terça-feira, agosto 10, 2004

Santos-01-S. Cristovão

Cristóvão Contra a morte súbita

Por MICHEL BRAUDEAU
Público, Domingo, 08 de Agosto de 2004

É preciso, a crer na linguagem corrente, estar no mais fundo do desespero e da indecisão para "não saber a que santo recorrer" nem a quem dirigir as orações, que nome invocar, ou que peregrinação fazer, a quem pedir protecção e socorro. Porque, para o homem piedoso ou banalmente supersticioso, é mais fácil encontrar um santo do que um canalizador. Os santos nunca têm trabalho a mais, nunca tiram férias, não vos pregam partidas, não vos levam à ruína. Uma esmola chega-lhes.

E, sobretudo, santos há aos milhares, mais do que é preciso, para todas as profissões, de José para os carpinteiros a Cecília para os músicos, de S. Miguel Arcanjo e Nicolau para os marinheiros a S. Francisco de Sales para os escritores e jornalistas; para todas as circunstâncias da vida, do nascimento ao túmulo, para os amores e as colheitas, contra a peste e o mau tempo, para encontrar os objectos ou mesmo o amor perdido que deixamos ao cuidado dos curandeiros.

No Ocidente cristão, cada um festeja o santo do dia do seu nascimento e recebe como nome próprio o de um santo do calendário. Sim, é verdade que há pais que dão aos filhos o nome de um carro, Mégane, de um medicamento, Aspirina, de uma personagem de ficção, Ulisses, de uma vedeta de televisão, ou um nome de fantasia, mas em geral a escolha de um nome não corresponde apenas à preocupação de perpetuar a memória de um antepassado ou se de conjugar de forma harmoniosa com o patronímico familiar, ele coloca o recém-nascido sob um patrono, inscrito numa linhagem particular.

Não se chama indiferentemente a uma criança Pedro ou Maria. Nem Ágatha ou Nestor, mesmo que a história destes tenha sido esquecida há muito. Em muitos santos permanece uma aura inconsciente, que responde mais ao desejo dos pais do que ao do indivíduo, que por vezes se liberta mudando voluntariamente de nome. Houve com Pétain muitos pequenos Philippe e jovens Marie-France. Depois de 1945, muitos renunciaram a Adolphe ou Adolf, demasiado pesado para carregar.

Os santos não servem apenas para diferenciar os indivíduos no seio de uma família em cada geração, mas também para identificar centenas de cidades (São Paulo), ilhas (São Bartolomeu), montanhas (Santa Vitória) ou rios (São Lourenço). São milhares que estendem as suas asas por todos os locais, como os anjos de Wim Wenders; bairros, ruas com o seu nome e, se um ditador laico se atrevesse a dessacralizar a toponímia usada na Terra, precisaria de tesouros onomásticos infinitos. Eles governam o clima (S. Pedro) e vigiam as vindimas (S. Vicente), marcando ainda o ritmo da vida no campo. Eles estão em todo o lado, inevitáveis.

A grande maioria dos santos não é conhecida se não por alguns raros eruditos, peritos em hagiografia. As vias da celebridade póstuma são impenetráveis e muitas vezes injustas. Outros, por seu lado, muito vivos no espírito de todos, crentes ou ateus, tornaram-se figuras maiores do folclore, por razões diversas que escapam aos sábios professores da Igreja.

Assim acontece com S. Cristóvão. Durante muito tempo os automobilistas tiveram nos seus carros uma medalha de S. Cristóvão para se prevenir contra os acidentes. O ar condicionado, o sistema ABS e os "airbags" relegaram entretanto este amuleto para o estatuto de enfeite decorativo, mas ele não desapareceu completamente. Toda a gente conhece pelo menos em parte a fábula do gigante Cristóvão, que colocou o Menino Jesus nos seus ombros para o fazer atravessar um rio perigoso e escapou por pouco de um afogamento quando o Menino fez pesar sobre ele todo o peso do mundo, parábola que assombra "O Rei dos Álamos", de Michel Tournier.

O contraste entre a potência do colosso e a aparente ligeireza do seu fardo divino forjou a glória de Cristóvão, símbolo de força e da abnegação, e fez dele o santo incontestado dos viajantes. Normalmente, a memória colectiva de Cristóvão não vai para além desta imagem comovente e ignora o resto do seu destino trágico.

Segundo Jacques de Voragine, o dominicano que escreveu "A Lenda Dourada" - uma colecção de vidas de santos, redigida em latim na segunda metade do século XIII e que foi, a seguir à Bíblia, o grande "best-seller" da Idade Média - Cristóvão era um gigante originário do país de Canaan, com uma altura de mais de 5,5 metros, e um rosto assustador. Vivia na corte do rei do seu país quando teve a ideia de procurar o maior príncipe do mundo para se colocar ao seu serviço. Indicaram-lhe um rei que se dizia não ter igual e este admitiu Cristóvão. Um dia, quando um jogral que cantava perante o rei mencionava frequentemente o nome do diabo, Cristóvão viu o rei, que era cristão, benzer-se cada vez que ouvia o nome do diabo. Perguntou ao rei o sentido daquele gesto e quando o rei lhe explicou ele concluiu que o diabo era mais poderoso do que ele e decidiu tomá-lo como senhor.

Num deserto encontrou o diabo, que aceitou ser seu senhor. Mas, ao passarem por uma cruz, o diabo afastou-se e pareceu tão assustado que Cristóvão lhe perguntou a razão. O diabo respondeu que um chamado Cristo tinha sido crucificado e confessou que tinha medo quando via uma cruz. Cristóvão deduziu então que se tratava de um rei maior do que o diabo e pôs-se em busca de quem era este Cristo. Um eremita dispôs-se a ensiná-lo, na condição de ele jejuar bastante e rezar, o que Cristóvão era incapaz de fazer. O eremita propôs-lhe então que ajudasse os viajantes a transpor o rio tumultuoso que atravessa o país. Cristóvão instalou-se junto do rio com um tronco de árvore como bastão.

ma noite ouviu uma voz de criança que o chamava. Colocou a criança sobre os seus ombros e entrou na água. Mas quanto mais avançava mais a água subia, e depois a criança tornou-se pesada como chumbo; por pouco não foi engolido pelo rio e conseguiu a grande custo chegar à outra margem. Aí, a criança disse-lhe: "Não te espantes, Cristóvão, porque transportaste o mundo inteiro nos teus ombros, e aquele que o criou. Eu sou o Cristo, teu rei. Como sinal da verdade das minhas palavras volta à tua casa e planta o teu bastão na terra." No dia seguinte, Cristóvão viu o seu bastão transformar-se numa palmeira cheia de folhas e tâmaras.

Em seguida foi a Lycie e pediu ao Senhor que lhe desse o dom de compreender a língua deste local onde muitos cristãos tinham sido torturados por idólatras. Cristóvão confortou-os e converteu todos os soldados que o rei Dagnus enviou contra ele. Foi ele próprio a Dagnus, que lhe ordenou que se sacrificasse aos deuses pagãos. Cristóvão recusou. O rei fechou-o com duas belas prostitutas. Cristóvão converteu-as. O rei ordenou que colocassem na cabeça de Cristóvão um capacete e disse-lhe para se sentar num banco de ferro, ambos aquecidos ao fogo. Cristóvão não sofreu. Amarraram-no a um poste em frente a 400 archeiros, mas as flechas ficaram suspensas no ar sem o atingir e uma delas, voltando-se, veio contra o rei. Cristóvão disse-lhe que o trataria com o seu sangue. No dia seguinte foi decapitado, e o rei, aplicando o sangue de Cristóvão no seu olho ferido recuperou a vista e converteu-se imediatamente.

Jacques de Voragine mistura assim duas tradições. De um lado a de um gigante com cabeça de cão (os escribas desajeitados teriam deformado a palavra "cananeu" em "cinocéfalo"), dito o "Rejeitado", que entrou no exército imperial, converteu-se ao cristianismo e morreu como mártir; e, por outro lado, a do transportador da Criança-Rei, cujo nome em grego significa "porta-Cristo".

Mas nada prova que Cristóvão tenha alguma vez existido. O mais antigo testemunho do seu nome é uma igreja na Ásia Menor que lhe é dedicada em 452 pelo bispo Eulalius. Um mosteiro de São Cristóvão é mencionado na Calcedónia, no concílio de Constantinopla em 536, e outro na Sicília. No século IX as suas relíquias são assinaladas em Córdova. Mas é só no final da Idade Média que a sua reputação se desenvolve de forma tão prodigiosa como inexplicável.

É então invocado contra a "má morte", a morte súbita que leva para o inferno os que apanha em pecado. Os tempos são conturbados, as epidemias frequentes, a polícia e a medicina igualmente incapazes e morrer subitamente não é excepcional. Por outro lado, excepto nos minutos que se seguem à confissão, que bom cristão pode jurar não estar em estado de pecado, em actos ou pensamentos? É por isso preciso poder rezar a Cristóvão a todo o instante, sem ter que o procurar numa capela demasiado distante.

Cristóvão é mais do que a respiração boca-a-boca para o afogado, do que a insulina para o diabético: um socorro de emergência, o gesto que salva. É por isso que se multiplicaram os frescos de Cristóvão e as estátuas que o representam no exterior das igrejas, sempre de grandes dimensões: não para recordar o seu tamanho gigantesco, mas, mais prosaicamente, para que pudesse ser visto de longe.

Para além da peste, acredita-se que Cristóvão cura as doenças dos olhos, por causa da cura que ofereceu ao seu carrasco. O milagre do seu bastão verdejante faz dele o santo favorito dos jardineiros. Por causa da sua força hercúlea, é o patrono dos atletas e dos carregadores. Depois, com os progressos da incredulidade e da ciência, o culto de São Cristóvão, considerado como supersticioso, é objecto de brincadeiras e desaparece a pouco e pouco ao longo do século XVI. A sua estátua na catedral de Auxerre foi destruída em 1768, e a de Paris em 1788.

Apesar disso, a proeza poética do "porta-Cristo" foi mais difícil de apagar e Cristóvão conservou um prestígio intacto junto dos peregrinos e viajantes, uma devoção discreta que lhe permite chegar ao século XX, onde a invenção do automóvel lhe dá a oportunidade para um regresso fulminante. O automóvel, instrumento de viagem por excelência e grande responsável por mortes súbitas, adoptou imediatamente Cristóvão como santo protector.

m Paris, André Citroën instala-se em 1914, no cais de Javel, nos terrenos pantanosos de Grenelle onde vivem os hortelãos e os trapeiros. A antiga capela de S. Alexandre é deslocada e o arquitecto Charles-Henri Besnard edifica, de 1926 a 1934, uma igreja S. Cristóvão. Besnard é um pioneiro da pré-fabricação do betão armado, técnico barato, de execução rápida, que não precisa de operários qualificados, praticável em todas as estações e reduzindo o desemprego do Inverno. A sua igreja "avant-garde" prefigura as habitações sociais e escapa - outro milagre? - aos bombardeamentos alemães de Setembro de 1943.

A sua fachada de tijolo e os painéis interiores que retraçam a vida do santo, graças ao pincel laborioso do artista Jacques Matin-Ferrières, são de uma estética discutível, talvez fiel pelo menos à robusta fealdade que sempre se atribuiu a Cristóvão. Até aos anos 60, antes de os engarrafamentos terem posto fim a esse hábito, procedia-se, muito seriamente, perante a igreja, à bênção solene das viaturas, bicicletas e trotinetas.

A festa de São Cristóvão, em tempos celebrada a 25 de Julho, foi deslocada para 21 de Agosto, para dar lugar à festa de São Tiago. A Igreja nunca apreciou a devoção que rodeava este santo, cuja lenda foi tardiamente arranjada a partir de elementos duvidosos, alguns de fontes pagãs. Um figurão de mais de cinco metros de altura com uma cabeça de cão tem qualquer coisa de brutal e mitológico que prejudica a galeria oficial dos santos humanos, cujas façanhas não são, por definição, menos extravagantes. Mas, pelos vistos, com a sua rude ingenuidade, o seu corpo monstruoso e o seu coração simples, este gigante continuou a ser simpático aos olhos de todos através dos tempos.

Como lutar contra um tal fervor popular, tão duradouro e espontâneo? Numa época em que as vocações se vão tornando mais raras, será sensato estar a levantar questões? Cristóvão será ainda capaz de ressurgir no imaginário assustadiço dos mortais e alargar amanhã a sua protecção aos que viajam de metro ameaçados pelo terrorismo, aos passageiros dos aviões com fraca manutenção ou mesmo aos astronautas que se lançam num céu tão negro que um piloto soviético descrente disse não ter aí conseguido encontrar Deus.