quarta-feira, setembro 15, 2004

Reportagem-02

Desconhecidos na História
Por MARION VAN RENTERGHEM
Publico, Segunda-feira, 23 de Agosto de 2004

Tinha escolhido o momento. Estudara a meteorologia, a posição da Lua, a escuridão da noite. Era preciso que houvesse chuva para cobrir os seus ruídos, um vento contrário para enganar os cães, e não podia haver no céu uma só estrela que o pudesse iluminar. Hartmut Richter definira as condições exactas e acabou por se decidir: aquela noite de 26 de Agosto de 1966 seria a noite boa. Aproximou-se do canal, deslizou por entre as ervas, esperou ali algum tempo, para observar. E depois mergulhou.

Tinha então 18 anos. E a sua vida não era insuportável. A República Democrática Alemã não era o país mais mal abastecido do bloco socialista, e a capital, Berlim Leste, era uma vitrina bem cuidada por estar frente a frente com "o outro lado", Berlim Ocidental, orgulhoso enclave do Ocidente democrático em pleno território sovietizado.

Os pais são produtores de fruta perto de Potsdam, a sudoeste de Berlim. Ele foi um bom e fiel elemento dos Junge Pioniere (Jovens Pioneiros), o melhor da sua turma e orgulhoso do seu país. Berlim Ocidental, lembra-lhe a propaganda leste-alemã, só sobrevive por causa da generosidade do Plano Marshall. Nada que possa manchar as virtudes do socialismo. Não, Hartmut Richter não é infeliz.

Mas não foi preciso muito para arriscasse a vida e mergulhasse. Foi preciso um muro e arame farpado. Foi precisa uma inquietação: a obsessão de ser livre quando nos impedem de o sermos.

Nascido em 1948, Hartmut Richter tem um ano quando é fundada a República Democrática Alemã (RDA). Os Aliados dividiram entre eles a Alemanha vencida. Em plena zona de ocupação soviética, uma fronteira atravessa Berlim: capitalista a ocidente, comunista a leste. Nos primeiros anos, a fronteira é porosa. Cerca de três milhões de pessoas aproveitam para "passar para o Ocidente". O Governo da RDA quer travar a hemorragia.

Em 13 de Agosto de 1961, os primeiros rolos de arame farpado são colocados no sítio onde se erguerá "o muro". Há quem vá ver a "protecção antifascista". Hartmut Richter encontra-se nessa altura em Berlim Ocidental, em casa de uns primos. Tem 13 anos.

Numa rua da cidade, a Bernauer Strasse, o muro é construído de tal maneira que as fachadas dos prédios estão no Leste e o passeio no Oeste. Há habitantes que se atiram pelas janelas. "Os do Oeste" amparam-nos com lençóis, mas há quatro que se esmagam no solo. São os primeiros mortos do Muro. "Estas imagens perseguiram-me toda a minha vida", conta, casualmente, Hartmut Richter, com as pálpebras pesadas.

Regressa ao liceu de Potsdam. Os agentes da Stasi (a polícia encarregada da segurança do Estado) têm debaixo de olho os adolescentes que, como ele, andam de cabelo comprido, ouvem os Beatles e os Rolling Stones e procuram desesperadamente as pastilhas elásticas do Ocidente. Num dia de 1965, Hartmut é preso. "Exigiram-me que reconhecesse o meu mau comportamento. Recusei. Cortaram-me o cabelo, arrancaram a etiqueta Levi's das minhas calças. Nada de terrível, enfim. Mas era humilhante. Mais uma ferida."

Fugir. Mas como? Na história do Muro de Berlim, as evasões rivalizam em capacidade de invenção. Túneis escavados, fugas em balão, catapultagem por cima dos prédios. A televisão recorda as tentativas falhadas. Duzentos e trinta e nove fugitivos são executados. Há 5043 que conseguem.

Do lado dos bosques e dos cursos de água, a fronteira é menos estanque que em plena cidade, onde o próprio muro está bem guardado. Amigos de Hartmut conseguiram chegar à Áustria, via Checoslováquia, atravessando a pé uma floresta. Em 29 de Janeiro de 1966, no dia dos seus 18 anos, decide-se, Junta algumas coisas, sai discretamente de casa e apanha o comboio para Praga.

Na fronteira checoslovaca, há um controlo no comboio. Hartmut é notado. Erros de principiante: anda outra vez de "jeans" e cabelo comprido, "a prova de que estava sob a influência do inimigo"; pior, tem consigo todos os seus documentos, da certidão de nascimento aos diplomas escolares. Para já não falar do mapa onde está traçado o seu itinerário de evasão. "Que vai fazer à Checoslováquia?", pergunta-lhe o oficial leste-alemão.

- Vou lá de férias, responde Hartmut.

- E precisa desses documentos todos para as férias?

Hartmut passa três meses na prisão de Potsdam. Partilha a cela com um velho que tinha insultado guardas fronteiriços depois de ter bebido em excesso e que, à falta de um projecto para si mesmo, tal como o abade Faria do "Conde de Monte Cristo", fala a Hartmut do canal Teltow: numa zona do Sudoeste de Berlim, não longe de Potsdam, um curso de água que faz fronteira entre a RDA e Berlim Ocidental. A configuração do canal, a ausência de casas e a fraca vigilância permitem mergulhar no sítio onde começa a "death zone", a terra de ninguém, a um pequeno quilómetro da fronteira.

O velho descreve-lhe o arco que o canal forma nesse local. São 900 metros de comprimento, 25 de largura. Descreve-lhe as árvores e as ervas altas nas margens, a posição da torre de vigia e dos projectores, suficientemente espaçados para deixarem zonas de sombra. Deverá mergulhar mesmo depois da grande ponte que marca o início da "death zone". Oitocentos metros depois, passará sob uma ponte pequena. Mais cem metros e, do lado esquerdo, estará em Berlim Ocidental.

Depois de sair da prisão, em Maio de 1966, Hartmut Richter trabalha em Potsdam e vai com frequência nadar, sozinho, num dos numerosos lagos que rodeiam Berlim. Faz o seu quilómetro diário. Treina-se a suster a respiração, um minuto debaixo de água. Habitua-se à água fria. Aguarda a noite ideal.

E ei-la que chegou. Vento, chuva, nada de lua. Na noite de 26 de Agosto de 1966, sem avisar ninguém, Helmut dirige-se à pequena aldeia de Teltow e segue para o canal. Tem um saco de plástico à volta do pescoço com os documentos e besuntou o corpo com azeite para se proteger do frio. Esconde na margem a "t-shirt" e os sapatos, mas mantém os "jeans" novinhos em folha. Às onze e meia da noite mergulha.

Vai aos ziguezagues entre os projectores: debaixo de água o máximo de tempo possível, da margem direita para a margem esquerda do canal, parando junto da margem, escondido entre as ervas, ao fim de cada diagonal. Aí permanece imóvel, silencioso, à escuta do mais pequeno ruído. Ao fim de duas horas não progrediu mais de 200 metros. "Estava gelado."

O seu primeiro encontro não estava no programa: um cisne. A ave precipita-se sobre ele e ataca-o. "Não me largava, o bater das asas fazia um ruído infernal", conta Hartmut no seu tom imperturbável. "Acabou por se cansar. Esperei escondido nas ervas." O nadador retoma o seu caminho. Estranhamente, a batalha com o cisne parece não ter alertado ninguém.

Ao cabo de três horas, quase chegou junto da ponte pequena. Um cão ladra. "Ruhig!" ("Calado!"), ouve-se. Na ponte, dois soldados patrulham. Hartmut continua colado à margem, sem se mexer. Na ponte, à frente dele, os dois soldados fumam. Os minutos passam, intermináveis. Os soldados não se vão embora. Hartmut, enregelado, bate os dentes. Tem que meter os dedos na boca para abafar o barulho.

Ei-los que se afastam. Hartmut inicia uma nova diagonal. A pequena ponte fica para trás. Há sua direita há uma vigia. Mais adiante, do lado esquerdo, há sinais e arame farpado. Berlim Ocidental! Mais uma centena de metros e será a fronteira.

O velho tinha-o avisado: "Atenção à grelha!" E tinha descrito uma espécie de grade, mesmo a seguir à ponte pequena, com três metros acima da água, para bloquear os barcos. "Deves poder passar por baixo", tinha-lhe sugerido. É o que Hartmut tenta. Inútil: a grelha toca o fundo do canal. Não há outra hipótese a não ser tentar pelos lados, afastando o arame farpado.

O projector da vigia está apontado para esse preciso local. Hartmut encosta-se ao lado direito da grade. Nada acontece. "Eu estava no campo de visão deles. Estariam a jogar às cartas? Seria a hora de serem substituídos? Será que me viram e me deram uma oportunidade?" Não importa, falta pouco. Hartmut nada para a outra margem. Um último esforço para subir para a margem.

Esgotado, gelado, assustado, fica um instante de pé, a olhar para o caminho percorrido. Um cartaz indica: "Hier endet West-Berlin" ("Aqui acaba Berlim Ocidental). Conseguiu. Passou quatro horas na água.

São três e meia da madrugada. De tronco nu, a tremer, Hartmut Richter chega ao "check-point" Dreilinden, o mais próximo. Bate no vidro de um carro. Uma mulher, não muito tranquila, baixa o vidro. "Estou em Berlim Ocidental?", pergunta Hartmut. A mulher percebeu. Abraça-o, dá-lhe as boas vindas e oferece-lhe uma garrafa de "Schnaps" [aguardente]. Helmut bebe de um trago. Depois, insiste: "Estou mesmo em Berlim Ocidental?" "Sim, estás mesmo!", repete ela. E Hartmut desaparece.

A história não acabou. Hartmut Richter fica em Berlim Ocidental, mas corre o mundo a trabalhar a bordo de um avião de carga. Sente porém que há qualquer coisa que não acabou: não ajustou contas com o regime da RDA. Quer que outros aproveitem a sua fuga. Os amigos que ficaram "do outro lado".

As condições políticas são favoráveis. Em Dezembro de 1971, no quadro da aproximação entre as duas Alemanhas, um acordo limita a vigilância do tráfego rodoviário. No mesmo ano, os que se evadiram da RDA e se tornaram cidadãos de Berlim Ocidental beneficiam de uma amnistia no Leste. Hartmut tem o direito de visitar os pais, de ir e vir. "Não controlavam o meu automóvel. Era o momento."

Hartmut passa de evadido a passador. Modifica o seu Ford, aumenta-lhe a mala para caberem duas pessoas, reforça as suspensões traseiras. Dois a dois, os candidatos à evasão vão embarcando. Hartmut Richter faz as contas: entre 1972 e 1975 fez passar 33.

Mas sente-se observado. A Stasi notou que as suas idas e vindas correspondiam ao desaparecimento de cidadãos do Leste: Hartmut não sabe isso, mas pressente qualquer coisa. Passou 33 pessoas, prometeu ajudar mais uma, só mais uma: a irmã mais nova, que tem 21 anos. Ela tem medo, hesita, ele esforça-se por convencê-la. Na noite de 3 para 4 de Março de 1975, entra finalmente, com o noivo, na mala do Ford.

No "checkpoint" Drewitz fazem sinal a Hartmut para encostar o carro. Um cão dá a volta e começa a ladrar para a mala. Acabou-se. Hartmut, a irmã e o namorado são presos e conduzidos ao centro de detenção de Potsdam.

Os acontecimentos seguintes estão meticulosamente registados pela Stasi. Hartmut Richter recuperou o seu dossier depois da queda do Muro, centenas de páginas onde figuram os seus mais pequenos gestos e acções desde que foi preso.

O prisioneiro Richter não é cooperante. No momento de ir a julgamento recusa declarar-se arrependido. "Não ia humilhar-me para conseguir privilégios, quando já tudo estava decidido." A ajuda à evasão do país é um crime que o código penal da RDA qualifica como "tráfico de seres humanos hostil ao Estado". O veredicto: 15 anos de prisão, a pena máxima.

A irmã de Hartmut cumpre dois anos e três meses. "Eu não tinha hipóteses. Mas as 33 pessoas que a RDA tinha perdido por minha causa tornavam-me forte. Na prisão, sentia uma espécie de indiferença." Sempre rebelde, colocado em vários centros de detenção, é várias vezes posto em isolamento. A Stasi qualifica-o de inimigo declarado da RDA. "Não fui torturado. Bateram-me, sim. Mas o hábito era mais de pressão psicológica. Os métodos eram subtis, para te destruírem."

Ao cabo de cinco anos e sete meses de prisão - incluindo em Bautzen 2, célebre campo para presos políticos -, Hartmut Richter é libertado. "Vendido" à República Federal da Alemanha pelo Governo leste-alemão, como foram cerca de 33 mil presos políticos entre 1964 e 1989. Em 2 de Outubro de 1980 chega a Berlim Ocidental.

Às vezes, vai passear ao longo do canal Teltow. A primeira ponte está enferrujada, a segunda desapareceu. O posto de vigia continua lá, inútil, ao lado de um restaurante. O "checkpoint" Dreilinden tornou-se um parque de campismo, a barreira da alfândega foi transformada em canteiro de flores. Hartmut Richter tem uma filha de 12 anos, europeia e alemã, só alemã, nem do Leste nem do Oeste. "Ela está cansada de ouvir as minhas histórias." Exclusivo PÚBLICO/"Le Monde