quarta-feira, setembro 15, 2004

A Graça das Colunistas

Por HELENA MATOS
Publico, Sábado, 28 de Agosto de 2004

Ando há anos para fazer uma crónica sobre a princesa Diana. Esta minha intenção arreigou-se no dia em que fui arrancada da cama e das férias por um telefonema que me avisava: "A princesa Diana morreu." Vivia-se naquele Verão o empolgante romance entre Diana e Dodi sendo para mim causa de enorme assombro que o mesmo estatuto de história de amor não fosse concedido a Carlos a Camila.

A resposta parece-me hoje óbvia: Diana comportava-se como se espera que as mulheres se comportem e Camila não. Diana aparentava um ar frágil, era bonita, quando entrevistada dizia muitas vezes que "sim" com a cabeça... características que em muito a distinguiam do ar arrogante de Camila. São exactamente essas características da defunta princesa de Gales que encontrei referidas como as mais apreciadas pelos directores de recursos humanos na hora de contratarem mulheres. De acordo com um estudo do British Psychological Society, as raparigas que tiverem uma atitude modesta, que evidenciem alguma timidez, olhando para o chão, têm muito mais possibilidades de serem contratadas do que aquelas que olham os entrevistadores de frente e demonstram confiança nas suas respostas.

Lembrei-me novamente de Diana e Camila ao ler este estudo. E lembrei-me mais uma vez delas ao ser confrontada com a polémica agora instalada no "Diário de Notícias" a propósito dum texto de opinião da jornalista Fernanda Câncio. Este texto deveria ter sido publicado nas páginas que o director daquele diário definiu como "páginas 'light', adequadas a esta época do ano". Não deixa de ser curioso que estando os jornais cheios de homens enfadonhos, que escrevem textos ainda mais enfadonhos do que eles, se venha pedir às mulheres que façam de "majorettes", animando os leitores q.b. para enfrentarem as sisudas colunas assinadas pelos doutos senhores. De alguma forma, a cruz das mulheres nos jornais é que, tal como aconteceu com a Virgem Maria, continuam a dizer-lhes: "Bendita sejas tu cheia de graça." Por isso, quando as mulheres mandam a graça às malvas, os homens não se zangam, amuam. Sentem-se desiludidos por aquelas que eles escolheram não estarem à altura daquilo que eles sonharam para elas. Assim, à Fernanda Câncio e a tantas outras mulheres que deviam ter páginas de opinião e não têm, recomendo vivamente um conjunto de regras para serem colunistas cheias de graça.

O primeiro item passa por arranjar uma mulher-a-dias. A mulher-a-dias desempenha um papel nas crónicas das mulheres que só tem equivalente no coro das tragédias gregas. A figura da mulher-a-dias permite até distinguir as colunistas mais à direita daquelas mais à esquerda: à direita, as empregadas são, em geral, velhíssimas, já um pouco alquebradas das costas, e estão ao serviço da família desde a festa de pedido das mães das ditas colunistas. Acresce que estas empregadas não fazem nada, mas produzem aforismos como se tivessem saído de um romance de Agustina. Mais à esquerda, temos umas mulheraças que, duas a três vezes por semana, enquanto arredam um móvel ou dão um jeito na cozinha, se põem a jeito para criar o inevitável cómico de situação: "Ó dona Céu o que aconteceu àquelas fotografias que aqui estavam?", pergunta a colunista já a entrar em pânico. Indiferente, a dita mulher a dias responde das profundezas do reino do Sonasol Verde: "O quê? Está a falar daquelas fotografias em que a 'sôdoutora' estava com aquele albornoz que não se dava passado, ao lado daquele homem que, Deus me livre, parece ainda mais parvo que o meu Augusto?! Ora foram para o lixo que quem visse aquilo até havia de dizer que cá em casa não há ferro." Este diálogo serve de introdução mais que óbvia a considerandos sobre aquele casaco japonês, aquele "luxo burguês" por que a autora perdera a cabeça e vestira naquele dia em que, após três horas de conversa, se deixara fotografar naquele velho bar da Irlanda, ao lado daquele escritor de fama mundial que a autora trata tu cá tu lá, mas que a dona Céu, imagine-se!, desconhece quem seja.

Em segundo lugar há que arranjar um homem. Marido, namorado... qualquer coisa. Na verdade, não interessa nada o que ele faz. Só interessa o que ele não faz. É a cozinha que fica à beira do caos na noite em que ele resolveu fazer o jantar, as crianças vestidas de palhaço na manhã em que ele as arranjou sozinho para irem para a escola... Esta desastrada figura masculina, inoperante no mundo e presume-se que funcional na cama e no comando da televisão, é em alguns casos devidamente complementada com o seu simétrico, ou seja aquele fantástico amigo que tem a casa sempre um espanto, que sabe analisar as subtis diferenças entre um "soutien" Dim e um La Perla... enfim, aquele amigo "gay". Caso a Fernanda Câncio tivesse descrito a sua ida a uma sapataria primeiro com um homem do tipo A e depois do tipo B estava a rainha de Verão das colunistas, em vez de andar com textos para cá e para lá no conselho de redacção.

Umas crianças também dão muito jeito neste universo. Não só compõem a coisa, como permitem que das suas boquinhas saiam verdades óbvias, tão óbvias quanto as das mulheres-a-dias, só que mais poéticas. Acresce que, quando pequenas, as crianças propiciam sempre aqueles relatos de chuchas a saírem das malas, em vez da agenda numa reunião importantíssima, para já não falar das descrições sobre as saídas apocalípticas de casas todas as manhãs - a propósito quem terá sido a casta alma que concebeu o anúncio de umas alegadas salsichas afrodisíacas? Teremos de convir que, com tantas crianças e com tal dieta, não me parece que haja libido que sobreviva. Ademais sendo as salsichas um alimento tão em conta, não se percebe por que não lhes sobra dinheiro para a pílula. Mas esta é uma questão que deixo para ser resolvida pela drª Liv Ulva, também ela personagem de Verão deste jornal e que, coitada, tem dias!

Outra possibilidade para as mulheres candidatas a colunistas é optarem pela linha sonsa-espiritual. À força de tanto pregarem a harmonia entre o casal; o casal e os filhos; o casal, os filhos, os avós e os vizinhos (inclusive os do 9º andar que não pagam condomínio porque dizem não usar elevador já que se teletransportam pela força da mente)... elas mesmas ganham uma espécie de aura. E não há nada mais embaraçoso para um homem que enfrentar uma mulher destas. Mesmo os mais ímpios parecem umas crianças com medo das bruxas só de pensarem na possibilidade de as criaturas lhes começarem a dizer que eles têm o "ying" e o "yang" desarranjados; que rejeitam as maravilhas clarividentes que elas escrevem simplesmente porque trabalham em escritórios cheios de energias contraditórias e que aquilo que eles estão a precisar é de reencontrar-se.

Fernanda, para a próxima que te derem uma coluna pensa nos meus conselhos e se alguma coisa eles não tiverem previsto pergunta-te o que teria feito a princesa Diana em tais circunstâncias. E, entretanto, não te esqueças, aparenta um ar frágil, diz muitas vezes que "sim" com a cabeça e quando tirares os olhos do chão que seja para falares das emoções.