quarta-feira, setembro 15, 2004

China-Têxteis Portugueses Temem Invasão

Publico, Sábado, 28 de Agosto de 2004

Para falar do medo dos industriais portugueses face aos produtos "made in China", Paulo Nunes de Almeida, presidente da Associação Têxtil e do Vestuário de Portugal (ATP), dá um exemplo americano: em 2001, os chineses faziam entrar nos EUA 12 milhões de pares de meias, a nove dólares a dúzia; em 2003 importaram 264 milhões de pares, a quatro dólares a dúzia.

Como muitos empresários, Nunes de Almeida defende que as quotas impostas aos produtos chineses se devem estender até 2007, em vez de serem levantadas já a 31 de Dezembro, como está previsto pela Organização Mundial do Comércio. "Associações americanas pediram medidas de protecção, as chamadas cláusulas de salvaguarda", explica ao PÚBLICO. "A situação já é má, sem as quotas passará a ser catastrófica".

As quotas de importação de têxteis e de vestuário foram impostas há dez anos "para dar tempo aos produtores de se adaptarem", observou num editorial em 26 de Julho o "Financial Times". "Mas muitos países, ricos ou pobres, não se conseguiram preparar para o fim do sistema e continuaram como se elas fossem durar para sempre".

Em Portugal, os industriais admitem que a entrada da China no mercado pode ameaçar parte dos 200 mil empregos no sector. Na União Europeia, a presença chinesa no sector tem crescido a um ritmo vertiginoso. Em 2003, a China foi o principal fornecedor da UE, com uma quota de 17,5 por cento - mais oito por cento do que em 2002 e mais 156 por cento face a 1995.

O presidente da ATP diz que em Portugal a "ameaça" dos têxteis chineses também não tem parado de crescer. "A têxtil portuguesa é fundamentalmente exportadora" e dificilmente conseguirá vender noutros países a um preço mais baixo do que os chineses. E "no mercado interno, existe também concorrência na venda ao público." É no vestuário "que se sente mais a pressão", explica. "Só os produtos de nicho de mercado é que fogem a esta concorrência. E, mesmo assim, já tendem a ser afectados".

Os industriais portugueses não se queixam apenas dos preços: dizem que estão a travar uma guerra com armas desiguais. "As lojas chinesas operam em economia paralela. Temos pedido investigações, mas eles estão sempre a abrir lojas em sítios diferentes e não conseguimos controlar isso", diz o responsável da ATP.

"Os chineses são intocáveis", insiste Fernanda Santos, secretária-geral da Associação Nacional de Empresas Têxteis. "Vendem sem passar factura, não há controlo de preços, as autoridades têm conhecimento disso e não fazem nada."

A nível global, a China é acusada de desvalorizar a moeda e conceder subsídios estatais para que os seus produtos tenham preços mais baixos. Práticas como estas permitiram uma queda de 75 por cento no preço dos têxteis, acusa a Declaração de Istambul, uma iniciativa das associações têxteis e de vestuário norte-americana, turca e mexicana para promover o adiamento da liberalização do comércio têxtil (e que conta já com 70 associações de 38 países, incluindo Portugal).

Nunes de Almeida não espera que a União Europeia possa ser uma tábua de salvação: "A UE nunca foi confrontada com pedidos de imposição de quotas, com o accionar de cláusulas de salvaguarda, só com processos anti-"dumping", cujo objectivo é impedir a importação, independentemente da quantidade. "O processo [de accionar cláusulas de salvaguarda] é muito longo, depende da conjuntura política e dos interesses dos Estados membros que muitas vezes não são consensuais". A UE importa 30 vezes mais do que exporta para a China. "A Europa não vai estar interessada em tomar acções contra a China", conclui.

"Não queremos medidas proteccionistas. Queremos regras para quem não cumpre regras", declarou em finais de Junho à agência Lusa José Robalo, presidente da Federação da Indústria Têxtil e do Vestuário de Portugal. E deixou um número à medida de todos estes avisos: o impacto da entrada da China na economia mundial e no mercado têxtil pode criar 30 milhões de desempregados em todo o mundo.

Quando olha o futuro, o "Financial Times" tem uma visão menos negra: "no geral, a liberalização vai beneficiar a economia global. Os consumidores ocidentais vão pagar menos pelas roupas, enquanto os fornecedores eficientes no mundo em desenvolvimento ficarão livres para receber as recompensas das suas vantagens competitivas, gerando prosperidade. Ganhos e perdas serão equitativamente partilhados"