quarta-feira, setembro 15, 2004

Reportagem - 05

Por MARION VAN RENTERGHEM
Publico, Quinta-feira, 26 de Agosto de 2004

É um homem do lixo quem a encontra. Um pobre miserável que passava os seus dias na lixeira, em Santiago do Chile, na esperança de ali desenterrar moedas. Viu esta mulher morena que permanecia sentada, com ar selvagem, e compreendeu imediatamente. Verdadeiro conhecedor da lixeira, tinha observado os hábitos. Era lá que "eles" despejavam os prisioneiros vivos de que queriam desembaraçar-se. Os que a tortura não permitira fazer falar.

Para Carmen Yañez, como para todos os chilenos, o 11 de Setembro "é uma data já ocupada": a do golpe de Estado de 1973, quando a junta comandada pelo general Pinochet se apoderou do poder, com a ajuda da CIA, conduzindo à morte do Presidente, Salvador Allende. Sobre as consequências que teve sobre a sua própria vida este regime de violência e terror (mais de 3000 assassínios e desaparecimentos) Carmen Yañez não sabe se chegará a falar. Para começar pede que desculpemos os seus silêncios.

Carmen é, apesar de tudo, uma morenaça, juvenil e de riso fácil, que não aparenta os seus 52 anos. Não tem nada de uma sobrevivente da dor. Depois de vários desencontros, instalou-se nas Astúrias, no Norte de Espanha, numa espaçosa casa de um bairro chique de Gijón, com piscina e jardim. Ali escreve poesia. No segundo andar trabalha Luis, um escritor célebre que faz parte da sua história. No terraço, diante do jardim, Carmen solta toda a sua alegria a falar dele. E dos entusiasmos da sua juventude, quando tudo parecia possível.

Luis teve que pagar duas garrafas de vinho para ser apresentado a Carmen. Uma piada entre rapazes. Está-se em 1967, ela tinha 15 anos e ele 18. Ele é estudante de teatro. Como ela, ele escreve poemas. E, como tantos outros estudantes, neste Sul da América onde o envolvimento político é um dado adquirido, ele milita no partido socialista.

Salvador Allende é o herói de ambos. Eles pertencem a este movimento de esquerda - comunistas diversos, socialistas, ala esquerda da democracia cristã - que apoia a sua candidatura às eleições presidenciais de 1970. O democrata-cristão Eduardo Frei Montalva está ainda no poder. Eles pintam "Viva a Revolução!" sobre os mortos, apoiam a revolta estudantil e as greves operárias, lutam com grupos de direita e manifestam-se contra a guerra do Vietname, ao ritmo dos acontecimentos do mundo. Allende é eleito. Carmen e Luis casam-se.

Em 1972 têm um filho a que chamam Carlos-Lenin. Carlos por causa de Karl (Marx), no caso de Lenin não ser suficiente. "Estava na moda", explica Carmen como para se desculpar. "Havia pilhas de Illitch Gutierrez, de Rosa Rodriguez (para Rosa Luxemburg) e todos os nomes próprios russos passavam por isso." Um ano e meio mais tarde, a ditadura instalada, era preciso falsificar os certificados de nascimento. Carlos-Lenin transforma-se em Carlos-Leonidas.

Carmen radicaliza-se, Luis trabalha na órbita do Governo de Allende. Ela aproxima-se do Partido Comunista Revolucionário (PCR), de inspiração maoísta. "Purista", é contra o uso do desodorizante e do dentífrico, milita na psicanálise freudiana e lava os dentes com cinzas. Luis, menos puro, prefere o desodorizante e a pasta dos dentes. Insultam-se. Ela chama-lhe "porco da burguesia", ele "chinesa febril". No terraço da casa de Gijón, ela sorri com ar maroto. "Éramos tão sérios! E tão ridículos!" O rosto fecha-se, o olhar perdido no horizonte.

Terça-feira 11 de Setembro de 1973: o casal habita a casa de família de Carmen, numa comuna operário do Sul de Santiago. Estrondos de aviões, som de metralhadoras. Há tanques nas avenidas. A rádio anuncia a morte de Allende, saber-se-á mais tarde que se suicidou. Luis, um irmão de Cármen e o seu pai abandonam a casa "para organizar a resistência". Regressam passados alguns dias, de mãos vazias.

Ela recorda os dias que se seguiram ao 11 de Setembro. O recolher obrigatório, a casa muitas vezes revistada. Os "suspeitos" que enchem as casernas e os estádios de futebol, depois transferidos para os campos. As execuções, as torturas. "Tinha medo todo o tempo." O pai, operário e militante comunista, muitas vezes detido, é preso durante vários meses. Torturado? "Não sei. Nunca me contou. O que é que tu queres contar aos teus filhos?"

Em Outubro, Luis exila-se no Sul do país, procurado por ter trabalhado no Governo de Allende. É preso e passa perto de dois anos na prisão de Temuco. Quando Carmen consegue por fim visitá-lo, tinha sido torturado com electricidade. Tem as unhas torcidas.

"Estava cheia de raiva, de dor, de impotência", diz Cármen. "A morte estava por todo o lado. Via-se nas ribeiras, onde flutuavam os cadáveres. Adivinhava-se nos camiões que os transportavam. Se íamos visitar um amigo, havia que esperar encontrá-lo morto, ao lado dos 'milicos' [chuis militares]. Quando se está assim tão perto da morte, age-se sem pensar."

Ela regressa a Santiago e decide militar activamente. Em Dezembro, inscreve-se no PCR. A sua missão é recrutar militantes. Para se infiltrar entre os estudantes, inscreve-se nas aulas nocturnas. Entrega a alguém Carlos-Lenin e muda muitas vezes de domicílio. Acumula profissões: secretária, vendedora, fotógrafa de casamentos.

"E depois foi a minha vez." Estas palavras, Carmen Yañez murmura-as. A voz enfraquece-lhe, fica quase inaudível. Repete: "Foi a minha vez. Fui presa. Nesse momento a repressão estava circunscrita. Eles só procuravam opositores activos."

Em Outubro de 1975, às 3h00 da manhã, os "milicos" surgiram no domicílio familiar. Estão lá os seus pais, a sua irmã e o pequeno Carlos-Lenin, mas é "Pelusa" (a alcunha de Cármen) que eles querem. De olhos tapados, é levada numa viatura, passa um portão, é conduzida para uma sala. É-lhe apontado um projector. "É ela?", pergunta alguém. Uma voz fraca responde: "Sim, é ela."

"824." Carmen Yañez não está perto de esquecer o número que lhe penduram ao pescoço. Na cela para onde a levam há quatro mulheres, as camas sobrepostas, um pano de linho machado de sangue. "Não conseguia acreditar", diz Cármen, os lábios trémulos. "Estava na Villa Grimaldi, um dos mais sinistros centros de interrogatório e tortura erguidos por Pinochet. Eu conhecia pessoas que tinham passado por lá. Sabia o que se sofria ali."

As mulheres da cela tinham marcas da tortura e contavam as suas "sessões". Cármen evita responder às suas perguntas. "Desconfiava de toda a gente, mesmo das prisioneiras." O medo de ser violada é a sua obsessão. Nenhuma fala disso. "Essas coisas não se contavam. Sobre uma de nós eu tinha um mau pressentimento. Vinham buscá-la mais vezes que às outras." De tempos em tempos, a porta abria-se. "Eles" chamavam uma. E eles chamaram Pelusa.

Ela está completamente nua. Os olhos vendados. "Entrou um homem. Podia distinguir o fim das suas calças. Era muito gordo. Cheirava mal. Ataram-me a uma cama de ferro, chamavam a isso 'a grelha".' Ele tinha cheiro de vómito e de excrementos. Puseram a música muito alta, variedades. O homem fixou no meu pulso uma pulseira de metal ligada a uma máquina e ligou a electricidade. Tinha também uma espécie de chave que passeava pelo meu corpo para enviar descargas. Nas têmporas, nos tornozelos, nas pontas dos seios. Não sabia quando vinham. Perguntavam-me quem conhecia, onde estavam as armas, como nos organizávamos. Eu não fazia nada a não ser gritar. Tinha preparado uma mentira que repetia. Isto durou... não sei. Um tempo infinito."

Carmen não regressou à "grelha". Alguns dias mais tarde fizeram-lhe "a picana". "Estás sentada, toda nua. Passam-te a corrente e batem-te ao mesmo tempo." Terceira sessão, idem. "É uma dor indizível, física e moral. Mantinha a mesma mentira, largando pequenas verdades. Para ganhar tempo. Sentia que, se confessasse tudo, seria assada."

A cela das mulheres era ao lado da sala de tortura. "Ouvíamos tudo. Uma sessão foi particularmente penosa. Ouvíamos os gritos de uma mulher, ao ritmo do que imaginávamos serem descargas e golpes. Em seguida, despejaram um pacote para dentro da nossa sala. Aproximámo-nos para ver. Era uma mulher repleta de sangue. Os lábios rasgados."

Essa mulher chama-se Marcia Scantlebury. O seu marido é funcionário da ONU, ela é dirigente do Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR) e já tinha tido uma estadia na Villa Grimaldi. "Senti uma grande confiança nela. Tinha estado sob tortura e ouvia que ela negava tudo. Foi a única pessoa em quem confiei. Cantávamos, recitávamos poemas, falávamos de tudo. Dizia-me que tinha 'orgulho em ser inimiga deles'. Isso agradou-se. Eu partilhava o mesmo orgulho."

Carmen permanece mais de um mês na Villa Grimaldi. No fim da sua "terceira sessão" é colocada numa viatura, um adesivo sobre os olhos. Depois abandonada numa lixeira do Sul de Santiago. "Sentei-me no lixo. Sentia-me suja. A liberdade é uma sensação complicada de reencontrar." Refugia-se no Sul do país com Carlos-Lenin. E recomeça a militar.

Luis volatilizou-se. A maior parte dos camaradas de Carmen já caíram. Foi-lhe fixada residência. "Estava farta." Em 1981, consegue exilar-se na Suécia com Carlos-Lenin. Uma outra vida começa. Campo de refugiados, pequenas ocupações. É varredora de ruas, puericultora. Tem um outro filho, Jorge, e escreve poemas realistas onde o Chile ocupa o seu lugar. "Tinha muito a dizer contra o Chile. Muita dor." Fica 16 anos na Suécia.

Luis, por seu turno, refaz a vida na Alemanha. À saída da prisão, procurara em vão Carmen e abandona o Chile em 1977. Teve uma filha no Equador e três crianças na Alemanha. Quando Carmen lhe encontra o rasto, em 1981, passam a telefonar-se frequentemente. Luis vem às vezes à Suécia ver Carlos-Lenin. Divorciam-se em amizade.

Os anos passam. Luis torna-se um autor de sucesso. O seu nome é Luis Sepulveda. "O Velho que Lia Romances de Amor" vende milhões de exemplares no mundo. Os seus outros romances estão repletos de alusões à história de ambos. No "Um Nome de Toureiro" aparece uma certa Veronica "encontrada numa lixeira ao sul da capital chilena", depois de ter "sofrido todas as formas de tortura".

Há ainda este misterioso romance escrito como uma ode, "A Morena e a

Loira", onde duas mulheres se encontram em Itália. "Elas não se conhecem num jardim, nem num baile, mas nas masmorras de um edifício sinistro chamado Villa Grimaldi. (...) Era noite em Santiago do Chile, quando a morena foi arrancada de casa (...) Era noite em Santiago do Chile, quando a loira foi arrancada de casa..."

A loira é Marcia Scantlebury. O livro é romanceado, mas a história é verdadeira. Carmen nunca esqueceu a corajosa Marcia, sua camarada de tortura na Villa Grimaldi. Durante anos procurou-a e pensava que estava morta. Na Suécia olhava sempre para uma fotografia desta mulher magnífica, que era jornalista no Chile. E um dia de 1998, quando Carmen e Luis estavam em Veneza, Marcia encontrou Carmen. "Telefonaram-me para o quarto de hotel. 'Hola, Pelusa!' 'Quem é?' 'É a Marcia!' Dei um grito. Desci, chorámos, rimos. Tapámos os buracos da história. Ela regressou ao Chile."

Carlos-Lenin (que hoje é apenas tratado por Carlos) é músico na Suécia e tem um filho de dois anos. Quanto a Carmen e a Luis, à força de se telefonarem, de se escreverem, de contarem as suas vidas e as suas dores amorosas, voltaram a apaixonar-se. Carmen deixou a Suécia, Luis a Alemanha. Desde 1997 vivem juntos em Gijón e têm seis crianças entre os dois. Nenhuma fala a mesma língua. "Quando vêm cá, é a torre de Babel. Falo sueco com a minha nora, espanhol com os meus filhos, Luis fala (mal) alemão com os seus. Entre eles tentam comunicar em inglês."

Na última vez, Luis disse a Carlos-Lenin: "Preciso de falar contigo. 'Repeço-te' a mão da tua mãe." Estiveram todos em Gijón no passado fim-de-semana, sábado 21 de Agosto, para o casamento de Carmen e Luis