terça-feira, agosto 10, 2004

A Vida com Menos de um dólar por dia-Comércio

As Roupas do branco morto
Por DAVAN MAHARAJ (TEXTO) E FRANCINE ORR (FOTOS)
Público, Quarta-feira, 04 de Agosto de 2004

Atirado de uma carrinha de caixa aberta, um fardo de 50 quilos com roupas usadas - cuecas e "soutiens", peúgas, fatos Donna Karan e camisolas de 'basqueteball' de Michael Jordan - aterra com um barulho abafado entre uma multidão agitada de potenciais compradores.

Okech Anorue corta o invólucro de plástico que protege o fardo do tamanho de um frigorífico que ele comprou por 80 euros e mergulha dentro dele. Tem de haver lá dentro uma preciosidade qualquer - como o gasto blusão de cabedal que já foi usado por uma liceal americana chamada Tiffany. A peça está agora pendurada em lugar de destaque na sua loja - uma barraca de metro e meio por metro e meio. A etiqueta do preço pede 20 euros.

"Estas roupas fazem com que os sonhos das pessoas se concretizem" - afirma Anorue, presidente da associação de vendedores no mercado de Yaba. "Todos as querem, de mulheres que trabalham nos seguros a vendedores, de pobres a deputados. Quando as vestem, não se conseguem distinguir os ricos dos pobres."

Em tempos, a maior parte de África andou embrulhada em tecidos de cores e padrões espampanantes, produtos da indústria local e reflexo de orgulho cultural. Mas com metade dos seus habitantes a sobreviver com menos de um dólar por dia, o continente tornou-se o caixote de reciclagem de todo o mundo. As pessoas lutam por cuecas a dez cêntimos, T-shirts a 20 e 'jeans' a menos de um euro que os ocidentais deitam fora.

No meio da selva congolesa, há um jovem com uma T-shirt que diz "Beam me up, Scotty" (frase de culto da série "Star Trek"). Num "nightclub" de Lagos, uma jovem nigeriana apresenta-se com um "negligée" vermelho em segunda mão por cima de um top em cor-de-rosa berrante. Um jovem combatente liberiano, de AK-47 em punho, anda com um roupão de banho como se fosse um blusão comprido.

No Togo, chamam às peças usadas "as roupas do branco morto". Poucas pessoas neste país da África Central acreditam que alguém vivo deitasse fora coisas tão boas como estas. No Uganda, Quénia e Tanzânia chamam à roupa usada "mitumba", a palavra swahili para roupa suja.

"Sem mitumba, a maior parte dos ugandeses na província andariam nus", lamentava-se num editorial do principal jornal do país, o "Monitor".

Uma procura insaciável por parte de lojas em aldeias e de mercados urbanos transformou os desperdícios do ocidente numa indústria que gera anualmente centenas de milhões de dólares. A roupa é o exemplo mais visível. Velhos frigoríficos e aparelhos de ar condicionado, medicamentos fora do prazo e colchões mais do que gastos também são exportados e revendidos. Veículos usados, importados do Japão, andam por todas as estradas africanas. Computadores antiquados, em segunda mão, equipam muitas repartições governamentais.

O comércio de desperdícios proporciona a milhões de africanos outro meio para travar a sua luta diária com a pobreza. Os que compram conseguem roupas baratas; e é com elas que legiões de vendedores ganham a vida.

A mera sobrevivência tem, a longo prazo, um custo. O continente está a perder a capacidade para produzir as suas próprias roupas. Embora a mão-de-obra seja barata, os africanos não são capazes de produzir uma camisa que custe o mesmo que uma usada. Na Zâmbia, quase todas as fábricas de têxteis fecharam. Na Nigéria, estão em actividade menos de 40 das 200 que existiam. A vasta maioria das do Uganda, Quénia, Tanzânia e Malawi também têm as portas fechadas. Milhares de operários perderam os empregos.

"Estamos a abrir os nossos próprios túmulos", afirma Chris Kirubi, um industrial queniano para quem as roupas em segunda mão tiveram a culpa de a sua fábrica têxtil fechar. "Quando se fabricam as próprias roupas, dá-se emprego aos agricultores que cultivam algodão, às pessoas que trabalham nas fiações e às das fábricas de roupa. Quando se importam roupas em segunda mão, tornamo-nos um caixote do lixo."

Na maioria, as roupas usadas vêm dos Estados Unidos. Instituições de caridade como o Exército de Salvação vendem ao quilo roupas que lhes foram dadas. São compradas por retalhistas, que as separam. As melhores até acabam por ir parar a lojas de roupa de marca em segunda mão nos Estados Unidos, na Europa ou na América Latina. As outras, incluindo muitas peças gastas, desbotadas ou manchadas, são rotuladas "África A" e "África B".

Chegadas a África, estas trouxas de roupas passam por uma cadeia de retalhistas até que são atiradas de um camião, no meio de um mercado.

Vários países, incluindo a Nigéria, tentaram proibir importações de roupa usada; outros estão a tentar aplicar impostos a este negócio. Mas mesmo na Nigéria, que ganha anualmente milhares de milhões de dólares com as exportações de petróleo, a procura de roupa usada é grande e os que negoceiam com isso são criativos.

É por isso que todas as manhãs, antes do nascer do dia, o mercado de Yaba é um Carnaval de sons dos vendedores que se vão instalando. Trazem as mercadorias em carrinhos de mão, feitos à mão, mas a maior parte das vezes às costas, deixando cair os fardos no chão enquanto compram qualquer coisa para comer a mulheres que aquecem, em cima de brasas, chá e papas de aveia.

O mercado estende-se por quilómetros, ao longo de uma série de barracas de alumínio e de edifícios em metal enferrujado. Yaba nem sequer é um dos cinco maiores mercados dos arredores da Grande Lagos, onde vivem 20 milhões de pessoas.

Num lado, os vendedores de roupa concentram-se ao longo das linhas do caminhos-de-ferro. São 20 mil. Quando um comboio passa - várias vezes por dia -, os vendedores afadigam-se a tirar da via as suas barracas improvisadas.

Muitos especializam-se. Izuka Aptazi, de 23 anos, que anda vestido com uma camisola do basquetebolista norte-americano Allen Iverson, dos Philadelphia 76ers, só negoceia com roupa desportiva. Todos os dias percorre o mercado à procura de sapatos de desporto e de camisolas com os nomes de estrelas internacionais, que depois revende. Consegue ganhar uns 25 euros por mês.

Pode, por exemplo, vender por 6,5 euros uma camisola de Shaquille O'Neal que lhe custa 2,5. Num país como a Nigéria onde o futebol é seguido com paixão, até os adeptos mais pobres fazem o sacrifício de juntar algum dinheiro para comprar uma camisola com o nome do francês Thierry Henry, do senegalês El Hadji Diouf ou da super-estrela David Beckham.

Water Eoji, de 26 anos, vende toalhas de mesa e cortinas a cerca de euro e meio o metro. Com frequência passa por hotéis a propor-lhes para os quartos cortinados que em tempos adornaram casas nos Estados Unidos.

No fundo da pirâmide estão os vendedores de roupa interior usada, como Teresa Williams, cuja actividade é mencionada por muitos africanos como um exemplo de vida degradada. Como é que as pessoas chegaram a um ponto de desespero, interrogam, que as leva a comprar roupa interior que outras pessoas deitam fora?

Abrigada por um chapéu-de-chuva colorido, perto da via férrea, Williams ajeita pilhas de cuecas que vende a 20 cêntimos e de "soutiens" a 40. Apregoa, para encorajar potenciais compradores. Mas acaba por reconhecer que não seria capaz de vestir nada do que vende.

Três adolescentes que passam, olham trocistas para as pilhas de roupa amarrotada. Quando eles estão a distância segura, Williams dispara: "Se for ver, debaixo das calças andam com roupa interior usada". E desata a rir.

Minutos depois, quatro raparigas de Surulere, um bairro próximo conhecido como a capital do cinema da Nigéria, param e escolhem algumas peças. Ficam com meia dúzia de cuecas cor-de-rosas e pretas.

Os nigerianos chamam a estes lugares "lojas de andar agachado", porque os clientes têm muitas vezes de se baixar para verem a mercadoria. Mas se o preço for bom ninguém se importa com isso. E o preço é sempre negociável.

John Muriamo, um professor de 45 anos e pai de quatro filhos adolescentes, chega cedo a Yaba pronto a regatear. Tem no bolso das calças o equivalente a 15 euros. Veste uma das duas camisas de manga comprida que tem. Ambas estão muito gastas. Tenta que os 260 euros que ganha por ano cheguem para sustentar a família de seis pessoas. Mas, como muitos africanos, nunca é pago a horas, quando é pago.

Com o sol tropical a fazer-lhe escorrer o suor pela cara, Muriamo pára na barraca de Precious Okoyo. Escolhe uma T-shirt amarela dos LA Lakers e uma camisa Gap aos quadrados para os filhos mais velhos e calças de ganga largas para os dois mais novos, de 14 e 15 anos. Finalmente, para ele, escolhe uma camisa branca de manga comprida Yves Saint Laurent que, com qualquer gravata em cima, imporá respeito aos seus alunos.

Okoyo faz contas de cabeça e diz-lhe que ele lhe deve 4.200 naira, o equivalente a 22,5 euros. "Dou-lhe 1.800", propõe Muriamo, com a voz a elevar-se acima do ruído e dos gritos de quem vende e de quem compra.

Nenhuma resposta. "Oiça, Miss Precious, eu compro-lhe sempre a si. Não sou o seu melhor cliente?" Um apelo derradeiro: "Todos têm que viver".

"Professor, fica por 2.700 naira e continuamos amigos", responde-lhe Okoyo. "Mas lembre-se: da próxima é a minha vez."

Muriamo passa-lhe o dinheiro, agarra nas compras e agradece a Okoyo com um aperto de mão complicado. Tem uma peça de roupa para cada um dos quatro filhos, uma nova camisa para ir trabalhar e resta-lhe cerca de euro e meio. Os filhos ficarão contentes e a família poderá jantar nessa noite.

Como outros homens nigerianos, Muriamo costumava usar de vez em quando uma camisa larga colorida, conhecida como "agbada" - em ocasiões especiais ou quando a família ia ao domingo à igreja pentecostal. Mas nem consegue lembrar-se da última vez que comprou a última peça de roupa tradicional. Agora, os seus 15 euros só chegariam para pagar um metro ou dois de tecido de fabrico nacional.

"Conseguimos melhores pechinchas porque toda a gente tenta fazer algum negócio", diz Muriamo sobre o mercado.

Uma das causas é a política internacional de comércio. Enquanto os tecidos nigerianos se tornaram mais raros e mais caros, as reformas exigidas pelos países credores eliminaram as elevadas tarifas africanas sobre roupas importadas, fazendo descer os preços.

Depois de uma década a vestir roupas usadas do Ocidente, para muitos africanos a necessidade transformou-se em estilo. Os seus filhos já não querem usar outra coisa. "Se eles querem parecer estrelas de 'rap' ou do desporto não conseguimos competir", afirma J.P. Olarewaju, que dirige uma associação de fabricantes de têxteis de Lagos. "As crianças querem vestir calças de ganga largas e imitar os seus heróis. O dia mais feliz da minha vida será aquele em que for proibida de vez neste país a venda de roupa usada", acrescenta Olarewaju, que veste um fato africano verde às flores.

Os vendedores nigerianos iludem a proibição que vigora no país enviando bens para o vizinho Benim, onde um suborno a funcionários da alfândega garante a passagem para a Nigéria - além de ajudar a economia local. Quinze por cento das receitas do Benim provêm das chamadas 're-exportações'.

Já na Nigéria, as roupas passam por uma cadeia de intermediários até chegarem a mercados frequentados por milhões de consumidores ávidos. Mesmo quando o feroz sol do meio-dia se abate sobre eles, vendedores e compradores só se permitem um breve repouso.

No mercado de Yaba, os clientes procuram os lugares mais frescos; os vendedores fazem uma pausa. Aproximam-se outros vendedores, com tachos à cabeça, prontos a servir cereais, vegetais e carne.

Em frente a uma barraca enfeitada com um cartaz feito à mão, em que se lê "Mão de Deus: Negociantes em Todos os Tipos de Calças, como Chinos, 'jeans' e Electronics", há jovens a tocar percussão. A música atrai comerciantes e clientes. Alguns dançam até se deixarem levar pelo ritmo endiabrado. Os corpos suados entram em convulsão. "Oh Deus", cantam os jovens vendedores, "faz com que coisas boas nos aconteçam".

A vida depende - para todos os comerciantes - de um bom fardo de roupa. Hoje, Anorue, que só negoceia roupa para mulheres que trabalham, está contente, sorri. O fardo de hoje deu-lhe três fatos Donna Karan, alguns conjuntos Ann Taylor e marcas italianas que ele nunca tinha visto.

"Os meus clientes são muito exigentes", afirma. "Vão ficar muito contentes". A próxima trouxa de roupa pode ser diferente. Mas as roupas não serão deitadas fora. "Isto é como o negócio do óleo de palma", diz Anorue, referindo-se ao lucrativo negócio dos que se dedicam a extrair óleo de todas as partes da palmeira. "Nada se perde." Exclusivo PÚBLICO/"Los Angeles Times"