quarta-feira, setembro 15, 2004

China-Os Receios Económicos e Militares dos EUA

Público, Domingo, 29 de Agosto de 2004

Combater a hegemonia americana é um dos objectivos declarados de Pequim, reafirmado com o "acordo de parceria" que assinou, em Outubro, com a Associação dos Países do Sudeste Asiático (ASEAN). E a verdade é que será cada vez mais difícil para Washington ignorar que a China é uma potência regional em ascensão. O país não está apenas a tornar-se num gigante económico.

"O aumento do poder económico chinês está a permitir à China modernizar o seu Exército, e assim criar uma defesa nacional mais forte", disse ao PÚBLICO Lawrence Reardon, coordenador dos Estudos Asiáticos da Universidade de New Hempshire. "Isto vai complicar as questões ligadas a Taiwan, que está cada vez mais a tomar posições políticas mais independentes".

Nesse caso, a Administração norte-americana ficaria em mãos com um problema difícil de resolver. "Ao mesmo tempo que os EUA não apoiam a política 'duas Chinas' [ou seja, a independência da antiga Formosa], também não quer que nenhum dos lados use meios militares para resolver a questão da reunificação", continua Reardon. Um relatório do Pentágono publicado em Maio afirma que a concentração militar chinesa na preparação de um conflito com Taiwan "lança uma sombra" na política declarada de procurar uma reunificação pacífica com a ilha, considerada uma província rebelde desde que foi ocupada pelos nacionalistas.

A expressão "ascensão pacífica", usada por Pequim para caracterizar a sua posição geopolítica, pode ser lida como uma ameaça encapuçada, observou à "Economist" William Callahan, da Durham University, na Grã-Bretanha. Ou seja, se o mundo não reconhecer este novo estatuto, assistirá ao ressurgimento do nacionalismo chinês.

E talvez isso aconteça mais cedo do que se pensa. James Kelly, o vice-secretário de estado americano encarregue da região, disse no mês passado que em algumas áreas a China está a ameaçar o "status quo" "agressivamente". Mas, por enquanto, sem ser de uma forma directa. Tenta evitar qualquer confronto com os EUA, apesar das divergências sobre Taiwan e os direitos humanos - pois sabe que isso não seria benéfico do ponto de vista económico.

Apelo a uma guerra comercial

No relatório anual apresentado ao Congresso norte-americano a 15 de Junho, o líder da comissão para a revisão das relações económicas China-EUA, Roger Robinson, descreveu a situação desta forma: "Vários aspectos das relações entre a China e os Estados Unidos têm implicações negativas para os nossos interesses económicos e de segurança nacional a longo prazo. Por isso, as políticas americanas nestas áreas precisam de atenção urgente e algumas correcções".

O relatório conclui que o défice no comércio americano com a China é preocupante porque contribuiu para a diminuição de postos de trabalho; a indústria é fundamental para a segurança económica e nacional; o défice teve impactos negativos também noutros sectores. "Em resposta, a comissão praticamente apelou a uma guerra de comércio com a China", escreve o "Asia Times".

Há quem considere que Washington deve refrear os seus anseios. "Se a China estivesse a ir de crise para crise, seria muitíssimo mais preocupante para os EUA, porque isso significaria que uma nação nuclear estava instável. O crescimento chinês é basicamente positivo para os EUA", comentou ao PÚBLICO Dwight Perkins, do departamento de Economia da Universidade de Harvard. "Algumas indústrias e sindicatos protestam com a competição da China, mas a maior parte destas indústrias abandonaram os EUA há muito tempo. A China está a competir com outros países asiáticos (em electrónica, sapatos, vestuário), e não com os EUA".

"Politicamente, os Estados Unidos estão a aperceber-se, lentamente, que a China pós-OMC se está a tornar num grande jogador mundial", diz por seu lado Lawrence Reardon, coordenador dos Estudos Asiáticos da Universidade de New Hempshire. "Está a aperceber-se que para coordenar os assuntos económicos mundiais deve olhar cada vez mais para os chineses. É por isso que estão a debater a entrada da China no G8 [o grupo dos países mais industrializados]", afirmou ao PÚBLICO. "A China também não tem medo de usar a sua posição na OMC apara atacar o comércio americano e as barreiras económicas, e recentemente juntar-se a outros países em desenvolvimento para bloquear a ronda de Doha. Ou seja, os EUA percebem que têm de cooperar com este novo gigante económico emergente".