quarta-feira, setembro 15, 2004

Vesna Bosanac

Publico, Domingo, 22 de Agosto de 2004

Esta série de seis reportagens fala de pessoas que não são célebres. Homens e mulheres que sobreviveram aos piores dramas da século XX e que agora aceitaram dar o seu testemunho e contar a sua vida a uma jornalista do jornal francês "Le Monde". Hoje é a vez de Vesna Bosanac, pediatra no hospital da pequena cidade croata que viu tudo durante esse Verão de 1991

Amanhã: O evadido de Berlim Leste

onha sempre o mesmo sonho. É uma imagem que passa, escaldante: a cidade deserta, o sol, o silêncio. E ela, sozinha na cidade, caminhando entre os escombros.

Vesna Bosanac regressou a Vukovar. Retomou o seu escritório, o seu lugar, de novo à frente deste hospital nos confins da Croácia, que ela dirigiu durante os três meses de cerco e de bombardeamentos das forças servo-federais, mesmo no início das guerras na Jugoslávia.

De nacionalidade croata, ela manteve a sua equipa, organizou os cuidados aos doentes e aos feridos, contactou em vão as chancelarias ocidentais. Até à queda da cidade, a 18 de Novembro de 1991. Até esse dia estranho em que, de repente, se ouviu o silêncio.

Regressou em 1997, depois de a região ter passado para a administração croata. Reconstituiu uma equipa médica. Com médicos de origem sérvia e croata. Alguns deles, sérvios e croatas, tinham vivido com ela esses três meses de inferno, sobreviventes das selvajarias das milícias e de uma cidade reduzida a nada, tão destruída como Desden em 1945. À semelhança de Vesna Bosanac, alguns regressaram a Vukovar. Habitados, como ela, pela visão dos mortos.

O hospital está como novo. Vemo-lo surgir, impecável, entre alguns pavilhões novos sem alma e várias fachadas-fantasma desordenadas de forma bizarra. Sons de explosões recordam que os arredores continuam cheios de minas.

A directora faz-se esperar. Imaginamos a silhueta miúda cuja energia provocava admiração durante a guerra. Mas é uma senhora gorducha, de cabelos grisalhos, com 50 anos já feitos, que abre a porta do seu escritório. Caminha na nossa direcção pesadamente, com passos pequenos, estende uma mão mecânica e senta-se com um ar cansado. À sua frente estão pilhas de dossiers em desordem, um crucifixo dourado, dois telemóveis, uma fotografia gigante do seu neto, um pacote de cigarros Walter Wolf e um cinzeiro cheio de beatas.

Vesna Bosanac acende febrilmente um cigarro, ouve a primeira pergunta e começa a falar. Sem parar, o olhar vazio. Concentrada a assinar com a sua rubrica, a responder aos seus telefones, a dar instruções. Diríamos que já nada a afecta, nem mesmo o sabor dos cigarros que fuma até à asfixia. E, sem tremer, sem sorrir, com a sua voz rouca e lancinante, rompendo-se por vezes num sorriso penoso, ela conta.

Fala de Vukovar antes da guerra. Uma cidade da Croácia, na margem do Danúbio, até à fronteira sérvia traçada pelo rio. A indústria da borracha e a cultura vinícola tornam a vida fácil. Uma vintena de nacionalidades, essencialmente croata e sérvia, mas também rutena, ucraniana ou eslovaca, coabitam sem fazer (demasiadas) perguntas. Até à explosão.

Depois da morte de Tito, em 1980, o presidente da Sérvia, Slobodan Milosevic, constrói uma Jugoslávia sob domínio sérvio, os albaneses do Kosovo reivindicam a sua autonomia perdida, a Eslovénia consegue fazer a sua secessão sem muitas complicações, a Croácia autoproclama a sua independência. Os conflitos entre as Repúblicas acentuam-se. As minorias inquietas radicalizam-se. A Jugoslávia divide-se. Na rota do nacionalismo da Grande Sérvia na Croácia, a região pluriétnica da Eslavónia Oriental é a primeira que o Exército jugoslavo e os paramilitares sérvios encontram. E Vukovar a primeira cidade. O primeiro alvo.

Antes da guerra, Vesna Bosanac era uma pediatra sem história no hospital de Vukovar. "O ambiente mudou de repente." Para ela é a 2 de Maio de 1991: 12 polícias croatas são mortos por extremistas sérvios nos arredores de Vukovar. Para um dos seus colegas sérvios, a degradação do ambiente começou um ano antes: com a eleição do presidente croata nacionalista Franjo Tudjman, os cartazes ameaçadores colocados na sua casa pelas milícias croatas, os cafés sérvios dinamitados. No hospital de Vukovar como noutros locais, sérvios e croatas discutem ainda sobre "quem começou". Ou calam-se. Como a secretária (sérvia) de Vesna Bosanac: "Já não posso pensar nisso, nem falar. A única coisa que desejo é que tudo isso nunca mais recomece."

24 de Julho de 1991, nesses tempos conturbados, Vesna Bosanac é eleita directora do hospital pelo "conselho dos trabalhadores" (de maioria sérvia). "Sabia que o contexto não tornava a tarefa fácil", diz. "Para mim era um desafio. Sou combatente por natureza. Mas ninguém imaginava o que nos esperava."

E Vesna Bosanac começou a contagem. A guerra cria este tipo de pequenas manias. Desde que o primeiro obus caiu sobre o hospital, em meados de Agosto, ela passou a assinalar conscienciosamente no seu bloco com uma cruz cada vez que uma bomba atingia o edifício. "Desde então, não passou um dia sem que o hospital fosse atingido. Projécteis de diferentes calibres. Como se Vukovar fosse um campo de ensaio para todo o tipo de munições." Ao fim de três meses de ataques, ela faz as contas: mais de 800 cruzes no seu bloco.

Quem é você, Vesna Bosanac? Nem uma vibração na voz. Nem uma pestana húmida. Como única mensagem, cigarros que se sucedem. São precisos os testemunhos dos colegas, sérvios ou croatas, para imaginar uma pequena senhora cheia de tacto, nunca cansada, gerindo o hospital, lançando SOS à comunidade internacional e mantendo-se o que era, pediatra, à cabeceira das crianças feridas.

O cirurgião Juraj Njavro, hoje reformado em Zagreb, recorda-se "do dia em que a doutora Bosanac quebrou: uma avó tinha chegado com um bebé de seis meses nos braços, morto". "Pela primeira vez vi-a chorar. Repetia-nos: 'Façam qualquer coisa!' Dizíamos-lhe que o bebé estava morto, mas ela não queria ouvir. Para ela nada era impossível, tudo se podia fazer, tudo devia ser feito. Mesmo ressuscitar uma criança morta."

Na cidade cercada, sob o ataque incessante da artilharia sérvia, é preciso reorganizar o hospital. Esvaziar os andares e juntar tudo no rés-do-chão e na cave. Os cuidados intensivos no abrigo antiatómico, a cirurgia na "sala do gesso", o resto onde for possível. Recolher a água da chuva e encher os poços das casas em redor, porque as canalizações tinham sido cortadas. Assegurar pelo menos três refeições quentes. Arranjar cadeiras e camas para o pessoal auxiliar e as suas famílias, instalados no local. "Graças a estas medidas", nota friamente Vesna Bosanac, "tivemos apenas dois mortos entre o pessoal: um que tinha saído para uma corrida e um técnico da caldeira que foi atingido por um obus quando fazia uma pausa ao sol."

ortos. Mortos por todo o lado. Os que morrem no hospital e os que aí chegam: cadáveres apanhados na cidade que são levados para ali por não se conseguir chegar ao cemitério. "Era horrível", diz Vesna Bosanac, subitamente agitada. "Os cadáveres submergiam-nos, obcecavam-nos. Entre dez e 20 mortos por dia. E não havia caixões. As portas, as mesas, tudo servia para os fabricar. No início, levávamos os mortos para o antigo cemitério, no centro da cidade. Depois o cemitério foi atingido por uma bomba, os mortos ficaram desfeitos, mais ninguém queria lá ir. Então começámos a abrir valas onde podíamos. Até que estivessem cheias ou fossem atacadas. Por fim, abrimos uma em frente do hospital. Metíamos os mortos em sacos. Quando a cidade caiu, havia 120 cadáveres empilhados aí, em frente da porta."

Vesna Bosanac dá uma passa no seu cigarro, inspira, parece longe. "Desculpem-me. Perguntava-me apenas se tinha medo. Mas a resposta é não. É curioso. Creio que não tinha tempo."

O tempo, reserva-o para os seus princípios: prioridade aos doentes, respeito pelo juramento de Hipócrates. E nenhuma psicologia. Vesna Bosanac cria uma reputação em betão. Em 1992 será nomeada para o Prémio Nobel da Paz. A antiga equipa saúda a sua coragem, a sua humanidade, a sua fidelidade aos princípios de médica. "Ela soube colocar as suas convicções políticas de lado", diz o médico (sérvio) Mladen Ivankovic.

Durante o cerco tratam-se os civis e os combatentes croatas. Mas também os combatentes sérvios e os soldados do Exército Nacional Jugoslavo (JNA), colocados à parte. "No fim", nota a directora, "um obus atingiu o quarto deles e tiveram que ficar uns com os outros nos corredores. Uma situação bizarra".

E depois o silêncio, de repente; o sol; essa famosa manhã de 18 de Novembro, quando a cidade de Vukovar se rendeu ao Exército jugoslavo. A dama de cabelo grisalho perde a sua voz de autómato. Procura as palavras. O súbito vazio, ela tem dificuldade em descrevê-lo. Já não há bombardeamentos, já não há tiroteios, nada. Só o ruído distante de um obus, de tempos a tempos. "O silêncio, já não o conhecíamos. Não sabíamos se devíamos ficar contentes ou ter medo."

Em três dias, 18, 19 e 20 de Novembro, Vukovar é uma página voltada. Os soldados do JNA, o "exército de libertação", entram no hospital. A doutora Bosanac é afastada das suas funções. O hospital passa para o controlo do major Veselin Sljivancanin (em breve julgado no Tribunal de Haia). Ele reúne o pessoal na "sala do gesso".

Durante esta reunião, os militares estão atarefados. A enfermeira principal vê-os. Tal como o oftalmologista Neda Striber, que testemunha em Haia. Da porta da sala do gesso, vêem os doentes serem levados rapidamente para a porta de saída e enfiados em autocarros. Duzentos e sessenta e um "não sérvios" são assim "evacuados" do hospital pelo exército servo-federal. A maior parte será encontrada em 1996: exumados da vala comum de Ovcara, a alguns quilómetros de Vukovar. Tinham sido reunidos numa quinta vizinha, espancados, executados. Depois são enterrados. Foi a primeira grande vaga de limpeza étnica na ex-Jugoslávia. "O meu sogro foi encontrado aí", acrescenta secamente Vesna Bosanac.

Ela não viu nada da evacuação dos feridos. Estava ingenuamente ocupada a exigir aos sérvios que evacuassem o hospital. Esteve presa durante três semanas na prisão de Mitrovica, depois foi entregue às autoridades de Zagreb. Ficou mais de cinco anos na capital croata, "directora do hospital de Vukovar no exílio".

s guerras da Jugoslávia prosseguem o seu caminho. Mais de 200 mil mortos, mais de três milhões de pessoas deslocadas. A Eslavónia Oriental é reintegrada na Croácia. Os sérvios deixam Vukovar, outros ficam. Os croatas deslocados regressam. A ONU tenta impor a "reconciliação". Em Julho de 1997, a directora faz o caminho de volta.

O regresso a Vukovar. Com as suas tensões, os seus ódios, o que não é dito, as acusações. Uma parte da equipa médica croata, expulsa da cidade "libertada", regressa ao hospital gerido durante seis anos por pessoal de origem sérvia. Do primeiro encontro lembram-se todos "como se tivesse sido ontem". Um médico croata recusa-se a dar apertos de mão. Um sérvio deixa a sala. Outro fala da sua "vergonha" e propõe um futuro comum. Vesna Bosanac evita os discursos longos: "Deixem os problemas psicológicos em casa. Mantenham-se profissionais."

Em Janeiro de 2003 vai testemunhar no Tribunal Internacional de Haia contra o antigo presidente sérvio Slobodan Milosevic. "Preparei-me psicologicamente", conta. "Fiz bem. Ele estava impertinente, fechado sobre si próprio, fixo na sua ideia da Grande Sérvia. Não ouvia o que eu dizia. Apoiava-se num registo vindo não sei se onde, contestava o número de feridos, o número de mortos." Ela estará também presente noutros processos, entre os quais o do major Sljivancanin.

A directora do hospital observa com um ar ausente este pós-guerra calmo e moribundo em Vukovar. Só uma bandeira discreta deixa adivinhar a fronteira sérvia, do outro lado do Danúbio. Mas a pequena cidade cosmopolita, que tinha 45 mil habitantes antes do cerco, perdeu metade destes. Os que regressam voltam a partir, porque não há trabalho, ou por mal-estar.

Vesna Bosanac não voltará a partir. O hospital de Vukovar é a sua toca, o seu refúgio, o seu destino. "Carrego às costas a cruz de Vukovar", diz bruscamente. "É algo que habita em mim. Vivo com isto e não compreendo. Revejo a ideologia criada, a Grande Sérvia, as bandeiras com caveiras, os comícios. E depois vejo a cidade arrasada, a espera, este sol que cega, este silêncio assustador. Tudo me surge na cabeça muito rapidamente, como um comboio expresso que passa e volta a passar à minha frente. Apenas um traço que queima."