quarta-feira, setembro 15, 2004

O Novo Dispositivo Militar dos EUA no Mundo

Por JOSÉ LOUREIRO DOS SANTOS
Publico, Segunda-feira, 23 de Agosto de 2004

O dispositivo militar anunciado pelo presidente Bush, que fará regressar aos Estados Unidos, na próxima década, cerca de 70.000 militares e 100.000 funcionários civis actualmente posicionados na Europa e na Ásia, começou a ser preparado praticamente desde o início de funções da Administração. Teve um especial impulso com o 11 de Setembro e o seu esboço geral apareceu um ano depois, na sequência da Estratégia Nacional Americana então publicada.

O momento escolhido para o tornar público tem a ver com as eleições presidenciais. O Presidente necessitava de prometer o regresso de tropas à América, mesmo que a prazo dilatado, como contraponto ao facto de ser impossível retirar do Iraque um número significativo dos 150.000 militares aí destacados, cujo regresso não parece possível a tempo de produzir efeitos eleitorais que lhe sejam benéficos.

Os conceitos que justificam este desdobramento de forças assentam basicamente na alteração do quadro das ameaças que existiam durante a guerra-fria, por um lado, e na progressiva produção de novos equipamentos militares de mobilidade e flexibilidade crescentes, que a evolução tecnológica dos últimos anos proporcionou, por outro lado.

Derrotada a União Soviética, os EUA, como única superpotência com capacidade de intervenção global de natureza decisiva, precisa de se posicionar para consolidar o estatuto que alcançou, conforme, aliás, consta da sua doutrina estratégica: impedir que qualquer outra potência ultrapasse ou sequer iguale o poder americano.

Os elementos cruciais da ordem internacional que emergiram com o fim da guerra-fria são: 1) a China perfila-se como o actor internacional susceptível de, no futuro, vir a competir com a superpotência; 2) o petróleo é um recurso natural do maior interesse no domínio das relações estratégicas e, provavelmente, continuará a sê-lo durante os próximos 20/30 anos, se não o for ainda por mais tempo; 3) a combinação de estados falhados, terrorismo fundamentalista de base islamista e proliferação de armas de destruição maciça constitui uma mistura muito perigosa, que ameaça a estabilidade e a paz, e põe em perigo as sociedades modernas cujos valores têm por base o respeito pelos direitos humanos.

Daqui se deduzem os principais objectivos que os Estados Unidos poderão ter de atribuir às suas forças armadas: 1) estarem em condições de conter a China e de derrotá-la, se necessário; 2) controlar os fluxos de petróleo; 3) serem capazes de contribuir para estabilizar os estados falhados, combater o terrorismo (redes e estados apoiantes), e para evitar a proliferação de meios de destruição maciça (equipamentos e tecnologias).

Neste contexto, ganham importância: Ásia Central (petróleo e posicionamento em relação à China); Ásia/Pacífico (contenção da China e proliferação de ADM); Paquistão e Índia (contenção da China, combate ao terrorismo e proliferação de ADM); região do Golfo (terrorismo e petróleo); África do Norte (terrorismo), Sahel e África Oriental (estados falhados - terrorismo), África Ocidental (estados falhados - terrorismo e petróleo); América Central (estados falhados - terrorismo).

A Europa perde importância militar para a superpotência, já que continua irrelevante deste ponto de vista. No continente europeu, os principais ingredientes para a estabilidade são de natureza económica e política, estando ao seu alcance dar um importante contributo para fazer face a eventuais focos que a perturbem, se investir minimamente na defesa, a despeito de precisar de apoio militar americano. Nesta área, a sua dependência dos EUA continuará esmagadora. Não é previsível vir a dispor proximamente de forças capazes de fazer face a ameaças de média ou elevada intensidade. Assim, a NATO permanecerá no coma profundo em que se encontra, afinal sem serventia visível...

Para manter a Rússia sem capacidade de constituir um desafio à América, é suficiente a esta disputar-lhe influência no "estrangeiro próximo", o que pode ser feito na sequência das medidas tomadas para atingir os objectivos principais. De caminho, e através de manobras essencialmente políticas, promover-se-á a divisão política da Europa

Face às áreas prioritárias de potencial emprego de forças, convirá deslocar as bases europeias para Leste, posicionar unidades na Ásia Central, colocar e manter forças na região do Golfo, mantê-las na Ásia, e estar em condições de actuar nas regiões onde se revelem estados falhados e focos de agitação e instabilidade.

O domínio do mar e do ar e o controlo do espaço permitem à América obter informação permanentemente e deslocar forças para qualquer destino, sem resistência. A elevada mobilidade estratégica de que dispõe (poderosas aeronaves e unidades navais de grande volume) confere-lhe grande capacidade de movimentação de forças terrestres aptas para qualquer tipo de combate. A melhoria das blindagens (maior resistência à penetração e menor peso dos materiais) reforça as possibilidades de rápido deslocamento.

O ideal seria que todas as forças se encontrassem estacionadas nos Estados Unidos e houvesse possibilidade de as transportar em tempo para os locais de emprego. Esta situação ainda não é totalmente possível, mas já o é em grande parte.

O sistema que será implantado traduz-se no estacionamento das unidades mãe (divisões) no continente, destacando-as quando necessário, por períodos curtos de combate e/ou de treino (seis meses a um ano). As bases no ultramar perderão o peso e a complexidade que actualmente possuem, destinadas a comissões prolongadas, em companhia dos familiares, e assumirão um modelo de estruturas ligeiras, onde residirão, temporariamente, apenas os militares. De preferência, serão destacadas permanentemente apenas unidades de escalão brigada, muito móveis e ligeiras, dotadas de viaturas "stryker".

Razões eleitorais encontram-se na base do anúncio deste novo dispositivo, e também na resposta que lhe foi dada prontamente pelos democratas e por meios de comunicação social que lhes são afectos. Wesley Clark e o "New York Times" consideram-no um verdadeiro erro estratégico, o que parece muito forçado. Baseiam-se no facto de ele, supostamente, contribuir para o afastamento da América dos seus aliados tradicionais, quando é mais necessário reforçar as alianças, tanto na Europa como na Ásia.

Esta dedução é muito discutível. Não só porque o plano foi pormenorizada e longamente tratado entre a Administração americana e os países aliados de onde são retiradas forças (caso da Alemanha e da Coreia do Sul, os mais afectados), mas ainda porque elas fazem mais falta em outras áreas, mesmo para a segurança dos países de onde irão sair. Por outro lado, os movimentos distribuir-se-ão por uma década e não ocorrerão imediatamente, não se verificarão retiradas significativas do Japão e da área de Taiwan, a reorganização na península coreana estava há muito prevista, e é a altura dos europeus e japoneses voltarem a investir no domínio da defesa, até para diminuírem a sua pesada dependência das forças norte-americanas. Note-se ainda que as opiniões públicas (por vezes os governos) dos países de onde são tiradas unidades se têm manifestado contra a sua presença. Pelo contrário, são desejadas pelos os estados que as vão receber.

O plano agora apresentado pelo Presidente parece ter sido cuidadosamente estudado e preparado, e corresponde, a meu ver, às necessidades estratégicas dos inícios do século XXI. É certo que foi gizado em função dos interesses norte-americanos, como qualquer outro Estado o faria em circunstâncias parecidas. Mas, presentemente, a estratégia que o sustenta é do interesse dos países democráticos. Isto desde que estes, à sua medida, reajam - desenvolvendo capacidades militares, afim de colaborarem no esforço necessário e, simultaneamente, terem capacidade para influenciar o comportamento dos norte-americanos. E não se limitem a lamentar-se e a queixar-se do imperialismo (real, mas, se adequadamente correspondido, mais vantajoso do que desfavorável), em vez de avançarem para uma dinâmica de maior equilíbrio militar com o poder americano, única forma de recolher dele vantagens e não somente sofrer inconvenientes.