sábado, agosto 14, 2004

Um Bom Começo

POR José Manuel Fernandes
Público, Sexta-feira, 13 de Agosto de 2004

Barroso conseguiu reunir uma boa equipa para a Comissão Europeia, com nomes fortes e equilíbrio na distribuição dos pelouros

Durão Barroso ultrapassou bem - com distinção mesmo - o seu primeiro grande desafio europeu: a formação da nova Comissão Europeia.

Conseguiu, contra todas as expectativas, ter pela primeira vez oito mulheres na equipa (um terço do totaql), algo que parecia impossível quando iniciou as negociações. Uma delas, a sueca Margot Wallström, ocupa mesmo a primeira vice-presidência. Socialista, com grande experiência governativa e vinda da anterior comissão, é uma aposta segura e que dá um importante sinal de equilíbrio.

Reuniu também uma equipa que integra três antigos primeiros-ministros, cinco ex-ministros dos Negócios Estrangeiros e três ex-ministros das Finanças e assegurou a continuidade de alguns dos actuais comissários, o que lhe permitiu formar um conjunto que, na apreciação insuspeita do "Le Monde", tem "personalidades dotadas de uma grande experiência em diferentes domínios políticos" e com um "conhecimento profundo das políticas e das instituições comunitárias".

É certo que saiem alguns dos pesos-pesados da anterior CE, como Mário Monti, mas o novo comissário italiano, Rocco Buttiglione, também tem fortes credenciais europeístas, ficou com uma das vice-presidências e a importante pasta da Justiça. Já a França, que escolheu um nome fraco, ficou com um pelouro de pouco peso, o dos transportes, mesmo que Jacques Barrot seja também vice-presidente.

Jacques Lamy, o decisivo comissário encarregue do comércio, foi substituído pelo inglês Peter Mandelson, um nome fortíssimo que deverá ser um dos apoios mais importantes de Barroso no prosseguimento da Estratégia de Lisboa, cuja coordenação o presidente indigitado chamou a si, indicando que quer deixar aí a sua marca.

Noutra área decisiva, a da concorrência, surgiu uma das grandes surpresas, a holandesa Neelie Kroes-Smit, alguém que concilia experiência política comunitária, governativa e empresarial e vem de um partido liberal e de um país muito aberto, tudo indicações positivas. Também o irlandês Charlie McCreevy é um bom nome para o mercado interno já que se trata do ministro das Finanças que presidiu ao milagre económico que o seu país viveu durante os anos 90.

Finalmente, a distribuição de postos importantes a países pequenos - caso de Siim Kallas, vindo da Estónia e que ocupa uma das vice-presidências - ou a entrega das políticas regionais à polaca Danuta Huebner, são outros sinais de equilíbrio e bom senso.

Como pontos fracos há a destacar a continuação de Joaquim Almunia nos assuntos económicos e monetários, uma figura com muito menos peso do que Pedro Solbes, entretanto chamado a Madrid para integrar o Governo de Zapatero, e a entrega de uma vice-presidência e do pelouro das empresas e das indústrias ao alemão Günter Verheugen, algo que será interpretado como uma cedência a um grande que desejava ter uma espécie de super-comissário na área económica.

Mesmo assim, quer pela rapidez com que formou a sua equipa, quer pela sua solidez e variedade, quer ainda por assumir a aposta na Estratégia de Lisboa e, em simultâneo, atribuir uma importância particular tornar a Europa conhecida, Barroso continuou a surpreender a imprensa internacional pela positiva. O que é importante para ter sucesso como Presidente da Comissão numa altura crucial da integração europeia.