quarta-feira, setembro 15, 2004

Reportagem - 04

Por MARION VAN RENTERGHEM
Publico, Quarta-feira, 25 de Agosto de 2004

sther Gorintin marca os seus encontros no La Brioche Dorée, na Rua do Rivoli. É um pequeno "snack" parisiense, onde se senta ao fundo, à esquerda, no banco corrido. Não diz uma palavra, mas trazem-lhe espontaneamente o seu café com leite e a sua "baguette", dia após dia, com o respeito que é devido às grandes senhoras. "Madame Gorintin chega muitas vezes atrasada", avisa a empregada com um orgulho onde se mistura um toque de mistério. É que La Brioche Dorée protege as suas celebridades.

Desde os 85 anos, Esther Gorintin é actriz de cinema. Aconteceu tudo de repente. Para o seu filme "Viagens", em 1999, o jovem realizador Emmanuel Finkiel procurava uma velha senhora que falasse russo e francês e com um verdadeiro sotaque "yiddish". Esther pensou para si própria: "Por que não eu?" Logo nos primeiros ensaios, iluminou o ecrã com a sua ingenuidade travessa e aquele seu olhar estrábico que lhe dá um ar perdido.

Esther tem agora 91 anos e não se cansa de fazer filme atrás de filme. O seu charme e uma sorte extraordinária têm-lhe permitido escapar às adversidades. Milagrosamente, salvou-se da destruição dos judeus da Europa: do "shtetl" (bairro judaico) ao Festival de Cannes.

E está sempre muito ocupada. Se não somos um produtor da Gaumont, é melhor armarmo-nos de paciência para conseguir um encontro. De cada vez que o tentamos, ela dá uma desculpa polida, queixando-se de cansaço, de pressão, de ter "tantas coisas para fazer". O seu filho Armand, 54 anos, monitor de uma escola de condução e militante anarquista, conhece bem a "canção". "Um ser humano", disse, "reconhece que está vivo pelos seus batimentos do coração; uma mãe judia fá-lo pelos seus suspiros."

Esther Gorintin chamava-se Esther Gorinsztejn. Durante a ocupação, era Carmen-Juliette Guérin, nascida Gaillard, cidadã suíça. Ao domingo, ia ao cinema e tentava esquecer a sua vida, passada na angústia de ter de parar num controlo de identificação. Esse medo nunca a deixou. "Ainda vivemos sob a ocupação", ironiza o seu filho, que partilha o seu apartamento na Rua do Rivoli. "Eu moro na parte sul, numa zona livre. A minha mãe, na zona ocupada, no norte. A cozinha está no extremo norte, na zona interdita, e o telefone encontra-se na linha de demarcação. Quanto à Gestapo, cuidado, está sempre ao fundo da rua."

Esther surge, enfim, no La Brioche Dorée, silhueta curvada, saco de plástico "Ed" na mão, os cabelos brancos fixados de modo elegante por ganchos com brilhantes. Calça uns sapatos de tiras igualmente com brilhantes e as unhas estão quase a condizer. Mas nada de uma senhora a suspirar. Com ar malicioso, põe-se a tagarelar, preocupada com as palavras exactas, as vogais marcadas: um "yiddish" muito tradicional.

Nasceu bielorrussa, em 1913, num "shtetl" da Rússia czarista, tornada polaca em 1920, em consequência dos tratados de paz: Sokolka, a pequena vila da sua infância, fazia parte de uma dessas zonas de nacionalidade variável submetidas aos caprichos das alterações de fronteiras. A geração dos pais de Esther falava russo e bielorrusso, as crianças, polaco. Entre judeus, falava-se "yiddish". "Um 'yiddish' literário, muito puro", sublinha Esther com orgulho. "É por isso que Emmanuel Finkiel gostou do meu sotaque."

Esther Gorintin é faladora de nascença - no seu "shtetl", construído de modo linear e onde na rua principal se situa de um lado Grodno e do outro Bialystok, os mexericos são a especialidade local. "Quando alguém espirra do lado de Bialystok, respondem 'viva' do lado de Grodno."

O seu pai era curtidor, uma outra especialidade local. A família vivia no centro, enquanto os camponeses, todos não-judeus, vivam nos subúrbios. Em Sokolka há uma igreja, uma sinagoga, um teatro e... um cinema. Esther vai à sinagoga uma vez por ano e come costeletas de porco com os camponeses. "Isso era muito mal visto."

A casa de Esther situa-se perto do subúrbio. Para ir à igreja, os camponeses paravam lá em casa, deixavam os tamancos lamacentos à entrada e calçavam sapatos de pele. "Vivíamos em boa vizinhança", comenta. "O racismo era um problema sobretudo das cidades." Acrescenta: "Segundo o que me disseram, quase todos os habitantes de Sokolka, mesmo os não-judeus, foram deportados para Treblinka e exterminados."

os 4 anos, Esther sonhava ser bailarina. "O meu pai não quis, porque as dançarinas tinham má reputação. Isso salvou-me a vida. Se tivesse ido estudar dança para Varsóvia, tinha acabado no 'ghetto'." A escolha estava feita: Esther será cirurgiã-dentista. O "numerus clausus", porém, complica o acesso dos judeus à universidade na Polónia e no "shtetl" de Sokolka sonha-se com o país da liberdade: a França.

Em 1932, no percurso ferroviário Varsóvia-Paris, Esther atravessa a Alemanha e a Bélgica. "Das janelas do comboio via as cruzes gamadas nos muros. Foi o começo." Era esperada em Bordéus, onde estava um dos seus irmãos, para fazer os estudos de medicina dentária.

Um dos seus colegas chamava-se David Gorinsztejn e viera também da Polónia. Ela era simpatizante comunista, ele filho de um militante do Bund (partido social-democrata judaico). Em 1938, casam-se. Um ano mais tarde, a guerra separa-os. David Gorinsztejn, que estava na Legião Francesa, foi feito prisioneiro. Na Bordéus ocupada, Esther resiste.

Docilmente, vai declarar-se à Prefeitura. A primeira ordem alemã, de 27 de Setembro de 1940, exige que toda a "pessoa judia" se inscreva num registo especial. Alguns dias mais tarde, a 3 de Outubro, o governo de Vichy promulga o primeiro "estatuto dos judeus": são excluídos, em princípio, da função pública, das profissões liberais, do jornalismo, do teatro, da rádio... e do cinema.

"Não tinha medo", disse. "Não sabíamos dos campos, nem nada disso. Não desconfiava de nada. E eu era mulher de um prisioneiro de guerra. Teoricamente, devia ter um estatuto particular." Em Bordéus estão recenseados 5177 judeus. Entre eles encontra-se Esther Gorinsztejn.

Esther bebe um gole do galão, olha para o fundo da sala. "Já não me lembro bem de como tudo começou. Trabalhava num fotógrafo e vivia no número 15 da rua Maucoudinat, num quarto mobilado em casa de uma viúva de guerra. E depois dei comigo no campo de Mérignac."

A cronologia não é o forte de Esther Gorintin. No apartamento comum, o seu filho Armand faz por vezes intrusões clandestinas na "zona ocupada" para procurar documentos, numa desordem indescritível. "Entre dois pães de chocolate fossilizados", como diz, encontrou indícios: o fio de Ariadne da vida de Esther durante a ocupação. Ela própria, normalmente, tem a cabeça noutro lugar. "Sabe, estou tão ocupada com o cinema!"

13 de Março de 1942, Esther foi presa. "Foi fácil, tinha-me declarado à Prefeitura." Foi conduzida ao comissariado. "Estava muito abatida. Chorava terrivelmente. Um polícia olhou para mim e disse-me: 'Não chores, olha antes para o teu saco', e mostrou-me o fogareiro a gás." Esther procura no saco e encontra um velho pedido de visto para a União Soviética, o inimigo comunista. Deita-no no fogareiro.

É conduzida ao campo de Mérignac, de onde partiam os comboios com judeus em direcção a Drancy e aos campos da morte. Fez aí "uma estadia de seis semanas", diz com um preciosismo de circunstância. "A minha senhoria, Gisèle Soulat, indignou-se com a detenção da sua locatária. Creio que foi ela que me tirou de lá." Os documentos de Esther indicavam que uma associação tinha feito um apelo com base no seu estatuto de "mulher de prisioneiro de guerra". A 24 de Abril, foi libertada.

"Aí, deveria ter percebido", diz Esther. "Deveria ter partido. Em vez disso, retomei tranquilamente o meu trabalho. Tive culpa." Chegado em Junho, o novo secretário-geral da Prefeitura de Gironde, responsável pelas questões judias, era Maurice Papon. A 15 de Julho de 1942, Esther chega a casa, de estrela amarela ao peito. São 20h. Dois "gendarmes" e dois polícias esperam-na no vão das escadas.

"Disseram-me: 'Vem connosco.' O tom não era amável. Não discuti." Esther foi presa no forte de Hâ, em plena Bordéus. No seguimento de uma doença, foi admitida no hospital Saint-André. O polícia que a acompanhou informou-a de que voltaria no dia seguinte, às seis horas. "Compreendi o seu olhar: estava a convidar-me a fugir. Aproveitei uma ida à casa de banho e salvei-me." A 16 de Julho, 172 judeus de Bordéus foram deportados para os campos da morte. Esther não.

O seu irmão Boris, que tem ligações com a Resistência, confia-a a um contrabandista. Destino Lyon, zona livre. "Na altura, era uma expedição engraçada", lembra Esther, com um certo ar "naïf". "Passámos por um pequeno lugarejo mesmo antes da zona livre, La Réole. O nosso carro parou. O contrabandista disse-me: 'Vai, corre!' Corri, tinha percebido puxar. Já não me lembro exactamente. Apanhei um comboio."

A 11 de Novembro de 1942, Esther tinha acabado de chegar à zona livre, mas esta foi por sua vez ocupada. "Lyon, é uma longa história", suspira ela, cheia de lembranças. "Passava o tempo a fugir. Mudava de casa. Nadava em águas turbulentas, sempre desconfiada. Falava o mínimo possível. Esse medo, nunca me consegui livrar dele. Ao domingo, ia ao cinema. Era um grande perigo por causa dos controlos de papéis."

o La Brioche Dorée, Esther Gorintin impacienta-se. Deve partir, tem muito que fazer. Apressada, ainda refere o vigário que lhe deu os seus papéis falsos; os amigos que tinham uma charcutaria conhecida pelas suas salsichas, "que eram muito apreciadas"; o atelier de fotografia onde trabalhava, ornado de fotografias do marechal Pétain; o oficial alemão que a arrastou por uma linha de comboio; a rusga de que escapou com a ajuda de um polícia; uma passageira de comboio que insultava os "porcos judeus"; uma porteira que a acolheu, uma delatora encontrada apunhalada pela Resistência.

A guerra terminou. Tinham sido deportados de França para campos de concentração 76 mil judeus. Os pais de Esther foram assassinados em Treblinka. O seu irmão Boris, apanhado em Bordéus e enviado para Auschwitz, sobreviveu por milagre. O seu marido voltou do campo de prisioneiros. "Vê, levo uma vida muito normal", conclui Esther.

Depois da libertação, Esther e David Gorinsztejn afrancesaram o seu apelido para Gorintin e instalaram-se no actual apartamento na Rua do Rivoli. David é dentista, Esther recebe os seus clientes e limpa os instrumentos. O imóvel abrigava um pequeno cinema, o Rivoli-Beaubourg. A cabina de projecção funcionava no pátio. Quando o projeccionista abre as portas, Esther está quase no cinema. Em 1985, um atentado anti-semita arrasa a sala durante um festival de cinema judaico e faz duas dezenas de feridos. Com a sua sorte habitual, Esther não estava lá nessa noite.

Quando o marido morreu, tinha 73 anos. Fez pintura, "muito inocentemente", depois tentou o seu primeiro "casting", uma dezena de anos mais tarde. Emmanuel Finkiel confiou-lhe o papel de uma avó judia perdida na modernidade de Telavive, onde ninguém compreende "yiddish".

É um sucesso. Esther é convidada para Cannes. A crítica saúda esta nova actriz de 85 anos que tem a promessa de um futuro brilhante. Os convites sucedem-se. Aparece numa dezena de filmes, entre "Le Stade de Wimbledon", de Mathieu Amalric, ou "Depuis qu'Otar est parti", de Julie Bertucelli. Contracena com Alain Corneau, passou dois meses na Geórgia para "Otar" e está de regresso de várias semanas na Ucrânia para um filme de um cineasta russo, Pavel Lounguine. "Faço sempre o papel de velhas senhoras", espanta-se.

A silhueta curvada sai do La Brioche Dorée em passos miúdos. "Desculpe, estou muito apressada. Pavel Lounguine pode telefonar, pode ter cenas para filmar, não sei, é complicado. Sabe, estou nas mãos dele. É assim, o cinema." Exlusivo PÚBLICO/ "Le Monde"