terça-feira, agosto 10, 2004

A Vida com Menos de um dólar por dia-Etiópia

Por DAVAN MAHARAJ (TEXTO) E FRANCINE ORR (FOTOS)
Público, Terça-feira, 03 de Agosto de 2004

De machete na mão, Batire Baramo sai da sua cabana de barro antes da hora de jantar e começa a dar golpes na base de uma pequena árvore. Ao lado está um campo de trigo, com todas as espigas murchas e ressequidas. Um pé de café definha num pedaço de terra tão seco que cada pegada faz levantar uma nuvem de pó cinzento.

Raízes e caules da falsa bananeira - falsa já que nunca dá bananas - é tudo o que há para o jantar de hoje. Batire vai esmagá-los transformando-os numa papa com poucos nutrientes, mas que ao menos irá apaziguar a fome do seu marido e dos seus sete filhos. Quando estas partes da árvore tiverem desaparecido, irá cozer a casca. Quando já não houver casca, procurará outra coisa.

"Este lugar está amaldiçoado", diz Batire sobre o meio acre de terra da família.

A vida com menos de um dólar por dia, como é vivida pela maioria dos africanos, é uma procura interminável de subsistência. No Corno de África, é uma busca raramente bem sucedida.

A Etiópia é um dos cinco países mais pobres do mundo e o maior receptor de ajuda humanitária. Quase metade dos 67 milhões da sua população sofrem de malnutrição. Cada ano, milhões enfrentam a fome. Para os mais novos, a vida termina frequentemente numa morte triste e deprimente.

Por trás das estatísticas está uma dura realidade que ajuda a explicar por que é que a fome é um problema tão irresolúvel em África. Quando a vida é tão consumida pela sobrevivência, troca-se facilmente o amanhã para encher hoje a barriga.

Os grupos de ajuda estrangeiros gastam tanto dinheiro a matar a fome que nunca lhes sobra o suficiente para a prevenir. As causas da fome em África - secas, guerra, doenças, corrupção, excesso de população - nunca desaparecem. Diminuem durante as alturas relativamente boas, para depois regressarem.

Mesmo nos anos melhores, quando as chuvas chegam à Etiópia, os pequenos agricultores raramente colhem suficiente milho, batata doce e outras culturas para alimentar as famílias. Batire nunca se deu ao luxo de permitir que as pequenas bananeiras falsas crescessem completamente, o que triplicaria as suas colheitas. Em vez disso, corta-as assim que a família precisa de alguma coisa para comer.

Nos tempos mais difíceis, as pessoas comem esporadicamente, esperando que um dia de prospecção de toda a família possa resultar em mais do que alguns pedaços.

Quando tudo desaparece, os esfomeados procuram ajudas do governo ou de grupos humanitários. Nessa altura, muitas vezes já a doença se apoderou deles. Deficiências proteicas graves resultam num estado conhecido como "kwashiorkor", que condena as jovens vítimas a viver os seus últimos dias marcadas por denunciadoras manchas azuis, as caras geladas em expressões fúnebres.

"Se não for a doença a matar-nos, vem a fome para acabar o serviço", diz Batire.

Ela já viu meia dúzia de crianças do bairro morrerem assim. E, muitas vezes, os seus filhos foram dormir com fome. Nessas noites, Batire senta-se, encurralada na barraca feita de barro sem janelas e apenas com uma divisão, impotente para os alimentar, mas incapaz de fugir aos seus apelos por comida.

A cabana redonda, ou "tukul", que Batire construiu com o marido, Ledamo Ataro, quando casaram há 20 anos, tem um chão com terra compacta misturada com cinzas. Na lareira, a papa da falsa bananeira ferve numa panela preta apoiada em três vasos de barro.

A sua aldeia, no Sudoeste da Etiópia, espraia-se pelos terrenos que em anos bons produzem grãos de café para a Starbucks e outras marcas importantes.

Mas 2003 não foi um ano bom. Não choveu em Fevereiro nem em Março, impedindo que a família plantasse milho, trigo e outras culturas. As chuvas de Verão foram esporádicas.

O jantar é a única refeição do dia. Antes de comer, a família dá graças pela comida que existe. Ledamo - um homem alto, seco, de talvez 50 anos - é o primeiro a ser servido porque precisa de forças para sustentar a família. A mulher e os filhos comem se sobrar alguma coisa.

Batire, que tem cerca de 40 anos, limpa o suor do rosto com a extremidade do lenço azul que traz na cabeça, enquanto dá voltas ao quintal da família, numa azáfama interminável. Tem as solas dos pés estaladas e manchadas de terra.

O filho mais velho, Letimo, de 15 anos, é um jovem musculado. Mas os seus membros magricelas e a barriga ligeiramente para fora atestam os vários graus da malnutrição. Do mais velho ao mais novo, os braços e pernas vão-se tornando cada vez mais magros, porque, nas palavras de um funcionário de uma organização humanitária, "quando se come de uma panela é o mais forte quem mais consegue comer".

Cada criança tem apenas uma muda roupa, o que significa que ficam todos nus quando Batire as lava. Entre as crianças, só Letimo tem um par de sapatos: uns chinelos de borracha vermelhos.

As crianças nunca foram à escola e provavelmente nunca irão. Ledamo diz que não consegue pagar as propinas e comprar roupas apropriadas. Além disso, precisa que elas ajudem a procurar comida e a plantar as terras.

Nos anos bons, os Ledamo ganham cerca de 30 birrs por mês (cerca de 3,50 euros), vendendo produtos no mercado da aldeia. A família gasta cerca de cinco birrs por semana em produtos que não consegue plantar: óleo, sal e pimenta.

Apesar de lutarem contra a fome, os Ledamo estão entre os membros mais privilegiados da sua comunidade. Têm um boi, que usam para arar a terra. Também o alugam aos seus vizinhos. O animal é tão precioso que partilha a casa com a família, mascando erva. Se fosse deixado na rua, o esquelético animal seria uma presa para os ladrões ou hienas.

"Não somos pobres", diz orgulhosamente Ledamo. "Muitos dos meus vizinhos são mais pobres do que eu." Mesmo assim, a comida é tão rara que Ledamo e Batire terão de tomar brevemente uma decisão crucial. Podem vender o boi por cerca de 12 dólares para terem o que comer e manter os filhos fora dos centros alimentares de emergência que os funcionários da ONU montaram na região. Mas o dinheiro só dará para os alimentar durante alguns meses. Estariam a hipotecar o futuro para encher hoje as barrigas.

"Temos de alimentar as crianças, ou estas pessoas irão levá-las", diz Batire, apontando para uma coluna de veículos da ONU que passam à frente de sua casa. É um sinal claro de que chegou a época da fome.

em havido tantas épocas destas para os etíopes que até aos outros africanos já sobra pouca piedade. O jornal nigeriano "Daily Trust" descreve a Etiópia como uma "vergonha", uma terra de "não pensadores" incapazes de derrotar o ciclo de seca e fome.

As agências de auxílio afirmam que muita fome é auto-infligida - o resultado de um conflito armado, uma política agrária repressiva, mau planeamento e excesso populacional. O Governo tem gasto milhões numa longa guerra civil e no conflito fronteiriço com a Eritreia. Uma alta taxa de natalidade junta-se à escassez de alimentos. Em 2015, a Etiópia terá 90 milhões de habitantes, mais 23 milhões do que actualmente.

Ao contrário da maioria dos etíopes, os Ledamo podem irrigar a sua terra usando o lago Awasa, a algumas centenas de metros de casa. Mas Ledamo diz que se construir um canal para a rega irá atrair os hipopótamos a sair dos canaviais do rio e a esmagar ou comer as suas colheitas.

Nos outros lugares - Índia, China, América Latina - a irrigação permitiu aumentar a produção. Mas menos de sete por cento das terras aráveis em África têm rega. Na Etiópia, a proporção é de dois por cento, embora das suas terras altas provenham dois terços da água que corre no Nilo e vai banhar o Egipto.

A Etiópia não consegue ter dinheiro suficiente para desenvolver projectos de irrigação em larga escala, disse o primeiro-ministro, Meles Zenawi, numa entrevista. Potenciais fornecedores de empréstimos receiam que, se a Etiópia canalizar os seus recursos hídricos, o Egipto irá sofrer.

Os agricultores de subsistência não são donos das suas terras, que pertencem ao Estado. As agências humanitárias afirmam que colocá-las em mãos privadas daria aos agricultores incentivos para melhorar a terra e aumentar a produtividade. Mas Meles diz que isso seria apenas uma outra forma de sacrificar o futuro: muitos agricultores venderiam a sua propriedade, para terem um pouco de dinheiro no imediato, mas desfazendo-se de qualquer meio de auto-subsistência no futuro.

Ao contrário de Ledamo, muitas pessoas desistiram. Há um ditado que diz que os etíopes já não se interessam se chove ali, desde que chova em Iowa ou noutros estados agrícolas, que são a fonte do seu auxílio alimentar.

"Os etíopes sabem que a ajuda de emergência virá, que é apenas uma questão de tempo", afirma Gazahegn Tadele, chefe local da Oxfam, um grupo britânico de ajuda humanitária. Mas muitas vezes dá-se o caso de esse auxílio ser insuficiente ou tardio. Os doadores também acham que é mais fácil dar comida aos necessitados em vez de construir diques e estradas que poderiam ajudar a evitar a próxima fome.

"As pessoas dizem: 'Oh, não, porque é que isto está a acontecer outra vez na Etiópia?'", adianta Meles. "Mas a verdade é que os doadores preferem ver o seu dinheiro a alimentar vítimas da fome, as caras das crianças famintas, do que o gastar em projectos com menor visibilidade que incidem sobre os factores que originam a pobreza."

Algumas dessas vítimas mais novas, algumas delas carregadas dezenas de quilómetros às costas dos pais, povoam os centros alimentares - ajuntamentos de tendas cheias de corpos emagrecidos e a tresandar de roupas sujas. Os Ledamo esperam poder evitar estes sítios.

Uma manhã, Batire e Ledamo acordaram a pensar mais uma vez se teriam alguma coisa para comer naquele dia. Por duas noites consecutivas, a família foi-se deitar com fome. No princípio da semana, tiveram a sua última refeição de banana falsa misturada com casca de árvore. A sua filha de sete anos, Maskal, está a emagrecer a cada dia que passa.

Nessa manhã, Batire e Ledamo decidiram vender o boi. Mas mais tarde, Ledamo faz uma descoberta incrível. Virando as raízes de umas plantas de milho secas, descobrem dois cachos de enormes batatas doces, enterradas como jóias debaixo da terra. Ledamo chama a mulher, dizendo-lhe que acha que encontrou o jantar. Deus sorriu-nos, diz ele.

Batire tem uma ideia diferente. Em vez de comer as batatas, ela vai vendê-las. Vai ganhar 60 cêntimos e pode alimentar a família durante uns dias. Até podem ter farinha suficiente para fazer "injera", um pão que os etíopes adoram.

Batire dispõe o produto em pequenos montes em frente de casa e espera pelos clientes. Logo no início do dia, alguns vizinhos dão-lhe cerca de 12 cêntimos por um quarto das batatas doces. Depois disso, as horas arrastam-se. Uma mulher, com uma criança faminta às costas e arrastando uma rapariguinha esfarrapada ao seu lado, implora por comida. Batire pensa durante alguns segundos, e dá-lhe três batatas. "Quando se é mãe sabe-se o que é o sofrimento", diz. "Sabemos como é duro quando os nossos filhos têm fome."

Batire começara a ficar sem esperança de vender o produto quando alguns homens montados numa carroça puxada por um burro lhe compraram as batatas que lhe restam. Radiante, pega na sua pequena fortuna e corre para dentro para contar a Ledamo e às crianças. Na sua mão estão 5 birrs, cerca de 60 cêntimos. "Hoje", diz, "fomos abençoados." Exclusivo PÚBLICO/"Los Angeles Times"