terça-feira, agosto 10, 2004

Santos-02-S. António

Depois dos Séculos XV e XVI, o Santo Lisboeta Ganhou Um Papel Planetário. Portugal Fez Dele o Seu Santo Nacional.

Público, Segunda-feira, 09 de Agosto de 2004

Os marinheiros, os náufragos e os prisioneiros colocaram-se sob a sua protecção. A sua imagem está presente em quase todas as igrejas, torna-se o santo favorito das classes populares, é venerado para lá das fronteiras da Igreja Católica. Nenhum santo, nenhum apóstolo, goza nos nossos dias de um renome igual ao seu.

A imagem de António "O Grande", eremita conhecido por ter resistido às "tentações" do diabo, foi eclipsada pela de Santo António de Lisboa, o pregador a que muitos se dirigem como um intercessor universal.

Os santos mais gloriosos sobressaem mais, e encontramos muitas vezes a séculos de distância o eco do seu nome transmitido por outrem e brilhando com novo fulgor. Existem numerosos homónimos que se distinguem por um epíteto que evoca os seus milagres particulares, a cidade do seu nascimento ou da sua morte. Assim para os Joões, os Pedros, os Tiagos. Em cinco Antónios recenseados, dois pelo menos são considerados como personagens de excepção, se bem que quase mil anos os separem, e confundem-se por vezes no nevoeiro intemporal do céu doirado, como se as suas virtudes e os seus actos passem do primeiro ao segundo, obedecendo por translação ao reatamento do nome.

O mais antigo, dito António "O Grande", é conhecido pela sua renúncia aos bens terrestres e a intensidade das visões às quais o Diabo o submeteu, "tentações" que forneceram uma matéria luxuriante à iconografia cristã, de Jacques Callot a Jerónimo Bosch, e de que Gustave Flaubert tirou um longo poema em prosa. O nome de António significa "o que possui os bens do alto e despreza os bens da terra", segundo Jacques de Voragine, que acrescenta: "Desprezou o mundo, que considerava imundo, perturbado, transitório, enganador, amargo." Nasceu em 251 no Egipto, numa família cristã desafogada, e aos 20 anos, por ocasião da morte dos pais, vendeu todos os bens, distribuiu o dinheiro pelos pobres e exilou-se no deserto para aí levar uma vida de eremita.

Foi aí que o demónio lhe apareceu e lhe infligiu inúmeras "tentações", que os pintores representaram com grande abundância de pormenores, desejos de fornicação que António teve grande dificuldade em vencer com a oração. Submeteu um javali diabólico enviado pelo Maligno e transformou-o num porco plácido que se tornou seu companheiro e fez parte dos seus atributos tradicionais, como o seu cajado em forma da letra grega tau e a sua sineta.

Alguns discípulos juntaram-se ao eremita e fundaram uma pequena comunidade em Fayoum e depois em Pispir. Quando visitou São Paulo Eremita, decano dos anacoretas na Tebaida, que um corvo alimentava todos os dias com um pão, o pássaro levou dois. Quando Paulo morreu, António, seguido por dois leões, apareceu para o sepultar. Cumpriu outros milagres, segundo diversas fontes, transportou-se miraculosamente a Barcelona para exorcizar a mulher e os filhos do rei da Catalunha, possuídos pelos demónio, e passou a ser considerado com o decorrer do tempo como um grande taumaturgo, tratando do "fogo de Santo António", a zona, ou o "mal dos Ardentes", uma forma de epilepsia provocada pela ergotina do centeio, bem como a peste, a lepra, a sarna e as doenças venéreas.

Aos 105 anos, sentindo chegar a sua hora, foi morrer à beira do mar Vermelho, em 356, no monte Qolzoum, onde se encontra o Mosteiro de Santo António, depois de ter pedido que não revelassem o local da sua sepultura. As suas relíquias foram transferidas para Constantinopla antes de terem chegado ao Delfinado, no século XI. Primeiro monge cristão e patrono da ordem hospitalar dos antoninos, durante muito tempo venerada no Ocidente com o seu roupão de capuchinho e o seu porco, o eremita atormentado pela carne perdeu, contudo, a sua popularidade com o desenvolvimento de culto de Santo António de Lisboa (a que alguns chamam de Pádua). Sem dúvida que os santos não entram em rivalidade, não fazem concorrência uns aos outros, mas acontece que a imagem de António "O Grande" foi involuntariamente eclipsada pela do António mais recente.

Nascido em 15 de Agosto de 1195 em Lisboa, filho mais velho de uma família nobre descendente de Godofredo de Bulhões, primeiro rei de Jerusalém, o jovem Fernando é normalmente destinado pelos pais à magistratura. Contudo, não partilha a sua ambição. Não ignora os encantos da vida mundana e conhece como António "O Grande" as tentações da luxúria, mas, durante a adolescência, evita sucumbir e repele o demónio pela oração, traçando no mármore da igreja o sinal da cruz.

Aos 15 anos, deixa a residência familiar para entrar nos cónegos regulares de Santo Agostinho, na Abadia de São Vicente de Fora, em Lisboa. Estes religiosos dão-lhe uma formação intelectual de primeiro plano, que fará dele o clérigo mais culto do seu tempo. Mas a abadia ficava muito perto do núcleo antigo de Lisboa, os pais e amigos iam distraí-lo, tentá-lo talvez, e decidiu afastar-se para outra abadia agostiniana, em Coimbra, onde foi ordenado sacerdote aos 25 anos.

Em Coimbra, conheceu cinco missionários franciscanos, de que soube pouco depois que tinham sido selvaticamente chacinados em Marrocos. Estes homens da Umbria tinham-no surpreendido pela sua simplicidade e alegria, bem diferentes da rotina austera da sua abadia, e mostraram-lhe outra maneira de viver a sua fé. Conseguiu romper com os agostinhos para aderir à ordem de Francisco de Assis, adoptou o nome de António em homenagem a Santo António "O Grande" e, vestido com o burel franciscano, embarcou para Marrocos, pronto a verter por sua vez o sangue por Cristo.

Os sarracenos pouparam-no, mas o paludismo ataca-o quando pisou solo marroquino. Em vez de pregar, teve de ficar deitado, abatido pela febre, e o seu sonho de mártir heróico abreviou-se. No caminho do regresso, ventos contrários desviaram o seu navio para a Sicília. António não reveria o Portugal do jovem Fernando. Dirigiu-se a Assis em 1221 (não se sabe se encontrou Francisco, mas é possível, pois o "Poverello" só morreu em 1226) e atingiu o ermitério de Monte Paolo, que lhe destinaram, perto de Forli, na Emília. Na solidão, encontrou enfim a santidade e a paz interna. Mas não por muito tempo.

Um dia, na ausência de um irmão doente, encarregaram-no de pronunciar o sermão em Forli. António não pôde esquivar-se e tomou a palavra. Conservou-a para sempre - ou, melhor dito, a palavra não mais o deixou. António, pela sua inteligência e o seu temperamento fora do vulgar, revelou-se um orador extraordinário. A sua reputação atraiu rapidamente multidões. Milhares de fiéis foram em procissão ouvir este pequeno homem de voz forte denunciar a cupidez, a indiferença e o pecado. Os franciscanos não hesitam em enviá-lo nas estradas da Itália e da França, onde se verificava a heresia dos cátaros. António recorda-lhes a mensagem do Evangelho com um tom fraterno, e ganha pela sua compaixão mais almas do que outros pela espada.

Por toda a parte, assinalam-se os seus prodígios. Em Arles, uma tempestade rebenta enquanto ele prega; António retém a multidão, que as trombas de água não molham. Em Rimini, onde as autoridades heréticas proibiram os habitantes de o ir ver, António dirige-se aos peixes do mar, como São Francisco às aves, e os peixes chegaram em filas cerradas, com a cabeça fora de água, para escutar as suas palavras de exortação e de louvor. Noutro lado, aceita o desafio de um judeu que lhe dizia que a sua mula preferia a aveia à eucaristia; a mula foi colocada de jejum durante dois dias; ao terceiro, desdenhou a aveia fresca e ajoelhou-se perante a hóstia; o judeu converteu-se. Em Pádua, tendo repreendido um jovem que tinha dado um pontapé na mãe, este corta o pé; António recoloca-o na perna do jovem. Um pai duvidava de que fosse o progenitor de um recém-nascido, mas António fez falar a criança, que testemunhou a honestidade da mãe.

Como António "O Grande", tinha o dom da ubiquidade: durante um sermão na Igreja de São Pedro de Queyrois, interrompe-se ao ouvir soar as matinas, aparece aos monges do seu convento para cantar com eles, e depois reaparece na igreja e termina o sermão. Tendo o seu próprio pai sido injustamente condenado em Lisboa por um assassínio que não cometera, António fez sair do túmulo a vítima, que declarou a inocência do progenitor; no mesmo momento, podia ver-se António a seguir os ofícios religiosos em Pádua.

António não queria impor-se apenas pelos milagres, mas em primeiro lugar convencer pela palavra. A sua grande cultura teológica e o seu domínio das Sagradas Escrituras permitiram-lhe ensinar em Montpellier e Toulouse, em Bolonha e Pádua, redigir obras que lhe valeram o título de doutor da Igreja. Este homem de oração, de saúde frágil, não é um frouxo. A verdade conquistada no silêncio deve manifestar-se pelo verbo na cidade.

Aquele a quem chamaram "o martelo dos heréticos" não teme nada nem ninguém, defende os pobres e os oprimidos, censura os usurários, afronta os poderosos, ataca com dureza até os piores caciques, como Ezzelino, senhor de Verona e genro do imperador Frederico II, que acusa de se comportar como tirano. Trinta e dois anos depois da sua morte, quando abriram o túmulo por ocasião do reconhecimento do corpo, na presença de São Boaventura, constatou-se que uma só parte do cadáver permanecia intacta, a língua. Bem saliente, como em vida.

Esgotado pelos seus trabalhos, pelas suas batalhas e pela doença, António teve em breve o pressentimento do seu fim. Isolou-se durante algum tempo, para se purificar, numa cabana armada entre os ramos de uma nogueira, em Camposampiero, perto de Pádua. O conde Tiso, proprietário deste último ermitério, viu-o em êxtase, banhado num luar sobrenatural, tendo o menino Jesus nos braços. Chegado o dia 13 de Junho de 1231, depois da doença, António, muito enfraquecido, foi conduzido para Pádua e extinguiu-se às portas da cidade num mosteiro de clarissas, aos 36 anos. Muito mais novo de que o patrono centenário que escolhera.

Todos os habitantes de Pádua participaram nos funerais deste pregador comovente, persuasivo e intrépido. Para honrar a sua bondade e a sua coragem conhecidas de todos, sem dúvida mais do que os actos maravilhosos citados mais acima, de que alguns só foram tardiamente acrescentados à sua lenda. Diz-se que, na própria noite em que foi enterrado, começaram os milagres no seu túmulo e multiplicaram-se nos dias seguintes. Os peregrinos acorreram de todas as partes, atraídos pelo fenómeno, tão numerosos que as autoridades da Igreja - o bispo de Pádua e depois o Papa Gregório IX - debruçaram-se sobre o caso de António. Os processos diocesano e apostólico concluíram pela canonização em menos de um ano e a sua basílica foi começada.

Durante dois séculos, o culto de Santo António ficou confiado à região de Pádua, como se o de São Francisco de Assis, seu contemporâneo e mentor, ocupasse todo o espaço de devoção. Mas, depois dos séculos XV e XVI, o santo lisboeta ganhou um papel planetário, sem que se tenham podido explicar as razões de tal. Portugal fez dele o seu santo nacional. Os marinheiros, os náufragos e os prisioneiros colocaram-se sob a sua protecção. A sua imagem está presente em quase todas as igrejas, torna-se o santo favorito das classes populares, é venerado para lá das fronteiras da Igreja Católica, que designa a esmola que distribui aos pobres de "pão de Santo António". Pode-se encomendar a sua estatueta ou a sua medalha na Internet por um punhado de euros. Nenhum santo, nenhum apóstolo, goza nos nossos dias de um renome igual ao seu. Porquê?

Talvez porque, no século XVII, surgiu uma simples história: um noviço, tendo roubado a António o seu livro dos salvos, acabou por o devolver, aterrorizado por uma aparição ameaçadora. Bizarramente, a partir desta anedota tão banal, Santo António começou a ser invocado para encontrar os objectos perdidos. Depois, alargou-se o campo do seu poder para além dos objectos materiais, livros ou chaves. Em breve lhe imploravam o reencontro da saúde ou do amor. Solicitam-lhe agora que seja um intercessor universal, capaz de fazer seja o que for. A missão é infinita: não há maior nostalgia no homem do que a daquilo que perdeu. Santo António tem todo o futuro à sua frente. Exclusivo PÚBLICO/"Le Monde"