de Agosto de 2004

Sexta-feira iniciam-se em Atenas os Jogos da XXVIII Olimpíada dos tempos modernos. Na era da globalização, o mundo inteiro terá os olhos postos na capital grega, para onde convergirão milhares de atletas oriundos de todos os continentes, unidos na procura do equilíbrio perfeito entre o corpo e o espírito, no prazer do esforço e na exaltação da excelência.

O regresso da competição olímpica à Grécia, seu chão natal, após mais de um século de ausência, confere a estes jogos um significado especial e concorre para fazer de 2004 um ano simbolicamente forte. Já porque este regresso à pátria do olimpismo, que saúdo calorosamente, constitui uma ocasião única de evocar o passado e o presente irmanados no mesmo ideal. Mas também por causa da feliz circunstância de também a nós, este ano, nos ter cabido a organização do Campeonato Europeu de Futebol que, pela sua importância, projecção e forma como decorreu, contribuiu para valorizar a imagem de Portugal no mundo, aumentar o nosso capital de simpatia externa e reforçar o nosso nível de auto-estima.

Como sempre tem acontecido desde 1912, Portugal estará representado nos Jogos de Atenas 2004 por um conjunto de praticantes de alto nível, abrangendo diversas modalidades. Independentemente dos resultados finais que os atletas portugueses venham a obter, a sua participação neste evento ímpar constitui desde já um motivo de orgulho para Portugal. Não só porque o apuramento para os Jogos requer o preenchimento prévio de critérios cada vez mais exigentes e difíceis. Mas igualmente porque os nossos atletas, para além do entusiasmo e da determinação, de expectativas e da salutar ambição de obter bons resultados, que, só por si, devem merecer todo o nosso apoio, levam consigo a universalidade da nossa história e a satisfação de, também eles, representarem uma nação antiga com uma cultura própria, rica e multifacetada.

Este é um aspecto que gostaria de realçar, até porque o carácter absolutamente único dos Jogos Olímpicos, para além do seu significado desportivo, reside nesta componente ética, política e filosófica que encerram, mas que, nos nossos dias, se tende cada vez mais a ignorar. Ora, a meu ver, importa, ao invés, apostar na dimensão planetária que entretanto estas provas adquiriam para promover a visão subjacente ao olimpismo, que está, de resto, consagrada no texto da carta olímpica.

Como se pode aí ler, trata-se afinal de, aliando o desporto à cultura e à educação, promover princípios e valores éticos universais com vista a favorecer o desenvolvimento de uma sociedade pacífica e preocupada em preservar a dignidade humana. De resto, nunca é de mais recordar que, na Grécia antiga, a realização das olimpíadas como dos outros jogos era sobretudo uma ocasião de o homem se afirmar como ser de educação e de cultura, capaz de alcançar a harmonia, que se reflectia na pólis como espaço de convivência e de cidadania.

É, por outro lado, sobejamente conhecido que, na Grécia antiga, ao período das competições estava associado o princípio sagrado das tréguas olímpicas. A paz era, então, um correlato dos jogos e estes pressupunham a possibilidade de as pessoas se reunirem e conviverem harmoniosamente. Por isso, no passado, quando, em 2002, efectuei uma visita de Estado à Grécia, subscrevi a declaração a favor da trégua olímpica por forma a contribuir para reanimar esta nobre tradição, na esperança de que, no mundo conturbado em que vivemos, ela nos possa servir de bússola e ponto cardeal.

Pela minha parte, creio que o triângulo virtuoso, de que o desporto, a cultura e a educação constituem os vértices, é parte essencial da civilização europeia, nascida há tantos séculos no mundo grego e que hoje ainda sustenta o projecto político de integração europeia.

Neste ano crucial para a construção da nova Europa unificada e da redefinição do nosso destino comum, o regresso dos Jogos Olímpicos aos lugares das origens não podia ser mais oportuno e carregado de simbolismo.

Devemos pois aproveitar a ocasião para uma revisitação ao passado e assim tornar mais lúcida a percepção do presente. Muitos dos desafios com que nos confrontamos actualmente - no plano genérico da paz, da democracia, dos direitos humanos, da justiça, da tolerância, do respeito pela diversidade cultural e do diálogo entre os povos - são, na forma como os percepcionamos, pensamos e procuramos vencer, um legado do mundo greco-romano que se desenvolveu em torno do Mediterrâneo.

Como é bem sabido, quer a política como a entendemos ainda hoje, quer a forma mais nobre que a configura, a democracia, são originariamente criações gregas, herdadas, depois, pelos romanos. Se a democracia grega radica no "lógos", na razão política e no debate público entre os cidadãos e os seus representantes, já a matriz da civilização romana repousa na regra ou "jus". O direito regula o exercício do poder político, incluindo o do próprio imperador e exprime-se em instituições. Foi o carácter abstracto deste sistema, simples e rigoroso, que permitiu a sua aplicação generalizada ao conjunto das províncias do império, salvaguardando simultaneamente a sua diversidade e a unidade de Roma que, por isso, permanece o paradigma do mito do império universal.

Na prossecução do desígnio da unidade europeia, cuja expressão mais acabada se encontra na concepção da União Europeia como federação, que Raymond Aron considera ser a "versão civilizada ou voluntária do império", encontramos a herança greco-latina com as suas noções fundamentais de liberdade, direito, justiça, democracia e cidadania, que determinaram a marcha da História e enformaram a nossa tradição política e cultural.

Por isso, estou convicto de que, para trilharmos com clareza os caminhos do futuro, nestes tempos que atravessamos de grandes transformações e mudanças, é útil ter presente a nossa história colectiva, a que se desenvolveu precisamente a partir desta pátria de todas as criações. Primeiro, porque foi, como já lembrei, no mundo grego que nasceu a civilização europeia na qual assenta a unidade da Europa. Depois, porque não nos devemos esquecer que a Europa é um ideal e um projecto antes de ser uma realidade ou um dado geográfico, pelo que a sua dimensão histórica é fundamental. Assim, por exemplo, questões candentes, tal como a dos limites da Europa, a da unidade da civilização europeia contraposta à sua grande diversidade política, linguística e cultural, ou ainda a questão das relações transatlânticas ganham em serem equacionadas à luz da história de que estão carregadas. Em último lugar, porque o desafio da paz, da justiça e da segurança no mundo de hoje exige uma consciência histórica aguda para podermos responder de forma adequada às exigências que se nos colocam. Exigência, primeiro, de reconciliar o particular e o universal por forma a garantir o respeito pela lei e pela diversidade e pluralidade do mundo; exigência, depois, de reconciliar direito e democracia, de maneira a reforçar uma cultura de legitimidade política; exigência, por fim, de estabelecer uma ordem mundial justa, portadora de valores universalistas, de uma visão humanista e de confiança na humanidade.

Respondendo ao convite que me foi dirigido para redigir algumas notas por ocasião desta XXVIII edição dos Jogos Olímpicos, dividi-las-ei em duas partes. Na primeira, debruçar-me-ei sobre o significado da adopção do futuro tratado constitucional europeu; na segunda, abordarei questões mais genéricas ligadas à nova ordem global e aos problemas da governação mundial, bem como aos desafios que se colocam à Europa neste plano. São reflexões que farei a bordo da "Sagres", onde me encontro a caminho de Atenas para participar na abertura oficial dos Jogos Olímpicos.

A feliz decisão de, este ano, incluir a Grécia na rota da viagem de instrução dos cadetes da Escola Naval dá-nos a possibilidade de utilizar a "Sagres" para singularizar a presença portuguesa nas olimpíadas. Assim, não serão só os nossos atletas a levar consigo a universalidade da nossa história e a satisfação de representarem uma nação antiga, como dizia acima, mas também o nosso prestigioso navio-escola, que, ancorado junto ao Pireu, depois de ter sulcado as águas do Mediterrâneo, contribuirá para lembrar aos atletas e espectadores que, dos cinco continentes, afluirão à Grécia durante os Jogos o papel pioneiro de Portugal na globalização, a forma radical como mudámos o mundo e a vocação universalista da nossa história e cultura. Gostaria, pois, de saudar publicamente esta iniciativa conjunta do Comité Olímpico de Portugal e da Marinha, encorajando o desenvolvimento de parcerias como esta que podem dar, não tenho dúvidas, um contributo significativo para reforçar a nossa projecção externa, fomentar o conhecimento mais alargado da história e cultura lusófonas e favorecer o diálogo e a criação de laços de amizade entre os homens e os povos das setes partidas do mundo.

A obra de Sophia de Mello Breyner canta a aliança entre o homem e o mundo que os gregos procuraram e de que os Jogos Olímpicos guardam a mensagem essencial. Num poema belíssimo, Sophia vê no mar o símbolo da liberdade. São essas palavras que aqui lembro como homenagem à grande escritora e tornando presente o seu grande amor a esse legado de que somo herdeiros e que queremos partilhar com todo os povos:

"Aqui nesta praia onde/Não há nenhum vestígio de impureza,/Aqui onde há somente/Ondas tombando ininterruptamente,/Puro espaço e lúcida unidade,/Aqui o tempo apaixonadamente/Encontra a própria liberdade."

Agosto, 11 de Agosto de 2004