quarta-feira, setembro 15, 2004

China-Crescimento Galopante Ou Suicídio Ecológico?

Por FRANCISCA GORJÃO HENRIQUES
Publico, Domingo, 29 de Agosto de 2004

É um dos desafios mais urgentes que o Governo de Pequim tem pela frente: conciliar o seu incrível crescimento económico com a preservação do ambiente: nove das dez cidades mais poluídas do mundo são chinesas.

De acordo com o Banco Mundial, a poluição do ar custa ao país 25 mil milhões de dólares por ano em gastos com a saúde e perda de produtividade.

Vinte e cinco milhões de trabalhadores chineses contactam regularmente com poeiras tóxicas e substâncias perigosas potencialmente mortais, escreve a "National Geographic" de Maio. As cidades com pior qualidade do ar situam-se sobretudo no Norte, onde as poeiras sopradas pelo vento se combinam com os poluentes industriais.

O país continua a depender em 75 por cento do carvão como fonte de energia, libertando cerca de 17 milhões de toneladas de dióxido de enxofre por ano e contribuindo de maneira decisiva para as chuvas ácidas. Apenas um terço das 340 cidades sob controlo ambiental respira ar que cumpre os níveis de qualidade chineses, já de si abaixo das normas da Organização Mundial de Saúde. No interior das casas, acrescenta ainda a "National Geographic", "a poluição ambiente provocada pela combustão de carvão ceifa mais de 700 mil vidas por ano e as doenças respiratórias causam quase um quarto de todas as mortes ocorridas no campo".

Se o ritmo de crescimento se mantiver, dentro de três décadas a China poderá ultrapassar os EUA como maior emissor mundial de gases com efeito de estufa associados ao aquecimento global.

Nos últimos 20 anos, 200 milhões de chineses abandonaram os campos em direcção às cidades, onde a média de rendimentos é três vezes superior. A disparidade está a dar azo à maior migração humana da história: em 2010, quase metade da população chinesa vai estar a viver nos centros urbanos. Nada disto contribui para deter o "boom" da construção que está também a pôr em risco a vida selvagem - mais de metade do cimento produzido no ano passado teve a China como destino.

Para além disso, um relatório do Banco Mundial adianta que a China tem um dos piores níveis mundiais de erosão do solo, cuja causa remonta às políticas agrícolas de Mao Zedong e que foi agravada por anos de seca. O deserto cobre cerca de 25 por cento do país, como resultado da desflorestação e degradação da terra, e de ano para ano vai conquistando centenas de milhar de quilómetros quadrados ao solo arável.

O sector agrícola chinês gasta seis vezes mais água do que o americano. Mas este é um bem escasso. Mais de 75 por cento dos rios chineses são tão poluídos que não conseguem ter peixes, nem ser aproveitados para água potável. E em dois terços das principais cidades existe grave escassez de água limpa e cerca de 700 milhões de pessoas bebem água poluída com resíduos humanos e animais, adianta a "National Geographic". "Para tratar a curto prazo algumas das suas dores de crescimento, o país recorre a novas estações de saneamento básico, ou condutas de gás natural para reduzir a dependência face ao carvão. (...) Mas devido às enormes necessidades existentes, como é o caso da água, a tendência parece continuar a encaminhar-se no sentido de gigantescos projectos de engenharia, como o canal adutor actualmente em construção que desviará parte das águas do Yangtze até mais de 1500 quilómetros para norte, para Pequim e Tianjin. As repercussões ambientais deste ambicioso projecto são ainda impossíveis de conhecer".

Cada vez mais, os chineses começam a abandonar formas de deslocação ecológicas, como a bicicleta. Só em Pequim, há mais mil carros a circular a cada dia que passa, adianta a BBC. O carro tornou-se num símbolo de estatuto social.

No ano passado, os chineses utilizaram mais 1,8 milhões de viaturas nas suas estradas, elevando o parque automóvel para mais de dez milhões de veículos. "À taxa de crescimento actual [75 por cento num ano], este número poderá duplicar em cada três ou quatro anos", escrevia a "National Geographic". "Se a propriedade de automóveis alguma vez se aproximasse dos níveis dos EUA, haveria cerca de 600 milhões de viaturas nas estradas da China, mais do que o total de veículos hoje existente no planeta".

Começou a ser necessário melhorar as estradas. Existem actualmente mais de 15 mil projectos de construção de auto-estradas em marcha, o que se traduz em 162 mil quilómetros de estrada no país: o suficiente para dar a volta ao mundo quatro vezes, avançava o "The New York Times" de 4 de Julho.

Nos últimos 20 anos, Pequim tem vindo a tomar alguma consciência dos problemas ecológicos. Criaram-se instituições, aplicaram-se leis e desenvolveram-se programas. No fim dos anos 80 foi criada a Agência Nacional de Protecção Ambiental, em 80 foi aprovada legislação para tentar controlar os danos da poluição industrial. E o regime também permitiu o aparecimento de organizações não governamentais (ONG) que tomaram para si os combates ecológicos. Em 1993, apareceu a primeira ONG ligada à questão ambiental; doze anos depois, existem cerca de 230 mil organizações do género.