quarta-feira, setembro 15, 2004

Reportagem - 07

Por MARION VAN RENTERGHEM
Publico, Sexta-feira, 27 de Agosto de 2004

ok-Wai Tchao entrou no quarto. Pequeno, curvado para a frente, a mão nas costas para aliviar muitos anos de esforços. Os seus olhos rasgados dão a impressão de que tudo o diverte, mesmo se já nada o divirta. Naquele dia, de uma vez só, a vontade de recomeçar tomou conta dele. Um pé após o outro, devagar. O joelho alto, parado no ar, em equilíbrio. Os braços em pose artística, a concentração levada até à ponta dos dedos, numa pose de estilo tai-chi. Ele ri, fecha ainda mais os olhos. Num tom de "monsieur Loyal", com um incorrigível sotaque chinês, articula: "Voilà, c'est l'opéra!"

No seu apartamento em Paris, apenas a mulher, Pui-Ling, assiste ao seu número. Na China, nos tempos do seu esplendor, acorriam de todas as aldeias pessoas para ver Kok-Wai Tchao dançar, cantar e tocar música com o seu grupo de ópera. Isso passava-se no Sul do país, num recanto da província cantonesa. Uma rapariguinha vinha com os seus pais assistir às representações. Por nada deste mundo perderia Pui-Ling uma peça em que entrasse Kok-Wai Tchao: "Era o mais belo, tinha a voz mais bonita, era famoso." Ela casa-se com ele.

Kok-Wai senta-se na sua cadeira, as mãos sobre os joelhos, os pés nas pantufas. Como se tivesse adormecido depois da sua pequena demonstração. Nem pensar em tocar o seu "erhu", esse instrumento com duas cordas que mia como um gato. Era especialista nele na altura do seu grupo de ópera e de vez em quando tocava em família. Mas agora Kok-Wai está fatigado. Já não tem vontade.

Não tem muita vontade nem de nos falar. Não vê em que é que a sua vida poderá ter qualquer interesse. Repete os seus medos recalcados: "os comunistas" que poderiam vingar-se, "os chineses de Paris" que ficariam invejosos. A contragosto, com um ar obediente, começa a recitar como um aluno da escola primária. "Nasci em 1927, depois de dois irmãos mais velhos, numa aldeia da região de Toishan, a 200 quilómetros no Sudoeste de Cantão." Com pressa de acabar, acrescenta ainda, sem transição. "Depois, chegaram os comunistas e eu fui-me embora. E foi assim." Para evitar a perguntas, Kok-Wai Tchao inventou esta fórmula de delicadeza que repete em qualquer altura. "Os comunistas chegaram e eu fui-me embora. E foi assim."

Medo? Impaciência? Uma das raras fotos de família mostra-o tal como era com sete anos, com a mãe e o irmão. Os três em pose em frente da pintura "kitsch" de uma paisagem chinesa. A avó é ultrachique, o irmão está vestido de aluno modelo, Kok-Wai tem uma "t-shirt" amarrotada. "Tinha recusado vestir-se para a foto", conta a filha, Brigitte. "Era o rapazinho mau da família. Fugia, faltava à escola, só fazia o que lhe dava na cabeça."

A infância na China. A liberdade da família encorajou a preguiça natural de Kok-Wai. Um bisavô deixou vários hectares de arrozais e uma casa a cada um dos seus filhos. O avô de Kok-Wai era médico, o seu pai vendia produtos farmacêuticos, os dois eram pessoas respeitadas na comunidade. Moravam numa pequena casa de um só piso com um poço no exterior. Como toda a família de classe média, compraram uma rapariga para as lides domésticas. Kok-Wai brincava com ela. Ele tinha uma bicicleta, de grande luxo. Divertia-se, era feliz.

"Os meus pais obrigavam-me a ir à escola", explica. "Não percebia porquê, tínhamos tanto arroz quanto quiséssemos! Aos 14 anos, deixei de ir." Ri. Um riso particularmente comunicativo, um "oh-oh-oh-oh" que faz sair de repente com uma nota grave, lábios juntos, queixo para trás, olhos cerrados, batendo nos joelhos.

s imagens regressam. A sala das traseiras da farmácia da aldeia. As "grandes pessoas" que se encontravam para tocar músicas. Saxofone, violino, banjo, "erhu", trompete. Kok-Wai interrompe-se, a palavra trompete alegra-o. "Trompite! Oh, oh, oh, oh, oh!" Depois recomeça, visivelmente entusiasmado pelas suas lembranças. Revê a sua mão a passar pelo banjo, os primeiros acordes, os conselhos dos adultos. "O céu deu-me este dom", diz. "Pegava num instrumento qualquer e tocava. Todas as notas estão na minha cabeça, é automático para mim. Tinha um gramofone, punha um disco, memorizava um pedaço e tocava-o."

No apartamento parisiense, Pui-Ling levanta-se e traz uns cadernos. De caligrafia? Não, partituras de música em chinês. "Ele era trapalhão, mas compunha música tradicional", anuncia ela com um orgulho grave. Kok-Wai ri-se. "Tudo isso é passado!" Agora ocupa os seus dias a ouvir música chinesa. O resto, diz, não compreende nada.

Kok-Wai é dotado. Os seus pais compreendem-no depressa e encorajam-no. Mas inquietam-se: a situação financeira da família sai periclitante da guerra sino-japonesa (1937-1945) e da luta que travam os comunistas, conduzidos por Mao Tse Tung. Na aldeia, apenas uma pessoa tinha um rádio e as informações circulavam de boca em boca. A aviação japonesa ataca. Dado o alarme, todos fogem para os bosques, com comida até ao fim do dia.

Mas Kok-Wai não tem outro objectivo que não seja divertir-se. E aperfeiçoar a sua arte, graças aos músicos de Cantão que vêm à aldeia. Aos 16 anos, forma um grupo com os amigos. As autoridades locais e os ricos comerciantes encorajam-nos. Fazem-se colectas na aldeia e entre os chineses exilados. Músicos aposentados ajudam-nos. O grupo aumenta. Serão em breve uma centena de pessoas, entre eles uma vintena de artistas, para levar à cena peças de ópera chinesa.

Compram "décors", máscaras, fatos. Escolhem peças antigas conhecidas. Histórias de esposas e concubinas, de imperadores e senhores ciumentos, de princesas infelizes, de tratantes castigados. Os actores mimam, dançam, cantam, tocam instrumentos. "Cantávamos durante horas", recorda Kok-Wai. "Fazíamos poucos movimentos. Era muito fatigante." Cada um exibe uma maquilhagem e um fato típico: o bom veste-se de vermelho, o mau de preto, o negociante desonesto, sombrio e cobarde de branco. As máscaras representam demónios. Os cavalos são imitados com paus.

Deslocam-se de aldeia em aldeia, a pé, de bicicleta, em riquexós, ou por via fluvial. A sua chegada era celebrada com grande pompa. "Quando montávamos a nossa tenda", observa Kok-Wai, "as pessoas vinham das aldeias vizinhas. Ficávamos cinco dias no mesmo local e tínhamos mais de 300 espectadores de cada vez! O público adorava as nossas peças. Ofereciam-nos ramos de flores, convidavam-nos para tomar chá. Era fantástico!" Pára, olha para o relógio. A hora de considerar o dever cumprido. "E foi assim. Os comunistas chegaram e eu fui-me embora."

política, Kok-Wai aprendeu a nunca falar dela em voz alta. No seu grupo, evitavam-se discussões. Evoca apenas a instalação progressiva dos "partisans" na aldeia, a "libertação" da China por Mao em 1949, os quadros comunistas a chegar em uniformes militares, acolhidos pelos pobres como os salvadores. Os "senhores" são atirados para a prisão. Os arrozais dos seus pais confiscados.

O pequeno grupo de ópera está sob controlo. Acabaram-se as histórias de imperadores e princesas. Novas peças são impostas. É preciso cantar a glória do partido, enaltecer a coragem e o sacrifício, troçar do antigo regime ou amaldiçoar Xang Kai-chek, o tratante exilado em Taiwan.

"O bom" devia ser camponês; o "mau" o rico burguês, inimigo do povo. As máscaras tradicionais são banidas: o fato do actor é o pijama popular, chapéu na cabeça. "Éramos infelizes. Actuávamos a contragosto, éramos pobres. Os meus pais não tinham outra escolha se não ficar. Mas eu tinha asas. Podia partir." Kok-Wai Tchao pede um visto para França. Passam quatro anos.

ntretanto, a rapariguinha da aldeia vizinha cresceu. Pui-Ling fazia parte das fãs de Kok-Wai, estrela da ópera da região. Ela era deliciosa, tinha sido "miss" da sua escola e tinha tido pequenos papéis nas peças de ópera. As mães entendem-se. Quando o casamento foi arranjado, ela tinha 20 anos, ele 29. Mas a notícia rebenta: Kok-Wai obteve o seu visto e deve partir uma semana mais tarde. A única semana que os recém-casados passam juntos.

Julho de 1956. Kok-Wai Tchao despede-se da sua mulher, que se lhe deveria juntar mais tarde, em Paris. Ele passa por Hong Kong para aprender o ofício de cozinheiro. Em Dezembro, embarca para França. O canal Suez tinha sido nacionalizado pelo Estado egípcio. Era preciso dar uma grande volta, pelo cabo da Boa Esperança. A viagem dura 37 horas. Kok-Wai enjoa. Não tem ninguém com quem falar. Chora a sua vida perdida.

Desembarca em Marselha numa tarde de Janeiro em 1957, às 20h. Um parente vai esperá-lo. Tem um restaurante chinês em Paris e, no dia seguinte, Kok-Wai trabalha na cozinha. Da madrugada à meia-noite, por um salário de miséria. "Não via a luz do sol", disse. Nem tem tempo de escrever à sua mulher. Uma ou duas cartas por ano, não mais. Como os outros chineses que partiram antes dele, envia-lhe dinheiro e diz que está tudo bem. Ao lê-lo, pensar-se-ia que o paraíso ocidental está a seus pés.

Pui-Ling espera pelo seu visto durante seis anos. "Não teve graça", diz, amarga. Quando chega finalmente a Paris, cheia de esperança, em Fevereiro de 1962, as ilusões são desfeitas. "Tinha-me casado com um actor célebre, descobri um cozinheiro", disse deitando a Kok-Wai um olhar reprovador. "Pensava que voltaríamos à China para abrir contas bancárias e andar em belos automóveis. Ele não tinha sequer com que comprar fósforos. Antes, era engraçado e estava sempre de bom humor. Tornou-se triste, cansado, enervava-se por nada. Em seis anos, tudo tinha mudado. Não o reconhecia."

Depois da sua chegada, ela trabalha ao lado dele. Kok-Wai consegue montar o seu próprio restaurante. Moram num minúsculo quarto, numa mansarda, sem aquecimento, e trabalham sem parar. Às três da manhã, ele parte para o mercado. Ela toma nota dos pedidos dos clientes, serve os pratos, lava a louça e faz as limpezas. À força de poupar, adquirem um restaurante maior e um bonito apartamento em Paris.

Nascem duas crianças. Estudam francês. Pascal torna-se operador de câmara, Brigitte professora de Inglês. Da história familiar ela fez um romance ("La Chinoise de Paname", ed. Du Félin). Brigitte é professora do ensino público, o que os seus pais aprovam sem compreender. Depois de uma vida de trabalho passada entre chineses, da cozinha à sala de restaurante, não tinham logrado aprender francês e nunca chegaram a conseguir pronunciar o nome dos seus filhos. "Picite" e "Pacal" falam um cantonês cheio de palavras francesas, uma mistura de línguas cómica e saborosa.

Hoje, Kok-Wai Tchao e a sua mulher estão cansados. Doem-lhes as pernas, as costas. A reforma por que tanto esperaram passam-na a deixar correr os dias no seu apartamento. Alegram-se de poder comer quando têm fome e de ver os seus netos.

Não podem ir ao cinema, não compreendem o francês, nem o mandarim. Por duas vezes voltaram à sua aldeia. Edifícios substituíram as pequenas casas. A antiga comunidade de Toishan é uma cidade enorme (Hui-San), onde já não reconhecem nada. Todos deixaram o grupo da ópera. Foi dissolvido por falta de actores. Alguns foram clandestinamente para Hong Kong. Um vive no Canadá, outro nos Estados Unidos. Kok-Wai telefonou-lhes. "Não tínhamos grande coisa a dizer. Todos estão velhos e doentes. De vez em quando, mandamos um postal de boas festas."