terça-feira, agosto 10, 2004

A Vida com Menos de um dólar por dia-Congo

Por DAVAN MAHARAJ (TEXTO) E FRANCINE ORR (FOTOS)
Público, Segunda-feira, 02 de Agosto de 2004



Todos os dias, é uma luta por cêntimos. Ao nascer do sol, Adolphe Mulinowa arrasta 40 litros de latas de areia num local em construção. Numa hora ganha cinco cêntimos. Depois, vai a correr para a beira da estrada com algumas garrafas de plástico de gasolina cor-de-rosa, que apregoa ao lado de dezenas de outros vendedores de rua.

"'Patron'! Patrão! Gasolina! Gasolina!", grita Mulinowa à passagem de um Peugeot amolgado, que lhe lança uma quantidade de pedrinhas à cara. O carro não pára. Mulinowa, um homem baixo na casa dos 30, olhos avermelhados, agacha-se novamente ao lado das suas garrafas. É uma cena que repete muitas vezes ao longo das quatro horas que demora a vendê-las. Mulinowa põe no bolso mais 40 cêntimos. Depois, enquanto o sol se põe, dirige-se para o seu emprego nocturno apregoando sapatos usados e galinhas ainda vivas. Mais alguns cêntimos.

Depois de 12 horas, regressa a casa para junto da mulher e dos filhos com aquilo que ganhou: cerca de 70 cêntimos e um saco com uma refeição de trigo. "Hoje derrotámos as dores de barriga", diz ele num murmúrio cansado. "Amanhã, mais trabalho duro."

De cima a baixo das ruas populosas de Goma, não existe trabalho a sério, tal como é conhecido no Ocidente. Só há aquilo a que todos aqui chamam "se debrouiller", a expressão francesa para "se desembaraçar" ou "se desenrascar", isto é, ganhar a vida a partir do nada.

Décadas de guerra, doença, seguidas por uma erupção vulcânica que deixou quase metade da cidade debaixo de uma crosta de lava reduziram o emprego a uma mistura de trabalhos ocasionais e esquemas. Funcionários públicos sobrevivem com subornos. Uma advogada sobrevive a fazer pastelaria. Uma mãe solteira de quatro filhos torna-se prostituta na sua sala de estar, decorada com retratos de Jesus e Maria. Elas estão entre as pessoas mais pobres do mundo, sobrevivendo com menos de um dólar por dia.

Nos Estados Unidos, uma pessoa que ganhe menos de 9310 dólares por ano é considerada pobre. O Banco Mundial estabelece a linha da pobreza nos 730 dólares por ano, dois dólares por dia. Metade das 600 milhões de pessoas da África subsariana vive com cerca de 65 cêntimos por dia, menos do que um americano pode gastar com um café.

Nunca é suficiente. Em Goma, perto do coração de África, uma família média de sete pessoas gasta cerca de 63 dólares por mês, dois terços disto em comida. Com cada dólar fazem uma escolha entre bens concorrentes: comida, renda, roupas, escola, remédios. Por vezes, é uma questão de vida ou morte.

Há dois anos, o rapaz mais pequeno de Mulinowa, Dieudonne (ou "dádiva de Deus"), apareceu com febre, suores frios e tremuras. Mulinowa sabia que era malária. Levou o menino de três anos ao "muganga", o tradicional curandeiro swahili, que o salpicou de água, espremeu a polpa de algumas ervas para a sua boca e mandou-o para casa. Dois dias depois, o rapaz estava morto. Mulinowa sabe que com 20 cêntimos para remédios contra a febre ele poderia ter salvo a vida da sua criança. Mas não tinha esse dinheiro. Nem as famílias de três outras crianças do bairro que morreram por volta da mesma altura.

"Eu não quero que isto aconteça à minha Annisette", diz Mulinowa sobre a sua filha de dois anos. "É por isso que trabalhamos do nascer ao pôr do sol."

Em muitos aspectos, os Mulinowa estão melhor do que muitos congoleses. A casa de família, de madeira, pousada sob um curso de lava, tem um fino telhado e alguma mobília também em madeira. As paredes foram recentemente pintadas com tinta de uma agência humanitária. Os seus vizinhos vivem em barracas de lama ou casas feitas com restos de placas ferrugentas.

Numa cidade de "desenrascados", Mulinowa aprendeu a tirar partido de pequenas vantagens. Descobriu que, uma vez que Goma tem dezenas de pequenos vendedores de gasolina, tem mais hipóteses a duas milhas de distância, na fronteira entre o Ruanda e o Congo. Ali, os condutores têm de abrandar e mais provavelmente darão por ele.

A sua família também improvisa a sorte espalhando-se durante o dia, esperando que pelo menos um dos membros ganhe o suficiente para comprar comida.

Se Mulinowa não vender gasolina, sapatos ou galinhas suficientes, talvez o seu filho de 18 anos, Ivan, tenha mais sorte a vender as suas "scooters"de madeira feitas em casa, as chamadas "chukudu". Por alguns cêntimos por viagem, Ivan introduz certos produtos num bazar de vendedores que apregoam os seus artigos manufacturados, grelham peixe de lago em carvão e fazem soar os ritmos da guitarra das estrelas do "soukous", como o Kanda Bongo Man. Por vezes, os comerciantes também lhe dão um saco de farinha ou legumes.

Se Mulinowa e o seu filho falharem, talvez a filha Bernadette, 15 anos, possa trazer algum dinheiro da venda de roupas usadas, sardinhas em lata ou outros bens vendidos nos mercados vizinhos.

E há sempre a mulher de Mulinowa, Faith, que luta para alimentar a família de oito pessoas quando uma saca de farinha de mandioca custa 24 dólares, um saco de feijão 17 e uma dúzia de peixes secos sete dólares. Ocasionalmente, recebe produtos de familiares das aldeias à volta, produtos que pode vender e assim ganhar um dinheiro extra. "Quando trabalhamos no duro, as coisas boas acontecem", diz Faith Mulinowa. "É assim que nos safamos."

Goma, na extremidade leste do Congo, é controlada por rebeldes que lutam contra o Governo central a centenas de quilómetros de Kinshasa, a capital. Um grupo humanitário estima que pelo menos 3,3 milhões de pessoas morreram na violência e caos em que o país vive desde 1998.

Mas mesmo uma sociedade que vive no fio da navalha precisa de funcionários públicos. Homens com carimbos do Governo, como Pancrace Rwiyereka, um antigo professor com ar de avô que controla a Secção do Trabalho em Goma, explica a sua própria definição de "se debrouiller".

Não levam para casa o seu salário real, mas ainda assim a maior parte deles aparece todos os dias para trabalhar. Um emprego governamental dá-lhes a oportunidade de exigir dinheiro a negociantes e cidadãos. Os seus empregos oficiais são uma charada.

"Subornos são a resposta", diz um funcionário de nível médio no departamento das finanças. "Porque é que julga que nós nunca iremos desistir dos nossos empregos nem lutar por receber os nossos salários?"

As autoridades exigem que os importadores obtenham carimbos de pelo menos seis departamentos: o principal departamento alfandegário, o da imigração, saúde, outro departamento de saúde separado, para certificar que os bens estão aptos a ser consumidos, o departamento de impostos do governador e um gabinete da província que recolhe dinheiro dos camionistas para uma inexistente recuperação das estradas.

Normalmente, os burocratas negoceiam uma tarifa mais baixa com os empresários e algum dinheiro de bolso. Se um supervisor descobrir que não foram pagas as taxas devidas, também ele é subornado.

Os subornos em Goma vão de cerca de cinco dólares, por um certificado de nascimento, a 100, por uma licença para importação. Mas os empregados têm de dividi-lo com os colegas e superiores. Por isso, muitas vezes voltam para casa com menos de um dólar. O sistema garante que apenas um suborno poderá alimentar várias famílias num só dia.

Os funcionários públicos dizem que só estão à procura de uma forma de serem pagos pelos seus serviços. É assim que as coisas funcionam ali: o cidadão comum sempre teve de lutar para sobreviver. Os únicos que enriqueceram são os líderes e os que têm bons contactos.

No século XIX, o rei Leopoldo da Bélgica tratou a colónia do Congo como um bem pessoal. E o antigo ditador Mobutu Sese Seko, que tomou o poder em 1965 - cinco anos depois de o Congo se ter tornado independente da Bélgica - retirou cerca de 8 mil milhões de dólares do tesouro público ao longo das suas três décadas de liderança. Num discurso famoso, reconheceu abertamente a regra da corrupção. "Tudo está à venda, tudo se pode comprar neste país", disse. "E, neste comércio, ter uma pequena fatia de poder público constitui um verdadeiro instrumento de troca, convertível em aquisição ilícita de dinheiro e outros bens." Ou, nas palavras de um funcionário do Governo: "Cada um tem de olhar por si. Se falhar, morre."

Por isso, em cada dia de trabalho, Rwiyereka, de 61 anos, exibe o casaco castanho por cima de uma camisa Izod em segunda mão, agarra na sua pasta, e ruma a um escritório exíguo da Secção do Trabalho. As paredes acastanhadas estão manchadas devido às chuvas tropicais que escoam das frestas do telhado.

Rwiyereka encostou a sua secretária à janela para poder receber uma nesga de luz do sol. Há vários meses, vieram roubar os cabos da electricidade do edifício. Da janela, vê a selva luxuriante e um terreno fértil que já fez desta região o "celeiro" da África Central. As colinas são ricas em madeira e minerais, incluindo coltan, usado para construir "chips" de computador na Ásia e telemóveis na Finlândia. Apesar desta riqueza natural, alguns habitantes de Goma acreditam que os deuses os depositaram num inferno. Quando chove, a lava que ainda está a arrefecer depois da erupção do Monte Nyiragongo, em Janeiro de 2002, lança nuvens de vapor que envolvem a cidade. O cheiro pungente do enxofre às vezes entra pela janela de Rwiyereka. Frequentemente, as entranhas do vulcão ressoam, forçando o gás metano a borbulhar no vizinho lago Kivu.

À sua secretária, Rwiyereka aponta para as duas pilhas de cartas dos trabalhadores. Diz que aqueles que querem que ele investigue os subornos têm de trazer o seu próprio papel para que a sua secretária não paga possa redigir uma resposta na máquina de escrever.

Rwiyereka ri entre dentes quando o visitante lhe pergunta se ele e os seus 27 funcionários aceitam subornos. "Tento dizer-lhes que isso não é permitido", responde. "Mas eles têm bocas para alimentar. Eles e eu sabemos que ter um emprego onde não se recebe é melhor do que não ter emprego nenhum."

Havia uma altura em que as pessoas achavam que existia uma saída. Num país onde a vasta maioria da população é analfabeta, ter educação escolar seria suficiente para colocar alguém numa elite.

Mas Diane Kavuo aprendeu com custo que mesmo com um diploma tem de se "desenrascar". O seu pai, que era dono de uma pequena empresa de camiões, canalizou praticamente todos os ganhos da família na educação do mais inteligente dos seus 11 filhos. Parecia ser um bilhete de saída para um rol infindável de necessidades.

Kavuo, como muitas pessoas em Goma, fala cinco línguas: inglês, francês e três línguas africanas: swahili, lingala e kinande. Também tem uma licenciatura em Direito. Mas o caos da guerra civil congolesa arruinou os seus planos e, hoje, a advogada de 28 anos ajuda a família a vender fritos no mercado.

Passam-se meses sem que Kavuo ganhe um centavo de honorários pelos seus serviços jurídicos, cuja maior parte envolve empréstimos nunca pagos de talvez 100 dólares. Às vezes, grupos de advogados pagam-lhe para participar nos congressos de direitos humanos em África, onde chama a atenção para as crianças-soldado e para as mulheres violadas por milicianos. Kavuo gasta o seu dinheiro "per diem" em sacos de mão, loções e cosméticos que pode trazer para Goma e dar aos apregoadores para os venderem. Usa os lucros para comprar açúcar, farinha e fermento para os fritos.

Um investimento de 50 dólares dá-lhe 60. Quase metade dos fritos são oferecidos às crianças de rua. Mas, em Goma, um lucro de 15 dólares pode sustentar uma família numerosa por vários dias.

Kavuo diz que sonha com o dia em que o Congo será um país estável e próspero. "A luz virá", diz. "Tem estado escuro há demasiado tempo." Até lá, outra habitante de Goma, Mama Rose, 37 anos, também terá de lutar para alimentar os seus quatro filhos.

Há quatro anos, os milicianos roubaram e mataram o seu marido. Como Adolphe Mulinowa, fazia biscates. Mas era o único ganha-pão da família. Durante vários meses, Mama Rose fazia trabalhos serviçais e tentava vender coisas na rua. Mas deu por ela a contar principalmente com os homens do bairro que se tornavam seus amigos e lhe ofereciam pequenos cestos de comida. Em troca, esperavam - e recebiam - alguma intimidade.

Muitas mulheres em Goma dependem destas relações para alimentar a família. Mas Mama Rose teve outra ideia. Porquê fingir que estava a pedir aos homens a sua companhia? Porque não assumir para si própria que isso se tornara num trabalho e começar a cobrar dinheiro?

"Nenhuma verdade é boa de dizer", afirma Mama Rose, com um sorriso radioso a mostrar o dente de ouro. "Mas vamos encará-lo: em Goma, tudo tem um preço. E não quero vender-me abaixo dele."

Em alguns meses Mama Rose ganha menos de 25 dólares, na sua sala de estar forrada a imagens de Maria e Jesus. Brinquedos enchem a cama de madeira. Num bom mês, quando atende os soldados das Nações Unidas que estão a monitorizar o conflito congolês, pode ganhar até 75 dólares.

Mama Rose convenceu outras prostitutas a organizarem-se. Confrontaram recentemente o governador regional, que declarou que 80 por cento das trabalhadoras do sexo estavam infectadas com o HIV ou têm sida. Mama Rose reconhece que a sida é um grande problema, mas nega que o nível de infecções seja assim tão alto. Mas muitas das suas amigas já morreram da doença, deixando crianças por sua conta e risco e a darem início a uma nova geração no ciclo da pobreza.

"Nós não somos más pessoas", diz, retirando algumas migalhas da imagem da Virgem Maria estampada no seu vestido. "É assim que temos de viver. É assim que pomos alguma comida nos nossos estômagos." Exclusivo PÚBLICO/"Los Angeles Times"