terça-feira, agosto 10, 2004

Sinal dos Tempos

Sinal dos Tempos
Por HELENA MATOS
Público, Sábado, 07 de Agosto de 2004

A história não passa aparentemente de um desses episódios destinados a encher as colunas de pequenas notícias: um grupo de jovens finlandeses foi dispensado de cumprir o serviço militar, invocando a sua dependência da Internet. "Para quem joga toda a noite na Internet e não tem amigos, não tem interesses, chegar ao Exército é um choque muito grande", explicou o comandante Jyrki Kivela. "Alguns recrutas vão ao médico e dizem que não conseguem estar aqui. Algumas vezes, os médicos declaram que eles sofrem de dependência da Internet."

Poucos episódios serão tão sintomáticos do nosso estado de espírito neste início do século XXI. Em primeiro lugar, temos o recurso à doença, sobretudo quando falamos de doenças dificilmente aferíveis, como uma forma de dirimir os conflitos. Estes jovens podiam ter-se declarado objectores de consciência, podiam ter contestado os regulamentos... mas não, correram ao gabinete médico, invocaram uma situação cujo diagnóstico é mais que discutível e tranquilamente foram mandados para casa. Não inventaram nada. Limitaram-se a usar em proveito próprio uma tendência actualíssima que nos transforma de cidadãos responsáveis pelos nossos actos e opiniões em doentes e vítimas. Andamos há décadas com o divã da psicanálise atrás e nos momentos em que temos de tomar posição, em que temos de assumir... descobrimo-nos vítimas. Do pai, da mãe, da tia, da avó, da escola, da vizinhança... mas sempre vítimas no momento de sermos julgados. Nos outros momentos, aqueles em que somos confrontados com a urgência de enfrentarmos o que quer que seja, adoecemos. As baixas por doença ocupam hoje um espaço que já foi de greves e conflitos. Todas as semanas uma nova doença abre um novo campo de fuga para o que não se quer ou não se tem coragem de fazer.

Mas suponhamos que estes jovens em vez do Exército integravam uma equipa de futebol. Aceitar-se-ia com igual ligeireza que invocassem uma dependência da Internet para não se treinarem? Claro que não. Não deixa, aliás, de ser curiosa a referência do comandante Jyrki Kivela ao choque que eles pudessem sofrer quando fossem para o quartel. A este título convém que se recordem as inúmeras reportagens efectuadas em Portugal, durante o Euro 2004, sobre o jovem Cristiano Ronaldo e a sua vinda da Madeira para um clube do continente. Imagine-se que Ronaldo não tinha vindo jogar futebol, mas sim integrar um grupo de adolescentes especialmente dotados para a Matemática. Pois é, seria uma violência, um trauma irreversível ficar longe da família... Estudar, sobretudo se se tratar de Matemática, Física ou Latim, tal como cumprir o serviço militar, não está na moda, faz parte das agressões do mundo externo aos infantes, adormentados na cultura do trauma e da vitimização. Não deixa de ser sintomático que os jogadores de futebol provenham de meios sociais desfavorecidos: o estímulo do sucesso leva os filhos dos pobres a suportarem a disciplina exigida aos jogadores. Infelizmente, os mesmos jovens não só não esperam nada da escola como rapidamente aprendem que fazerem-se de coitadinhos é fácil, é rápido e rende passagens quase administrativas.

Exemplares desta mesma dicotomia entre os filhos dos pobres e daqueles que ou nunca o foram ou já não se assumem enquanto tal são as reportagens sobre as intervenções militares, nomeadamente no Iraque. Por exemplo, aquelas que dão conta do regresso de tropas portuguesas daquele país. Os jornalistas que muito particularmente no caso da SIC-Notícias ostentam apelidos que dão para fazer a história de várias famílias políticas influentes em Portugal, inebriados com a decisão de Zapatero de retirar do Iraque, procuravam a todo o custo declarações que condenassem a coligação. Frases modernas, no ar do tempo, até transformáveis em SMS se preciso for. Mas os soldados da GNR, com filhos ao colo e a família a filmar a chegada num ambiente de piquenicão, iam dizendo, tal como os pais deles disseram anos antes quando chegavam de África, que a presença das tropas naquele território lhes parecia essencial. Para sossego nosso e deles, até agora nenhum destes soldados descobriu, nos calores iraquianos, uma dependência da Internet. Mas, caso tal aconteça, a vítima desta etérea e moderna maleita tem garantido à partida um auspicioso futuro mediático: "Quer jogar e não pode? Como vai ser superar esse trauma?"...

Entretanto, proponho que um grupo de sábios acompanhe estes jovens finlandeses nos próximos anos. Algo me diz que esta dependência da Internet que lhes foi diagnosticada pelos médicos militares é o seu seguro de vida. Como poderão eles trabalhar sofrendo de tão premente mal? E se maltratarem os filhos que entretanto consigam arranjar, no meio de um "download", como poderão eles ser responsabilizados?... O Estado-providência esqueceu a sua função social. Transformou os cidadãos em pacientes, gerando comportamentos irresponsáveis, como os destes jovens, etremendas injustiças, como acontece em Portugal. Este mesmo país onde foi declarada inconstitucional a definição dos 25 anos como idade mínima para se receber o Rendimento Mínimo de Inserção. Contudo, neste mesmo país que dá RMI a jovens saudáveis de 20 anos, há trabalhadores que esperam exactamente 20 anos para receberam os salários a que tinham direito num processo de falência da empresa em que trabalhavam.

O Estado-providência diluiu as responsabilidades, transformou vítimas e criminosos em simples joguetes das circunstâncias e não raramente perdeu a noção da medida e da realidade. Só assim se explica que, neste mesmo ano de 2004 em que tanto em Espanha, como em Inglaterra e no próprio Conselho da Europa se propõem punir todo e qualquer castigo corporal às crianças (mesmo a mais brincalhona palmada num rabo almofadado de fraldas corre o risco de ser entendida como uma agressão intolerável), exista também quem proponha, em nome da multiculturalidade, como aconteceu em Itália, realizar excisões do clitóris em hospitais públicos.

A desresponsabilização tornou-nos autistas profundos. Não causa, assim, espanto que um mundo ocidental que considera normal que grupos de autodenominados defensores dos animais ataquem e ameacem de morte os cientistas que recorrem a animais nas suas investigações, um mundo que considera até um sinal de progresso que gente conotada com as boas causas, como o cantor Peter Gabriel, proponha que se reconheçam direitos constitucionais aos macacos, trema de medo e susto porque na última reunião da Organização Mundial do Comércio se acordou abrir os mercados da UE e dos EUA aos têxteis e aos produtos agrícolas provenientes de África, da Ásia e da América Latina. n Jornalista