quarta-feira, setembro 15, 2004

Amarga Ironia

Por HELENA MATOS
Publico, Sábado, 04 de Setembro de 2004

Escrevo esta crónica, sexta-feira, enquanto os reféns são libertados na escola da Ossétia do Norte e ainda se desconhece o destino dos dois jornalistas franceses e do seu motorista sírio. Nesta mesma semana, o Hamas levou a cabo mais um atentado em Israel que provocou a morte de 16 pessoas e feriu mais de 90. Simultaneamente foram confirmados o assassínio, no Iraque, de três reféns turcos, pelo grupo Monoteísmo e Jihad e de doze reféns nepaleses pelo Exército dos Partidários da Sunna. áá E poucas vezes como nesta semana em que as horas, os dias e as imagens foram marcados pelos terroristas, poucas vezes, repito, foi tão visível o rasto da forma parcial como a imprensa europeia se refere ao terrorismo e aos terroristas.

O caso Chesnot, Malbruno e Battisti. Por uma amarga ironia, antes do rapto de Christian Chesnot e Georges Malbruno, a imprensa francesa tinha descoberto uma nova causa. Falo do italiano Cesare Battisti, terrorista nos anos 70, acusado de quatro mortes, que vivia em França ao abrigo dum acordo feito, em 1985, por Mitterrand com vários terroristas italianos ou, parafraseando a imprensa francesa, ao abrigo de um acordo feito pelo então presidente da república francesa com italianos perseguidos no seu país por actos de terrorismo. A segunda definição embora queira dizer o mesmo comporta um juízo de valor absolutamente diferente: nela Battisti passa de terrorista responsável por quatro mortes, a um perseguido por actos de terrorismo. Logo a sua condição de perseguido pela justiça sobrepõe-se moralmente à de assassino. Esta separação entre o terrorista e os seus actos é uma forma de desresponsabilização que nada justifica mas de que os terroristas, ao contrário dos outros assassinos, têm sido largamente beneficiários.

Battisti desapareceu a tempo de evitar ser extraditado para Itália e, no final de Agosto, multiplicavam-se as declarações sobre o seu estado deprimido, a injustiça que representava fazê-lo voltar a uma Itália em que Berlusconi é primeiro-ministro, os laços que o prendem à família que constituíra em França... Os amigos franceses de Battisti nem questionavam o absurdo facto de um seu presidente da República ter considerado - na década de oitenta do século XX note-se! - que devia dar asilo a vários terroristas a braços com a justiça italiana, sendo a Itália, um país vizinho da França, democrático e com uma justiça que tem marcado a sua independência muitas vezes à custa da própria vida dos seus agentes. Contudo temos de admitir que o perdão imediato pelos actos do passado ao primeiro baixar de armas é um dos vários privilégios dos terroristas e ditadores que se reivindicam de esquerda ou que se apresentam como tal. Mesmo quando são de factos reaccionaríssimos como acontece com o IRA e a ETA; corruptos como as FARC e a OLP ou criminosos sanguinários como o Hamas e o Sendero Luminoso, demora a que estes grupos percam o lugar cativo naqueles corações ocidentais, sempre almejantes por uma causa que lhes dê um banho lustral de abnegação. Certamente empolgado na preservação da memória de Mitterrand, o PS francês nem percebe que a sua defesa da não apresentação de Battisti à justiça o levará, na melhor das hipóteses, a ser citado pelos advogados de Pinochet: "Estamos em vias de reescrever um drama, de jogar com a vida de pessoas e das suas famílias quando a página já fora virada." - declarou, sobre a reabertura do caso Battisti, Julien Dray, porta-voz do PS. Presumo que no Chile algo de muito semelhante será dito por aqueles que não querem ver o ex-ditador no banco dos réus. Será que em matéria de assassinatos políticos há assassinos para os quais as páginas viram mais depressa?

A greve que ninguém viu. A greve de fome dos presos palestinos em Israel foi anunciada a 15 de Agosto e tudo indicava que iria ocupar a abertura dos noticiários durante várias semanas. Contudo não foi isso que aconteceu. A greve foi suspensa esta sexta-feira. Acompanhe-se por exemplo a forma como ela foi sendo noticiada no site on line do jornal espanhol 'El Mundo', não só porque este é um excelente site como porque não se pode dizer que seja dos mais parciais nesta matéria. A 15 de Agosto anunciava-se "Greve massiva de fome de presos palestinos nas prisões israelitas". Lia-se a notícia e percebia-se que a greve não era massiva nem deixava de ser pela simples razão que ainda não começara. Mas note-se que já era considerada "massiva". No dia seguinte, novo destaque informava que "Milhares de presos palestinos encarcerados em Israel apoiam a greve de fome". A 17, ficava a saber-se que "Milhares de palestinos lançam-se à rua em protesto para denunciar a situação desumana dos prisioneiros". Mas não só: a Cruz Vermelha e a Autoridade Nacional Palestinina já tinham providenciado a montagem de tendas para o acolhimento aos familiares dos detidos que acorriam a apoiá-los. Tal iniciativa não deixa de ser tocante sobretudo quando se sabe o imenso desinteresse e silêncio que caem sobre o destino dos presos palestinos que não estão nas prisões israelitas mas sim nas da Autoridade Nacional Palestiniana e nos cárceres dos grupos que fazem a lei como o Hamas.

Quantas notícias temos visto, ouvido ou lido sobre os linchamentos e execuções a tiro de palestinianos acusados de colaborarem com Israel? Não terá tido, por exemplo, nenhuma mulher a chorá-lo o homem assassinado a 28 de Agosto, por alegadamente ter colaborado com Israel? A dia 18 de Agosto surge o anúncio que mais 300 presos se preparam para aderir. A 22: "Cresce o número de presos palestinos em greve de fome. O número de presos palestinos em greve de fome duplicou numa semana chegando aos 2.900. A 24 de Agosto, vêmo-la alargar-se: "A famosa cantora árabe Latifa iniciou uma greve de fome em solidariedade com os milhares de palestinos que se encontram prisioneiros nas prisões de Israel." A 26 foi a vez de "Menores palestinos presos juntam-se à greve de fome dos presos em defesa dos seus direitos". Segundo esta mesma notícia os próprios líderes dos presos se teriam oposto a esta decisão dos menores dadas as consequências que uma greve desta natureza poderia ter na saúde das crianças. Infelizmente o jornalista não diz como obteve esta informação mas valeria não só dizê-lo mas sobretudo entrevistar estes líderes pois devem ser dum movimento completamente diferente daqueles que enviam crianças e deficientes mentais com cintos para se rebentarem em Israel ou para a frente dos tanques. A 27, nova tentativa de alento noticioso com o relato da visita de Arun Gandhi, neto de Mahatma Gandhi, a Arafat para manifestar a sua solidariedade aos grevistas.

No dia seguinte começam a surgir notícias de que a greve de fome estava a ser suspensa em algumas cadeias. E na sexta, 3 de Setembro, confirmava-se o óbvio: "Os palestinos suspendem a greve de forme em todas as prisões". É certo que o primeiro parágrafo foi redigido de modo a não quebrar o tom épico dos dias anteriores e assim fomos informados que "A greve de fome que estava ser cumprida por milhares de presos palestinos detidos em Israel desde o passado dia 15 de Agosto foi suspensa". Como se percebe ao ler esta mesma notícia, nesta fase apenas 600 presos se mantinham em greve. Arriscavam-se a morrer de fome perante a indiferença geral.

As imagens que o terrorismo tem feito entrar, nas últimas semanas, pela casa de cada um, à hora do jantar, terão certamente feito diminuir muito a disponibilidade para tomar a sério a reivindicação, desses presos, para terem acesso livre a telefones públicos dentro das cadeias e para que sejam eliminados os vidros nos parlatórios das prisões. Quer o verbalizem ou não, todos se perguntam se não será apenas para prepararem mais atentados