terça-feira, agosto 10, 2004

Santos-03-S. Sebastião

O Duplo Desenvolvimento da Imagem de São Sebastião, Cada Vez Mais Jovem e Feminino, Operou-se com Desprezo por Toda a Verosimilhança: o Chefe dos Guardas Pretorianos Não Podia em Caso Algum Ser Um Adolescente Sedutor e Lânguido no Momento da Sua Condenação, mas Sim Um Soldado Quarentão. Mas o Fascínio pela Nudez Apolínea do Jovem Santo, Entregue ao Olhar como Um Objecto de Prazer, Subjugou Os Artistas Satisfazendo Entre Muitos Fiéis o Apetite Inconfessável de Um Espectáculo Interdito, e o Adónis

Por MICHEL BRAUDEAU
Público, Terça-feira, 10 de Agosto de 2004

omandante da guarda pretoriana, este "soldado de Deus", já de idade e barbudo, nada tinha inicialmente que ver com o efebo desnudo, de torso crivado de setas, que subjugou os pintores.

Ao instituir a canonização dos santos, e reconhecendo-os como "soberanamente puros" - poder que se reserva ao Papa desde o século XIII e cujo procedimento é estritamente regulamentado -, a Igreja não teve por único objectivo honrar a sua memória, depois de haver devidamente examinado os seus méritos. Uma simples inscrição do seu nome no calendário ou em qualquer outra lista teria podido bastar para isso, como a dos diversos eleitos para a Academia Francesa desde a sua fundação por Richelieu, por exemplo, ou a dos mortos em combate nos monumentos municipais erguidos depois das duas guerras mundiais do século XX.

A Igreja desejou fazer dos seus santos exemplos de uma vida perfeita, conferindo-lhes um papel pedagógico susceptível de atrair facilmente a admiração dos crentes, muitas vezes iletrados. De onde a necessidade da sua representação, legível e compreensível por todos, e a mais edificante possível.

Ora há muitas maneiras de aceder à santidade, nem todas de igual atracção para o escultor, o pintor ou o autor de frescos. Um São Vicente de Paulo praticando a caridade é um tema árido para um artista, quase tão aborrecido como a estátua de Madame Boucicaut dando esmola a um pobre na Praça de Sèvres-Babylone, em Paris, frente ao Bon Marché, que estabeleceu a fortuna de seu marido. O gesto de São Martinho partilhando a capa com um infeliz já é mais interessante, de compreensão imediata, descrevendo o acto em si.

Os milagres, as aparições e as visões oferecem evidentemente uma matéria ainda mais propícia à criação artística, cada um sendo livre de tratar estes elementos à sua maneira, segundo o seu talento pessoal, não deixando de respeitar a lenda: as "pietà", os êxtases (o de Santa Teresa esculpida por Nernin, por exemplo) ou as "tentações" de Santo António, "O Grande" testemunham-no bem.

Mas o registo de predilecção da grande pintura religiosa é o dos mártires. Sem dúvida que, com muita compaixão piedosa, os melhores mestres aplicaram-se a mostrar os suplícios dos santos martirizados e os pormenores das suas torturas com uma precisão, uma penosa preocupação de pormenor propiciando o recurso integral à sua técnica pictórica, a fim de engrandecer a bravura das vítimas, sem, no entanto, deixar de denotar um sadismo mais ou menos consciente - um filme razoavelmente contestado sobre a paixão de Cristo é hoje suspeito disso.

Os museus e as igrejas da Itália e da Espanha, nomeadamente, regurgitam de calvários dramáticos, de descidas da cruz ensanguentadas, de santos exibindo numa bandeja os olhos (Lúcia) ou os seios (Ágata) arrancados. E São Lourenço a assar e São Pedro crucificado de cabeça para baixo, já para não falar das ladainhas de santos decapitados que passeiam com a cabeça debaixo do braço, como se fosse uma melancia.

As pinturas cruéis

or um doce Carpaccio a mostrar São Jerónimo a estudar calmamente a Bíblia ou São Jorge a dominar o dragão do mal, a cidade de Veneza deve contar com centenas de hectares de pinturas sangrentas consagradas a santos esfolados, despedaçados, queimados, retalhados, rivalizando entre si numa crueldade frenética, "ad nauseam". A questão, é claro, não é negar a sorte atroz destes mártires nem daqueles que, lançados aos leões nas arenas romanas, fizeram os grandes tempos de um certo cinema, mas podemos estranhar o fascínio mórbido exercido pelos sacrifícios dos primeiros heróis da seita cristã sobre uma Igreja, que, tornada triunfante e cheia de ouro, não fez encomendas que evocassem as fogueiras da Inquisição. Debate polémico, que não é o nosso propósito.

Um dos martírios favoritos dos pintores é o de São Sebastião, ligado a um tronco cravado de flechas. A vida de Sebastião não é atestada com mais certeza do que a de muitos outros santos que viveram sem escrever nem deixar vestígios, antes da invenção da imprensa, dos jornais, da foto, dos órgãos de comunicação, que fazem e desfazem em cada dia os deuses efémeros da nossa época e nos impingem os seus ícones; ou que morreram ignorados, só se tendo o seu carácter santo revelado no além-túmulo, por milagres ou aparições, sem que ninguém tenha cuidado de anotar, enquanto estavam vivos, as suas palavras, as suas acções plenas de modéstia.

Tal como se descobrem certas estrelas a anos-luz de distância, com atraso, quando o último brilho do seu desaparecimento nos chega, os santos antigos só são conhecidos pelo culto que lhes foi prestado, muitas vezes alguns séculos depois da sua morte, não retendo senão um aspecto marcante da sua existência esquecida, reconstruída "a posteriori" pelos hagiógrafos com os meios de que dispõem: crenças, narrativas associadas ao acaso, um tecido de fábulas.

Crivado de setas

obre Sebastião, pouco mais se sabe do que o seu suplício, quando o amarraram a um poste e crivaram de flechas, cerca de 302-304, e do que o seu enterro nas catacumbas da Via Appia. Mas que importa a verdade histórica? Um santo age no real devido à sua lenda e a de Sebastião conheceu um êxito popular constante. Segundo a tradição e Jacques de Voragine, Sebastião nasceu em Narbona, França, foi criado em Milão e alistou-se no Exército imperial em 283, em Roma, dissimulando a sua fé cristã. Diocleciano nomeou-o comandante da guarda pretoriana, posto de confiança que lhe permitiu reconfortar moralmente os seus irmãos condenados à morte.

Voragine encontra traços comoventes para descrever a cena onde os pais de Marcus e Marceliano, dois gémeos que iam ser decapitados, vão suplicar a Sebastião que os livre de tal sorte. Longe de ceder às lamentações, Sebastião exorta os gémeos à coragem, converte os pais, Tranquilino e Márcia, o carcereiro Nicostrato e a sua mulher Zoé, que cura da mudez, os irmãos, as mulheres e os filhos, num total de 68 pessoas.

O governador de Roma, Cromácio, gravemente ferido, aceita partir os seus ídolos para ser curado por Sebastião, depois converte-se com o seu filho Tibúrcio e 1040 escravos, que em seguida liberta. O proselitismo de Sebastião, soldado de Cristo, é contudo considerado pouco compatível com as suas funções militares de pretoriano. Os convertidos, de Tranquilino a Tibúrcio e Zoé, são chacinados numa nova vaga de perseguições e Sebastião convocado pelo imperador, que condena a sua traição. Sebastião justifica o seu jogo duplo dizendo que rezou a Deus pela salvação de Roma, mas Diocleciano ordena que o atem a uma árvore e que seja crivado de flechas, "como um ouriço com os seus picos".

Lançado na Cloaca Máxima

rene, viúva de Castulus, outro mártir, vendo que Sebastião sobreviveu à provação, restabelece-o, dá-lhe abrigo e cuida dele. Tendo-se recomposto, Sebastião interpela o imperador Diocleciano, que manda espancá-lo até à morte e lançá-lo no grande esgoto de Roma, a Cloaca Máxima, onde uma boa matrona, Lucília, o vai recolher para o depositar dignamente junto das relíquias dos apóstolos.

A paixão de Sebastião ilustra bem o tema do "soldado de Deus" e a complexidade da sua situação, ao mesmo tempo secreta e manifesta, no seio de um Exército imperial pagão, encarregado da punição dos seus semelhantes. Posição subversiva e insustentável, que lhe valeu ser o terceiro patrono de Roma, depois de Pedro e Paulo. Por motivos obscuros sabiamente debatidos, Sebastião foi venerado a partir do século VII como protector contra a peste, ou porque uma procissão em homenagem às relíquias do santo acabou com a epidemia de 680 em Roma, ou porque as setas evocaram os estigmas deste castigo divino. Estas mesmas flechas entronizaram Sebastião, patrono dos arcabuzeiros e dos soldados, dos entalhadores de pedra, dos mestres de tapeçaria, dos jardineiros e dos bombeiros.

Foi depois afastado deste papel antipeste por outros curandeiros mais eficazes, São Roque e São Carlos Borromeu, e não se sabe por que é que não partilha o culto automobilístico de São Cristóvão como protector contra os pneus furados, mas o mais interessante, no que lhe diz respeito, prende-se com a evolução da sua representação. No século VII, nos mosaicos de São Pedro das Cadeias, em Roma, é velho e barbudo, com armadura de ouro e uma coroa na mão. Esta imagem mantém-se até ao século XVI, em fato antigo ou hábito de cavaleiro, com os traços de um soldado romano de idade madura, com barba e cabelos brancos, couraçado e com uma espada.

Porém, a partir do século XIII, outros artistas dão dele uma imagem diferente que acabará por ocultar a primeira: a de um belo jovem desnudo, de rosto gracioso, com o torso nu cravado de flechas - o episódio do suplício com as setas, disse-se, coincidiu com um regresso do gosto pelo nu antigo. A sua atitude, umas vezes impassível e outras dolorosa, como em Mantegna, não é equívoca. Mas em breve abandona-se e perde a virilidade. O belo soldado torna-se um suave efebo enlanguescido, quase sorridente, consentindo passivamente a penetração das flechas que lhe atiram robustos archeiros, a ambiguidade do suplício culminando com Caravaggio, que nunca fez mistério das suas preferências por rapazes.

Este duplo desenvolvimento da sua imagem, cada vez mais jovem e feminino, operou-se com desprezo por toda a verosimilhança: o chefe dos guardas pretorianos não podia, em caso algum, ser um adolescente sedutor e lânguido no momento da sua condenação, mas sim um soldado quarentão. Mas o fascínio pela nudez apolínea do jovem santo, entregue ao olhar como um objecto de prazer, subjugou os artistas, satisfazendo entre muitos fiéis o apetite inconfessável de um espectáculo interdito, e o adónis levou a melhor sobre o guerreiro rude e estóico.

As confissões de Mishima

m 1911, Gabriele D'Anunzio escreveu um libreto, musicado por Debussy, no qual Sebastião exclama: "Arqueiros, se nunca m'amastes, que o vosso amor eu o conheça ainda. Digo-vos: o que mais profundamente me fere, mais profundamente me ama..." Em "Confissões de Uma Máscara", de 1958, Mishima conta a emoção que sentiu na puberdade perante uma reprodução de São Sebastião de Guido Reni: "As minhas mãos, inconscientemente, começaram um gesto que nunca me tinham ensinado. Senti um não sei quê secreto e radioso surgir rapidamente ao ataque, vindo de dentro de mim. De repente a coisa jorrou, trazendo-me uma cegueira arrebatante."

Em 1977, o cineasta Derek Jarman realizou um filme inteiramente falado em latim, "Sebastiana", onde a homossexualidade do herói não deixa mais dúvidas do que nas fotos feéricas de Pierre e Gilles, idealizando São Sebastião como um macho novo de plástica esplendorosa. E o santo está agora em bom lugar no calendário dos santos e das santas lésbicas, "gays", bissexuais e transexuais de Paul Halsall.

É preciso recorrer à psicanálise para elucidar esta mutação da imagem de Sebastião? O próprio Mishima avança, ao comentar a sua emoção "inconsciente", que os impulsos invertidos e sádicos estão ligados de modo inextricável. Não é preciso ir longe para traduzir a complacência do efebo perante as flechas (ou os "dardos") dos archeiros como uma submissão erótica nada menos do que religiosa, com efeito. Mas esta leitura límpida é demasiado fácil para ser justa, e um pouco curta.

Outros para além de Sebastião conheceram o martírio das flechas - santo Edmundo, as santas Cristina, Ursula e Irene - sem se tornarem jogo de semelhante recuperação. A peste, concebida por vezes como o castigo do mais vergonhoso dos vícios, como a sida no início da sua eclosão, foi combatida por muitos santos taumaturgos acima de toda a suspeita. A questão permanece: porquê Sebastião? A sua virtude é irrepreensível, o fenómeno da sua metamorfose em ícone homossexual não lhe diz muito respeito e desenvolveu-se à sua revelia, mesmo que alguns adiantem a hipótese de ele ter sido condenado por haver recusado propostas indecentes do imperador.

É mais simples pensar que os santos não estão ao abrigo das desventuras que lhes faz sofrer a imaginação dos homens, depois da sua morte, e encontram-se muitas vezes em papéis para os quais não estavam predispostos nas suas vidas ou nos seus actos. Utilizados pelos vivos segundo os seus caprichos. É talvez assim que se explica a posteridade sulfurosa de Sebastião. Toda a gente tem necessidade de um santo. Durante os séculos em que o pecado de Sodoma levou os seus infelizes adeptos ao calvário, alguns deles devem ter procurado a protecção de um intercessor compreensivo, susceptível de pugnar pela sua causa, um patrono que a Igreja lhes recusava. Um santo clandestino, ao mesmo tempo oficial e cifrado. Pela graça imprevista de um golpe de pincel que o rejuvenesceu e amaciou, Sebastião serviu a causa, mesmo sem o querer. Exclusivo PÚBLICO/"Le Monde"