quarta-feira, setembro 15, 2004

Paris, 1944-03

Eles Têm de Aprender a Ler e a Escrever para Terem Outra Vida"
Por POR ANA CRISTINA PEREIRA (TEXTO) E HUGO CALÇADA (FOTO)
Publico, Quarta-feira, 25 de Agosto de 2004

Não há casas de banho, chuveiros, sequer retrete. Não há água, nem electricidade. Há nortada, lagartos, algumas cobras, ocasionais infestações de ratos e muita areia. Nas dunas de Viana do Castelo, entre pinheiros e eucaliptos, mais de 50 pessoas abrigam-se em tendas de lona ou barracas de madeira ou zinco. "Isto não é jeito de vida!", meneia Celeste Monteiro. "Não é, não é..."

Os olhos verdes de Celeste, belos como se fossem uma pintura, tornam-se errantes. Podiam ilustrar o relatório periódico recentemente apresentado por Portugal na 65ª edição do Comité Para a Eliminação da Discriminação Racial, da Comissão de Direitos Humanos da ONU, que saúda a melhoria das condições de vida dos ciganos, mas mostra preocupação com "as muitas dificuldades enfrentadas por muitos membros dessa comunidade nos campos do trabalho, habitação e educação".

Parece mentira, mas este acampamento progrediu "imenso" por impulso do Rendimento Mínimo Garantido (RMG). A vida já foi pior. Muito pior. Dantes andavam à esmola quase todos.

Não há feirantes nesta miséria acantonada no Lugar das Alminhas, em Viana do Castelo. Nunca houve. "Alguns fazem cestos e mandam as mulheres vender", desfia a matriarca Maria, toda vestida de negro. A sobrevivência garante-se com abonos, pensões de invalidez e RMG. Há uns cinco anos que é assim. Desde que a assistente social Balbina Fernandes foi alertada por uma bebé prematura que deu entrada no centro de saúde local muito mal.

Celeste é ainda jovem. Tem 32 anos, cinco filhos. Recebe 650 euros por mês. Gasta-os em "comida, roupa e calçado para a canalha ir à escola". E há "a cantina, os livros, os cadernos, o gás" e um adulto com graves problemas respiratórios.

À sua frente fervilham, junto a um leitor de cassetes alimentado por uma bateria automóvel, três crianças e um adolescente. O pequeno aparelho solta uma música tradicional cigana e uma menina ergue os braços e enceta uns pezinhos de dança. "Eles têm de aprender a ler e a escrever para terem outra vida", acentua a mãe.

As crianças do acampamento estão todas a estudar. Há seis num infantário e outras seis na escola primária. No ano passado, transitaram nove para o segundo ciclo. E alguns adultos - agora menos - frequentam o ensino recorrente. Não são caso único. O RMG fez com que 44 mil crianças passassem a frequentar a escola e com que 33 mil fossem integradas no sistema nacional de saúde.

"Evidente que os adultos não mudam muito, a aposta tem de ser nas crianças", sublinha Balbina Fernandes, que tratou de integrar esta comunidade no "sistema". Os adultos do acampamento vão desistindo, dizem que "cabeça de grande já não aprende". Balbina Fernandes diz que se impõe "avaliar os métodos e as estratégias do ensino recorrente", que considera "desajustados".

O sonho da casa

É preciso percorrer dois quilómetros para encher os bidões de água destinados ao banho e à cozinha. A roupa lava-se num lavadouro público, situado à mesma distância. "E a canalha, estando na escola, é cada dia uma roupa". Há anos que se pede à Diocese de Viana uma parcela de terreno para construir uns balneários e um lavadouro, mas a caridade cristã tarda...

Celeste mostra a sua habitação - um palácio quando comparada com as rudimentares estruturas de madeira cobertas de lona que albergam algumas das outras famílias. Dentro da casota de tábuas e chão de cimento, há dois sofás virados para um aparador com um televisor e uma aparelhagem. Atrás da cortina, um berço e três camas dispostas em fileira. Dormem todos aqui, menos a filha mais velha, de 16 anos, que fica com o companheiro num quarto encostado à cozinha muito arrumada e dotada e inúmeros tachos reluzentes.

"Quando chove é horrível, fica tudo molhado", lamenta-se a rapariga de longuíssimos cabelos ruivos. As precárias condições de habitabilidade cavam doenças como as sofridas por seu pai. "Tem uma tosse que nunca passa, uma bronquite, uma úlcera, enfim!"

Há muito trabalho invisível feito neste acampamento nos últimos anos. "Encontramos o grau zero, a comunidade estava votada ao mais total abandono", recorda Balbina Fernandes - que tantas vezes aqui andou a ensinar a fazer papas, a dar banhos em baldes ou latas de tinta, a recolher lixo. "Agora, já conhecem os serviços, já mandam os miúdos à escola, já não há pessoas sem vacinas, já têm médico de famílias, já vão às consultas...".

Com a mudança de Governo, a responsabilidade da intervenção que estava nas mãos da Sub-Região de Saúde transitou para a direcção distrital de Segurança Social e "parou tudo". Como pararam muitos projectos em curso em todo o país. Mas já se podia avançar para a inserção laboral - "alguns falam em serem porteiros, outros em fazerem limpezas nas florestas", revela a assistente social. "Era preciso ouvir as pessoas, dar-lhes oportunidades!"

A primeira a fixar-se foi a sogra de Celeste. Maria enviuvou, quis ficar perto da sepultura do falecido que ainda agora visita uma vez por semana. Os filhos cresceram, casaram, vieram netos e bisnetos. "Estou aqui há 26 anos! Dão casas a tanta gente! E nós?"

O estigma comanda a existência desta pobre comunidade - discriminada até por outros grupos ciganos da zona. O clã mistura-se pouco. Tão pouco que já se notam debilidades próprias da consanguinidade. Olhos um tanto loucos - como os da desdentada Conceição, que tem seis filhos e parece desvairada à volta de uma fogueira apagada. É a única que Balbina Fernandes considera não estar preparada para mudar para um apartamento.

Não há voz que não exprima desejo de mudança. Até Isabel, sete anos, pano amarrado à cintura azul turquesa, chinelos rosa bebé: "Não gosto de morar aqui". Porquê? "Tem muita areia!" Onde é que gostavas de morar? "Numa casa". Como os colegas da escola que frequenta e que agora lhe dá férias.

O vento cortante fustiga a tenda de Conceição. A tenda ressoa. Os "alicerces" sentem-se tremer. Lá dentro, quase não há móveis. Sobre o chão coberto de aparas de pinheiro e folhas de eucalipto, há só duas camas desfeitas e roupas amontoadas - muitas, a fazer torres. "Durmo cá fora, cheira muito mal ali dentro!", envergonha-se um filho pequeno. Também ele aspira a uma casa. E aos estudos. Para "ter carta de condução". Para ter "outra vida