quarta-feira, setembro 15, 2004

Paris, 1944 - 01

A Insurreição Que Libertou "a Cidade Mais Bela do Mundo"
Por ANA NAVARRO PEDRO, Paris
Publico, Quarta-feira, 25 de Agosto de 2004

Nas suas "Memórias de Guerra", o general Charles de Gaulle escreveu: "Paris, desde há mais de quatro anos, que era o remorso do mundo livre". Era em 1944, e desde Junho de 1940 a capital francesa fora declarada "cidade aberta" pelo ocupante nazi.

Paris caíra sem combater. A França capitulara e Hitler viera à "cidade mais bela do mundo" saborear a vitória. Em Londres, um oficial francês (ainda) desconhecido, Charles de Gaulle, tinha apelado à desobediência e, com a insolência dos grandes homens, afirmara personificar - sozinho, se fosse preciso - a "verdadeira França", a da resistência, oposta à da colaboração e do regime de Vichy. Mas quatro anos vão passar até que a capital francesa comece de novo a sonhar com a liberdade.

O desembarque aliado na Normandia, a 6 de Junho de 1944, é seguido com excitação e angústia na capital. No mês de Agosto, Paris vive os seus dias mais longos. Prostrados com uma vaga de calor, mas exaltados com as notícias dos avanços militares das colunas americanas e britânicas, os parisienses espreitam a faísca que ateará a insurreição da cidade. Que consumirá os sinais de trânsito e os nomes das ruas, reescritos em letras góticas e em alemão pelo ocupante.

Os sinais da derrota não estão longe. Desde 9 de Agosto, o pessoal alemão não militar furta-se à cidade em carros abarrotados até aos tejadilhos com "foie-gras" e garrafas de grandes vinhos. Nos Campos-Elísios, onde os alemães exibiam músculo e botas bem engraxadas durante toda a ocupação, desfilam agora as tropas derrotadas na frente da Normandia. Vão a caminho da Alemanha, sob o olhar dos parisienses vindos todos os dias gozar o espectáculo da humilhação alemã.

O comando militar, confiado ao brutal general Dietrich von Choltitz a 7 de Agosto, multiplica as execuções sumárias de resistentes, mas não consegue manter a ilusão de um ocupante todo-poderoso. O fervor dos parisienses aumenta, esperando uma libertação iminente. No entanto, Paris não é um objectivo estratégico nos planos militares dos aliados. As tropas anglo-americanas previam contornar a capital a norte por Mantes, e a sul pela cidade de Melun. Na realidade, os aliados são hostis a uma sublevação popular em Paris.

Mas o Comité Parisiense de Libertação (CPL), criado pela Resistência, lança desde Julho inúmeros apelos a manifestações patrióticas. Em Agosto, os preparativos da insurreição popular intensificam-se. A 10 de Agosto, as greves começam a paralisar a cidade. A primeira é lançada pelos ferroviários: os carris são arrancados, as locomotivas bloqueadas, e todas as linhas são afectadas. O movimento de greve alastra aos correios e à polícia. A 15, estão criadas as condições para o início da sublevação, preparada na sombra por homens como o comunista Henry Rol-Tanguy, de 36 anos, que tinha a patente de coronel das FFI (Forças Francesas do Interior) ou ainda o gaullista Jacques Chaban-Delmas, que aos 29 anos foi o mais jovem general das Forças Livres do general de Gaulle.

O apelo à mobilização geral dos parisienses foi lançado a 18 de Agosto por Rol-Tanguy. Unidos perante o inimigo, mas rivais no controlo do poder, comunistas e gaullistas começam então uma corrida aos pontos principais da capital, a 19 de Agosto, o "dia D" da insurreição. De revólver em punho, uma centena de polícias à paisana ocupam a Prefeitura sem disparar um único tiro, e hasteiam a bandeira proibida, a da França. "Mas é a revolução!", exclama, ensonado, o prefeito do regime de Vichy, logo substituído por um fiel do general De Gaulle, Charles Luizet.

Ultrapassadas pelos gaullistas na Prefeitura, as FFI investem então o Hôtel de Ville (a Câmara de Paris) com carros a abarrotar de armas. Os combates alastram e os combatentes trocam receitas de cocktails Molotov. Entre os mais valorosos, estarão os espanhóis, republicanos refugiados depois da vitória de Franco, que entendem retribuir à França o gesto de alguns franceses que combateram o fascismo nas Brigadas Internacionais, durante a guerra civil de Espanha.

Os alemães começam a ripostar violentamente pela tarde, e depressa os insurrectos têm falta de munições. Uma trégua é assinada pelo intermédio de um diplomata sueco, Raoul Nordling, mas será pouco respeitada. As tensões causadas na Resistência por esta trégua acabam a 22 de Agosto, quando Rol-Tanguy relança a insurreição.

Paris cobre-se de cartazes apelando: "Todos às barricadas". Velha tradição de todas as revoltas populares da capital francesa, mais de 600 barricadas são levantadas num piscar de olhos, para bloquear a circulação e paralisar as vias de comunicação do inimigo. Von Choltitz recebe ordem de Berlim de combater até ao "último homem". Em Cherbourg, na Normandia, o general de Gaulle tenta convencer o general americano Eisenhower a dar apoio militar à sublevação de Paris. Rol-Tanguy pede socorro às tropas anglo-americanas. E Eisenhower acaba por aceitar modificar os seus planos: o general Leclerc, comandante da 2ª Divisão Blindada (2ªDB) recebe ordem de avançar para Paris com a 4ª Divisão americana em apoio.

A 24 de Agosto, um pequeno destacamento do capitão Dronne entra na capital, em prenúncio à "chegada dos franceses de Leclerc". André Carrel, vice-presidente do CPL, que tem hoje 87 anos, contava recentemente na televisão France2: "Foi uma alegria imensa. Os sinos de Paris começaram a tocar, sabíamos que a vitória não ia tardar. Paris festejava já a libertação, a junção das forças do interior e das forças do exterior, representadas pelo capitão Dronne".

Muitos tiros vão ainda atirar os parisienses por terra, de rastos. Von Choltitz manda ainda fuzilar dezenas de prisioneiros. Mas a hora da capitulação soa para o comando alemão. Sem que Paris seja destruída, ao contrário das ordens de Hitler.

De Gaulle entre em Paris a 25 de Agosto. As suas primeiras palavras ficam marcadas para sempre na história da capital: "Paris ultrajada, Paris prostrada, Paris martirizada, mas Paris libertada".

No dia seguinte, milhões de parisienses desfilam atrás de De Gaulle nos Campos-Elísios. Os habitantes da capital dançam nas ruas e descobrem a música de Glenn Miller.