terça-feira, agosto 10, 2004

A Vida com Menos de um dólar por dia-Educação

Dos Cerca de 115 Milhões de Crianças em Todo o Mundo Que Nunca Foram à Escola, Cerca de 40 por Cento Vivem em África, de Acordo com o Banco Mundial. São Crianças Que Podem Ter Sobrevivido à Doença, à Guerra Ou à Fome e Que Conseguiram Chegar à Idade Escolar, mas por Falta de Meia Dúzia de Dólares por Ano Nunca Conseguirão Estudar

Por DAVAN MAHARAH (TEXTO), Francine Orr (fotos)
Público, Sexta-feira, 06 de Agosto de 2004

recado enviado para casa com os 922 estudantes da Escola Primária de Silwanetshe era claro: paguem ou saiam. Na manhã seguinte, cerca de 500 crianças cujos pais não podiam pagar a propina anual de dez dólares não tinham ido. Quando as aulas começaram, Mduduzi Mkhize, de 11 anos, e as suas irmãs, Precious, de 10, e Zinhle, de oito, não podiam fazer mais do que se encostar à vedação de arame que separa a sua cabana de lama do recinto da escola.

"Quem me dera estar lá", disse Mduduzi, um aluno do terceiro ano apaixonado pela aritmética e caligrafia, enquanto via os seus companheiros de classe começarem as suas orações da manhã.

Um grande número de crianças africanas estão - como Mduduzi e as suas irmãs - presas do outro lado da vedação. Muitas vão à escola esporadicamente. Outras nem sequer começam. Dos cerca de 115 milhões de crianças em todo o mundo que nunca foram à escola, cerca de 40 por cento vivem em África, de acordo com o Banco Mundial. São crianças que podem ter sobrevivido a doença, à guerra ou à fome e que conseguiram chegar à idade escolar, mas por falta de meia dúzia de dólares por ano nunca conseguirão estudar.

Como a maior parte dos africanos sobrevive com menos de um dólar por dia, a escola é um luxo que não podem pagar. Depois de alimentarem as crianças, os pais têm que esticar os tostões para comprar roupas e outros bens essenciais. E mesmo que consigam pôr de lado algum dinheiro para a escola, poderão ter que escolher a qual dos filhos vão dar uma educação.

Desde o fim do "apartheid", em 1994, a África do Sul tem promovido a educação como um antídoto para a pobreza e o conflito. O Governo gasta cerca de oito por cento do PIB na educação - uma percentagem mais elevada do que nos EUA ou na Grã-Bretanha - e é unanimemente reconhecido que o país tem o melhor sistema de ensino do continente.

Apesar disso, as escolas públicas cobram propinas para poderem funcionar, o que deixa de fora muitos milhares de crianças. Um terço das crianças sul-africanas não chega a ultrapassar o quinto ano.

Mduduzi é demasiado novo para perceber que a falta de escolaridade o condenará ao nível mais baixo da sociedade. Para ele a questão é mais simples. "Sinto falta de ler", diz. "Sinto falta de aprender a escrever. Mas, mais do que tudo, sinto falta dos meus amigos."

Louis Mndaweni, director da escola de Silwanetshe, compreende. Em tempos ele foi tão pobre como estas crianças. "Corta-me o coração ter que mandar estas crianças para casa", diz. "Mas se não cumprirmos as regras não teremos dinheiro para fazer funcionar a escola. Não haverá escola para receber as crianças."

mãe de Mduduzi, Eunice, e o pai vieram para Willowfontein, uma localidade na parte oriental da África do Sul, há cerca de uma década, para escapar à violência política na sua cidade natal, a algumas centenas de quilómetros de distância. Era uma altura de esperança. A África do Sul estava a pôr termo ao domínio da minoria branca. Os trabalhadores da construção civil que estavam a fazer a fundação da escola de Silwanetshe estavam a escavar várias camadas de pedra e a dar à escola o seu nome, que em zulu significa "lutar com pedras".

Instalaram-se num terreno ao lado, "para que as crianças não tenham que andar muito para chegar à escola", recorda Eunice Mkhize. Construíram uma cabana com ramos e lama. Mas o casal rapidamente percebeu que não ia conseguir plantar nada nem criar animais num terreno com tanta pedra. Não havia mais nenhum trabalho. Há três anos, o marido de Mkhize disse que ia para Joanesburgo à procura de trabalho. Nunca voltou.

Mkhize pediu a ajuda da irmã, que aceitou tomar conta de dois dos seus cinco filhos, educá-los e criá-los como se fossem dela. Mkhize teve que escolher que filhos lhe entregar: os mais velhos ou os mais pequenos? Filhos ou filhas? No final optou por mandar os dois filhos mais velhos, Nkhonzi, de 16 anos, e Mtoko, de 14.

"Pensei que talvez eles pudessem sair-se bem e um dia ajudar-me", explicou. "As raparigas geralmente casam-se novas e seguem a sua vida." Durante mais de um ano ela criou as três crianças mais pequenas com o que ganhava empilhando tábuas de madeira numa fábrica na localidade vizinha de Pietermaritzburg, a capital comercial da região. Conseguia pagar o bilhete de autocarro para ir trabalhar, mandar as crianças para a escola e pagar a alimentação básica: milho, óleo de cozinha, açúcar e vegetais.

Mas Mkhize foi despedida há dois anos e não conseguiu encontrar outro emprego fixo. Foi então que Mndaweni, o director, enviou o aviso pedindo propinas para o próximo ano escolar: dez dólares para Mduduzi e Precious e cinco para Zinhle. Custava mais 75 dólares comprar os uniformes: vestidos verdes para as raparigas, calças cinzentas, camisa branca e camisola preta para Mduduzi; e sapatos para todos.

Desta vez, Mkhize não podia pagar. O total para as propinas e os uniformes - cem dólares - estava completamente fora do seu alcance. Serviria para alimentar toda a família durante meses.

"Quero que os meus filhos vão para a escola, que tenham uma vida melhor do que a minha", diz ela. "Mas a escola não significa nada se não tiverem comida."

Mkhize encontrou-se com Mndaweni e disse-lhe que a família estava a sobreviver à custa de trabalhos eventuais e da boa vontade dos vizinhos. Ofertas, como uma panela de arroz branco ou uma taça de papa de aveia dos vizinhos, eram muitas vezes a única refeição do dia. Mkhize hesitava sobre o momento de a servir - à hora do almoço ou à noite. Se comessem mais tarde, ela sabia que as crianças não iriam para a cama com os estômagos vazios.

O director foi compreensivo. Disse-lhe para tentar pagar só uma parte e para não se preocupar com os uniformes; as crianças podiam ir para as aulas com as suas roupas antigas. Mkhize disse que não. As crianças teriam vergonha dos remendos, pensou. Além disso, apesar de preferir ir para a escola, o filho já tinha idade suficiente para trabalhar.

O edifício de tijolos vermelhos da escola, rodeado de dezenas de barracas, é o mais bonito da zona. Fica na encosta de uma colina e podem ver-se outras colinas verdes que se estendem até ao mar, a muitos quilómetros de distância. No interior, há um chão de linóleo, e cadeiras e mesas novas junto das paredes pintadas com cores vivas.

oucas crianças sul-africanas estudam neste conforto. Centenas de milhares vão às aulas em edifícios decrépitos e escolas ao ar livre. A escola de Silwanetshe recebe cerca de 25 mil dólares de livros, artigos de papelaria e outros materiais do Governo todos os anos.

É a escola que tem que arranjar os dez mil dólares adicionais, a maior parte dos quais são gastos em segurança. Há guarda 24 horas por dia, um sistema de segurança electrónico e uma vedação alta com arame farpado em cima, sem os quais o edifício seria completamente esvaziado.

Quando ainda podia passar para o outro lado da vedação, Mduduzi queria ser professor como "o senhor Mndaweni", ou assistente social, como o que às vezes trás à sua família algum milho e açúcar. Ficava fascinado com as letras maiúsculas. Ainda tem um velho livro de exercícios cheio de letras maiúsculas compondo o seu nome.

Agora, Mduduzi vai buscar água a uma torneira pública ou usa um carrinho de mão emprestado para recolher lama, que coloca nas casas dos vizinhos por alguns trocos. Acha que pode ganhar a vida construindo cabanas para outras pessoas pobres. "Acho que podia construir uma casa inteira", diz. "É fácil. Tudo o que é preciso é lama, paus e saber como fazer. Eu sei."

A sua única camisa é a que tem vestida - e está a usá-la ao contrário porque está suja. Os seus antigos colegas de turma, que podem ter apenas dois pares de calças e duas camisolas cada um, gozam com ele por causa da sua "T-shirt" e pés descalços. "Quando eu choro eles não param", conta. "A Precious e a Zinhle não choram. Têm coragem."

Todos eles preferiam estar na escola. Por isso, sob o sol da manhã, Mduduzi e as suas irmãs agarram-se à vedação, mesmo abaixo do arame farpado, para ouvirem à distância as vozes de crianças a rezar. Depois começam os cânticos. As vozes unem-se numa melodia zulu triste e doce que pede a Deus que guie as suas vidas.

Através da vedação também vêem o director, vestido com um fato escuro, camisa branca engomada, gravata vermelha e sapatos pretos brilhantes, sorrindo para os alunos como um general satisfeito com as suas tropas. Enquanto as vozes morrem na distância, os pequenos soldados em uniforme ficam parados por um momento e depois correm para dentro das salas de aula. Alguns têm os dedos a aparecer através dos buracos nos sapatos. Outros nem sequer têm sapatos.

"Aquele era eu", diz Mndaweni. Mndaweni não tinha sapatos quando frequentou a escola primária. Ele também conhece as esperanças perdidas. Depois de o seu pai, um pregador itinerante, ter perdido o apoio dos seus benfeitores da Igreja de Cristo nos EUA, e a mãe ter perdido o emprego de enfermeira, a família deixou de ter rendimentos.

"O meu pai costumava dizer que não tinha vacas para nos deixar, nem riquezas para nós herdarmos, mas dizia que estava disposto a não comer para garantir que tínhamos uma boa educação", conta Mndaweni.

Quando era criança, Mndaweni sonhava em ser farmacêutico. As notas do liceu permitiram-lhe conseguir um lugar na Universidade de Natal, mas ele não podia pagar a propina e saiu ao fim de um ano. Teve que se contentar com a sua segunda escolha: um empréstimo governamental para frequentar uma escola de formação de professores.

Ele sabe que um finalista da sua escola pode não conseguir um emprego. Mesmo muitos dos que terminam o liceu ficam desempregados, como acontece com cerca de 30 por cento a 40 por cento dos sul-africanos em idade de trabalhar. Mas Mndaweni acha que as crianças devem pelo menos ter uma oportunidade. É por isso que lhe dói ter que pedir o pagamento a pessoas que não têm dinheiro.

O director abre o seu livro com a lista dos alunos e a propina que pagam. Muitas vezes está disposto a oferecer aos pais uma redução. Alguns aceitam. Outros, como Mkhize, recusam.

"Se aplicássemos as regras, 80 por cento destes alunos não estariam aqui", diz, percorrendo a lista com o dedo. "Muitos deles vão para a cama duas noites seguidas sem terem comido."

Recentemente, os professores decidiram dar cada um um dólar do seu salário para que os alunos pudessem ter almoços com milho, sopa, feijões e vegetais, servidos em grandes baldes de plástico colorido. Em algumas semanas, Mndaweni usa o seu próprio dinheiro para alimentar as crianças.

Do outro lado da vedação da escola, Mduduzi e as irmãs tentam ajudar a arranjar comida para eles próprios. Mduduzi coloca uma mão-cheia de sementes de milho junto de uma funda de borracha feita a partir de um pneu de bicicleta. Alguns pássaros amarelos vêm tentar comer as sementes e são catapultados quando tentam subir a funda. Mduduzi e as irmãs apanham os pássaros feridos, tiram-lhes as penas e assam-nos em carvão. Os ratinhos de campo sofrem uma sorte semelhante, mas a sua pele é guardada como troféu. As crianças passam o resto do dia a brincar na frente da casa.

Mduduzi pega um pau seco e, usando-o como giz, resolve alguns problemas de matemática na areia. "Cinco mais quatro é igual a nove", canta para ninguém em especial. Escreve P-R-E-C-I-O-U-S no chão sujo.

Mais tarde, ele e as irmãs fingem que estão no "À Procura da Estrela", um dos jogos preferidos do bairro. Mduduzi imita a canção de um músico hip-hop zulu. Precious faz de conta que é uma rainha. Zinhle, a única pessoa na audiência, olha com admiração.

Quando a campainha da escola toca, à tarde, eles correm para a vedação para ver os seus colegas saírem de mais um dia de aulas. Exclusivo PÚBLICO/ "Los Angeles Times"