quarta-feira, setembro 15, 2004

O Roubo da Arte

Por AUGUSTO M. SEABRA
Publico, Domingo, 29 de Agosto de 2004

Os profetas da desgraça vem constantemente descrever-nos um estado de decrepitude intelectual, e nas páginas do PÙBLICO sucedem-se as jeremíadas. Contudo há tendências contraditórias. Com uma "mass/ificação" de patamares mínimos coexiste também um "desejo de cultura" que, por uma via mediatizada que seja, não deixa de ser sintomática, de um "desejo" que seja. Malraux introduziu-nos o conceito de "museu imaginário"; o leitor do PÚBLICO que eventualmente vá coleccionando os volumes da Taschen não buscará também a possibilidade de constituição de um "museu imaginário"?

Não denegando o que nessas modalidades de aquisição mediático-cultural exista de sinais tão ostensivos quanto superficiais, a reprodução das obras de arte não deixa de também se prender com conceitos como os de "colecção" e "museu". E à perda da "aura" da obra de arte, do seu estatuto único num "aqui e agora", que Walter Benjamim fazia decorrer da reprodução técnica, não deixou de corresponder um outro tipo de "aura", ou antes nomeada, em que aos mecanismos tradicionais de apreciação de uma obra se sucedem as múltiplas reproduções e outras incidências mediáticas. Por exemplo, de "O Grito" de Munch.

Poucos quadros, mesmo muito poucos, são mais reconhecíveis, e por isso de muito poucos o roubo teria um tal eco, mesmo sabendo-se que o objecto do furto foi uma das quatro versões da obra; como escreveu o autor da notícia no "New York Times", "se algum quadro pudesse expressar a sua opinião sobre o facto de ser roubado no preciso momento em que o está a ser, esse quadro é certamente 'O Grito'".

A noção de que se trata de uma obra inegociável mesmo no mercado ilícito torna o caso ainda mais problemático e eventualmente inquietante. Num paradoxo semântico, será a possibilidade de os assaltantes serem "amadores", e afinal não "amarem", não terem "o amor da arte", que agudiza as inquietações; dando-se conta da impossibilidade de obterem benefícios danificarão ou destruição a pintura?

Será próprio do estatuto do objecto roubado que o desaparecimento de obras reconhecivelmente do cânone artístico engendre um "mistério". Poderíamos supor um Thomas Crown, como no espantoso filme de John McTiernan, engendrar o "desvio" para a sua colecção privada. Efabulamos mesmo, segundo nos esclarecem os especialistas. Uma outra versão de "O Grito" já tendo sido roubada em 1994, esse é o ponto de partida de um livro de próxima publicação, "The Rescue Artist: A True Story of Art, Thieves and the Hunt for a Missing Masterpiece". O seu autor, Edward Dolnick, traçava um panorama no "NYT" de terça-feira: "No alinhamento dos grandes museus do mundo, o dos quadros desaparecidos seria um dos primeiros. Este museu imaginário [pois!], cuja colecção consistiria apenas de pinturas e quadros roubados, seria tão vasto como o Louvre. Os seus tesouros incluiriam 541 Picassos, 174 Rembrandts e 209 Renoirs. Haveria três de Vermeer, e de Caravaggio, e de Van Eyck, e de Cézanne"! Mas não estarão alguns em mãos mesmo "amadoras", de "amor da arte"?

Colecções, museus, "amor da arte" - como estes três termos se conjugam! Houve um itinerário histórico, como o que Krystof Pomian traçou em "Collectionneurs, amateurs et curieux - Paris, Venise, XVIe-XVIIIe siècle". Colecções reais, patrícias, mas também académicas; "museu - estúdio, ou biblioteca, também um colégio um lugar público para a frequência de cavalheiros educados" ("New World of Words" - 1706), adquiriu o seu sentido presente depois da abertura do Ashmoleum Museum de Oxford, em 1683. Mas enquanto instituição democrática porque aberta, o entendimento remonta à abertura do British Museum, em 1753, e do Louvre, em 1793, especialmente emblemática esta porque, na tormenta revolucionária, visou tornar bem público as anteriores colecções reais e aristocráticas.

Talvez que quase quarenta passados, com todo o vendaval suscitado pelas indústrias culturais, o estatuto dos museus como local primordial de cultura já não seja o mesmo que Pierre Bourdieu e Alain Darbel analisaram em "L'Amour de l'art: les musées d'art européens et leur public"; e no entanto, lembremo-nos, mais prosaicamente, como são ainda referências do "turismo cultural", "locais de visita", quiçá "visitação" ou "peregrinação", para supormos que, ainda assim...

O estatuto impele-nos à reverência - ali, nos museus, estão meticulosamente preservados bens para o mais alto usufruto "espiritual" da humanidade. Que esses bens hoje em dia sejam meticulosamente preservados, e quantas vezes a níveis de dedicação excepcionais, é uma ordem das coisas; como foram obtidos, é de outra ordem, e história por vezes bem mais tortuosa. Quantas vezes já teremos contemplado em museus obras que foram usurpadas, roubadas?

Receio bem que a estratégia oficial da Grécia tenha redundado num monumental fracasso. Explico: é a Casa da Música lá do sítio. Para coincidir com os Jogos Olímpicos, foi decidida a edificação do novo Museu da Acrópole, no sopé da dita. O projecto já arrancou tarde, em 2001, para poder estar concretizado nesta altura, e ainda foi objecto de disputas judiciais e políticas. A razão de ser - e donde para já o fracasso - era ampliar nesta altura dos Jogos a pressão internacional para que a Grã-Bretanha restitua o Friso do Parthénon, que Lord Elgin adquiriu aos turcos em 1806 e que está no British. È o caso emblemático.

Longe nos levará a consideração de quanto do património museológico europeu é fruto dos saques coloniais, e de outros. Só a restituição de bens confiscados aos judeus pelo nazismos ou dos desviados pelos soviéticos tem conhecido mais regular provimento. As feridas coloniais são bem mais difíceis de sarar, sendo também que uma restituição não deixa de poder ser nalguns casos falaciosa, pois que o quadro cultural, antropológico, societal, a que obras foram arrancadas, também já não existe. Mas o Friso do Parthénon?!

O que não deixará também de ser sintomático é a facilidade com que o argumento da usurpação e até do "colonialismo" surge nos debates; agora o crítico Werner Spries lançou no "Frankfurter Allgemeine Zeitung" um feroz ataque à exposição "MoMa in Berlin", acusando o museu nova-iorquino de querer minimizar a influência de artistas europeus na pintura americana. "Colonialismo", mesmo?

O inquietante é que os ladrões do "Grito" nem sejam "amadores de arte". Porque a usurpação, e quantas vezes o roubo, reconheçamo-lo, é também parte da história do "amor da arte".