quarta-feira, setembro 15, 2004

China - O País em que se tornou

Por FRANCISCA GORJÃO HENRIQUES
Público, Sábado, 28 de Agosto de 2004

A FÁBRICA DO MUNDO

s analistas gostam de recorrer a metáforas para descrever o comportamento da economia chinesa - e a verdade é que elas não lhes faltam: balístico, sísmico, meteórico... Não é para menos, tendo em conta que no ano passado o crescimento se cifrou em 9,1 por cento (e o número foi de 9,8 no primeiro trimestre deste ano). Tornou-se imperativo travar este "boom" e todos esperam agora que o Governo de Pequim tenha meios para amortecer a queda (a começar pelas próprias autoridades chinesas). Os dados estatísticos deixam assustados os Estados Unidos, ao ponto de uma comissão do Congresso ter praticamente apelado à guerra comercial com a China.

Há sinais de que as medidas de desaceleração tomadas pelo Governo - como restrições aos empréstimos bancários e aos investimentos em fábricas - estão a surtir efeito. A produção industrial em Maio subiu 17,5 por cento, abaixo dos 19,1 por cento de Abril. E o investimento em infra-estruturas - como estradas, fábricas de aço, ou pontes, que estão a tornar a China no maior estaleiro do mundo - aumentou 18,3 em Maio, quando no mês anterior rondava os 35 por cento. O aumento do investimento causou faltas de energia, saturou a rede de transportes, fez crescer a inflação - em Maio, os bens de consumo subiram 4,4 por cento em relação ao ano anterior.

A 21 de Junho, o primeiro-ministro, Wen Jiabao, assegurou que a economia conseguirá uma "aterragem branda" sem causar danos aos vizinhos asiáticos. A meta é que o número final de 2004 seja de sete por cento, um ritmo mais sustentável. O Fundo Monetário Internacional desconfia e ainda esta semana alertou que "uma aterragem branda ainda não está garantida".

Porque é que o país se tornou tão perigosamente competitivo? Principalmente porque consegue produzir a custos baixíssimos, tem altos índices de produtividade e concede um acesso fácil ao financiamento. Fala-se na revolução industrial chinesa, e Stephen Green, do Royal Institute of International Affairs, em Londres, diz que ela tornou o país "a fábrica do mundo". Como foi isto? "Principalmente com um custo baixíssimo da mão-de-obra", diz o analista ao PÚBLICO. Para além de barata, a mão-de-obra chinesa é extremamente ordeira e competente.

O milagre económico começou por tornar a China no maior produtor mundial de brinquedos, sapatos, vestuário... Agora, é já quem mais produz produtos electrónicos, como televisões, DVD's e telemóveis. Começa a entrar no sector da alta tecnologia. "Nenhum país alguma vez escalou tão rapidamente todos os degraus do desenvolvimento económico", sentenciou o "The New York Times".

Para alimentar esta economia em rápido crescimento, e com mais 11 milhões de pessoas a cada ano que passa, o país mostra uma avidez ilimitada por matérias-primas. A China tornou-se o segundo maior consumidor de combustível do mundo, ultrapassando o Japão, com um aumento da procura de 30 por cento em 2003 (o que tem ajudado à subida dos preços do petróleo).

A China aumentou também substancialmente a procura de alimentos, em especial produtos agrícolas. Subiram imenso as importações de soja (cabia-lhe 11 por cento do consumo mundial em 1997 e no ano passado já era de 19 por cento), mas principalmente agitou o mercado do trigo (em menos de um ano, passou da importação de menos de 80 mil toneladas para 1,4 milhões, de tal forma que a americana Kellogg's, líder dos cereais de pequeno-almoço, foi obrigada a rever os seus preços).

Em termos globais, a China tornou-se um país importador de produtos agrícolas, o que é preocupante para os seus líderes. Há as razões estratégicas, mas também as históricas, já que os seus dirigentes têm bem presentes as grandes fomes por que o país passou nas décadas de 1950 e 1960.

"São os primeiros abalos antes do sismo", escreveu Lester Brown, um economista especializado em agricultura, num artigo publicado pelo Earth Policy Institute. A degradação do ambiente na China, falta de água para irrigação e rápido crescimento urbano, reduziram tragicamente a superfície cultivável, e o país deve por isso recorrer maciçamente às importações, numa altura em que os "stocks" existentes são já reduzidos - os níveis mais baixos dos últimos 30 anos.

"A China é o primeiro grande produtor de cereais onde os aspectos ambientais e económicos se combinaram para reverter o histórico aumento da produção. Este declínio nas colheitas cerealíferas num país com mais de um quinto da população mundial vai afectar-nos a todos". E acrescenta: "Isto significa que o excedente da produção de cereais e comida barata da última metade do século pode brevemente passar à história. Um aumento dos preços dos produtos alimentares poderá tornar-se um aspecto permanente da paisagem económica".

"Os EUA e as economias mundiais devem todos estar preocupados com o impacto do crescimento económico chinês na inflação global", diz ao PÚBLICO Lawrence Reardon, coordenador dos Estudos Asiáticos da Universidade de New Hempshire. "O actual preço das matérias-primas tem sido exacerbado pela procura continuada dos consumidores chineses. Cada vez mais, os chineses procuram carros em vez de bicicletas, erguem apartamentos de luxo em vez de casas de um piso. Ao mesmo tempo que o melhoramento da economia urbana do litoral tem tido um impacto benéfico na economia chinesa, tem também levado a uma procura cada vez maior dos bens de consumo globais".

O problema, adianta Reardon, tenderá a agravar-se com o crescimento da actual "classe média" chinesa, calculada em cem milhões de pessoas. "Apenas uma pequena percentagem da população está a beneficiar do aumento rápido no nível de vida. À medida que o crescimento alastra ao interior e Oeste, a economia global estará sob ainda mais pressão para fornecer bens e materiais. Ao mesmo tempo que isto é uma oportunidade para os negociantes internacionais, colocará grande pressão em todos os mercados globais no futuro".