quarta-feira, setembro 15, 2004

Reportagem - 03

Por MARION VAN RENTERGHEM
Terça-feira, 24 de Agosto de 2004

uando Lucile Samair fez a mala, meteu pouca coisa lá dentro. Era só para umas férias, uma pequena viagem. O Camboja estava em guerra. Os Khmer Vermelhos e o Exército norte-vietnamita procuravam derrubar o governo pró-americano de Lon Nol.

Em Phnom Penh, a capital, onde ela vivia, as explosões provocavam um susto quase banalizado. Dia após dia, os jornais contavam os mortos. Ela precisava de calma.

Quando fez a mala, em 9 de Abril de 1975, ela só guardou algumas peças para passar algumas semanas com os três filhos no vizinho Laos. O marido, o médico Phalcun Samair, director do maior hospital de Phnom Penh, devia ir ter com eles daí por vinte dias. Acompanhou-os ao carro e despediu-se com um até breve. Em 17 de Abril, os Khmer Vermelhos entraram na cidade.

Lucile Samair sorri longamente, sem nada dizer. É preciso aprender a conhecer os códigos do sorriso que esta mulher, pequena e elegante, infinitamente educada, transformou numa arma. É preciso aprender a desvendar o momento em que ele se torna um esgar, discreto, quando a boca continua a sorrir e os olhos se enchem de lágrimas. "Fechei tudo", diz. "O coração, as recordações, tudo." E desvia a conversa para outros assuntos, alegremente conversadora.

A vida de Lucile começou em 15 de Março de 1937 numa pequena aldeia chamada Neal Loeung: nas margens do rio Mekong, a umas seis dezenas de quilómetros a sul de Phnom Penh. O pai trabalhou duramente, para dar de comer à mulher e aos nove filhos, passando a vida nas sampanas que circulam pelo rio entre o Camboja e o Vietname, onde ele ia vender o seu carregamento de arroz.

Ela lembra-se do "tempo feliz": o protectorado francês até 1954 ("apesar dos tiros da guerrilha Vietminh, à noite, que nos assustavam"); mas acima de tudo do período de independência do país até ao golpe de Estado de 1970. O Camboja é nessa altura um reino independente e neutro. "Era um tempo alegre. Os franceses tinham-se ido embora sem guerra, sem derramamento de sangue. Não havia rancor. Tudo era ainda francês. O príncipe Sihanouk era amado." Há estudantes que regressam de França com ideias revolucionárias, as cabeças cheias do que era dito nas reuniões no Quartier Latin onde participavam. Há jornais e panfletos comunistas que começam a circular, procurando mobilizar a população contra o governo e a família real.

Lucile Samair não os percebe. A política não lhe interessa nada. É uma das raras cambojanas que conduz o seu carro e gosta de ler, sentada num ramo de árvore, por entre o cheiro das mangas e das goiabas. A irmã abriu uma joalharia, e Lucile trabalha em família, com orgulho: a nata internacional desfila pela Joalharia Mekong. "O príncipe Sihanouk encomendou-nos uma jóia para Madame De Gaulle. Também passaram lá o rei e a rainha de Espanha, fizemos fotografias." Essas fotografias, avisa desde logo, já não as tem. "É claro que já não tenho nada. Não imaginava que não voltaria. Nem levei as fotografias das crianças."

A criança pobre de Neak Loeung tornou-se uma notável em Phnom Penh. Os rapazes andam à volta dela. Lucile recusa pedidos de casamento. Aos 29 anos, diz quase com orgulho, não "conheceu o amor". Uma noite, ao fecho da loja, dizem-lhe que um médico do bairro gostaria de pedir a mão dela. Só o conhece de vista: "Magnífico, jovem, cabelo salpicado de branco, porte nobre. Tinha estudado medicina em França." Casam em Agosto de 1970.

Em 18 de Março desse ano, pelas 15h00, os altifalantes tinham anunciado pelas ruas, pela voz do presidente da Assembleia Nacional, Cheng Heng, a destituição do Chefe de Estado, o príncipe Sihanouk. Apoiado pelos norte-americanos, o "putsch" favorece a chegada de Lon Nol à chefia do Governo.

Em Phnom Penh, os bombardeamentos passaram a fazer parte do dia-a-dia. O Camboja é atingido pela guerra civil e pelo alastramento da guerra no Vietname. "Na joalharia", conta Lucile, "ouvíamos um estrondo enorme, não sabíamos de onde vinha e corríamos a baixar a grade de ferro. Todos os dias havia qualquer coisa." É preciso enfrentar a agitação quotidiana, a guerrilha, os tiros de artilharia e os disparos, os tanques americanos nas ruas, o recolher obrigatório, os rumores sobre o avanço no terreno dos Khmer Vermelhos e dos Vietcong, as mortes diárias, o medo.

Mas Lucile é feliz. "Vivia qualquer coisa de extraordinário. Ao lado disso, as bombas não eram uma coisa grave." Descobre o marido, "um homem bom, sério, gentil, divertido." Têm três filhos e vivem felizes. Ele viaja com frequência, ela acompanha-os nas suas missões. A Hong Kong, a Singapura, à Tailândia, ao Japão. Gosta de deixar que o seu sorriso acompanhe estas memórias. Estes cinco anos de guerra são os cinco anos do casamento de Lucile.

ns amigos convidam-nos para ir ao Laos de férias. Residentes estrangeiros e notáveis cambojanos começam a deixar Phnom Penh. "Não nos sentíamos verdadeiramente em insegurança. Mas a atmosfera era difícil", afirma Lucile. Depois segue-se uma estúpida história de datas. Um desses encadeamentos do acaso que desafiam o entendimento.

A partida fica marcada para 3 de Abril. Mas o aeroporto acaba de ser bombardeado pelos Khmer Vermelhos e as reservas são adiadas para 19. Na noite da partida falhada, o marido de Lucile é chamado a assistir um doente cujo filho é director da Air Cambodge. "Se quiser", propõe-lhe, "posso antecipar o voo para 9 de Abril."

Na noite do dia 7, caem obuses sobre o hospital, a dois passos da casa deles. Os pais acordam os filhos, descem os dois andares, escondem-se debaixo da escada em cimento. No dia 8 de manhã, apesar dos sacos de areia dispostos em permanência contra as paredes e as janelas, deparam com a casa cheia de estilhaços de projécteis. "Ainda bem que vocês se vão embora amanhã", diz o marido de Lucile.

Em 9 de Abril, Lucile Samair faz a mala. Leva os três filhos, de quatro e três anos e de dois meses e meio. O marido acompanha ao carro a família que deve reencontrar no Laos no dia 27. Partida para Banguecoque, em escala para Vienciana, a capital do Laos. Sem se mostrar contente, Lucile constata: "Sempre tive sorte, é o meu destino. Se tivéssemos partido a 19, como previsto, estaríamos todos mortos."

No dia 10, de Banguecoque, tenta telefonar ao marido. As linhas estão cortadas. No dia 11, vai aos correios. "É impossível enviar um telegrama para o Camboja", respondem-lhe. No dia 12, fica a saber que deixou de haver aviões entre Phnom Penh e Banguecoque. "Mas o meu marido deve vir a 27!", insiste.

No seu quarto de hotel em Banguecoque, vê sem perceber imagens da televisão tailandesa que mostram as ruas de Phnom Penh invadidas pelos Khmer Vermelhos. Aturdida, não quer acreditar e decide esperar. Recusa o visto que a embaixada de França em Banguecoque lhe propõe.

s economias esgotam-se. De valor só lhe resta o diamante da aliança que o marido lhe ofereceu no dia do casamento. O suficiente para comprar um bilhete de avião. Vende a aliança. "Desta maneira, cortei a ligação entre nós", conta, com o seu sorriso de criança. Mantém-se na mesma posição o máximo de tempo que pode, os lábios comprimidos. E soluça muito, sem conseguir parar, a cabeça mergulhada nas mãos.

Em 25 de Maio, Lucile Samair e os filhos chegam a Paris. O irmão e a irmã dela vivem na capital francesa. "Já não tinha forças, a única coisa que fazia era chorar. Mas tinha os meus filhos, o meu bebé. Disse para mim mesma: 'Minha filha, se te queres safar, esquece tudo.' Então fechei as portas. Até deixei de ver amigos do Camboja que me lembravam demasiadas coisas. A minha família compreendeu: até o nome do meu marido não era dito. Era proibido."

Os pais de Lucile são exilados à força no campo e submetidos a trabalhos forçados. O pai acaba por morrer de fome. A mãe consegue juntar-se a ela em França, em 1978. Aos filhos, Lucile conta que o pai, um médico famoso, ficou a tratar dos pequenos cambojanos. Todos esperam que ele regresse.

O tempo passa. Os meses. Os anos. Lucile vai saltando de trabalho em trabalho: costureira, demonstradora nas Galerias Lafayette, gerente de uma mercearia exótica, criada. Está longe de pensar que os filhos conseguirão ter carreiras prestigiosas, que um dia terá uma loja em Paris e sobretudo o seu próprio restaurante, La Mousson, um minúsculo refúgio cambojano em Paris. Ninguém suspeita que esta mulher pequena e discreta que traz os pratos sorridente, sempre impecável, sobreviveu à dor anotando num caderno o seu destino atormentado.

Quando os vietnamitas põem fim ao regime dos Khmer Vermelhos, em 1980, o Camboja abre finalmente as fronteiras. Chegam refugiados a Paris. Desfeitos, atónitos, o espírito assombrado por imagens impensáveis, perderam filhos e pais. Resgatados dos campos, das torturas e das execuções, do êxodo violento para fora de cidades completamente esvaziadas, da fome organizada, do trabalho forçado nos arrozais, nas barragens, nas florestas que há que abater. Sobreviventes por milagre desse genocídio organizado pelos Khmer Vermelhos, sob a égide de Pol Pot e do Angkar (a Organização, o Partido), em nome da luta contra o imperialismo capitalista: dois milhões de mortos entre uma população de 7,7 milhões. Lucile corre a encontrar estes refugiados nos abrigos onde se acolhem. "Viu o meu marido?", pergunta, cheia de esperança.

As informações são um mercado. O dinheiro pode servir, por vezes, para saber mais. Alguém viu o doutor Samair Phal-cun entre os sobreviventes. Outro viu-o a caminhar por uma estrada, durante o êxodo, na companhia de um cirurgião do mesmo hospital. Um antigo colega dele, nomeado presidente da Cruz Vermelha cambojana, anuncia que entre os 65 médicos cambojanos diplomados no estrangeiro só encontraram quatro até ao momento. Mas há, diz, que manter a confiança. Há uma falta terrível de bons médicos. O marido de Lucile é por isso procurado activamente. O seu nome é mesmo mencionado para ministro da Saúde. Lucile quer acreditar. "Então, é mesmo possível! Se procurarem a sério, acabarão por encontrá-lo."

depois disto mais nada. Pela primeira vez ao fim de 24 anos, em 1999, Lucile Samair regressou ao Camboja. "Sem os meus filhos, para que não me vissem chorar."

Contam-lhe como Phnom Penh foi esvaziada num ápice. Os habitantes pelas estradas, enxotados, incrédulos. Os jovens, os velhos, as crianças. As famílias separadas. Os doentes dos hospitais empurrados porta fora, mesmo os que estão a soro. As casas pilhadas, saqueadas, juncadas de excrementos. As ruas cheias de cadáveres.

Reencontra os sobrinhos, cujo pai era cozinheiro no hospital. Também eles lhe contam pormenores dos dias que se seguiram ao l1 de Abril, o incrível esvaziamento da cidade de Phnom Penh. Lucile ouve-os.

Quando foi a vez do hospital, eles estavam com o doutor Samair. Os militares empurravam toda a gente com as suas Kalachnikovs. "Despachem-se! Despachem-se!" Os sobrinhos partiram de bicicleta. O médico meteu-se num carro com uma tia e duas jovens primas. Um pouco mais adiante, na estrada que vai do hospital à ponte Monivong, em direcção ao sul, os Khmer Vermelhos mandaram parar o carro. Os sobrinhos, de bicicleta, puderam continuar. Depois, pararam na estrada para os esperar.

Esperaram e esperaram. Milhares de pessoas desfilaram diante deles. A pé, em bicicleta, de carro. As horas passaram. Ao fim do dia, o doutor Samair, a tia e as primas ainda não tinham aparecido.

Os sobrinhos regressaram ao local onde se tinham separado. Onde já não havia nada. Nem carros, nem ninguém. Só o vazio. Lucile conclui calmamente: "É um buraco negro. É o fim."

Com os cabelos brancos e os óculos, Samair, o médico, "tinha ar de intelectual". As palavras são de Lucile. Já não faz qualquer esforço para sorrir. Só diz que, sem nunca ter a certeza, aceitou, naquele dia, que não voltaria a ver o marido. E que tem medo, um medo horrível, quando faz a mala. Exclusivo PÚBLICO/"Le Monde"