Quinta-feira, Setembro 30, 2004

Comissão de Inquérito aos acontecimentos da Lota de Matosinhos

(Fonte: O Comércio do Porto de 30 de Setembro de 2004)

1. - A Comissão Política Nacional deliberou constituir, em 15 de Junho de 2004, uma Comissão de Inquérito presidida pelo Presidente do Partido António de Almeida Santos e ainda por José Vera Jardim e Jorge Lacão, encarregada de proceder a um rigoroso e urgente apuramento dos factos e das correspondentes responsabilidades relativos aos acontecimentos ocorridos na lota de Matosinhos.

No cumprimento deste mandato, a Comissão de Inquérito tomou em conta as reportagens e noticias divulgadas na comunicação social, reuniu registos audiovisuais e fotográficos do evento, e, sobretudo, procedeu à audição de dezenas de pessoas, cujos depoimentos recolheu acompanhados, nalguns casos, de elementos documentais conexos.

De tudo se lavraram os correspondentes autos que ficam a integrar o processo de inquérito aos acontecimentos da lota de Matosinhos, ocorridos durante a visita dos candidatos do PS às eleições para o Parlamento Europeu, em 9 de Junho de 2004, e que foram conclusos, incluindo o presente relatório e correspondentes conclusões e proposta, em 26 de Julho p.p.

2. - A lista das pessoas ouvidas nos presentes autos, de que resultaram sessenta e sete (67) depoimentos, vem identificada no frontispício dos autos. Do processo consta, como sua parte integrante, um álbum fotográfico, um dossier com recortes de imprensa e os registos audiovisuais das transmissões televisivas com relação aos acontecimentos da lota de Matosinhos.

3. - Os factos

Com base nos depoimentos recolhidos (no seu conjunto, sem embargo de algumas referências específicas ao longo do presente relatório) e na sua avaliação crítica, bem como nas fotografias e registos audiovisuais e, ainda, coadjuvantemente, nas notícias publicas na comunicação social sobre o evento, a Comissão de Inquérito aos acontecimentos da lota de Matosinhos apurou a seguinte factualidade que tem como provada ou fortemente indiciada:

1 - Com imediata antecedência e durante a visita à lota de Matosinhos

1. No dia 9 de Junho, os candidatos da lista do PS ao Parlamento Europeu saíram pela manhã, algum tempo depois das 08.00 horas (Auto VI, fls. 35) do Hotel Ipanema, no Porto, em direcção à lota de Matosinhos

2. À saída do Hotel, Narciso Miranda, que aí se havia deslocado, foi convidado, por responsável da caravana, a acompanhar o professor Sousa Franco na viatura em que este seguia, tendo prosseguido juntos para a visita à lota.

3. No momento da saída das viaturas, incorporou-se na caravana uma viatura que dela não fazia parte e onde foram vistos seguir pelo menos três pessoas desconhecidas dos restantes elementos da comitiva, que, segundo vários testemunhos presenciais, ostentavam auricular de comunicações e revelavam ser pessoas bastante robustas, mais tarde algumas delas identificadas como tendo na lota exercido funções de segurança.

4. Entretanto, iam-se agrupando na lota as pessoas mobilizadas para esperar a caravana do PS. E, segundo relatos coincidentes obtidos de várias testemunhas (autos e fls. XV, 70; XXX, 144; XXXVIII, 172 e segs; XLVI, 212 e segs; XLVII, 221 e 222; XLIV, 235; IXI, 266 e segs) passaram aí a ter lugar alguns episódios evidenciadores de uma particular tensão latente. De que se destacam:

- o agrupamentos das pessoas, militantes e simpatizantes do PS, que foram aguardar a chegada da caravana, em dois grupos, gritando esparsamente "PS, PS" mas, sobretudo, "Seabra, Seabra";

- o encabeçamento do grupo mobilizado pela Comissão Política Concelhia de Matosinhos por parte do seu Presidente, Manuel Seabra, em relação ao qual os presentes entendiam manifestar apoio com a palavra de ordem "Seabra, Seabra" e a quem chegaram a erguer em ombros antes da chegada da caravana;

- uma particular hostilidade evidenciada contra a pessoa de Narciso Miranda, sobretudo identificada com um grupo de mulheres vendedoras de peixe e a quem igualmente haviam sido distribuídos os materiais de campanha e as bandeiras do PS.

5. Da ida em conjunto de Narciso Miranda como Prof. Sousa Franco foi por um responsável da caravana dado prévio conhecimento a Manuel Seabra, presente na lota (Auto XI, fls. 51); do clima de tensão vivido na lota nos momentos que antecederam a chegada da caravana foi, também, dado conhecimento a Narciso Miranda, por telemóvel, durante a deslocação da caravana do Porto para Matosinhos (XV, 71).

6. Segundo Testemunhos de depoentes que seguiram no mesmo carro do Professor Sousa Franco e de Narciso Miranda, este evidenciou no percurso um estado de apreensão e nervosismo, procurando no entanto garantir ao Professor Sousa Franco que tudo na lota se passaria bem (II, 11; XII, 53; XIII, 57).

7. O Professor Sousa Franco fora entretanto aconselhado a não usar os seus óculos durante a visita, dada a especiosidade destes ligados a um aparelho auditivo, e o risco de, na agitação possível e tradicional do momento da visita, os mesmos poderem ser danificados. O Professor Sousa Franco passou a confiar em Narciso Miranda para as funções de acompanhante permanente e de guia durante a visita, disponibilidade em que este inteiramente assentiu (II, 12; XII, 54).

8. Logo nos primeiros momentos da chegada à lota, pouco depois das 8.30 h. (XXI, 97; XXX, 134), teve lugar um primeiro impacto com o candidato, com destaque para o comportamento de um dos principais responsáveis da recepção, o coordenador da secção do PS de Matosinhos, António Parada, o qual, em atitude de envolvimento impetuoso, de imediato pretendeu afastar o Professor Sousa Franco de Narciso Miranda, dado que aquele se encontrava agarrado a este para melhor poder ser conduzido. Desta acção resultou uma quase queda de Narciso Miranda e um acentuado desequilíbrio do Professor Sousa Franco, circunstância que contribuiu para o rápido aumento da tensão geral, para uma tentativa de agressão por parte de um dos presentes, usando uma haste de bandeira num movimento sustado por outro mas que, potencialmente, poderia ter atingido qualquer das figuras presentes (II, 12; XV, 71; XVIII, 84; XXIX, 124 e 125; XXXI, 140; XXXII, 144; LVII, 255 e álbum de fotografias, nº 3).

9. Passaram então a ouvir-se vivas dissonantes entre os manifestantes, mais intensamente de "Seabra, seabra", menos intensamente de "Narciso, Narciso", e, segundo os relatos, o menos ouvido de "PS, PS". Mas ouviram-se igualmente, segundo muitos dos testemunhos (XXXII, 144; XXXIV, 153; XXXVIII, 176; XLVI, 215; XLVIII, 228 e segs; LI, 245; LII, 247; LVII, 260; LXI, 267), fortes insultos e grosseiras injúrias dirigidas à pessoa de Narciso Miranda.

10. Durante o inquérito, a Comissão recolheu, aliás, múltiplos depoimentos convergentes (II, 5 e segs; XXXVIII, 172 e segs; XLVII, 222; XLIV, 233, entre outros) testemunhando o enquadramento de um grupo de vendedeiras de peixe (presumivelmente de entre aquelas que vêm mantendo um conflito arrastado com a CM em consequência da proibição por parte desta de venda de peixe em condições ilegais) no sentido de expressarem, na ocasião, uma atitude de hostilidade a Narciso Miranda. Vários desses depoimentos avultam ainda no sentido de considerar que essa manifestação de hostilidade foi especialmente encorajada ou até orquestrada pelo principal agente coordenador da acção da visita à lota, o Presidente da secção de Matosinhos do PS, António Parada, que aliás trabalha para uma empresa de segurança que presta serviços à lota de Matosinhos, tendo-os já prestado à própria C.M. de Matosinhos, por contrato que anteriormente cessara na sequência de um concurso ganho por outra empresa.

11. Após a "turbulência" (assim descrita por muitos dos depoentes) do impacto inicial, o Professor Sousa Franco, sempre acompanhado e enlaçado por Narciso Miranda, foi levado a encetar uma deslocação intensa no sentido do interior de edifício da lota, que alguns qualificam como sendo, numa primeira fase, efectuada de forma rapidíssima e, até, quase em passo de corrida, praticamente inviabilizando qualquer possibilidade de cumprimentos às vendedeiras presentes (já que, em matéria de consumidores, estes eram quase completamente ausentes). A referida deslocação mostrou-se, ainda segundo muitos testemunhos (XIV, 62; XXV, 112; XXVI, 113 e segs.; LVII, 258 e fotgs. 4, 5 e 6), enquadrada por forte cordão se segurança, dificultando, em particular de trás para a frente, o acesso dos presentes à cabeça da comitiva e levando mesmo a inevitáveis embates com as bancas e os cestos do peixe que, nalguns casos, com protesto das vendedeiras, foi derramado pelo chão.

12. Neste circunstancialismo, as recorrentes manifestações de "Seabra, Seabra", a espaços, de "narciso, Narciso" e, episodicamente, de "PS, PS" não deixaram de se ouvir. Além disso, em vários momentos do trajecto, o Professor Sousa Franco, submetido desde o Início à pressão dos acontecimentos, tal como se relatam, voltava a ser fortemente interceptado e incomodado por António Parada, sempre com o propósito de i afastar de Narciso Miranda e, também, de fazer colocar, em posição supostamente privilegiada junto deste, e consequentemente destacada para efeitos mediáticos, a pessoa de Manuel Seabra.

13. Só uma intervenção estabilizadora da situação levada a cabo por António Costa - que tendo andado inicialmente deslocado da cabeça da comitiva pela impossibilidade de se ter acercado dela, veio em sentido oposto ao da comitiva sustar o seu andamento de "ondulação em dia de tempestade" - para referir a imagem de um testemunho (LI, 245) - acabou por permitir uma nova volta ao recinto, de forma mais calma e propícia ao efectivo e mais sereno contacto pessoal dos candidatos com as vendedeiras da lota.

14. Após esta fase da acção, mais serena, o Professor Sousa Franco saiu do edifício da lota em direcção à respectiva viatura tendo, nesse momento, tido oportunidade de trocar comentários breves com alguma comunicação social, exibindo um bom estado de espírito e procurando minimizar o significado e o impacto do sucedido na sua visita à lota. Mas pode verificar-se ainda, pelas imagens televisivas exibidas, que, quando o Professor se dirige para a viatura, as pessoas que o rodeavam vão gritando intensamente a palavra de ordem "Seabra, Seabra".

15. Na sequência imediata do abandono da lota por parte do Professor Sousa Franco, os ânimos voltaram a recrudescer com os gritos de "Seabra, Seabra" e, menos, de "Narciso, Narciso", mais uma vez, com um grupo de mulheres, que vários e impressivos testemunhos dizem ter visto ser orientadas por António Parada, em atitude expressivamente hostil e injuriosa para Narciso Miranda (LI, 245), ao ponto de os membros da caravana presentes terem receado pela integridade física deste, facto que levou António Costa a decidir a sua rápida evacuação do local, disponibilizando para o efeito a sua própria viatura (XIV, 64, entre outros).

16. Nos momentos que se seguiram, foi ainda António Costa quem procurou reconduzir as coisas a uma aparência de normalidade, tanto nos contactos com a comunicação social como numa recentração da acção em torno do PS e não dos rivais de Matosinhos. Mas ainda aí os circundantes, apoiantes de Manuel Seabra, tiveram como adequado catapultar este em ombros bem como, de seguida, perante a perplexidade do próprio, António Costa, com vivas de "Seabra, Seabra" e entrega a Manuel Seabra, para coroação final do momento, de um ramo de flores (XIV, 65; XVII, 79; XXXII, 145).

Nota: Omitem-se do âmbito do relatório os aspectos concretamente referidos ao trágico falecimento do Professor Sousa Franco, por não terem os mesmos articulação directa com o apuramento das responsabilidades relativas aos eventos da lota, tal como delimitadas no âmbito do presente inquérito.

II - Com relevância directa ou indirecta face aos factos ocorridos na visita à lota

Face à narração sintética dos factos ocorridos na visita da caravana PS à lota de Matosinhos, importava à Comissão de Inquérito poder determinar e apurar os níveis e os graus de responsabilidade dos vários intervenientes pelos eventos que aí se verificaram. Designadamente quanto a saber:

1 - Se o eclodir das rivalidades locais verificadas na lota de Matosinhos era previsível, fora efectivamente previsto e de que modo tinha sido abordado ou tentativamente prevenido;

2 - Se os eventos, tal como efectivamente ocorrerem, resultaram de uma situação de descontrole inesperado ou foram potenciados por qualquer tipo de comportamentos indutores ou, ainda, de qualquer forma, premeditados. A este respeito, a Comissão pôde apurar, com relevo, o seguinte:

Quanto à primeira questão:

1. A Comissão apurou que os riscos de incidentes na lota de Matosinhos tinham sido efectivamente levados ao conhecimento de dirigentes nacionais e distritais do PS, por iniciativa de Narciso Miranda, e designadamente com alerta ao Secretário Nacional da Organização, Vieira da Silva, e ao Presidente da Federação do Porto, Francisco Assis. O referido alerta - que Narciso Miranda reputou ter para si muita credibilidade por derivar de um acesso que considerou muito fidedigno, através de interpostas pessoas, ao que se havia passado no interior de reuniões onde se preparariam actos de hostilidade a si especialmente dirigidos - terá sido ponderado mas não suficientemente valorizado para justificar uma eventual anulação do programa da visita à lota de Matosinhos.

A Comissão de Inquérito tomou também conhecimento de que, através da publicação do jornal "Matosinhos Hoje", havia sido publicada uma sondagem, no períodos imediatamente antecedente ao momento da campanha eleitoral das europeias, evidenciando uma preferência maciça dos inquiridos pela candidatura de Manuel Seabra à presidência da C. M. de Matosinhos. Consta, todavia, dos autos do inquérito, a declaração de um técnico (fls. 81 a 85) no sentido de tal sondagem ter sido orientada e carecer de fidedignidade, servindo, assim, sobretudo, de suporte instrumental à campanha local de Manuel Seabra em oposição a Narciso Miranda e contando, neste particular, com o impulso do próprio director do jornal que, sendo também filiado no PS, é adepto confesso de Manuel Seabra (confesso e parcial, como resulta do teor do depoimento constante dos autos - XL, 183 e sgs.).

O ambiente entre os socialistas de Matosinhos e a própria opinião publicada a nível local, encontra-se, pois, visivelmente bipolarizado em torno de duas facções revelando manifesta incapacidade de cooperação e até indisponibilidade para o simples diálogo entre si. Incapacidade e indisponibilidade que acaba por ter recorrentes afloramentos na vida partidária local, submetido a fortes tensões e antagonismos.

De vários testemunhos (XXXIV, 152; XLVII 219; XLI, 268) resulta, aliás, que na preparação e na realização das acções de campanha eleitoral organizadas no concelho de Matosinhos se evidenciou uma atitude, pelo menos pontual, de afastamento de uma das sensibilidades (a afecta a Narciso Miranda) de participação nessas mesmas acções.

2. Com este quadro subjacente, a Comissão de Inquérito apurou que o Secretário Nacional, Vieira da Silva, chegou a admitir uma visita desdobrada a Matosinhos, com recepção do Professor Sousa Franco pelo Presidente da Câmara Municipal, no edifício desta, e uma visita à lota sem a sua participação. Mas que esta hipótese acabaria por não ser adoptada. Que, por outro lado, na sequência de contactos de informação que desenvolveu, Vieira da Silva recebeu garantias do Presidente da Federação do Porto, Francisco Assis, do Presidente da Comissão Política Concelhia, Manuel Seabra, do Coordenador da Secção do PS de Matosinhos, António Parada, e, até, parecer de António Costa, após diligências de consulta por este levadas a cabo, de que tudo se passaria com normalidade na visita da caravana PS à lota de Matosinhos. Que, por isso, esta foi mantida no calendário das acções de visita ao conjunto dos municípios do distrito do Porto.

3. Por outro lado, como alega Narciso Miranda, a instâncias do Secretário Geral, através do Secretário Nacional Alberto Martins, para que não radicalizasse as suas posições (a sua declarada intenção de não comparecer na visita à lota), mas, também, de muitos outros camaradas que o incentivaram a estar presente no evento, decidiu comunicar ao Secretário Nacional, Vieira da Silva (do qual esperava ainda um contacto, não concretizado, na sequência dos apelos por si feitos), através de Alberto Martins, que tinha acabado por decidir ir à lota e que se empenharia em que a visita decorresse o melhor possível.

4. Narciso Miranda lamenta a insuficiência das respostas da direcção nacional e da federação aos seus apelos. Mas, neste ponto, a Comissão pode apurar o elevado grau de diligência com que preventivamente agiu o Secretário Nacional para a Organização, Vieira da Silva. Já perante idêntico lamento de desatenção e ausência de comunicação por parte de dirigentes da Federação distrital do Porto com especiais responsabilidades na campanha eleitoral para as eleições ao Parlamento Europeu, a Comissão de Inquérito compreende menos bem as razões da insuficiência dessa comunicação, aparentemente facilitada tanto por razões de proximidade como de cooperação e solidariedade institucional, supostamente devidas entre pessoas e órgãos de uma mesma federação.

5. Por outro lado, face à evidência do muito que correu mal na visita à lota de Matosinhos, no contexto de um ambiente partidário de elevada tensão, a Comissão de Inquérito manifesta a sua perplexidade pelo facto de todos os consultados, com responsabilidades locais e distritais, terem podido assegurar que o programa da visita iria decorrer com total normalidade.

Quanto à segunda questão:

A Comissão de Inquérito tomou conhecimento de aspectos cujo melindre aconselha uma abordagem prudente.

1. Desde logo, quanto à realização de reuniões com um restrito número de pessoas das estruturas de Matosinhos, reveladoras de uma animosidade especialmente orientada contra Narciso Miranda, e que seria feita eclodir durante a visita à lota - não sendo de todo possível garantir em definitivo a veracidade ou inveracidade de tais ocorrências -, chama-se no entanto a atenção para os seguintes aspectos:

- de que os autos registam impressivos testemunhos, quer quanto à verosimilhança de tais reuniões, quer quanto á emanação de um espírito persecutório e de vindicta em relação a Narciso Miranda (depoimentos IV, 28; V, 29; XVIII, 81 e segs; XXII, 104 e segs; XXIV, 109; XXXVIII, 168 e segs; XLIX, 232);

- de que os autos são abundantes na descrição de ocorrências verificadas imediatamente antes e durante a visita à lota de Matosinhos em que, especialmente, o coordenador do PS da secção de Matosinhos é apontado como animador ou instigador activo de um clima de hostilidade contra Narciso Miranda, praticas que revelam pelo menos uma coincidência objectiva e subjectiva com as suspeições levantadas.

2. O próprio clima de suspeição vivido na véspera da visita à lota de Matosinhos, com afloramentos na caravana do PS, fez despertar os jornalistas para o propósito de identificarem por antecipação as causas desse mesmo clima, o que se traduziu, aliás, em notícia da LUSA e, pelo menos, também, com relevância, no jornal "O Público" do próprio dia da visita à lota.

Do conteúdo revelador das declarações então prestadas vale a pena reter, da parte de António Parada, da secção de Matosinhos, em relação a Narciso Miranda: "Há mais de 20 anos que andei a fazer esse trabalho para o Narciso Miranda. As mobilizações aconteceram graças a mim, mas agora ele nada está a fazer, pelo menos em articulação com a concelhia de Matosinhos do partido"

Por seu lado, Narciso Miranda, afirmando-se "surpreendido" com o teor das supra citadas declarações, protestando não querer "perder tempo com essas intrigas" informou que no mesmo dia à noite (véspera da visita à lota) estaria num jantar "com cem operacionais" que participam na mobilização no distrito do Porto, assegurando que "vai haver uma grande mobilização".

3. Com efeito, veio a ter lugar o referido jantar, com cerca de 40 pessoas, usando aí da palavra Narciso Miranda e o vereador na Câmara de Matosinhos, Guilherme Pinto. Segundo os depoimentos recolhidos, tratou-se acima de tudo de apelar à participação das pessoas no programa da visita. Na ocasião, segundo testemunhos, Narciso Miranda fazia transparecer um estado de espírito de muita preocupação (XXXVIII, 173; XLVII, 221; XLIX, 239).

A Comissão de Inquérito pôde, no entanto, apurar que, já no final do jantar, estando já ausente Narciso Miranda, aí esteve presente um indivíduo que, não sendo filiado no partido, assegura tradicionalmente a sua presença nos principais eventos públicos de Matosinhos em que participam figuras conhecidas do PS. Tal como Pôde apurar ter tido esta mesma pessoa um papel especialmente preponderante com relação aos acontecimento do dia seguinte.

4. Assim, em relação ao dia da visita à lota, importa realçar os seguintes aspectos e ocorrências (com provável relevância indutora nos acontecimentos que se verificaram) bem como o seu significado:

4.1.- Que o facto de Narciso Miranda ter acompanhado pessoalmente Sousa Franco, a partir do Hotel, e ter surgido na lota de Matosinhos como o acompanhante privilegiado deste, em nada terá contribuído para um clima de apaziguamento das rivalidades latentes, bem pelo contrário. E se é verdade que o convite para o acompanhamento foi feito à saída do Hotel pelo responsável operacional da caravana (Marques Perestrelo), não é menos verdade que era Narciso Miranda quem, como ninguém, conhecia o ambiente mansão - outra vez acentuado pelo acontecimento mediático da véspera - com que se iriam provavelmente deparar. Nestas condições deveria ter ponderado as implicações de aceitar figurar como o principal guia de Sousa Franco na lota. Aliás, em especiais circunstâncias derivadas da diminuição da capacidade visual e auditiva deste, devido ao não uso propositado dos óculos, e que tornaram esse acompanhamento necessariamente mais intenso, como se verificou. E esta asserção é ainda reforçada pelo facto de se ter conhecimento de que do ambiente de tensão vivido entre os manifestantes que aguardavam na lota foi dado conhecimento ao próprio Narciso Miranda, por telemóvel, durante o períodos do trajecto, (XV, 71);

4.2. - Que, sendo certo que o responsável da caravana, à saída do Hotel Ipanema, avisou por telemóvel o Presidente da Concelhia de Matosinhos, Manuel Seabra, da presença de Narciso Miranda junto de Sousa Franco, e que não obteve deste qualquer sinal de repúdio, o conhecimento na lota, desta facto, por essa e outras vias, não terá contribuído para serenar os mais exaltados, antes pelo contrário;

4.3.- Que as movimentações de António Parada, coordenador da secção de Matosinhos, muito auxiliado por outros militantes - dos quais se destacava um da secção de Custóias, conhecido pelo "Galinha", portador de "T-shirt" com a fotografia de Manuel Seabra e o slogan "Seabra a Presidente" (já usada na campanha anterior para a disputa eleitoral para a concelhia) - particularmente junto do grupo de vendedeiras externas (aquelas que mantêm um conflito arrastado com a Câmara Municipal e o Presidente Narciso Miranda); e, com especial destaque, para o já descrito comportamento impetuoso, por mais de uma vez evidenciado junto do Professor Sousa Franco, agressivo na conduta, sectário na obsessão promocional de Manuel Seabra e, até, mobilizador de hostilidades (XLVIII, 226; XXXIX, 181) contra Narciso Miranda, comportamento este evidenciado desde os primeiros momentos do evento, em nada contribuíram para dotar a visita do ambiente minimamente adequado à desejável unidade dos socialistas numa tão sensível e mediática acção de campanha eleitoral. Muito pelo contrário, ficaram a evidenciar-se como um dos aspectos mais desestabilizadores e censuráveis dos acontecimentos;

4.4.- Que a inequívoca complacência de Manuel Seabra, durante praticamente todos os passos da visita, e até na interpretação que dela posteriormente fez, imediata (junto dos órgãos de comunicação social) e mediatamente (nos depoimentos prestados), para com o clima sectário especialmente mobilizado em seu redor e para sua exaltação, muito mais do que para a promoção dos candidatos e da candidatura do PS às eleições ao Parlamento Europeu, começando a culminando simbolicamente na elevação em ombros e, até, na coroação pela oferta de um ramo de flores, contribuiu decisivamente para comprometer aos olhos da opinião pública - "guerra de facções na lota" - o significado político da visita , independentemente do seu desfecho trágico;

4.5 - Que um outro e significativo factor de instabilização do ambiente da visita decorreu de uma inusitada preponderância de indivíduos repartindo entre si, de modo descoordenado, funções de ordem e de segurança. Com efeito, além da normal presença no local de agentes fiscalizadores da própria lota, devidamente fardados, evidenciou-se nos acontecimentos a presença e a acção de um conjunto de indivíduos com características de profissionais de segurança (usando mesmo alguns deles auriculares de comunicação) e de outros, de perfil diverso mas de compleição igualmente robusta, além de mais elementos actuando de forma difusa ou dispersa. Este entrecuzamento de movimentações acabou por se revelar em aspectos paradoxais - por um lado, terá evitado o risco de confrontos físicos entre pessoas mais exaltadas e, até o risco de agressão física pelos mais crispados contra Narciso Miranda; por outro lado, terão eles próprios contribuído para a precipitação dos acontecimentos ao isolarem dos manifestantes a pessoa do candidato, ao precipitarem comportamentos que levaram, pelo seu impacto negativo, à irritação das próprias vendedeiras do interior do edifício da lota; ao disputarem entre si a proeminência na condução da cabeça da comitiva; ao patrocinarem acções de maior radicalização do conflito subjacente (como a de erguer em ombros Manuel Seabra e, inesperadamente para o próprio, António Costa); ao evidenciarem aos olhos da comunicação social factores de dilaceração nunca tão evidentes em acções pretéritas do PS.

4.6. Que a referida presença e actuação dos elementos em funções de ordem e de segurança pode ser caracterizada como correspondendo:

Primeiro, a um grupo de pessoas especificamente contactadas e especialmente preparadas para o efeito. É convicção dos membros da Comissão apoiada nos autos (XXCXI, 138 e segs.), que esse contacto foi concretizado pelo menos pelo já referido indivíduo - Pedro Nogueira - que habitualmente se apresenta nas acções relevantes do PS, em articulação que não ficou provado ter sido efectivada com Narciso Miranda mas que com grande probabilidade terá ocorrido com pessoa ou pessoas da sua equipa de trabalho próxima;

Segundo, a pessoas sob orientação de António Parada, algumas exercendo funções de segurança na própria lota, de que se destacam os elementos que elevaram no ar António Costa e Manuel Seabra;

Terceiro, a alguns militantes ou simpatizantes do PS que espontaneamente concorrerem parta o serviço de ordem;

Quarto, a algumas intervenções difusas de alguns dos elementos da caravana nacional, os quais, aliás, falharam quase por completo uma orientação interna no sentido de preventivamente acautelarem as condições da visita à lota por parte do Professor Sousa Franco.

III - Com relevância no capítulo das responsabilidades, na sequência dos acontecimentos verificados na lota

Neste aspecto, a Comissão tomou nota de ocorrências imediatas ou mediatas aos acontecimentos de que julga relevante destacar as seguintes;

1. Da parte de Narciso Miranda
As suas imediatas declarações à comunicação social, à saída da lota, ainda no desconhecimento da morte do Professor Sousa Franco, no sentido de desde logo encetar um processo de culpabilização da facção rival pelos acontecimentos verificados.

2. Da parte de Manuel Seabra
A insistência de declarações suas à comunicação social, após conhecimento da morte de Sousa franco, e nas próprias imediações do Hospital Pedro Hispano de Matosinhos, apesar de observações para que evitasse tal conduta, justificando, até, uma intervenção particularmente veemente nesse sentido do secretário Nacional Vieira da Silva.

3. Da parte do funcionário do PS da Federação do Porto, Domingos Ferreira

A persistência de declarações suas totalmente desprimorosas contra Narciso Miranda, algumas que, pelo seu carácter virtualmente difamatório, inverdadeiro ou carecido de prova, podem dar lugar a procedimentos de natureza penal, proferidas, nomeadamente, por ouvir dizer - visto o próprio não ter estado nem à saída do Hotel nem na lota - e em circunstâncias (como os corredores da Federação do Porto) de poderem ser ouvidas, coligidas e divulgadas por órgãos de comunicação Social (vide, por todos, "T&Q", de 18 de Junho de 2004), como efectivamente veio a acontecer (XX, 95)

Conclusões

Em face do relatório apresentado, a que corresponde e tem subjacente, como material probatório ou indicuário, um processo de que constam autos circunstanciados documentando os testemunhos recolhidos e outros elementos documentais, registos das notícias de imprensa, cassetes com imagens televisivas e um álbum fotográfico relativo aos eventos da lota de Matosinhos,

A comissão de Inquérito, por unanimidade, retira as seguintes conclusões:

1. Embora não sendo possível dar como provadas as suspeitas originárias invocadas por Narciso Miranda para, com base nelas, ter alertado a direcção do Partido para a seriedade do ambiente divisionista vivido entre os militantes do PS de Matosinhos, com risco de séria afectação do desejável sucesso de uma visita à lota no período da campanha eleitoral para as eleições ao Parlamento Europeu, é possível reconhecer indícios sérios da sua probabilidade e, em todo o caso, evidências objectivas e múltiplas de um clima de efectivo e radicalizado divisionismo entre militantes, dirigentes e responsáveis autárquicos locais do PS - clima esse que é mesmo adensado por inimizades profundamente acentuadas entre pessoas, as quais muito comprometem a desejável coesão e solidariedade nas suas relações. Neste quadro, os alertas tempestivamente feitos por Narciso Miranda tiveram, quando ao essencial do problema, plena justificação.

2. Em face do que se refere no número anterior, a Comissão de Inquérito tomou conhecimento das diligências de avaliação preventiva do problema, em particular das levadas a cabo pelo Secretário Nacional para a Organização e responsável máximo pelo desenvolvimento da campanha eleitoral, Vieira da Silva, reconhecendo nelas um efectivo grau de atenção e cuidado. Com efeito, demonstram-se nos autos múltiplas diligências de avaliação do problema de Matosinhos e uma decisão final de só concretizar a programada visita á lota depois de verificados os seguintes pressupostos: garantias de absoluta normalidade no processo de preparação da visita dadas directamente pelo Presidente da Federação do Porto, Francisco Assis, e do próprio êxito assegurado com a referida acção dadas pelo Presidente da Comissão Política Concelhia, Manuel Seabra, e pelo Coordenador da Secção do PS de Matosinhos, António Parada. Além ainda de parecer favorável à efectivação de tal acção de campanha dado por António Costa na sequência de Consultas informais por si levadas a cabo. Sendo que o Próprio Narciso Miranda , com intermediação do Secretário Nacional Alberto Martins, veio a declarar a sua decisão final de comparecer na acção da lota bem como de se empenhar no êxito da sua realização.

3. Não deixa, todavia, a Comissão de Inquérito de observar, com preocupação, a insuficiência de comunicação e acompanhamento do problema por parte de dirigentes da Federação do Porto do PS com especiais responsabilidades na campanha eleitoral, não tendo sido possível identificar, a este nível, quaisquer diligências de auscultação preventiva junto de Narciso Miranda por efeito dois avisos tempestivamente por este efectuados. mais estranha que diligências de tal natureza tivessem decorrido sob orientação do funcionário daquela Federação, Domingos Ferreira, envolvendo contactos deste com interpostas pessoas na aproximação a Narciso Miranda, o que não parece ser procedimento adequado à relevância das suas responsabilidades funcionais e á relevância das responsabilidades institucionais dos principais envolvidos na questão.

4. A Comissão de Inquérito pôde no entanto ganhar a convicção firme, através da impressividade e da convergência de depoimentos por si recolhidos, tanto quanto pelo própria objectividade dos acontecimentos que se verificaram n lota, de que o momento da visita, pela sua especial cobertura mediática, foi premeditadamente instrumentalizado no sentido de dele vir a ser possível realçar dois aspectos em consonância: a afirmação intempestiva, deslocada e, como tal, desajustada e sectária da candidatura de Manuel Seabra à presidência da Câmara Municipal de Matosinhos e a confirmação de um clima de hostilidade em relação ao actual Presidente da Câmara Municipal, Narciso Miranda. Para esta convicção concorrem múltiplos factos e aspectos de que se retêm dois com particular relevo:

- A insistência inteiramente despropositada com que, durante a visita dos candidatos à lota, com manifesto prejuízo para a própria afirmação da candidatura e dos candidatos do PS ao Parlamento Europeu, se promoveram, com particular insistência, os vivas a Manuel Seabra, se exibiram pessoas em "t-Shirt" com o slogan de "Seabra a Presidente", por mais de uma vez este foi ovacionado e erguido em ombros e até, simbolicamente, apesar do muito que na visita havia corrido mal, acabou a ser especialmente distinguido com um ramo de flores;

- A patente agressividade orquestrada, em particular junto de um grupo de mulheres identificadas com a venda ilegal de peixe, em relação às quais corre um conflito administrativo com a câmara Municipal, mas face a cujo problema não só os organizadores da recepção na lota não tomaram quaisquer medidas preventivas como, pelo contrário, foram mesmo vistos, por testemunhas identificadas nos autos, em atitudes de incentivo à expressão dessa hostilidade. Segundo depoimentos, merecedores de crédito para a Comissão, a preparação dessas atitude por parte de António Parada terá mesmo precedido de alguns dias a realização da visita à lota.

5. A Comissão de Inquérito, tendo em atenção o significado de coincidentes e impressivos testemunhos sobre a entranhada hostilidade do militante e responsável local do PS, António Parada, para com a pessoa do presidente da Câmara Municipal, Narciso Miranda; a forma intencionalmente comprometedora como, na comunicação social, em vésperas da visita, resolveu suspeitar da conduta do dirigente Narciso Miranda em face dessa visita; mas, sobretudo, a natureza do comportamento por si desenvolvido nos acontecimentos da lota, dado que sendo um dos principais responsáveis, senão o principal responsável operacional pela organização da recepção, a sua conduta se caracterizou, em diversos momentos da visita, como de manifesta e incontida impulsividade e agressividade, obsessiva nas sistemáticas diligências de evidenciação da figura de Manuel Seabra, e, em contraste, de expresso incentivo à hostilidade para com Narciso Miranda. Tudo isso, aliás, com recurso a colaboradores seus, alguns dos quais conhecidos como funcionários de segurança da própria lota e agindo sob sua coordenação, sendo, por isso, a Comissão de Inquérito de parecer que o mesmo não tem condições para continuar a exercer actividades regulares de militância e, muito menos, de responsabilidade nas estruturas do PS.

6. No que diz respeito à conduta do Presidente da Comissão Política Concelhia do PS de Matosinhos, Manuel Seabra, a Comissão de Inquérito não tem por apurado que em qualquer momento da fase preparatória do programa da visita à lota, este tenha estado envolvido, directa ou indirectamente, em procedimentos de hostilidade premeditada contra o Presidente da Câmara, Narciso Miranda. Não encontra, assim, a Comissão de Inquérito base probatória para fundamentar qualquer forma de afectação da sua normal actividade política nas estruturas e nos órgãos do PS.

Diferente, porém, é o juízo da Comissão de Inquérito em função da avaliação a que procedeu das responsabilidades pessoais e políticas de Manuel Seabra enquanto possível candidato à presidência da Câmara Municipal de Matosinhos e com relação aos eventos verificados na lota. Neste domínio, Manuel Seabra revelou-se não apenas pactuante mas parte activa e motivada nos acontecimentos que o centraram como a principal referência aclamatória do evento. Prestou-se visivelmente à exibição de comportamentos completamente desfasados da natureza da acção da campanha em causa. Contribuiu assim para que fosse dado ao País, através dos relatos presenciais da comunicação social, com a instrumentalização consentida do significado da visita à lota de Matosinhos em período de campanha eleitoral para o Parlamento Europeu, um chocante exemplo do que é capaz a chamada "guerra de facções". E, como se o deprimente espectáculo da lota não tivesse bastado, já após a morte do Professor Sousa Franco, nos momentos mais dramáticos que à tragédia se sucederam, foi ainda possível ver Manuel Seabra a conceder entrevistas nas imediações do Hospital Pedro Hispano, para consternação de muitos e inevitável repúdio da atitude por parte de dirigentes nacionais presentes no local.

Além do mais, tal como resulta dos actos, até hoje Manuel Seabra não encontrou nada de anormal com relação aos eventos da lota de Matosinhos que fosse susceptível de justificar qualquer forma de assunção de responsabilidade, pelos seus actos e pelos actos comprovados e identificados de colaboradores e apoiantes seus, por parte do Presidente da Comissão Política Concelhia - o mesmo que, todavia, tinha assegurado que tudo na programada visita iria decorrer com normalidade e sucesso para a boa afirmação política da campanha do PS.

Nestas condições, para defesa da dignidade e da credibilidade do PS e por respeito devido a quantos continuam a defender a actividade política como expressão de nobreza e de dedicação ao serviço público, numa perspectiva de responsabilidade estritamente ético-política, entende a Comissão de Inquérito propor à consideração da Comissão Política Nacional que declare que Manuel Seabra não tem condições para representar o PS como candidato nas próximas eleições autárquicas aos órgãos do Município de Matosinhos.

6. Quanto à avaliação das responsabilidades pessoais de Narciso Miranda, tendo a tal respeito a Comissão de Inquérito igualmente procedido a um minucioso trabalho de auscultação e análise dos acontecimentos que precederam e ocorreram na visita à lota de Matosinhos, para além do já exposto nos pontos 1. e 2., entende pronunciar-se nos seguintes termos:

- Não ter detectado em todo o processo de averiguações seguros indícios comportamentais, assumidos por si ou por interpostas pessoas sob a sua orientação, que pudessem ter contribuído, anteriormente à visita, para o instigar do clima de radicalização e sectarismo vivido na lota de Matosinhos, sendo de referir que da realização de um jantar ocorrido na véspera do dia da visita terá apenas resultado um apelo à efectiva mobilização de apoiantes para o evento, com sinais de preocupação para que se evitassem comportamentos susceptíveis de conflito ou de polémica;

- Ter no entanto constatado da parte de Narciso Miranda, nas ocorrências da visita à lota, procedimentos reveladores de certa ligeireza ou mesmo negligência, que, no plano da avaliação política dos acontecimentos aí verificados, não podem deixar de lhe ser apontados e censurados, sobretudo tendo em vista a prudência que é exigível a alguém com as suas responsabilidades.

Com efeito, quer os temores do risco da acção pelo previsível desencadear de hostilidades contra si de que inicialmente tanto se fez eco; quer a evidência da persistência de um clima de elevada tensão à sua volta, como havia podido constatar na própria controvérsia da véspera ocorrida através da comunicação social; quer ainda as preocupantes notícias sobre o ambiente vivido na lota e que recebeu durante o próprio momento do trajecto em que se deslocou do Porto para Matosinhos em companhia do professor Sousa Franco - tudo seriam factores que deveriam aconselhar uma pessoa normalmente prudente a não expor outra, ainda para mais aquela sobre que recaía a representação maior da candidatura do PS, ao risco de ver reverter sobre si e, desde logo, com consequências no êxito ou no fracasso da própria acção de campanha, os temidos afloramentos de tensão e hostilidade.

Ora, foi na aceitação, se não na potenciação, dos factores desse risco que incorreu Narciso Miranda, mesmo se, como se reconhece, sem premeditação da sua parte. Risco que aliás se mostrou agravado pela circunstância de, não usando óculos, com dificuldades visuais e auditivas, o Professor Sousa Franco ter ficado mais dependente do voluntarismo de Narciso Miranda como seu guia preferencial de visita à lota. A sua insistente presença junto do Professor veio na verdade a revelar-se um dos elementos que mais contribuíram para o deflagrar da "guerra de facções" na lota de Matosinhos;

- Quanto á presença visível e à actuação comprovada de indivíduos com funções de segurança - cuja acção tanto poderá ter contribuído, por um lado, para prevenir momentos de maior tensão e hostilidade como, por outro, para adensar essa mesma tensão e hostilidade - não foi possível dar como provado, com os elementos constantes dos autos, terem vários deles sido mobilizados por Narciso Miranda, o qual, aliás, afirma, sob sua expressa palavra de honra, que a tal não procedeu nem mandou proceder nem de tal tomou prévio conhecimento.

Todavia, uma apreciação meticulosa dos elementos testemunhais presentes nos autos, permite á Comissão de Inquérito assumir a convicção da existência de indícios sérios de que houve lugar a um recrutamento de alguns indivíduos com funções de segurança (em número insusceptível de poder ser confirmado pela Comissão) por parte de pessoa ou pessoas próximas de Narciso Miranda, certamente com a intenção de garantir a sua protecção em vista da existência de sérios rumores quanto ao desencadear de hostilidades contra este na lota de Matosinhos.

Nestas condições, e face à avaliação que faz do teor dos depoimentos constantes dos autos, a Comissão de Inquérito, não pode imputar a Narciso Miranda responsabilidade por actuação intencional nos acontecimentos vividos na lota, tanto mais que em nenhum momento deles é possível detectar manifestações de radicalização sectária em seu favor que por si tivessem sido estimuladas ou com as quais tivesse pactuado.

Pelo contrário, a Comissão pôde verificar ter sido Narciso Miranda alvo directo de um clima e mesmo de uma campanha de hostilidade contra si especialmente alimentada e efectivamente dirigida.

Porém, a Comissão de Inquérito imputa a Narciso Miranda responsabilidades por negligência da sua actuação como acompanhante preferencial de Sousa Franco, apesar do clima de tensão contra si e que não ignorava. Tal como lhe imputa a responsabilidade ético-política de doravante não poder pretender que a presença de indivíduos com funções de segurança nos eventos da lota, à revelia da organização da recepção, nada tivesse a ver com preocupações especialmente dirigidas à sua protecção pessoal. Assim, em última análise, é a si próprio que incumbem as responsabilidades políticas pelo correspondente resultado.

Em síntese, a Comissão de Inquérito pronuncia-se no sentido de apelar a Narciso Miranda para que aceite compreender o significado profundo e infeliz dos acontecimentos da lota de Matosinhos, o melindre da sua participação neles, mesmo que sem premeditação, a grave afectação que os mesmos todavia acarretaram à credibilidade do PS e o respeito devido à memória do Professor Sousa Franco. E que, honrando o seu valioso passado de militância no PS, compreenda e aceite o bem fundado das conclusões do presente relatório, nomeadamente a que consta do ponto seguinte.

7. Do que decorre, a Comissão de Inquérito tem por certo que nem Narciso Miranda nem Manuel Seabra têm, hoje, condições para serem candidatos aos órgãos do Município de Matosinhos, sem que disso resulte sério risco de novas tensões e confrontos entre as facções inconciliáveis, com grave lesão de dignidade e do prestígio do Partido Socialista. Isto, sem prejuízo do diverso grau de responsabilidade apurado em relação a um e a outro, tal como resulta das presentes conclusões.

8. Por fim, a Comissão de Inquérito entende que a honorabilidade dos comportamentos devidos no interior do PS, como instituição que deve saber respeitar e fazer respeitar todos os seus membros, não é compatível com a possibilidade de um funcionário seu, e no próprio exercício das duas funções, poder permitir-se propalar, com repercussão pública altamente danosa para o visado, juízos que a muitos títulos podem, se é que não devem, ser considerados infamantes ou difamatórios. Razão pela qual suscita junto da Comissão Política Nacional a oportunidade de abertura, pela entidade jurisdicional competente, de processo disciplinar a Domingos Ferreira, com fundamento nas acusações por si imponderadamente veiculadas contra Narciso Miranda, com expressão nos órgãos de comunicação social, tal como consta dos autos.

PROPOSTAS
A Comissão de Inquérito, por unanimidade dos seus membros, propões à Comissão Política Nacional as seguintes medidas:

A) No plano procedimental

Que todo o processo seja submetido a integral reserva, com excepção do relatório, conclusões e propostas nele integradas e que, tomando conhecimento do relatório, no quadro da competente reunião de apreciação, tudo o mais dos autos seja submetido à guarda do Presidente do Partido e apenas ficando disponível, para conhecimento dos visados e, se for caso, para consulta ou utilização da Comissão de Jurisdição nos termos que tiver por convenientes.

B) No plano das competências da Comissão Política Nacional

Que a Comissão Política Nacional, com fundamento nas conclusões da Comissão de Inquérito, tome imediatamente as seguintes medidas:

1. Ao abrigo do Artigo 91.º, n.º5 do Estatutos, declare de importância nacional a aprovação das futuras listas do PS aos órgãos Câmara Municipal e Assembleia Municipal de Matosinhos e, consequentemente, avoque a competência para essa aprovação, sem prejuízo de, no tempo próprio, proceder com integral cooperação institucional tanto com a Comissão Política Concelhia de Matosinhos como com a Federação Distrital do Porto do PS.

2. Delibere, desde já, em face das conclusões do presente inquérito e ainda que com reconhecimento do diverso grau de responsabilidade e culpa nele evidenciados, que nem Narciso Miranda nem Manuel Seabra estão em condições de poderem integrar as listas de candidatura do PS aos órgãos do Município de Matosinhos, nas próximas eleições autárquicas.

3. Ao abrigo do Artigo 100.º, n.º1 dos Estatutos, proceda à suspensão preventiva, com efeitos imediatos, de António Parada, da sua condição de militante do PS e, consequentemente, de Secretário Coordenador da Secção do PS de Matosinhos. Com base nas responsabilidades que lhe são imputadas, submeta de imediato a deliberação da suspensão do militante António Parada à ratificação da Comissão Nacional de Jurisdição bem como para efeitos de abertura do competente processo disciplinar com vista à determinação da sanção definitiva susceptível de aplicação, incluindo a possibilidade da sua exclusão do PS.

4. Requeira à Comissão de Jurisdição competente a instauração de processo disciplinar contra o funcionário da Federação do Porto, Domingos Ferreira, com base nos factos dados como provados pela Comissão de Inquérito e na correspondente responsabilidade.

Lisboa, 26 de Julho de 2004

Relatório, Conclusões e Propostas aprovados por unanimidade

Os Membros da Comissão de Inquérito

Quarta-feira, Setembro 29, 2004

Entrevista de Mário Almeida ao Comércio do Porto

Mário Almeida, o autarca que durante anos foi o rosto de todos os municípios portugueses, alega que o primeiro grande trabalho do novo secretário-geral do PS é unir o partido e envolver os autarcas.

- Qual é o primeiro grande desafio que o novo secretário-geral tem pela frente?
- A coesão do partido, preparando-o para as batalhas que aí vêm. A disputa correu bem e com grande elevação. Manuel Alegre e João Soares são pessoas que também se vão envolver na união do partido.

- Defende alguma mudança interna?
Há algo que deve mudar. Especialmente o que tem a ver com um maior envolvimento de toda a gente. É preciso uma maior organização, uma maior interacção global entre os diversos patamares do partido, promover mais reuniões, mais encontros, especialmente no que diz respeito aos autarcas.

- Espera alguma nova postuta do partido em relação aos autarcas, algum tratamento especial?
- Esse foi um facto quando José Sócrates assumiu responsabilidades no Governo. Teve sempre a preocupação de dialogar com os autarcas. Isso é fundamental e tenho a certeza de que vai acontecer agora que é secretário-geral do partido.

- Deixaria ao novo líder um conselho especial?
Ele não precisa de conselhos, mas de saber ouvir. Falei com ele variadíssimas vezes, inclusive na campanha, e identifico-me com a sua estratégia. Ele vai desenvolver um bom trabalho, fazer do PS um partido atento, interventivo, apontando os gravíssimos problemas do país. Há uma expectativa muito grande que extravasa o PS e que se estende à sociedade.
28 de Setembro de 2004

Sexta-feira, Setembro 24, 2004

Outubro, Mês da Música

PROGRAMA

Sexta, 01 21h30
ORQUESTRA DA ACADEMIA DE MÚSICA S. PIO X – VILA DO CONDE
Auditório Municipal

Sábado, 09 21h30
MARIO LAGINHA E BERNARDO SASSETI
Auditório Municipal

Sábado, 16 21h30
MÚSICA GALEGA
Por Fontes Suairas
Auditório Municipal

Terça, 19 e Quarta, 20
CONCERTOS PEDAGOGICOS
Pela Orquestra do Norte
Auditório Municipal

Sábado, 23 21h30
ZARZUELAS
Por Scherzo Ensemble
Auditório Municipal

Sábado, 30
CONCERTO POR ORQUESTRA DO NORTE
Auditório Municipal

Observação:
Apesar da entrada nos concertos ser gratuita, reserve o seu lugar levantando o seu bilhete-convite no Auditório Municipal, Biblioteca Municipal, Centro Municipal de Juventude, Piscinas Municipais e Posto de Turismo

3º Encontro de História de Vila do Conde

04 de Novembro, Auditório Municipal

Realiza-se, no próximo dia 4 de Novembro, o 3º Encontro de História de Vila do Conde.
À semelhança dos anos anteriores, este encontro, subordinado ao tema "Vectores de desenvolvimento económico - As feiras da Idade Média à Época Contemporânea", conta com a presença de especialistas das Universidades do Minho, Porto e Coimbra.

Poderá fazer a sua inscrição, gratuita, junto do Arquivo Municipal de Vila do Conde, através dos seguintes contactos:

Tel.: 252 248 431
Fax.: 252 641 853
E-mail: amvc@cm-viladoconde.pt

PROGRAMA

09h00 Recepção aos participantes
09h30 Sessão de abertura
10h00 Sessão de trabalho

Prof. Doutora Maria Helena Cruz Coelho
(Universidade de Coimbra)
"As feiras na Época Medieval"

Prof. Doutora Inês Amorim
(Universidade do Porto)
"A formação da rede de feiras e de mercados: ideologias, estratégias e práticas "os indicadores do comércio interno na Época Moderna"

11h30 Pausa para café

Mestre Armanda Ribeiro
"Trabalho e quotidiano numa vila do litoral - Vila do Conde no século XVIII"

12h00 Debate
13h00 Almoço
14h30 Sessão de trabalho

Prof. Doutor José Viriato Capela
(Universidade do Minho)
"O Minho e a construção do espaço económico nacional. Dos mercados e espaços concelhios, aos régios e nacionais na Época Moderna"

Mestre António Ventura Pinto
"O século XVIII em Vila do Conde: enquadramento político e institucional"

16h00 Pausa para café

Prof. Doutor Jorge Alves
(Universidade do Porto)
"Feiras e mercado interno na História Contemporânea - algumas notas"

16h30
Debate
17h30 Encerramento

Quarta-feira, Setembro 22, 2004

Comunicado

Termina hoje mais uma Semana Europeia da Mobilidade, iniciativa que decorre desde 2000 nos diversos estados da União Europeia e que procura promover o debate em torno das questões da mobilidade e qualidade de vida, sobretudo no espaço urbano.
Este ano o tema transversal da Semana é: “ Caminhos seguros para as crianças”. Naturalmente, é o “Dia Europeu sem Carros” que decorre todos os anos desde 2000 a 22 de Setembro, resultante da Directiva 96/62/EC que tem tido mais notoriedade. No entanto, por culpa de algumas autarquias e dos transtornos causados aos munícipes, tal iniciativa goza de pouca aceitação por parte do grande público, sendo ao invés preferível apostar em medidas estruturais que melhorem efectivamente a qualidade de vida das populações.
A Comissão Política Concelhia de Vila do Conde do C.D.S.- Partido Popular recorda a coerência, que nesta como noutras matérias, vem mantendo ao longo dos anos. Assim, recordamos algumas das iniciativas que vimos realizando ao longo dos últimos anos:
  • Moções apresentadas na Assembleia Municipal- 29 Setembro de 2000; 28 Junho de 2001; 27 Setembro de 2001; 27 Junho de 2002
  • Conferência de Imprensa realizada nos Jardins da Avenida Júlio Graça realizada em 18 de Setembro de 2002
  • Reunião com o Presidente da Comissão Executiva da Empresa Metro do Porto S.A.- Professor Oliveira Marques, realizada em 17 de Setembro de 2003 na qual estiveram também presentes autarcas e responsáveis do C.D.S. da Póvoa de Varzim.
Recentemente, várias têm sido as notícias e factos que vêm dar razão ao C.D.S./ Vila do Conde, relativamente à importância das questões relacionadas com a mobilidade e qualidade de vida das populações, sobretudo as urbanas.
Lamentamos que a Câmara Municipal de Vila do Conde em 2002, no mesmo dia que o C.D.S. apresentou a sua Conferência de Imprensa, na qual já alertava para estas temáticas, tenha preferido a propaganda anunciando pelo mesmo meio (conferência de Imprensa) o corte aos domingos de manhã na Avenida Brasil, o que obviamente não é nenhuma medida estrutural para a mobilidade e qualidade de vida dos Vilacondenses. Aliás, continuamos a assistir ao completo estrangulamento dos acessos à cidade, à escassez de oferta de transportes públicos de qualidade, à falência de qualquer ordenamento no estacionamento e, para cúmulo, a medidas tão incompreensíveis como o recente corte da marginal para a Póvoa de Varzim no pico da época balnear!
Infelizmente, também recentemente fomos informados acerca da anulação do concurso público para aquisição de material circulante (Tram-Tram) para a linha de Metro da Póvoa, que iria minimizar os impactos negativos que a errada opção de fazer uma ligação suburbana de cerca de 30 Km em Metro Ligeiro obviamente traria.
Assim, a Comissão Política Concelhia de Vila do Conde do C.D.S.- Partido Popular deliberou na sua reunião ordinária de 16 Setembro, o seguinte, que comunicamos a Vs. Ex.as:

1- Lamentar que Vila do Conde, devido a deficiências de planeamento e investimento municipal, seja hoje um concelho com graves problemas de poluição ambiental.
2- Solicitar uma reunião à Empresa de Metro do Porto.
3- Solicitar uma reunião com carácter urgente à C.C.D.R.N.
4- Apelar à Câmara Municipal para que, no pouco tempo que ainda lhe resta de mandato, tenha mais atenção com os seguintes aspectos:
  • mobilidade dos cidadãos;
  • políticas de estacionamento;
  • política integrada de transportes;
  • criação de uma rede concelhia de ciclovias;
  • condições de segurança para os peões;
  • campanhas de sensibilização sobre o uso moderado do automóvel em contexto urbano;
  • reordenamento da Rede Viária Municipal;
  • melhorias nos acessos à cidade de Vila do Conde;
  • melhorias nos atravessamentos do Rio Ave;
  • integração de todas as opções de desenvolvimento do concelho a este objectivo: melhorar a qualidade de vida dos vilacondenses.
  • Apelar a todos os Vilacondenses, para que tenham noção que o ambiente e a qualidade de vida, também dependem das opções de cada um.
Finalmente, sabendo que existe ainda um longo caminho a percorrer, estamos, como sempre, disponíveis para procurar em conjunto com todas forças vivas do concelho as melhores soluções para os problemas do Vilacondenses.
Somos dos que continuam a pensar que a política é, antes de tudo, um serviço público. Nesse sentido, pensamos que este foi o nosso contributo para o debate destas questões que é sem dúvida um dos objectivos da Semana Europeia da Mobilidade que hoje termina.

Vila do Conde, 22 de Setembro de 2004

Pelo C.D.S.- Vila do Conde
(Presidente)

Quinta-feira, Setembro 16, 2004

Portistas mandam no futebol dos três grandes

Pinto da Costa, Carlos Freitas e José Veiga têm FC Porto como referência

RUI TEIXEIRA, in A Capital, 13 de Setembro de 2004

Para uns não passa de mais um golpe do sistema. Para outros uma pura casualidade. Mas a verdade é que os responsáveis pelo futebol profissional dos três grandes têm em comum muito mais do que se pensa. Para além da vontade de vencer que Pinto da Costa (FC Porto), José Veiga (Benfica) e Carlos Freitas (Sporting) demonstram, a paixão pelo mesmo clube também é ponto de união, sendo o FC Porto a referência para todos. Confuso? Vejamos então.
Estamos em Dezembro de 1999. O plantel do Sporting denuncia carências que podem comprometer a luta pelo título, que foge há 18 anos. Augusto Inácio, o treinador, está decidido em inverter a história e pede reforços no defeso. O consultor do conselho de administração da SAD mete-se ao trabalho e consegue de uma assentada os brasileiros André Cruz e César Prates e o belga Mpenza. No final dessa época, os sportinguistas são campeões nacionais e muito desse sucesso passa pelo acerto nas compras de Inverno, decisivas, segundo a opinião da imprensa, para o fim de tão grande jejum. O homem que tratou desses negócios tem como recompensa o início de uma carreira meteórica nos leões, ocupando hoje o cargo máximo na estrutura do futebol profissional. Mas a história de Carlos Freitas é mais do que isto e como tal temos de recuar ao passado, para perceber como é que um apaixonado do futebol, que vibrava com as vitórias do FC Porto e "chorava" com as derrotas dos dragões, chega a tão importante cargo.
A juventude de Carlos Freitas é passada na Venda Nova, mesmo às portas de Lisboa. Filho único de uma família sem problemas financeiros, o jovem cedo começa a mostrar no seu núcleo de amigos um vasto conhecimento futebolístico, impondo-se com naturalidade nas habituais "discussões de café". Viciado em futebol, devora revistas da especialidade e tem nos jogos de computador uma enorme base de dados. Quem com ele conviveu na altura recorda-se da sua "inteligência" e da "facilidade de se dar bem com toda a gente". Mas há algo mais.
"Todos nós tínhamos as nossas preferências clubísticas e o Carlos era ferrenho do FC Porto. Hoje ainda é de certeza porque não se muda assim de clube, ainda para mais ele, que ficava completamente destroçado quando o FC Porto não vencia um jogo", acrescenta um vizinho e amigo da altura.
O jornalismo é a porta que o traz para perto do fenómeno futebolístico. Passa pelas redacções do DN, Record e O Jogo antes de chegar a empresário. Uma curta carreira (15 meses) na qual a sua maior transferência foi a contratação do lateral direito Nélson ao Aston Villa, pelo FC Porto, fruto de boas relações com Luciano D´Onofrio e Joaquim Oliveira.
Em 1999, Luís Duque, então presidente da SAD, precisava de alguém que tratasse da prospecção de mercado. António Oliveira recomenda a sua contratação e Freitas volta a utilizar a sua proximidade com o empresário belga para trazer os tais reforços para os leões. Próximo passo: o cargo de Gestor de Activos, ou seja, o braço direito do presidente da SAD, agora Miguel Ribeiro Telles, nas questões de mercado de jogadores.
Está ligado a algumas das contratações falhadas pelo clube, cujo exemplo máximo é o chileno Tello, ainda hoje o mais caro jogador de sempre do Sporting - custou 1,5 milhões de contos - mas também a outras de sucesso, como Polga, Tinga e Liedson. Este ano, com a redução do orçamento, teve de aplicar todos os seus conhecimentos para conseguir reforçar a equipa com atletas a custo zero, ou de baixa monta para os cofres leoninos. Resta saber quais serão os resultados desportivos, afinal de contas aquilo que interessa à massa associativa.

BENFICA. Mais conhecido é o caso do Benfica. José Veiga nasceu em Bragança, mas aos seis anos foi viver para o Luxemburgo, onde chegou a estar ligado à casa do FC Porto naquele país. Os serviços valeram-lhe um Dragão de Ouro e a amizade de Pinto da Costa, rompida nos anos 90 devido à transferência de Sérgio Conceição para a Lazio. Antes disso, aquele que foi o primeiro grande empresário de futebolistas português, confidenciou a amigos próximos que um dia ainda haveria de ser presidente do FC Porto. Para já comanda os destinos do rival da Luz, sabendo que em caso de insucesso desportivo as críticas dos adeptos na sua direcção serão mais veementes.

Quarta-feira, Setembro 15, 2004

Setembro em Beslan

Por FERNANDO ILHARCO
Segunda-feira, 06 de Setembro de 2004

eguido em directo nas televisões do mundo, o horror em Beslan está para além do que a linguagem dos homens possa dizer, fora das manifestações da alma humana. Nenhum de nós, nem aqui nem em Moscovo, pode sentir o que as crianças, as mães e os pais de Beslan sentem. Depois de Beslan, tal como depois do 11 de Setembro, muito vai mudar outra vez - na política russa, no Cáucaso, mas também no Médio Oriente, na América, na Europa e, queiram querer os homens, na sempre esquecida África. O cruzamento da globalização, da abundância, da tecnologia, da informação sobre tudo o que existe, da televisão e dos media planetários com o desespero, a ignorância, o fundamentalismo, o crime, a imoralidade e a demência estão a explodir num ultraje crescente à vida e à dignidade do homem. Neste novo tipo de violência global, o chicote da grande besta em Beslan, no Médio Oriente, em Manhattan, em África, faz dos mais indefesos, vulneráveis e inocentes a linha da frente deste época do terror. Na televisão, na imprensa e na rádio, todos os dias passa a reportagem do fim do mundo. Em cada tragédia em directo na televisão sente-se quanto o mundo mudou. Mas tudo isto, que é tudo para nós, é nada para os que vivem em Beslan à volta da escola nº1. Ali, de uma forma que ninguém humanamente pode entender ou sequer colocar em palavras, as vidas que continuam, agora são outras, o tempo foi violenta e abruptamente cortado, os dias que tinham acabaram, os destroços do passado, a desgraça, o desespero, a culpa e a tristeza vão demorar vidas a passar. Como na Palestina, em Jerusalém, na Bósnia, no Sudão ou no Iraque, entre muitas outras terras marcadas pelo sangue e pela vergonha, só novas gerações noutro tempo poderão algum dia encontrar alguma paz. Porque em cada criança está o futuro, ele mesmo, tocando no presente, em cada homem que nasce todo o futuro da humanidade pode nascer outra vez.

Nos homens, nas suas mãos e corações, antes de tudo o que nunca vamos entender, está o perdão, a dádiva que pode ajudar a suportar um passado que não pode ser desfeito, e, está também o poder da esperança, da fé, do compromisso e da dignidade de quem se alia e se compromete futuro adentro. Talvez incapazes de esquecer, mas capazes de perdoar, talvez não todos entre nós mas alguns, sejamos um dia capazes de prometer e de nos comprometermos, olhando o que existe e criando uma base, um terreno e uma mesma casa. Ser homem, em cada época, é sempre a forma como fomos ou não capazes de cruzar o perdão e a promessa. Entre o bem o mal, os dois caminhos estão sempre abertos ao homem e o que mais somos na nossa vida é essa mesma escolha. Sabemos isso e por isso estamos sempre desafiados e podemos sempre mudar o futuro. Hoje o tempo é de oração e é cedo para pensar e antecipar as consequências de Beslan; as consequências do horror, da demência e da impotência em directo nas televisões do mundo.

A história e a passagem do tempo foi sempre marcada por inúmeras e indizíveis tragédias, é certo. Hoje, no entanto, as coisas são diferentes. Em primeiro lugar, são hoje: com o peso da história, a experiência dos tempos, o conhecimento acumulado e, sobretudo, a dádiva e o testemunho de Jesus. Hoje também, vivemos cercados e imersos numa tecnologia que tudo leva a todo o lado instantaneamente, como em nenhuma época anterior havia acontecido. Neste quadro, Beslan foi a ignomínia e a vergonha sem palavras, vivida num mesmo tempo por todos os homens do mundo. Políticos, militares, sociais e económicos serão seguramente os caminhos do futuro, mas em causa está algo de mais fundo. Estão os caminhos morais do homem, a sua capacidade de afirmar o projecto humano em que estamos, de preservarmos a solidariedade, a ponderação e de simultaneamente utilizarmos o melhor conhecimento para entender uma tecnologia que está a retribalizar um mundo ocidental assente na linearidade, na sequencialidade e na lógica matemática, cujo choque com outras culturas, menos sequenciais e menos analíticas, está a deixar surgir um mal-estar global, cuja mensagem mais funda é a incompreensão, a guerra e o terror.

O Setembro americano, o 11 de Março madrileno e este Setembro russo, como um imenso manto de escuridão sobre o mundo, alterando o nosso modo de vida, levaram numa primeira reacção do caudal da história, a uma resposta brutal, militar, esmagadora. Mas é possível que com Bush em Washington e Putin em Moscovo nunca se consiga vencer a guerra ao terrorismo. Contudo a intrincada, complexa e estranha história desta era do terror global tem pouco a ver com o demagógico e pouco honesto "Fahrenheit 9/11". O quadro actual é o de uma ameaça catastrófica construída sobre o poder tecnológico-cultural de um mundo gerado pelo progresso do bem-estar e da liberdade no ocidente e pela manutenção da miséria, da impossibilidade de influenciar o que quer que seja, da ignorância e do desespero em muitas partes do mundo. Isto a par da ascensão da amoralidade e da imoralidade nos dois lados do conflito, embora por diferentes razões. O novo terrorismo global é particularmente perigoso, não apenas por ter acesso a armas e a tecnologias que nunca antes havia tido, mas sobretudo porque ao terrorismo tradicional ela junta agora o crime e a demência e se alicerça em rejuvenescidos sentimentos nacionalistas, que irromperam com a nova ordem/desordem iniciada com a implosão da União Soviética. Ao crime e à ausência de escrúpulos junta-se agora uma sociedade global onde tudo está acessível a todos, onde tudo de vê e onde o único valor entre tanta abundância é a capacidade de sobressair, de dar nas vistas, de estar na atenção de todos. Este traço mediático fundo é uma das condições da possibilidade do novo terrorismo global. Por essa razão e porque o que se está a passar abana as fundações da sociedade humana é chegado o tempo de se pensar o tipo de cobertura mediática admissível para os actos terroristas; e isto, na dupla perspectiva da moralidade dessa mesma cobertura, e da possibilidade de se retirar ou minorar aquilo que os terroristas hoje sempre tomam como refém: a atenção do mundo.

Professor universitário

O Subjectivo e o Objectivo

Segunda-feira, 06 de Setembro de 2004

Os juízes são pessoas comuns que às vezes têm de decidir segundo as próprias convicções. Está bem, têm direito à sua subjectividade. Mas, ao menos, que se proibissem de ver televisão.

J. L. PIO ABREU

O triste espectáculo da Juiza Filipa de Macedo seria trágico se não fosse risível. Tão risível que o mínimo bom senso anulou de imediato as suas consequências. Mas não a critiquemos assim. Ela actuou pela sua convicção, e pode invocar a falta de tempo para não se ter munido da informação necessária.

As convicções são subjectivas. Por exemplo, é subjectiva a convicção de que uma pessoa mente ou diz a verdade. Também é muito subjectiva a crença de que alguém se porta legalmente na sua intimidade. Eu próprio não posso pôr as mãos no lume pelo leitor, embora, em princípio, acredite nisso.

Descobrir a verdade objectiva nestas coisas, é muito difícil e, sobretudo, dá muito trabalho. É certo que a grande conquista da inteligência humana foi passar das convicções subjectivas às verificações objectivas. Mas não se pode exigir que um cidadão comum conheça todos os meandros da lógica e tenha o rigor e a capacidade de um cientista. Os juízes são pessoas comuns que, às vezes, têm de decidir apressadamente sobre questões dificilmente verificáveis. Então, decidem-se pela sua convicção, ou seja, pela sua subjectividade.

Acontece porém que vivemos num tempo em que a lógica tende a desaparecer, submergida que está pelas diferentes crenças que a televisão alimenta. Num brilhante ensaio traduzido em Português - Homo Videns: Televisão e Pós-Pensamento (Terramar) - o italiano Giovanni Sartori faz notar que o fundamento da crença é o ver (o que também já foi dito pelo Apóstolo São Tomé). A televisão mostra e, se o vemos na televisão, nós acreditamos. O problema é que as crenças (apesar de dependentes dos programas televisivos que se vêem) são indiscutíveis e, como tal, não se submetem aos mecanismos da argumentação e da lógica.

Quer isto dizer que o cidadão comum, com as suas quatro horas de consumo televisivo diário, ficou com a lógica inibida (e talvez por isso nada perceba de Matemática). Pelo contrário, ele vive intoxicado de crenças inargumentáveis. Então, por mais insólitas que sejam as suas convicções, elas só cedem perante novos programas da televisão. A lógica, a discussão, a prova e a argumentação contraditória, de nada servem já. "É assim porque eu sei e vi na televisão". É o pós-pensamento.

Os juízes são pessoas comuns que às vezes têm de decidir segundo as próprias convicções. Está bem, têm direito à sua subjectividade. Mas, ao menos, que se proibissem de ver televisão.

Psiquiatra e Professor da Universidade de Coimbra

A Esquerda Enganou-se - II (A Grande Ilusão)

Por ANTÓNIO BARRETO
Segunda-feira, 06 de Setembro de 2004

Não pretendo rebater, um a um, todos os argumentos tradicionais da esquerda, entretanto adoptados pelo centro e por grande parte da direita. Mas é possível ver o destino reservado a tantos desejos e a tantas certezas políticas. Por exemplo, os países que mais esforçadamente investiram recursos públicos na educação, quase todos os socialistas de Leste, assim como Cuba, são excelentes exemplos de como a educação não provoca, por si, o desenvolvimento. Naqueles países, as taxas de alfabetização, de cumprimento da escolaridade, de formação técnica e superior, são quase sem igual no mundo. No entanto, o desenvolvimento económico, tecnológico e cultural desses países ficou muito aquém do verificado nos países capitalistas com que se podem comparar. Naqueles países, aliás, também o desenvolvimento cultural e a liberdade individual ficaram muito longe do crescimento da educação. Noutras palavras, a educação, por si só, não cria cultura nem liberdade. Nem é motor de desenvolvimento.

Quanto à igualdade social, que viria a reboque do desenvolvimento da educação, todos os elementos acessíveis e grande parte dos estudos conhecidos, mostram que também esta não resulta necessariamente da expansão do sistema escolar. Nas últimas duas ou três décadas, três países, em situações bem diferentes, Portugal, a Grã-bretanha e os Estados Unidos, têm visto aumentar consideravelmente as desigualdades sociais, isto em simultâneo com uma expansão permanente do sistema educativo, com o aumento das percentagens de cada grupo etário nos respectivos níveis de ensino secundário e superior e com uma ampla e quase ilimitada "democratização" do ensino superior.

O caso português é particularmente interessante. Com efeito, a expansão rápida da educação básica e secundária pode ser datada: início em finais de 1960 (com Marcelo Caetano e Veiga Simão), acelerada depois da revolução de 1974 e da fundação do Estado democrático. E o enorme alargamento do ensino superior (politécnico e universitário, público e privado) tem uma primeira fase nos anos setenta e uma segunda, mais acelerada, em meados dos anos oitenta. Se compararmos essa evolução com a das desigualdades, obtemos resultados interessantes. Os coeficientes de desigualdade aplicados aos rendimentos das famílias, os dados disponíveis sobre os escalões de rendimento detectados para fins fiscais, os elementos indirectos conhecidos relativos ao salário mínimo e aos rendimentos mínimo garantido e de inserção, revelam que as desigualdades têm conhecido um nítido progresso. Ora, este aumento de desigualdades é contemporâneo do maior desenvolvimento educativo da história de Portugal. É mesmo possível, ou provável, segundo alguns, que o crescimento da educação em todos os seus aspectos tenha, entre outros resultados, o de aumentar as desigualdades.

Muitas outras realidades são hoje suficientemente conhecidas e deveriam já ter proporcionado uma séria reflexão, tanto das esquerdas como de todas as outras orientações de políticas educativas. O acesso indiscriminado, independente do mérito, ao ensino superior, é seguramente uma das causas do desperdício público (e familiar) que representa uma taxa de abandono de 50 por cento do total de matrículas. O que actualmente denota mais fortemente a desigualdade social não são as diferenças no acesso aos estudos, mas sim o abandono. O crescente desemprego de diplomados pelas universidades revela uma razoável desadequação da formação à vida económica. A eliminação das diferenças curriculares nos níveis escolares ulteriores aos primeiros nove anos de escolaridade, feita em nome da igualdade social, não criou, ao que se sabe, nenhuma dinâmica nova de igualdade de oportunidades. O clima de facilidade e o ambiente de aprendizagem lúdica não têm aumentado os conhecimentos dos jovens das classes populares, nem das médias, e talvez tenham alguma responsabilidade (difícil de medir) nos resultados nacionais em matemática, português e física, dos piores do mundo.

Finalmente, a desigualdade social tem-se vindo a manifestar de modo marcado com o desenvolvimento das escolas básicas e secundárias privadas. Não parece que estas recrutem melhores professores, que devem ser, em qualidade e competência, semelhantes aos seus colegas do ensino público. Acontece que a escola oficial se tem geralmente degradado, enquanto a particular tem mantido melhor organização, mais eficiente gestão e um superior clima de disciplina. A "ideologia educativa" em vigor é a grande responsável pela desorganização da escola pública e contribuiu assim, ao fomentar a procura do ensino privado pelas classes médias, para o aumento da desigualdade. Não sendo imaginável que um governo queira, nem num futuro longínquo, proibir a escola privada, esta desigualdade só será travada com um colossal esforço de organização e de disciplina no ensino público. O que não parece estar em vias de acontecer.

É verdade que, até meados ou finais dos anos setenta, o orçamento público para a educação (em percentagem do produto nacional) era, em Portugal, absurdamente reduzido e insuficiente. Depois, começou a subir de modo regular, até atingir níveis significativos, superiores a muitos países europeus. Há quase vinte anos que o sector é de facto a prioridade social do país e dos governos. Ora, os progressos reais na educação, nas taxas de aproveitamento, nos níveis de conhecimento, nos graus de formação científica, cultural e profissional, não parecem ser proporcionais a tão relevante aumento da despesa nacional pública (paralelo, aliás, ao aumento da despesa privada das famílias também com a educação). Estas são correlações difíceis de fazer, mas os indicadores conhecidos (analfabetismo funcional, preparação técnica da força de trabalho, duração média das licenciaturas e taxas de abandono antes do fim da escolaridade obrigatória, mas também no secundário e no superior, etc.) assim como os maus resultados, em termos internacionais, obtidos pelos alunos portugueses, sugerem que a melhoria da educação está muito aquém dos aumentos dos orçamentos.

Deve também reconhecer-se que o fracasso da educação como "niveladora social" ou "libertadora" não é absoluto, no sentido que a escolaridade obrigatória universal e a cobertura escolar do país trouxeram reais benefícios a uma população que poucos ou nenhuns contactos tinha com a cultura ou tão só com os instrumentos básicos da instrução: ler, escrever e contar. Como é verdade que muitos jovens terão assim conseguido uma ferramenta de mobilidade (social, profissional, regional), o que lhes era impossível sem escola. Mas esses factos, cujos efeitos devem ser analisados em paralelo com a urbanização, o turismo, a emigração, a indústria, a economia e a empresa, estão muito aquém dos ideais explícitos das "ideologias educativas".

As ideologias políticas mudam muito dificilmente. Os governos raramente reconhecem os seus erros. Os partidos mudam, por vezes, mas sem confessar que erraram ou que as suas políticas não deram resultados ou foram desajustadas. Mas, se olharmos com atenção, apesar dos efeitos de ocultação, muito tem mudado. Por convicção ou resignação, uma boa parte da direita já é democrática. De igual modo, quase toda a esquerda deixou de acreditar nos mitos do Estado. Em Portugal, ambas, direita e esquerda, começam a pensar que os direitos individuais têm valor e significado e que a reserva da vida pessoal e privada, assim como os respectivos direitos, devem ser preservados e garantidos. Apesar da demora e dos atrasos, há progressos na mudança de ideologias e programas. Sem que tal signifique que direita e esquerda se aproximem, o que seria desastroso. Ou antes, sem que tal sempre se verifique, dado que, por vezes, a promiscuidade entre uma e outra é excessiva. Há, todavia, uma matéria em que a mudança e o progresso são quase impossíveis: a educação, a sua ideologia e as suas políticas. Apesar de haver, à esquerda como à direita, manifestações autónomas e procura de novas vias, a ideologia central, hegemónica, omnipresente, continua vigorosa e viva. A esquerda não reconhece que se enganou e que as suas políticas não deram os resultados esperados. A direita não reconhece que se deixou colonizar pela esquerda e que, entre esse modelo e a caverna reaccionária, não tem qualquer solução própria.

E, no entanto, há lugar para novas políticas. Desde que as orientações se tornem independentes dos dois mais poderosos factores de conservação desta famigerada ideologia: a burocracia ministerial (e seus técnicos e especialistas) e os sindicatos de professores. São estes dois corpos os verdadeiros responsáveis pela política educativa em Portugal, ajudados evidentemente pela demagogia dos dois grandes partidos.

A Esquerda Enganou-se - I (Grandes Esperanças)

Por ANTÓNIO BARRETO
Publico, Domingo, 05 de Setembro de 2004

Foram anos de crença. E décadas de esperança. Durante muito tempo, a esquerda acreditou nas virtudes da educação do povo. Convenceu-se e convenceu muita gente, gerações atrás de gerações, que a educação era o instrumento essencial para mudar as sociedades, criar o "homem novo" ou, com menos pompa, libertar os oprimidos do capitalismo. Alfabetização obrigatória e universal, democratização do ensino, escola para todos, formação profissional para toda a gente, acesso aos estudos superiores, democratização da universidade e direito à universidade: estas foram, entre outras, algumas das suas palavras-chave que passaram para o vocabulário das sociedades contemporâneas. Para as suas crenças, a esquerda atraiu, sobretudo por má consciência e sentimento de culpa dos outros, pessoas e grupos sociais ditos do centro e da direita. A ideologia educativa da esquerda transformou-se, há muito, na ideologia dominante.

Os grandes valores da direita para a educação, raramente explícitos e sistematizados, têm hoje pouca saída, apesar de, aqui ou ali, parecerem ressuscitar e surgir de insuspeitas origens. São poucos os que hoje se atrevem a defender os grandes temas da direita para a educação: Deus, pátria e família, à cabeça; hierarquia e obediência; formação moral e religiosa dos jovens; a escola como extensão da família; escola empenhada nos valores "nacionais", morais e religiosos; primado dos estudos clássicos; e educação cultural e científica para as elites sociais, em contraste com a formação profissional para as classes populares. Nas suas versões mais modernas, a direita simpatiza com uma estratégia de formação de técnicos e de quadros em função e de acordo com as necessidades concretas da economia; defende uma concepção de permanente e feroz competição; e desenvolve políticas tendentes a mercantilizar a ciência e o estudo.

É verdade que alguns destes princípios foram adoptados (e adaptados) pelas esquerdas. Os republicanos, muitos socialistas e os comunistas também pretenderam, se é que ainda não pretendem, cultivar uma escola "empenhada", mas orientada, evidentemente, para a República, a democracia e o socialismo. Historicamente, tanto a direita como a esquerda condenam e lutam contra a "neutralidade da escola", só que com valores opostos. Todavia, apesar de algumas semelhanças, os valores da esquerda são, tradicionalmente, muito diferentes dos da direita.

Convém enumerar, simplificando, algumas dessas crenças. A educação permitiria lutar contra as desigualdades sociais, tornando mais fácil a mobilidade e a ascensão, mas sobretudo a igualdade. A educação seria uma exigência que precede o desenvolvimento. Noutras palavras, não haveria desenvolvimento sem educação prévia; ou então, mais simplesmente, a educação seria um factor de desenvolvimento. Com a educação, com uma "nova escola", seria possível eliminar os factores de "reprodução social" da ordem vigente e de domínio cultural e político das classes burguesas. As "novas" políticas de educação, populares e socialmente igualitárias, seriam condição necessária para promover e desenvolver a "inteligência social", para elevar o nível cultural das massas e para contribuir para a libertação das classes trabalhadoras, além de que seriam factor indispensável para desenvolver as forças produtivas. Para que tudo isto seja possível, necessário se torna que a educação seja a prioridade política absoluta, indiscutível, o que se traduz nas leis, nos orçamentos, nos vencimentos dos professores, nos investimentos públicos e nos recursos em pessoal. Em função desse objectivo, dever-se-ia gerar um "consenso nacional", interpartidário, duradouro, tão vasto quanto possível, a fim de evitar "guinadas" bruscas e mudanças de rumo políticas, tão prejudiciais para a harmonia escolar e educativa.

Além destes grandes princípios, as esquerdas souberam também desenvolver teorias sofisticadas de pedagogia e de organização escolar. Para realizar a "nova escola", seria necessário pôr em prática vários princípios instrumentais e diversos métodos. Por exemplo, promover a democracia na escola, seja através da participação dos jovens na gestão, seja adoptando o princípio eleitoral para a designação de responsabilidades. Afastar, tanto quanto possível, mas sem nunca o dizer abertamente, os pais, as famílias e os munícipes da vida da escola, dado que as inspirações mais reaccionárias têm origem nesses grupos sociais. Orientar os estudos e a aprendizagem para "a vida prática", as culturas locais e regionais e as exigências do emprego, a fim de tornar a escola acessível às classes populares, dando-lhes assim mais instrumentos de defesa e promoção. Reduzir significativamente os estudos clássicos e humanistas, assim como o tempo gasto com o património erudito, privilegiando, em substituição, uma "literacia funcional" e uma formação prática realista que aumente a igualdade de oportunidades. Baixar as exigências e as regras de disciplina a fim de atrair os jovens das classes mais desfavorecidas que tantas vezes ficam à margem dos estudos "livrescos" e demasiadamente eruditos ou científicos. Tornar o estudo mais fácil, atraente e democrático, a fim de evitar marginalizar os filhos das classes não burguesas, através de novos critérios pedagógicos, que incluem a subalternização dos exames (seriam factores de "stress"), a eliminação dos "chumbos" (que criariam traumas irrecuperáveis), a condenação da memorização (das tabuadas, de textos, de classificações, de datas, de nomes, de factos) e a abolição dos "trabalhos de casa" (dado que em casa só as classes favorecidas têm meios e ambiente para os levar a cabo). Substituir o "dever de estudar" pelo "prazer de aprender", revalorizando os aspectos lúdicos da escola e eliminando as noções de sacrifício e esforço. Alargar e facilitar o acesso de todos aos níveis secundários e superiores, diminuindo as exigências de mérito, torneando as provas de acesso, eliminando o "numerus clausus", reduzindo o papel dos exames, introduzindo a repescagem, as segundas chamadas, as segundas épocas, as épocas especiais, os recursos e as revisões de provas.

Estes e outros princípios, estas e outras regras, tiveram um inacreditável sucesso nas sociedades ocidentais durante muitas décadas. Desde o fim da segunda guerra, sem dúvida, mas a expansão destas modas já vinham de antes. A tal ponto que a ideologia extravasou as fronteiras das esquerdas e conquistou o centro político e mesmo muitas áreas da direita menos tradicional. Estas correntes de pensamento fizeram a unidade entre laicos e religiosos; entre políticos e tecnocratas; entre as classes médias e as classes trabalhadoras. O papel determinante, nesta caminhada vitoriosa, foi claramente o dos professores, suas associações e seus sindicatos, que fizeram sua e desenvolveram esta poderosa ideologia. Nada disso teria sido possível, evidentemente, sem a demagogia política ao serviço da democracia de massas e respectiva cultura. Se, em Portugal, olharmos para as políticas educativas praticadas desde finais dos anos sessenta até hoje, verificaremos, ressalvadas raras excepções, uma extraordinária continuidade visível tanto nas leis e nas políticas, como nas orientações e nas reformas, assim como nas estruturas e no pessoal dirigente. E não nos deixemos enganar com a sucessão de reformas e a instabilidade educativa tão frequentemente apontadas com dedo acusador: é verdade que a gestão do sistema tem sido errática, dada a oscilações, mas não é menos certo que, com mais ou menos cor, mais ou menos ruído, os princípios e as orientações essenciais se têm estranhamente mantido. Se repararmos bem, há um grupo de duas ou três dezenas de técnicos, especialistas, professores e políticos que, desde os anos sessenta e até hoje, participou em todas as reformas educativas levadas a cabo por todos os partidos nos vários governos que se sucederam.

Amanhã: A grande ilusão
N.R: Estas reflexões de António Barreto não substituem a sua habitual crónica Retrato da Semana, que regressará ao contacto dos leitores no próximo mês de Outubro

"Fahrenheit" e as Guerras Americanas

Por AUGUSTO M. SEABRA
Domingo, 05 de Setembro de 2004

A cerimónia de entronização concluiu-se - George W. Bush é o candidato à reeleição presidencial pelo Partido Republicano. O ritual ocorreu em Nova Iorque, a escassos dias do 3º aniversário do ataque terrorista de 11 de Setembro. Na ocasião, os republicanos aprovaram uma plataforma que não só reitera o "war president" como confirma o acolhimento das perspectivas culturais mais conservadoras, reafirmando, depois de uma clamorosa derrota no Senado, o intuito de banimento de casamentos homossexuais (numa desautorização expressa do vice-presidente, Dick Cheney) e da promoção de um "Human Life Amendment", ou seja, da proibição da interrupção voluntária da gravidez, saudando o Presidente por ter assinado o "Partial Birth Abortion Act", proibindo a interrupção nos segundo e terceiro meses de gravidez, já considerado inconstitucional por dois tribunais federais. Na ocasião da convenção, também teve o seu momento de glória (mais um) o conhecido agitador Michael Moore, ali presente como colunista convidado do jornal "USA Today".

Do exposto, pretendo retirar três factos: 1) a escolha de Nova Iorque, inteiramente previsível (fosse outro o local da convenção republicana, isso sim é que seria surpreendente), enfatiza que o trunfo fundamental de Bush, investido pelas circunstâncias em "war president", não são os reais avanços na guerra contra o terrorismo nem a "vitória" no Iraque, mas a invocação constante do 11/9 (9/11 no uso americano) que em termos mediáticos, propagandísticos e políticos corresponde à recorrência daquele como um "docudrama"; 2) a extensão de linhas discriminatórias das chamadas "guerras culturais"; 3) o relevo que Michael Moore, pelo seu célebre discurso de noite de óscares, com o "Shame on you, Mr. Bush", e depois com "Fahrenheit 9/11" e o seu triunfo no "box-office", adquiriu como expoente de uma oposição inorgânica a Bush.

O argumento das "cultural wars" deve ser considerado com extrema reticência. Sei bem, por experiência própria, que se travam "batalhas culturais", mas a fixação em ostensivas linhas de demarcação e a extensão a um conceito sistematizado de "guerra" suscita-me a maior das perplexidades - ocorre-me sempre o "kulturkampff" de Bismarck, ou seja políticas de discriminação. E, efectivamente, como ainda agora o vem confirmar a plataforma republicana e os vínculos que os estrategos da Casa Branca andam a tecer com grupos religiosos fundamentalistas (ou acaso seria só entre os islâmicos que os haveria?!), o conceito generalizado tem muito pouco de convivência democrática.

Isto dito, a acesa luta ideológica é certamente um dos apanágios da democracia americana. É um quadro que tem de ser relembrado na consideração do filme de Moore. Acho assim verdadeiramente extraordinário que o filme tenha sido remetido para o "índex" sem sequer ser visto e considerado como "acto de hostilidade" (de "guerra" supõe-se) a atribuição da Palma de Ouro de Cannes.

E assim sendo, concluo os considerandos dizendo também, depois de visto o filme, da minha perplexidade pela dita atribuição, mas redobrada por outra: acho extraordinário o geral silenciamento na imprensa de uma situação de proximidade, para não dizer mesmo promiscuidade, que se verificou nessa atribuição.

Por até já ter integrado um, faço alguma ideia do que pode ser um júri de Cannes. Sendo esse constituído por personalidades do meio cinematográfico (pelo menos maioritariamente), é natural que tenham gostos e cumplicidades que mais coincidam com alguns filmes concorrentes; é tão-só um facto. Não vejo é como se possa omitir que a Palma foi atribuída num contexto em que estava em causa a distribuição americana do filme, devido à recusa da Disney, e que o assunto se tornava vital para a Miramax, financiadora do filme; e que a Palma foi atribuída por um júri presidido pelo cineasta por excelência da dita Miramax, Quentin Tarantino!

Portanto, se houve decisões duvidosas (e eu vou-me permitindo supor que o Palmarés de Cannes deste ano foi um dos mais indigentes de sempre), não se venha a propósito arranjar um novo capítulo de uma guerra euro-americana, ou mais concretamente franco-americana. Se o assunto é também de "guerra", consideremo-la sim antes do mais no quadro americano.

2. Para todos os efeitos o objecto que nos é visível é um "filme" classificado como "documentário". É abstruso desqualificar o filme só porque não corresponderia a uma busca ética da verdade que seria imanente ao documentário. Discutamos então matéria de cinema.

Moore não deixa de se inscrever numa tradição, em que a referência foi o mais politicamente empenhado dos documentaristas americanos, Emilio de Antonio. Um filme como "Point of Order" que retomava os materiais televisivos das audições do senador McCarthy (com Roy Cohn a seu lado, o tal que viria a ser personagem de "Angels in America") é um antecedente que pode ser citado, mormente por interposto "Atomic Cafe" de Kevin Rafferty, o cineasta que primeiro sugeriu a Moore que também ele usasse uma câmara.

A inscrição pode tanto mais ser considerada quanto "Fahrenheit" é formalmente o mais trabalhado dos filmes de Moore, e também aquele em que o seu manifesto ego mais se apaga - parafraseando o título do primeiro filme "Roger and Me" (algo retomado aliás do "Mr. Hoover and I" de Emilio de Antonio, com a não negligenciável diferença de que este não se inventava um estatuto, fora mesmo seguido pelo FBI), "Bush and Me" ficou para a promoção e outras sequelas mediáticas.

Faz isso de "Fahrenheit" um desses objectos que correntemente se referem como "um bom filme"? Poupem-me por favor, ou antes, salvaguarde-se a arte cinematográfica!

Mesmo que a concreta experiência que lhe deu nome seja posterior, o chamado "efeito Kulechov" é tão velho como o cinema, é inerente ao princípio da montagem: a percepção do espectador é função da concatenação das imagens. Moore é um praticante exponencial, um manipulador. Nesse aspecto, ele provém da mesma cultura "pop" que se manifesta na alegre e até frequentemente brilhante manipulação de imagens num "videoclip".

Utiliza-se hoje também a categoria de "documentário de criação", num sentido mais próximo do ensaio literário. Mesmo nas suas obras mais militantes, Chris Marker é um admirável exemplo. Mas ocorre-me também o extraordinário "La Spirale" de Armand Mattelart e Valérie Mayoux, uma análise do processo conducente a outro 11 de Setembro, o de 73 no Chile. Infelizmente, "Fahrenheit 9/11" não é nada disso. E definitivamente não é nenhuma análise cinematográfica do 11/9!

"Um travelling é uma questão de moral", a montagem também. E a montagem, não apenas no seu concreto processo, mas na suposição geral dos materiais que se abordam ou omitem, aí se radicando a razão de um filme: a proposição ética e estética de um ponto de vista.

Há suposições e omissões em "Fahrenheit 9/11" que o desqualificam. O facto de eu entender que a administração Bush é incompetente e sinistra, e que também ela tornou o mundo mais perigoso, não me faz avalizar deturpações grosseiras, como a insistência nas conexões entre as famílias Bush e Bin Laden, como se Osama fosse propriamente um íntimo da Casa dos Saud, ou a apresentação quase paradisíaca do Iraque, como se Saddam Hussein nunca tivesse existido!

Mas não posso também ser indiferente à consideração de que há imensa matéria no filme que nunca tinha sido exposta com este impacto público: entre outros, o protesto dos congressistas afro-americanos pela validação do decisivo resultado eleitoral da Florida; a indiferença de Bush continuando numa leitura infantil mesmo depois de avisado que a América estava a ser atacada (e já agora faço notar que a descrição detalhada da manhã de 11 de Setembro é um dos capítulos mais embaraçantes do Relatório da Comissão de Inquérito do Congresso), e sobretudo as imagens concretas dos soldados no Iraque, dos caixões, das famílias (e muito se debateu há uns meses nos media americanos a não difusão das imagens dos caixões - só que depois vieram as de Abu Ghraib).

Obviamente que "Fahrenheit 9/11" é um panfleto propagandístico. Considerado nesses termos, é um objecto mais de uma longa tradição americana. Mas o terreno em que se vem colocar - e daí poder ser também um monumental equívoco, tanto mais decorrente do prémio em Cannes - é o de uma contra-informação televisiva, retomando aliás o fracassado "show" de Moore "TV Nation": à sessão contínua do "docudrama" do 11 de Setembro que é a propaganda de Bush, contrapõe uma outra que afinal encontrou o seu público nas salas de cinema, impensável que era nas cadeias nacionais.

Queixam-se? "It's the war"! Infelizmente, e em todos os sentidos, como os republicanos acabam de o reafirmar em Nova Iorque.

Crítico

A Estetização do Horror

Por ANTÓNIO PINHO VARGAS
Domingo, 05 de Setembro de 2004

Ontem [dia 3 de Setembro] fiz um esforço para chegar a casa a tempo de ver as notícias às 8 horas sobre o desenlace do assalto terrorista na Rússia. Ia pensando no caminho que o tempo da guerrilha "heróica" de Guevara ou do Vietname tinha acabado há muito, que as lutas contra as potências pela via terrorista tinham chegado a níveis de inumanidade bárbaros e que, com Putin, as respostas eram sempre brutais e trágicas, com muitas vítimas inocentes. Vi as notícias, as imagens de terror, tirei as conclusões que pude mas no final vi outro objecto digno de análise. Antes de avançarem para outros assuntos do dia, a SIC e a TVI - não vi na RTP - passaram resumos de 30 ou 45 segundos do já mostrado. Sem palavras e com música. Este momento realiza a passagem para a estetização do horror.

Não acrescenta nada às notícias, mas configura um formato determinado dos media. Num caso com música lúgubre, próxima das atmosferas mais sinistras de Bruckner, com incidência no plano da menina loira dentro de um carro, no outro, com música mais dissonante e rítmica, no estilo dos herdeiros modernos de Stravinsky dos filmes de acção de Hollywood: planos de automóveis e ambulâncias a grande velocidade, soldados ou pais a correr com crianças mortas ao colo.

Escrevo e é-me insuportável o que escrevo. Tento descrever o que vi e ouvi mas a minha descrição ofende-me. O resumo que estetiza o horror desloca-se do simples registo noticioso para o do videoclip da catástrofe. Lembrei-me de um amigo me ter dito que, na guerra de Angola, a coisa mais estranha para ele era a guerra verdadeira não ter música de fundo. Esta falha grave da realidade estará em parte já resolvida com a possibilidade do uso de auscultadores dentro dos capacetes; como, no filme do Moore, o daquele piloto do tanque americano no Iraque que, em plena acção, está a ouvir um rock adequado: "Let them burn". Nada me garante que os membros da Al-Qaeda, na sua mistura peculiar de fundamentalismo pré-moderno e sofisticação tecnológica não usem Portable CD Players com os mesmos objectivos.

Que audio-mundo é este que estamos a fazer?

Amarga Ironia

Por HELENA MATOS
Publico, Sábado, 04 de Setembro de 2004

Escrevo esta crónica, sexta-feira, enquanto os reféns são libertados na escola da Ossétia do Norte e ainda se desconhece o destino dos dois jornalistas franceses e do seu motorista sírio. Nesta mesma semana, o Hamas levou a cabo mais um atentado em Israel que provocou a morte de 16 pessoas e feriu mais de 90. Simultaneamente foram confirmados o assassínio, no Iraque, de três reféns turcos, pelo grupo Monoteísmo e Jihad e de doze reféns nepaleses pelo Exército dos Partidários da Sunna. áá E poucas vezes como nesta semana em que as horas, os dias e as imagens foram marcados pelos terroristas, poucas vezes, repito, foi tão visível o rasto da forma parcial como a imprensa europeia se refere ao terrorismo e aos terroristas.

O caso Chesnot, Malbruno e Battisti. Por uma amarga ironia, antes do rapto de Christian Chesnot e Georges Malbruno, a imprensa francesa tinha descoberto uma nova causa. Falo do italiano Cesare Battisti, terrorista nos anos 70, acusado de quatro mortes, que vivia em França ao abrigo dum acordo feito, em 1985, por Mitterrand com vários terroristas italianos ou, parafraseando a imprensa francesa, ao abrigo de um acordo feito pelo então presidente da república francesa com italianos perseguidos no seu país por actos de terrorismo. A segunda definição embora queira dizer o mesmo comporta um juízo de valor absolutamente diferente: nela Battisti passa de terrorista responsável por quatro mortes, a um perseguido por actos de terrorismo. Logo a sua condição de perseguido pela justiça sobrepõe-se moralmente à de assassino. Esta separação entre o terrorista e os seus actos é uma forma de desresponsabilização que nada justifica mas de que os terroristas, ao contrário dos outros assassinos, têm sido largamente beneficiários.

Battisti desapareceu a tempo de evitar ser extraditado para Itália e, no final de Agosto, multiplicavam-se as declarações sobre o seu estado deprimido, a injustiça que representava fazê-lo voltar a uma Itália em que Berlusconi é primeiro-ministro, os laços que o prendem à família que constituíra em França... Os amigos franceses de Battisti nem questionavam o absurdo facto de um seu presidente da República ter considerado - na década de oitenta do século XX note-se! - que devia dar asilo a vários terroristas a braços com a justiça italiana, sendo a Itália, um país vizinho da França, democrático e com uma justiça que tem marcado a sua independência muitas vezes à custa da própria vida dos seus agentes. Contudo temos de admitir que o perdão imediato pelos actos do passado ao primeiro baixar de armas é um dos vários privilégios dos terroristas e ditadores que se reivindicam de esquerda ou que se apresentam como tal. Mesmo quando são de factos reaccionaríssimos como acontece com o IRA e a ETA; corruptos como as FARC e a OLP ou criminosos sanguinários como o Hamas e o Sendero Luminoso, demora a que estes grupos percam o lugar cativo naqueles corações ocidentais, sempre almejantes por uma causa que lhes dê um banho lustral de abnegação. Certamente empolgado na preservação da memória de Mitterrand, o PS francês nem percebe que a sua defesa da não apresentação de Battisti à justiça o levará, na melhor das hipóteses, a ser citado pelos advogados de Pinochet: "Estamos em vias de reescrever um drama, de jogar com a vida de pessoas e das suas famílias quando a página já fora virada." - declarou, sobre a reabertura do caso Battisti, Julien Dray, porta-voz do PS. Presumo que no Chile algo de muito semelhante será dito por aqueles que não querem ver o ex-ditador no banco dos réus. Será que em matéria de assassinatos políticos há assassinos para os quais as páginas viram mais depressa?

A greve que ninguém viu. A greve de fome dos presos palestinos em Israel foi anunciada a 15 de Agosto e tudo indicava que iria ocupar a abertura dos noticiários durante várias semanas. Contudo não foi isso que aconteceu. A greve foi suspensa esta sexta-feira. Acompanhe-se por exemplo a forma como ela foi sendo noticiada no site on line do jornal espanhol 'El Mundo', não só porque este é um excelente site como porque não se pode dizer que seja dos mais parciais nesta matéria. A 15 de Agosto anunciava-se "Greve massiva de fome de presos palestinos nas prisões israelitas". Lia-se a notícia e percebia-se que a greve não era massiva nem deixava de ser pela simples razão que ainda não começara. Mas note-se que já era considerada "massiva". No dia seguinte, novo destaque informava que "Milhares de presos palestinos encarcerados em Israel apoiam a greve de fome". A 17, ficava a saber-se que "Milhares de palestinos lançam-se à rua em protesto para denunciar a situação desumana dos prisioneiros". Mas não só: a Cruz Vermelha e a Autoridade Nacional Palestinina já tinham providenciado a montagem de tendas para o acolhimento aos familiares dos detidos que acorriam a apoiá-los. Tal iniciativa não deixa de ser tocante sobretudo quando se sabe o imenso desinteresse e silêncio que caem sobre o destino dos presos palestinos que não estão nas prisões israelitas mas sim nas da Autoridade Nacional Palestiniana e nos cárceres dos grupos que fazem a lei como o Hamas.

Quantas notícias temos visto, ouvido ou lido sobre os linchamentos e execuções a tiro de palestinianos acusados de colaborarem com Israel? Não terá tido, por exemplo, nenhuma mulher a chorá-lo o homem assassinado a 28 de Agosto, por alegadamente ter colaborado com Israel? A dia 18 de Agosto surge o anúncio que mais 300 presos se preparam para aderir. A 22: "Cresce o número de presos palestinos em greve de fome. O número de presos palestinos em greve de fome duplicou numa semana chegando aos 2.900. A 24 de Agosto, vêmo-la alargar-se: "A famosa cantora árabe Latifa iniciou uma greve de fome em solidariedade com os milhares de palestinos que se encontram prisioneiros nas prisões de Israel." A 26 foi a vez de "Menores palestinos presos juntam-se à greve de fome dos presos em defesa dos seus direitos". Segundo esta mesma notícia os próprios líderes dos presos se teriam oposto a esta decisão dos menores dadas as consequências que uma greve desta natureza poderia ter na saúde das crianças. Infelizmente o jornalista não diz como obteve esta informação mas valeria não só dizê-lo mas sobretudo entrevistar estes líderes pois devem ser dum movimento completamente diferente daqueles que enviam crianças e deficientes mentais com cintos para se rebentarem em Israel ou para a frente dos tanques. A 27, nova tentativa de alento noticioso com o relato da visita de Arun Gandhi, neto de Mahatma Gandhi, a Arafat para manifestar a sua solidariedade aos grevistas.

No dia seguinte começam a surgir notícias de que a greve de fome estava a ser suspensa em algumas cadeias. E na sexta, 3 de Setembro, confirmava-se o óbvio: "Os palestinos suspendem a greve de forme em todas as prisões". É certo que o primeiro parágrafo foi redigido de modo a não quebrar o tom épico dos dias anteriores e assim fomos informados que "A greve de fome que estava ser cumprida por milhares de presos palestinos detidos em Israel desde o passado dia 15 de Agosto foi suspensa". Como se percebe ao ler esta mesma notícia, nesta fase apenas 600 presos se mantinham em greve. Arriscavam-se a morrer de fome perante a indiferença geral.

As imagens que o terrorismo tem feito entrar, nas últimas semanas, pela casa de cada um, à hora do jantar, terão certamente feito diminuir muito a disponibilidade para tomar a sério a reivindicação, desses presos, para terem acesso livre a telefones públicos dentro das cadeias e para que sejam eliminados os vidros nos parlatórios das prisões. Quer o verbalizem ou não, todos se perguntam se não será apenas para prepararem mais atentados

Batalha Naval

Por FRANCISCO TEIXEIRA DA MOTA
Sexta-feira, 03 de Setembro de 2004

uma evidente confusão do Estado consigo próprio, o ministro da Defesa e do Mar afirmou que quanto ao Estado o assunto estava encerrado. Esqueceu-se, pelo menos, da existência do Presidente da República que, certamente, não gostou.

Certo é que o "pedido de esclarecimentos" feito pelo Presidente da República parece ser inócuo, apesar de os argumentos até agora aduzidos pelo Ministério da Defesa, para a atitude bélica assumida, serem disparatados.

Na verdade, os riscos para a saúde pública da entrada no porto da Figueira da Foz do "navio do aborto" são nulos, antes pelo contrário, o exercício da liberdade de expressão por parte das Women on Waves permitirá que sejam elucidados mais aspectos de saúde pública e privada. E quanto aos riscos para a ordem pública, invocados pelo ministro da Defesa, os mesmos não assumem a gravidade e a iminência que justificariam uma proibição absoluta como foi feita.

É certo que na Polónia e na Irlanda houve manifestações e ligeiras confrontações na acostagem do navio e durante a sua permanência. Nada que as forças policiais e os Institutos das Farmácias e dos Medicamentos locais não pudessem resolver. Não temos conhecimento de quaisquer ferimentos ou de danos na propriedade nessas "confrontações".

Ora, todas as restrições à liberdade de expressão e de circulação no espaço da União Europeia e da Convenção Europeia dos Direitos do Homem têm de ser devidamente justificadas quanto à sua necessidade, adequação e proporcionalidade.

E é por demais evidente que a proibição de entrada no porto da Figueira da Foz do navio holandês com a intercepção da marcha com navios de guerra foi uma excessiva restrição à liberdade de circulação e de expressão dos tripulantes e passageiros do barco. Se se pretendia impedir a prática de crimes ou contra-ordenações, havia que, em primeiro lugar, ponderar se se podiam negociar/impor condições ou "acordos", nomeadamente a obrigação de os tripulantes do navio respeitarem a lei portuguesa em solo nacional, sem prejudicar, de forma injustificada, os direitos em causa, nomeadamente a liberdade de expressão. Ou, ainda, a selagem de eventuais produtos médicos proibidos no nosso país que existissem no navio, como aconteceu na Polónia.

Sublinhe-se que o Ministério da Defesa, ao determinar a proibição de entrada nas águas territoriais portuguesas do navio holandês e ao impô-la, imediatamente, através da marinha de guerra, actuou como se estivesse em causa a soberania nacional, o que não era manifestamente o caso. Estávamos perante um (eventual) futuro caso de polícia e não se justificava a proibição pura e simples de entrada do navio no porto da Figueira da Foz, já que, convém também lembrar, estamos dentro do "espaço Schengen".

A organização Women on Waves já recorreu aos tribunais e não vai ser fácil ao Estado português provar que a proibição de entrada era a medida necessária, adequada e menos gravosa para os direitos em causa. Mas as vantagens práticas de uma eventual decisão judicial favorável à organização correm o risco de não ser nenhumas.

Havia um risco para a ordem pública? Grave? Iminente? Do facto de se terem registado ligeiras "confrontações" na Polónia não se pode inferir que as mesmas se vão repetir no nosso país. A nossa história e a nossa realidade religiosas são diferentes.

E se a liberdade de circulação, por si só e dado que estamos no "espaço Schengen", impedia a decisão draconiana que foi tomada, a liberdade de expressão exigia que tais eventuais confrontos e eventuais manifestações tivessem lugar numa sociedade de direito democrática. Sublinhe-se que não foi anunciada, por qualquer organização, a convocação de manifestações ameaçadoras contra a entrada no porto da Figueira da Foz do "navio do aborto", pelo que tal perigo não era actual nem iminente. A liberdade de expressão em Portugal dos membros do "barco do aborto" foi grave e desnecessariamente atingida.

Resta, no fundo, que o ministro da Defesa e do Mar, face à hipótese de entrada no nosso país do barco da organização Women on Waves para promover a "causa do aborto", não resistiu a uma vistosa batalha naval sem riscos para a sua marinha de guerra, mas que, para além de desnecessária, vai ser paga por todos nós. Deveria ser, de alguma forma, responsabilizado por isso, mas, provável e inocuamente, não o será...

Nova revista

Em 19 de Dezembro de 2002, o Tribunal Constitucional declarou inconstitucionais algumas disposições do decreto parlamentar que pretendia eliminar o rendimento social de inserção para os jovens. Essencialmente por entender não haver quaisquer outros "instrumentos jurídicos" que garantissem aos jovens em situação de carência o direito a um mínimo de existência condigna. Uma decisão que considero jurídica e socialmente correcta. Entendimento que não partilha José Carlos Vieira de Andrade na lúcida anotação que faz ao acórdão do Tribunal Constitucional referido, publicada no n.º 1 da revista "Jurisprudência Constitucional" (jurisprudencia.constitucional@oninet.pt). Uma revista a não perder.

Captura ou soltura?

A emissão de mandados de captura contra diversos arguidos do caso Casa Pia por uma juíza de turno que, no entanto, não foram cumpridos por nova decisão judicial, veio dar à opinião pública a possibilidade de, mais uma vez, perceber que, no mundo da justiça, tudo é possível.

Não se pondo em causa as considerações filosóficas e sociológicas expendidas pela magistrada em causa, parece que as mesmas não justificam, por si só, nesta fase do processo e em que, ainda por cima, se encontra pendente um recurso do Ministério Público sobre as medidas de coacção impostas aos arguidos, que seja proferido um despacho na 1.ª instância, por um juiz de turno, a alterar tais medidas de coacção,

Mas o mundo da justiça, para além de funcionar, como é uso dizer-se, é cheio de idiossincracias...

Um choque

Morreu, no domingo passado, o advogado João Luís Lopes dos Reis com 49 anos de idade. Brilhante, sabedor, radical e, muitas vezes, provocador, o João Luís Lopes dos Reis foi membro da anterior direcção da Ordem dos Advogados e era um "especialista" do direito de arbitragem. A comunidade judicial ficou mais pobre

Panda Dá à Luz na China, Depois de Engravidar ao Ver Filmes Pornográficos

Publico, Sexta-feira, 03 de Setembro de 2004

A panda "China-America", de cinco anos, em cativeiro na China, deu ontem à luz duas crias gémeas, noticiou a Reuters. A notícia apanhou toda a gente de surpresa, porque na quarta-feira ainda não se tinha a certeza da gravidez. O insólito foi a panda ter engravidado depois de ter assistido a filmes pornográficos.

Hua Mei (palavra chinesa para "China-America") deu à luz as suas primeiras crias, e gozam as duas de boa saúde. Sabe-se que pelo menos uma é do sexo masculino, mas não foi possível determinar o da outra cria, porque a panda tinha-a aninhada ao colo.

"Todos deviam saltar de alegria por este nascimento", declarou o porta-voz do Centro de Investigação e Protecção do Panda Gigante Wolong. É que as taxas de fertilidade nos pandas selvagens são muito baixas, e sofrem uma redução drástica quando se referem a pandas em cativeiro.

Os gémeos são dois de uma série recente de nascimentos bem sucedidos na reserva, incluindo o bebé Ya'ao - ou "Olímpico de Atenas" -, que nasceu na véspera da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos 2004.

As informações dadas pelos tratadores há dois dias indicavam que Hua-Mei mostrava, sintomas típicos - perda de apetite e sono excessivo - de uma panda grávida que daria à luz em poucas semanas. Mas não havia certezas. "O diagnóstico cuidadoso em pandas grávidas é muito difícil", acrescentou o porta-voz.

No processo de acasalamento, os tratadores da "China-America" - baptizada assim porque nasceu no zoo de San Diego, EUA - tiveram o cuidado de lhe mostrar em filme como se processa a prática do acasalamento, ao temerem o seu escasso conhecimento na matéria por viver em cativeiro.

O Estado ao Serviço de Um Grupúsculo

Por JOSÉ PACHECO PEREIRA
Quinta-feira, 02 de Setembro de 2004

No mar, em frente da Figueira da Foz, dois barcos de guerra da Marinha portuguesa vigiam um pequeno barco holandês de uma organização feminista radical, cujo objectivo é provocar agitação nos países em que a legislação criminaliza o aborto, oferecendo a possibilidade de levar as mulheres a águas internacionais e aí lhes administrar uma pílula abortiva. O Governo proibiu-lhe a entrada em águas territoriais usando para isso pretextos jurídicos muito débeis e controversos, mandando em seguida os navios de guerra para o impedir de entrar. A Polícia Marítima fez também inspecções inusitadas num barco fretado para levar jornalistas, numa clara intimidação dos responsáveis pela embarcação. Uns dias depois, face à controvérsia entretanto originada, o ministro da Defesa comparou a situação do barco holandês à da pesca ilegal e tráfico de drogas, mas acrescentou também que se tratava de impedir uma "manobra publicitária", colocando o problema em termos de limitações da liberdade de expressão.

Não querendo aqui entrar no debate específico sobre o aborto, pretendo analisar o comportamento do Governo, importante numa fase em que este está a definir a sua identidade e posicionamento político. Ora, para qualquer observador desprevenido, é notório o exagero de palavras e meios, que só pode resultar de uma intencionalidade política. Pode-se perguntar se não há radares para ver se o navio holandês respeita a proibição de entrada em águas nacionais, não há um avião ou helicóptero para o vigiar na sua rota, não há uma lancha da Polícia Marítima para o impedir de atracar, caso infringisse as ordens? Não. São precisos dois vasos de guerra, com completa desproporção de meios, quer em função da necessidade, quer do risco, o que obriga a uma interpretação política do uso da Marinha de guerra portuguesa pelo ministro da Defesa com o beneplácito incomodado do Governo e, já se percebeu, a discordância do Presidente da República.

Eu sou a última pessoa a dar qualquer caução à operação propagandística das Women on Waves e dos seus amigos "bloquistas" portugueses (que incluem uma parte do PS). A começar porque a considero completamente contraproducente para o objectivo de conseguir a descriminalização do aborto em condições de dignidade das mulheres, que toda a gente já percebeu pode acontecer daqui a dois anos. Só que dificilmente tal se conseguirá sem um novo referendo e esse referendo pode ser perdido se radicalismos folclóricos como o do barco holandês afastarem das urnas a maioria das pessoas. E convém não esquecer que, do outro lado, estará uma parte militante da Igreja, cuja influência social é infinitamente superior à do Bloco de Esquerda e mesmo do PS, como já se viu. A causa do fim da criminalização do aborto e uma legislação médica e socialmente sólida só se conseguirá pela moderação e não pelo radicalismo.

Organizações como a Women on Waves são muito comuns na esquerda mais radical europeia (e nos EUA distribuídas irmamente entre radicais de esquerda e direita), filhas de uma desagregação dos partidos mais tradicionais da esquerda e do fim da guerra fria a favor de grupos de "single issue". Goste-se ou não, estão aí para ficar e é até provável que venham a ter cada vez maior papel. Muitas delas assumem o estatuto de ONG e recebem subsídios do Estado. Entre algumas das organizações portuguesas, que estão ligadas à vinda do barco holandês, há recipientes de dinheiro estatal da "juventude".

O Estado português, quando da questão de Timor, dependeu de muitas destas organizações e não se pense que eram todas moderadas e sábias. Algumas que encontrei nos corredores das Nações Unidas, quando lá falei de Timor, eram bem mais radicais do que as Women on Waves e até suspeito de que o Estado português lhes dava uma "ajudinha". Isto tudo para dizer que elas são um facto da vida, e mesmo discordando-se delas e da sua acção - como é o meu caso, que acho que na sua maioria tem uma agenda pouco transparente e causas sinistras - trata-se, garantindo a sua liberdade de expressão, de combatê-las politicamente.

Mas, numa democracia, a lei é a lei. Quer para as Women on Waves quer para o ministro da Defesa e o Governo, e, se a organização feminista sugeriu que podia vir a quebrar a lei portuguesa (fazendo abortos em território português, ou distribuindo medicamentos proibidos), a verdade é que enquanto não o fizer a sua acção é do domínio da pura propaganda e agitação e isso as leis da democracia protegem como liberdade de expressão. Contrariamente ao que disse o ministro da Defesa, uma "manobra publicitária" não é um crime, e os propósitos inflamados do "site" da Internet das Women on Waves são tanto um crime como o objectivo de fazer a "revolução socialista" no programa do PCP.

A resposta absolutamente desproporcionada do Governo coloca-o ao nível das Women on Waves em termos de radicalismo político. Aliás, revela uma realidade que qualquer estudioso académico do PP de Paulo Portas (e não necessariamente do CDS) considerará evidente: a lógica política do grupo é radical, tende a agir de forma conflitual e a desejar a conflitualidade com grupos que à extrema-esquerda actuam do mesmo modo. É esse o modo como afirma a sua identidade. Na blogosfera, onde a política tem uma maior transparência ideológica, a lógica dos blogues próximos do PP é actuarem de forma espelhar com os do Bloco de Esquerda e vice-versa. O Bloco de Esquerda já percebeu que isso favorece a sua política de implantação, num contexto de apatia dos socialistas, e provoca sistematicamente o PP. O PP, que em matéria de uso da provocação é de uma enorme ingenuidade face aos velhos leninistas do Bloco, responde à letra. O problema é que o PP está no Governo e envolver o Governo de Portugal num conflito de grupúsculos radicais é comprometer o equilíbrio do Estado e ameaçar direitos fundamentais que ele deve garantir.

Para além de se saber se houve ilegalidade na acção do Governo, e tudo indica que houve mas demorará tempo até as instâncias jurídicas o esclarecerem, há todo um estilo pouco consentâneo com um Estado democrático, como seja a utilização das forças armadas para fazer uma exibição com fins políticos ou para acções intimidatórias contra seja quem for. Usando-as como braço armado de uma política de grupúsculo à procura de identidade conflitual, muito para além da necessidade e da legalidade, o que se perde é o sentido de Estado e os seus valores: autoridade proporcionada, reserva e discrição na sua aplicação, respeito pela razão democrática e pelos valores da liberdade

A Questão dos Serviços Públicos

Por VITAL MOREIRA
Publico, Terça-feira, 31 de Agosto de 2004

Retomo, a propósito do debate em curso no PS, a questão dos serviços públicos - ou seja, as prestações asseguradas pelo Estado aos cidadãos -, que me parece essencial no contexto de uma política de esquerda, não somente por estarem na base mesma do conceito de "Estado social", mas também pelos problemas que eles hoje enfrentam.

Num sentido amplo, a noção de serviços públicos abrange os de natureza "comercial e industrial" (água, electricidade, serviços postais, telecomunicações, transportes públicos, etc.), pagos pelos utentes segundo tarifas administrativamente fixadas, podendo ser prestados por empresas públicas ou concessionados a empresas privadas, bem como os chamados serviços públicos "não mercantis" (educação, cuidados de saúde, diversas prestações sociais), normalmente gratuitos e prestados directamente por serviços ou estabelecimentos públicos, fora de qualquer lógica de mercado. Embora sem desvalorizar a importância dos primeiros para o "modelo social europeu" - e nisso a França constitui o paradigma de uma cultura dos serviços públicos -, foram os serviços públicos não económicos que mais contribuíram para caracterizar o modelo social-democrata ao longo do século passado. E isto, por duas razões fundamentais, a saber: a ampla extensão das prestações asseguradas e, sobretudo, o facto de terem sido concebidas não somente como uma questão de políticas públicas, mas sim como uma garantia de verdadeiros direitos sociais das pessoas, estando no cerne da chamada "segunda geração" de direitos humanos.

No modelo social-democrata tradicional, esses serviços públicos eram uma responsabilidade directa do Estado, a nível central ou local, sendo em geral gratuitos e universais, acessíveis que eram a todos os cidadãos independentemente da sua condição económica. O seu financiamento era assegurado pelo orçamento do Estado, sem prejuízo dos casos de seguro universal obrigatório (seguro social, seguro de saúde, etc.). A lógica do modelo assentava naturalmente num sistema fiscal de natureza progressiva, com uma fiscalidade muito elevada. Só dessa maneira era financeiramente sustentável a tendencial gratuitidade universal das referidas prestações públicas, abrangendo inclusive os mais abastados. Os ricos pagavam para todos. A não discriminação no acesso tinha a vantagem adicional de evitar o risco de uma divisão social, entre os serviços públicos, destinados às classes populares, e as actividades privadas, reservadas para os ricos. Os serviços e prestações sociais públicos universais e gratuitos foram por isso também um elemento essencial de integração e inclusão social (com especial relevo para a escola pública).

O que é que veio abalar e fazer questionar esse modelo? Fundamentalmente três razões: primeiro, o crescente aumento de custos desses serviços, não somente pela ampliação das prestações mas também, no caso da saúde e da segurança social, pelo aumento considerável da idade média das pessoas; segundo, a contestação da eficiência do modelo tradicional de gestão pública, bem como do monopólio público, dessas actividades; terceiro, o fim do modelo fiscal em que o sistema assentava, por efeito de vários factores, entre eles, a perda de importância relativa dos impostos directos, a contestação da progressividade fiscal, a competitividade fiscal internacional, que levou à baixa da carga fiscal, designadamente nos impostos sobre os rendimentos de capital e sobre as empresas, etc.

Em consequência disso, todos os pilares do modelo tradicional dos serviços públicos foram postos em causa, desde a sua universalidade à sua gratuitidade, desde os modos da sua gestão pública até à sua exclusiva prestação directa pelo Estado. É nesse contexto que devem ser compreendidas as recentes linhas de evolução, designadamente a discriminação social dos beneficiários, excluindo os não necessitados ou discriminando em favor dos mais carenciados (por exemplo em matéria de prestações familiares); a criação de taxas mais ou menos relevantes pelo acesso a certas prestações (por exemplo, as taxas moderadoras na saúde, as propinas no ensino superior), muitas vezes diferenciadas de acordo com os rendimentos; a reforma da gestão dos serviços públicos, no sentido de melhorar o seu desempenho e aumentar a sua eficiência, mediante a introdução de formas de gestão empresarial e de "mecanismos de tipo mercado" no âmbito da própria gestão pública; finalmente, a crescente participação de entidades privadas nesse sector, incluindo as de natureza lucrativa, seja em cooperação com entidades públicas ("parcerias público-privadas"), quer inclusive como substitutos do Estado na prestação de cuidados e prestações sociais, mediante financiamento público.

Só quem não quer ver é que não percebe que as várias alternativas ao modelo tradicional dos serviços públicos não são equivalentes. Há, por um lado, a alternativa neoliberal mais estreme, que exalta o sistema norte-americano, considera os serviços públicos universais e gratuitos de tipo europeu uma coisa do passado e uma irracionalidade económica, não reconhece direitos sociais, quer libertar o Estado da prestação directa dos mesmos, exalta a liberalização e o financiamento ao utente mediante o sistema de "voucher", preconiza uma drástica desoneração fiscal, sobretudo das empresas e dos ricos, deseja entregar tudo isso ao mercado e eliminar o papel do Estado, reduzindo-o tendencialmente ao financiamento de serviços mínimos destinados aos grupos mais carenciados, como medida de política social "benévola". Mas há, por outro lado, uma alternativa ainda fiel aos postulados básicos do modelo social europeu no que respeita à garantia universal de direitos sociais por parte do Estado, pondo porém em causa os modelos da sua organização e gestão pública e admitindo inclusive, dentro de certos limites, confiar a sua prestação a entidades privadas, mediante financiamento e controlo público, passando o Estado a ser financiador em vez de prestador. Ao contrário do que frequentemente sucede nas análises de alguma esquerda mais dogmática, existe uma distinção abissal entre estes dois modelos, visto que o primeiro desresponsabiliza generalizadamente o Estado na garantia de serviços públicos, reduzidos ao mínimo, enquanto o segundo continua a basear-se nas noções de direitos sociais e de responsabilidade pública pela sua satisfação, em geral pela sua prestação, no mínimo pelo seu financiamento.

As considerações financeiras estão na raiz da problemática actual dos serviços públicos. Por um lado, não é possível continuar a ignorar o desafio que a chamada "nova gestão pública" veio trazer no que respeita ao desempenho da gestão pública tradicional, baseada no regime da função pública, na falta de autonomia e de avaliação e responsabilização das unidades prestadoras, etc. O desperdício e a ineficiência são o melhor argumento contra os serviços públicos. Por outro lado, há um problema de limite dos recursos financeiros para enfrentar as crescentes exigências dos serviços públicos. Não se vê, por exemplo, como é que se pode evitar o aumento das despesas de saúde, face ao envelhecimento da população, aos riscos acrescidos (acidentes de viação, efeitos do tabaco, droga, sida, etc.) e ao encarecimento dos meios de diagnóstico e de tratamento. Ao contrário do que se julga e por vezes se escreve, o sucesso da política de Blair no que respeita aos serviços públicos - que seria injusto não reconhecer - não foi feito somente pela adopção de novas formas de organização e gestão mas também por substanciais aumentos das dotações orçamentais, designadamente no serviço nacional de saúde. E isto supõe obviamente uma economia forte e um sistema fiscal eficaz e justo. Não podem ignorar-se essas dimensões na discussão dos serviços públicos.

Seria conveniente que no PS se discutisse um pouco mais sobre estes assuntos. A meu ver, nenhuma das propostas dos candidatos à liderança socialista os aborda com a profundidade e clareza necessárias.

Professor universitário

China-Dados

Com 300 Milhões de Utilizadores a China É o Maior Mercado do Mundo de Telemóveis
Sábado, 28 de Agosto de 2004

Um chinês pode comprar quase cinco vezes mais bens e serviços por cada dólar do que um americano nos EUA

Em 2003, Pequim gastou 60 mil milhões em investigação e desenvolvimento (só EUA e Japão gastaram mais)

A cada dia que passa há mais mil carros a circular em Pequim

O sector agrícola chinês gasta seis vezes mais água do que o americano

China-Afinal, a China É Ou Não É ...

Publico, Sábado, 28 de Agosto de 2004

uma economia de mercado?

Economia planificada? Capitalismo selvagem? Ou economia de mercado socialista?

A questão do estatuto chinês não é um pormenor: recusar que se trata de uma economia de mercado facilita as condenações por "dumping" e isso convém ao proteccionismo americano e europeu

Qual é a economia de mercado que não é uma economia de mercado? A pergunta colocada recentemente pelo "Asia Times" foi feita à medida para uma resposta evidente: a China. Em finais de Junho, o estatuto de economia de mercado voltou a ser negado pela União Europeia, que evitou assim reconhecer que o país já pouco tem de economia planificada. Os europeus, como os americanos, continuam assustados com o acelerado crescimento chinês.

"A China não é ainda totalmente uma economia de mercado, mas as forças de mercado já estão a fazer o seu trabalho", explica ao PÚBLICO Stephen Green, do Royal Institute of International Affairs, em Londres. Por exemplo, "há deslocação de mão-de-obra do espaço rural para as cidades", "50 por cento das empresas são já privadas", "o comércio é bastante aberto e a economia muito liberal". Mas há também o reverso da moeda, tal com o Estado "a exercer ainda medidas proteccionistas, incluindo o controlo de alguns preços em áreas como os empréstimos bancários. É um quadro que actualmente está ainda bastante misturado", diz o analista.

A abertura económica começou quando em 1978 Deng Xiaoping lançou a sua política de "porta aberta". Mais tarde, Deng deixou cair o "slogan"que mudou tudo: "Enriquecer é glorioso". Em 1992, o regime especificou as suas intenções: criar uma economia de mercado com características chinesas, socialista. Dez anos depois, Pequim anunciava que o objectivo tinha sido alcançado.

Se é verdade que agora a China é comercialmente um dos países mais liberais do mundo, também é certo que o Governo ainda aposta em tornar empresas estatais em gigantes mundialmente competitivos, que os bancos preferem conceder empréstimos a empresas públicas, e que o regime de falência está longe de ser eficiente. Para ajudar as empresas estatais falidas, o Governo autorizou a eliminação de dívidas no valor de 223 mil milhões de yuans (22 mil milhões de euros) em créditos mal parados. Tudo isto complica a tarefa de "catalogar" o tipo de economia.

Mas o economista Dwight Perkins, da Universidade de Harvard (EUA), não tem dúvidas: "A China é, sob todos os padrões razoáveis, uma economia de mercado, mais do que outras economias desenvolvidas que são classificadas como economias de mercado", disse ao PÚBLICO. "Como em todas as economias, há vários tipos de intervenção do Governo que interferem com o funcionamento livre das forças de mercado. Mas a China já não é, em nenhum sentido, uma economia centralmente planeada." Porquê, então, a resistência? "O esforço em não lhe conferir estatuto de mercado tem mais a ver com o proteccionismo americano e europeu do que com a realidade económica".

As autoridades chinesas têm exercido pressões (sobretudo na Europa, que talvez sintam mais permeável) para que a situação se esclareça a seu favor. Para além do reconhecimento internacional, existem razões práticas.

Uma das consequências mais evidentes no reconhecimento do estatuto é o controlo do dumping, a venda de um produto abaixo do seu preço de custo. Será mais difícil provar que uma empresa chinesa está a fazer "dumping" porque os métodos que são usados para um país sem estatuto são à partida mais prejudiciais para as empresas acusadas, uma vez que se baseiam, por exemplo, em termos de comparação com um terceiro país.

Há sete anos consecutivos que a China lidera os casos de "dumping", que rondam os 500. O termo de comparação costuma ser a Índia ou o Japão, e Pequim sai a perder, já que o factor decisivo para os seus baixos preços é o valor do trabalho, que é sempre menor na China. Mas se o país obtiver o estatuto de economia de mercado qualquer investigação anti-dumping terá de usar os preços chineses.

Apesar de a China ser membro da Organização Mundial do Comércio (OMC) desde Dezembro de 2001, aceitou que lhe não fosse concedido o estatuto até 2015, mas cada um dos membros poderá mudar de abordagem, individualmente, se o entender. Foi o que fizeram já cinco países: Nova Zelândia, Singapura, Malásia, Quirguízia e, há menos de um mês, Tailândia. Um país a operar dentro das regras da economia de mercado "cria um comércio mais justo", continua Green. Mas o analista não acredita que a UE se prepare para reconhecer o estatuto: "Vai continuar a usar esta questão como uma cenoura para que a China aplique os critérios da OMC".

Mas, para Bruxelas, um novo estatuto para a China poderá significar também um entrave ao proteccionismo americano: quando uma empresa nos EUA acha que uma sua concorrente chinesa está a fazer dumping apresenta uma queixa ao Departamento do Comércio, que apresenta o caso à Comissão de Comércio Internacional, encarregue de o investigar e concluir se houve danos para a empresa nacional. Se for essa a situação, poderão ser impostas mais taxas à importação. Foi o que aconteceu quando, em meados de Junho, Washington impôs um agravamento dos direitos alfandegários entre 4,9 por cento e 198 por cento aos fabricantes de móveis chineses, segundo a AFP.

Não se espera que os EUA revejam a forma de lidar com Pequim, porque "há vários 'lobbies' a exercer pressão sobre o Congresso", adianta o analista ao PÚBLICO. E num ano de eleições presidenciais uma mudança de rumo seria obviamente ainda mais improvável.

China-Têxteis Portugueses Temem Invasão

Publico, Sábado, 28 de Agosto de 2004

Para falar do medo dos industriais portugueses face aos produtos "made in China", Paulo Nunes de Almeida, presidente da Associação Têxtil e do Vestuário de Portugal (ATP), dá um exemplo americano: em 2001, os chineses faziam entrar nos EUA 12 milhões de pares de meias, a nove dólares a dúzia; em 2003 importaram 264 milhões de pares, a quatro dólares a dúzia.

Como muitos empresários, Nunes de Almeida defende que as quotas impostas aos produtos chineses se devem estender até 2007, em vez de serem levantadas já a 31 de Dezembro, como está previsto pela Organização Mundial do Comércio. "Associações americanas pediram medidas de protecção, as chamadas cláusulas de salvaguarda", explica ao PÚBLICO. "A situação já é má, sem as quotas passará a ser catastrófica".

As quotas de importação de têxteis e de vestuário foram impostas há dez anos "para dar tempo aos produtores de se adaptarem", observou num editorial em 26 de Julho o "Financial Times". "Mas muitos países, ricos ou pobres, não se conseguiram preparar para o fim do sistema e continuaram como se elas fossem durar para sempre".

Em Portugal, os industriais admitem que a entrada da China no mercado pode ameaçar parte dos 200 mil empregos no sector. Na União Europeia, a presença chinesa no sector tem crescido a um ritmo vertiginoso. Em 2003, a China foi o principal fornecedor da UE, com uma quota de 17,5 por cento - mais oito por cento do que em 2002 e mais 156 por cento face a 1995.

O presidente da ATP diz que em Portugal a "ameaça" dos têxteis chineses também não tem parado de crescer. "A têxtil portuguesa é fundamentalmente exportadora" e dificilmente conseguirá vender noutros países a um preço mais baixo do que os chineses. E "no mercado interno, existe também concorrência na venda ao público." É no vestuário "que se sente mais a pressão", explica. "Só os produtos de nicho de mercado é que fogem a esta concorrência. E, mesmo assim, já tendem a ser afectados".

Os industriais portugueses não se queixam apenas dos preços: dizem que estão a travar uma guerra com armas desiguais. "As lojas chinesas operam em economia paralela. Temos pedido investigações, mas eles estão sempre a abrir lojas em sítios diferentes e não conseguimos controlar isso", diz o responsável da ATP.

"Os chineses são intocáveis", insiste Fernanda Santos, secretária-geral da Associação Nacional de Empresas Têxteis. "Vendem sem passar factura, não há controlo de preços, as autoridades têm conhecimento disso e não fazem nada."

A nível global, a China é acusada de desvalorizar a moeda e conceder subsídios estatais para que os seus produtos tenham preços mais baixos. Práticas como estas permitiram uma queda de 75 por cento no preço dos têxteis, acusa a Declaração de Istambul, uma iniciativa das associações têxteis e de vestuário norte-americana, turca e mexicana para promover o adiamento da liberalização do comércio têxtil (e que conta já com 70 associações de 38 países, incluindo Portugal).

Nunes de Almeida não espera que a União Europeia possa ser uma tábua de salvação: "A UE nunca foi confrontada com pedidos de imposição de quotas, com o accionar de cláusulas de salvaguarda, só com processos anti-"dumping", cujo objectivo é impedir a importação, independentemente da quantidade. "O processo [de accionar cláusulas de salvaguarda] é muito longo, depende da conjuntura política e dos interesses dos Estados membros que muitas vezes não são consensuais". A UE importa 30 vezes mais do que exporta para a China. "A Europa não vai estar interessada em tomar acções contra a China", conclui.

"Não queremos medidas proteccionistas. Queremos regras para quem não cumpre regras", declarou em finais de Junho à agência Lusa José Robalo, presidente da Federação da Indústria Têxtil e do Vestuário de Portugal. E deixou um número à medida de todos estes avisos: o impacto da entrada da China na economia mundial e no mercado têxtil pode criar 30 milhões de desempregados em todo o mundo.

Quando olha o futuro, o "Financial Times" tem uma visão menos negra: "no geral, a liberalização vai beneficiar a economia global. Os consumidores ocidentais vão pagar menos pelas roupas, enquanto os fornecedores eficientes no mundo em desenvolvimento ficarão livres para receber as recompensas das suas vantagens competitivas, gerando prosperidade. Ganhos e perdas serão equitativamente partilhados"

Aborto, Barcos e 'Agit-prop'

Por ZITA SEABRA
Publico, Domingo, 29 de Agosto de 2004

ma interrupção voluntária da gravidez, um aborto, é uma das situações mais dramáticas e solitárias pela qual uma mulher pode passar na sua vida.

A decisão de interromper o ciclo normal da vida e da gestação não deixa nunca de constituir um drama indimensionável, um momento de tal desespero e um desespero de tal dimensão capazes de fazer com que alguém não suporte uma gravidez e decida interrompê-la, seja em que condições for.

Perante este drama secular, os países democráticos, assentes num Estado de direito, procuraram aprovar legislação que dissuadisse e evitasse que, mesmo naquelas situações limite, esse caminho seja trilhado. Sobretudo que nestes casos extremos, com que a vida por vezes desafia as pessoas, o trilho não conduza ao vão de escada e à entrega nos meandros de um negócio que tem tanto de sórdido como de velho. O quadro legislativo pretendido pelos estados democráticos procurou apenas interferir no enquadrando legal de uma grave questão e não no terreno da ética e dos valores. A demonstrá-lo está o facto de apenas se terem demarcado as fronteiras, sem chegar nunca a legalizar e banalizar o aborto como um direito. Em todas as legislações que conheço os médicos, por exemplo, têm consagrado o direito à objecção de consciência, coisa que seria absurda se realmente se tratasse de garantir um direito cívico a cidadãs.

Não conheço igualmente nenhum país em que se tenha decidido pura e simplesmente - sem estipular condições - despenalizar o aborto. O que corresponderia em Portugal a retirá-lo por completo do enquadramento jurídico do Código Penal, em lugar de abrir excepções legais nas quais se preveja que a mulher não sofrerá penas de prisão.

Por tudo isto, é profundamente chocante ver este drama, este último recurso, transformado numa bandeira de luta, ou remetido banalmente para direito cívico, para já não falar num execrável acto de agitação e propaganda. Semelhante atitude é, além do mais, demonstrativa de um profundo desrespeito pela condição feminina, e por todas as mulheres e homens que fazem da maternidade e da paternidade um acto livre, responsável e muito, muito desejado. É um desrespeito por todas aquelas mulheres que, apesar das condições, das agruras da vida e das brutalidades que por vezes acontecem, decidem deixar, contra tudo e contra todos, prosseguir a gravidez que não desejaram, mas que lhes aconteceu.

É pois, uma evidência, que o aborto não pode, nem deve, numa sociedade desenvolvida e democrática, ser considerado um direito e ainda menos uma forma de contracepção. Conheço apenas dois países onde este cenário existiu ou existe ainda: a União Soviética, onde o aborto era a única forma de planeamento familiar legal e a China, onde era obrigatório para todas as mulheres e casais que já tivessem um filho. Como escrevi, em 1989, uma das principais reivindicações das mulheres na URSS e nos restantes países socialistas, durante a Perestroika, foi justamente o acesso a métodos de planeamento familiar que acabassem com a brutalidade dos abortos sucessivos. Tive mesmo oportunidade de visitar uma clínica, acompanhada pelo jornalista José Milhazes onde vi o que nunca imaginei poder ver. Felizmente hoje tal já não acontece, existem contraceptivos (de toda a espécie) à venda por todos esses países ex-socialistas.

Na URSS, a inexistência de contraceptivos chegou a gerar situações tão dramáticas que o PCP enviava clandestinamente embalagens de contraceptivos para as suas funcionárias que trabalhavam nos "países do socialismo real". Na China a situação era ainda pior (melhorou muito pouco infelizmente) pois as mulheres eram e são, forçadas pelo Estado a abortar. Para evitar explosões demográficas, o regime comunista desde o tempo de Mao Tse-Tung definiu que, por lei, cada casal podia ter apenas um filho. Se engravidarem segunda vez o Estado obriga-as a praticarem um aborto. Os testemunhos mais dramáticos que li na minha vida foram - agora que podem falar um bocadinho - os de mulheres chinesas relatando a forma como escondem gravidezes, como escondem filhos, de que a lei as obriga a abdicar da forma mais brutal e aviltante que imaginar se possa.

Digam o que disserem os promotores de campanhas de 'agit-prop', para uma mulher, uma interrupção voluntária da gravidez é e será sempre um último recurso, um acto de desespero, uma situação limite, um drama que lhe marca a vida e a inunda de sentimentos de culpa.

A questão do aborto colocou-se, pois, aos países democráticos não como a emergência de um direito mas como uma necessidade premente de procurar impedir que, perante a determinação de uma mulher em interromper uma gravidez que não deseja, não coloque em perigo - dentro de determinadas condições, que não variam muito nas soluções legislativas - a sua saúde e a sua vida e não mergulhe nos antros sórdidos do escabroso negócio do aborto clandestino.

É, porém, evidente que a obrigação do Estado é, antes do mais, garantir condições legais e sociais para que a maternidade e a paternidade não se transformem no pesadelo de como alimentar mais uma boca, ou como deitar mais um filho.

Por outro lado, só com uma enorme cegueira social se pode ver o Portugal de hoje como idêntico à realidade dos anos 1960 ou dos anos 1980, no que respeita ao planeamento familiar. Ouve-se frequentemente falar do aborto num discurso que remonta há 30 ou 40 anos. Porém, os progressos foram imensos e o acesso aos métodos de planeamento familiar não têm qualquer espécie de paralelo.

Nos anos 1980 ir a uma consulta médica de cuidados primários de saúde constituía a excepção e apenas uma elite restrita o fazia. Hoje, felizmente, não é assim. Há ainda franjas de desinformação, idades de risco, e uma grande demissão dos pais na formação dos filhos, mas é tempo de admitir que a imensa maiorias das mulheres portuguesas, operárias ou meninas empregadas dos cabeleireiros, conhecem e sabem muito bem usar o método contraceptivo que consideram adequado e na maioria dos casos sob vigilância médica.

A política de um Estado democrático deve ter como objectivo impedir que alguém recorra ao aborto por absoluto desconhecimento de alternativas, por desinformação, ou por uma tradição rural radicada nos desmanchos que as avós faziam.

Eis, porém, que alguns, na ausência de bandeiras de luta, de reivindicações mobilizadoras tiram da cartola o aborto como se tratasse de um pilar demarcador entre direita e esquerda, gerando dois tipos de reacção.

Alguma direita reage com tanto medo de voltar a parecer reaccionária, marreta, de costas para a História, com declarações mais progressistas que os progressistas e apressa a pôr-se "à la page", não vá o diabo tecê-las outra vez. Gato escaldado... Olhando para o século XX, é fácil perceber, e muitos têm-no escrito, que a direita teve uma importante vitória ideológica ao ver consagrada consensualmente a economia de mercado como a melhor forma de organização das sociedades para garantir a democracia e o bem-estar social e com essa vitória enterrou as ideologias de esquerda que se lhe opunham, nomeadamente o comunismo e mesmo o socialismo democrático, assente na planificação e estatização dos principais meios de produção mas, pelo outro lado, a esquerda vencia a direita em matéria de concepção de modelos de organização social (divórcio, planeamento familiar, divisão dos papéis tradicionais do homem e da mulher, etc) hoje inquestionáveis, não só no terreno pessoal de cada cidadão mas na realidade constitucional e jurídica dos estados democráticos.

Alguma esquerda, na falta de melhores bandeiras (proletariado já quase não há e a realidade laboral nas empresas ou na agricultura é radicalmente diferente da anterior) serve-se do aborto como de uma importante trincheira que resiste. Assistimos ciclicamente a lutas internas, a declarações e promessas de candidatos a secretários-gerais, de dirigentes partidários falando do aborto como se fosse a principal questão para avaliar da fidelidade à esquerda de um dirigente. E aqui está o aborto transformado em potencial direito cívico. Ou até em manobra de diversão como é o caso da vinda do barco holandês. Passa pela cabeça de alguém imaginar que alguma mulher, mais ou menos jovem, com mais ou menos dificuldades económicas, se dirige a um barco que é exibido de forma ostensiva e degradante nas televisões e lá entra para fazer um aborto em alto mar? Evidentemente que não.

Tanto mais que Portugal tem desde 1985 uma lei aprovada que foi, podemos dizê-lo sem medo, referendada há três anos pelos portugueses. Convém recordar que nesse momento se disse sim à legislação existente e não à sua alteração. Em referendo livre e democrático.

Não se pode deixar de questionar: porque vem um barco para Portugal e não para a Argélia, ou para a Arábia Saudita? Ou para vastas zonas do globo onde as mulheres são casadas à força com quem nunca viram, como acontece ainda em muitos países islâmicos? Porque não navegam até ao Irão onde bater na mulher é um direito do seu dono? Uma coisa é certa, encheriam o barco! Mas falta-lhes a coragem... Não se resiste a perguntar ainda que razão as impede de salvar mulheres africanas, condenadas à morte por apedrejamento, acusadas de adultério, e aí sim fazem o que já Cristo fez há 2 mil anos? Houve no entanto quem fizesse uma campanha solidária que salvou a vida de Amina, grávida e condenada por um tribunal a ser apedrejada até morrer.

O drama da interrupção voluntária da gravidez merece ser tratado com mais respeito e com mais seriedade.

O Roubo da Arte

Por AUGUSTO M. SEABRA
Publico, Domingo, 29 de Agosto de 2004

Os profetas da desgraça vem constantemente descrever-nos um estado de decrepitude intelectual, e nas páginas do PÙBLICO sucedem-se as jeremíadas. Contudo há tendências contraditórias. Com uma "mass/ificação" de patamares mínimos coexiste também um "desejo de cultura" que, por uma via mediatizada que seja, não deixa de ser sintomática, de um "desejo" que seja. Malraux introduziu-nos o conceito de "museu imaginário"; o leitor do PÚBLICO que eventualmente vá coleccionando os volumes da Taschen não buscará também a possibilidade de constituição de um "museu imaginário"?

Não denegando o que nessas modalidades de aquisição mediático-cultural exista de sinais tão ostensivos quanto superficiais, a reprodução das obras de arte não deixa de também se prender com conceitos como os de "colecção" e "museu". E à perda da "aura" da obra de arte, do seu estatuto único num "aqui e agora", que Walter Benjamim fazia decorrer da reprodução técnica, não deixou de corresponder um outro tipo de "aura", ou antes nomeada, em que aos mecanismos tradicionais de apreciação de uma obra se sucedem as múltiplas reproduções e outras incidências mediáticas. Por exemplo, de "O Grito" de Munch.

Poucos quadros, mesmo muito poucos, são mais reconhecíveis, e por isso de muito poucos o roubo teria um tal eco, mesmo sabendo-se que o objecto do furto foi uma das quatro versões da obra; como escreveu o autor da notícia no "New York Times", "se algum quadro pudesse expressar a sua opinião sobre o facto de ser roubado no preciso momento em que o está a ser, esse quadro é certamente 'O Grito'".

A noção de que se trata de uma obra inegociável mesmo no mercado ilícito torna o caso ainda mais problemático e eventualmente inquietante. Num paradoxo semântico, será a possibilidade de os assaltantes serem "amadores", e afinal não "amarem", não terem "o amor da arte", que agudiza as inquietações; dando-se conta da impossibilidade de obterem benefícios danificarão ou destruição a pintura?

Será próprio do estatuto do objecto roubado que o desaparecimento de obras reconhecivelmente do cânone artístico engendre um "mistério". Poderíamos supor um Thomas Crown, como no espantoso filme de John McTiernan, engendrar o "desvio" para a sua colecção privada. Efabulamos mesmo, segundo nos esclarecem os especialistas. Uma outra versão de "O Grito" já tendo sido roubada em 1994, esse é o ponto de partida de um livro de próxima publicação, "The Rescue Artist: A True Story of Art, Thieves and the Hunt for a Missing Masterpiece". O seu autor, Edward Dolnick, traçava um panorama no "NYT" de terça-feira: "No alinhamento dos grandes museus do mundo, o dos quadros desaparecidos seria um dos primeiros. Este museu imaginário [pois!], cuja colecção consistiria apenas de pinturas e quadros roubados, seria tão vasto como o Louvre. Os seus tesouros incluiriam 541 Picassos, 174 Rembrandts e 209 Renoirs. Haveria três de Vermeer, e de Caravaggio, e de Van Eyck, e de Cézanne"! Mas não estarão alguns em mãos mesmo "amadoras", de "amor da arte"?

Colecções, museus, "amor da arte" - como estes três termos se conjugam! Houve um itinerário histórico, como o que Krystof Pomian traçou em "Collectionneurs, amateurs et curieux - Paris, Venise, XVIe-XVIIIe siècle". Colecções reais, patrícias, mas também académicas; "museu - estúdio, ou biblioteca, também um colégio um lugar público para a frequência de cavalheiros educados" ("New World of Words" - 1706), adquiriu o seu sentido presente depois da abertura do Ashmoleum Museum de Oxford, em 1683. Mas enquanto instituição democrática porque aberta, o entendimento remonta à abertura do British Museum, em 1753, e do Louvre, em 1793, especialmente emblemática esta porque, na tormenta revolucionária, visou tornar bem público as anteriores colecções reais e aristocráticas.

Talvez que quase quarenta passados, com todo o vendaval suscitado pelas indústrias culturais, o estatuto dos museus como local primordial de cultura já não seja o mesmo que Pierre Bourdieu e Alain Darbel analisaram em "L'Amour de l'art: les musées d'art européens et leur public"; e no entanto, lembremo-nos, mais prosaicamente, como são ainda referências do "turismo cultural", "locais de visita", quiçá "visitação" ou "peregrinação", para supormos que, ainda assim...

O estatuto impele-nos à reverência - ali, nos museus, estão meticulosamente preservados bens para o mais alto usufruto "espiritual" da humanidade. Que esses bens hoje em dia sejam meticulosamente preservados, e quantas vezes a níveis de dedicação excepcionais, é uma ordem das coisas; como foram obtidos, é de outra ordem, e história por vezes bem mais tortuosa. Quantas vezes já teremos contemplado em museus obras que foram usurpadas, roubadas?

Receio bem que a estratégia oficial da Grécia tenha redundado num monumental fracasso. Explico: é a Casa da Música lá do sítio. Para coincidir com os Jogos Olímpicos, foi decidida a edificação do novo Museu da Acrópole, no sopé da dita. O projecto já arrancou tarde, em 2001, para poder estar concretizado nesta altura, e ainda foi objecto de disputas judiciais e políticas. A razão de ser - e donde para já o fracasso - era ampliar nesta altura dos Jogos a pressão internacional para que a Grã-Bretanha restitua o Friso do Parthénon, que Lord Elgin adquiriu aos turcos em 1806 e que está no British. È o caso emblemático.

Longe nos levará a consideração de quanto do património museológico europeu é fruto dos saques coloniais, e de outros. Só a restituição de bens confiscados aos judeus pelo nazismos ou dos desviados pelos soviéticos tem conhecido mais regular provimento. As feridas coloniais são bem mais difíceis de sarar, sendo também que uma restituição não deixa de poder ser nalguns casos falaciosa, pois que o quadro cultural, antropológico, societal, a que obras foram arrancadas, também já não existe. Mas o Friso do Parthénon?!

O que não deixará também de ser sintomático é a facilidade com que o argumento da usurpação e até do "colonialismo" surge nos debates; agora o crítico Werner Spries lançou no "Frankfurter Allgemeine Zeitung" um feroz ataque à exposição "MoMa in Berlin", acusando o museu nova-iorquino de querer minimizar a influência de artistas europeus na pintura americana. "Colonialismo", mesmo?

O inquietante é que os ladrões do "Grito" nem sejam "amadores de arte". Porque a usurpação, e quantas vezes o roubo, reconheçamo-lo, é também parte da história do "amor da arte".

China-Os Receios Económicos e Militares dos EUA

Público, Domingo, 29 de Agosto de 2004

Combater a hegemonia americana é um dos objectivos declarados de Pequim, reafirmado com o "acordo de parceria" que assinou, em Outubro, com a Associação dos Países do Sudeste Asiático (ASEAN). E a verdade é que será cada vez mais difícil para Washington ignorar que a China é uma potência regional em ascensão. O país não está apenas a tornar-se num gigante económico.

"O aumento do poder económico chinês está a permitir à China modernizar o seu Exército, e assim criar uma defesa nacional mais forte", disse ao PÚBLICO Lawrence Reardon, coordenador dos Estudos Asiáticos da Universidade de New Hempshire. "Isto vai complicar as questões ligadas a Taiwan, que está cada vez mais a tomar posições políticas mais independentes".

Nesse caso, a Administração norte-americana ficaria em mãos com um problema difícil de resolver. "Ao mesmo tempo que os EUA não apoiam a política 'duas Chinas' [ou seja, a independência da antiga Formosa], também não quer que nenhum dos lados use meios militares para resolver a questão da reunificação", continua Reardon. Um relatório do Pentágono publicado em Maio afirma que a concentração militar chinesa na preparação de um conflito com Taiwan "lança uma sombra" na política declarada de procurar uma reunificação pacífica com a ilha, considerada uma província rebelde desde que foi ocupada pelos nacionalistas.

A expressão "ascensão pacífica", usada por Pequim para caracterizar a sua posição geopolítica, pode ser lida como uma ameaça encapuçada, observou à "Economist" William Callahan, da Durham University, na Grã-Bretanha. Ou seja, se o mundo não reconhecer este novo estatuto, assistirá ao ressurgimento do nacionalismo chinês.

E talvez isso aconteça mais cedo do que se pensa. James Kelly, o vice-secretário de estado americano encarregue da região, disse no mês passado que em algumas áreas a China está a ameaçar o "status quo" "agressivamente". Mas, por enquanto, sem ser de uma forma directa. Tenta evitar qualquer confronto com os EUA, apesar das divergências sobre Taiwan e os direitos humanos - pois sabe que isso não seria benéfico do ponto de vista económico.

Apelo a uma guerra comercial

No relatório anual apresentado ao Congresso norte-americano a 15 de Junho, o líder da comissão para a revisão das relações económicas China-EUA, Roger Robinson, descreveu a situação desta forma: "Vários aspectos das relações entre a China e os Estados Unidos têm implicações negativas para os nossos interesses económicos e de segurança nacional a longo prazo. Por isso, as políticas americanas nestas áreas precisam de atenção urgente e algumas correcções".

O relatório conclui que o défice no comércio americano com a China é preocupante porque contribuiu para a diminuição de postos de trabalho; a indústria é fundamental para a segurança económica e nacional; o défice teve impactos negativos também noutros sectores. "Em resposta, a comissão praticamente apelou a uma guerra de comércio com a China", escreve o "Asia Times".

Há quem considere que Washington deve refrear os seus anseios. "Se a China estivesse a ir de crise para crise, seria muitíssimo mais preocupante para os EUA, porque isso significaria que uma nação nuclear estava instável. O crescimento chinês é basicamente positivo para os EUA", comentou ao PÚBLICO Dwight Perkins, do departamento de Economia da Universidade de Harvard. "Algumas indústrias e sindicatos protestam com a competição da China, mas a maior parte destas indústrias abandonaram os EUA há muito tempo. A China está a competir com outros países asiáticos (em electrónica, sapatos, vestuário), e não com os EUA".

"Politicamente, os Estados Unidos estão a aperceber-se, lentamente, que a China pós-OMC se está a tornar num grande jogador mundial", diz por seu lado Lawrence Reardon, coordenador dos Estudos Asiáticos da Universidade de New Hempshire. "Está a aperceber-se que para coordenar os assuntos económicos mundiais deve olhar cada vez mais para os chineses. É por isso que estão a debater a entrada da China no G8 [o grupo dos países mais industrializados]", afirmou ao PÚBLICO. "A China também não tem medo de usar a sua posição na OMC apara atacar o comércio americano e as barreiras económicas, e recentemente juntar-se a outros países em desenvolvimento para bloquear a ronda de Doha. Ou seja, os EUA percebem que têm de cooperar com este novo gigante económico emergente".

China-Um Mercado Aberto e Uma Democracia Fechada

Por FRANCISCA GORJÃO HENRIQUE
Domingo, 29 de Agosto de 2004

Aabertura económica conduz à abertura política? Olhando para a China dos últimos 50 anos será possível dizer que talvez ajude. Mas os grupos de direitos humanos continuam a alertar para violações graves.

O relatório anual de 2003 da Amnistia Internacional referia que se está a verificar um aumento das desigualdades económicas como consequência da liberalização do mercado. E escreve: "Muitos governos, incluindo o da China, Laos e Vietname, não fizeram coincidir o seu aparente apoio pelo aumento da liberdade económica com o compromisso de aumentar a liberdade política, e continuam a exercer o poder político de uma forma absoluta".

A orientação económica andou muitas vezes ligada aos desastres humanos provocados por Mao Zedong. Em 1949, vitorioso da guerra contra os nacionalistas, Mao deu início a uma dura investida contra os proprietários agrícolas. Entre um e dois milhões de latifundiários perderam a vida. O pico da chacina causada pelas suas políticas estava ainda para vir: entre 1958 e 1961 o "Grande Timoneiro" tentou compensar o falhanço da colectivização - chamada pelo académico americano John King Fairbank de "forma moderna de escravidão" - com um aumento da produção. O chamado Grande Passo em Frente envolveu uma mobilização maciça dos trabalhadores rurais para a construção de diques, sistemas de irrigação e outras infra-estruturas. Havia menos pessoas a trabalhar nos campos e mais consumidores nas cidades. O resultado foi uma fome generalizada que matou, segundo as estimativas, entre 30 e 40 milhões de chineses.

Mesmo assim, em 1978, quando Deng Xiaoping assumiu a liderança, dois anos depois da morte de Mao, a economia da China já tinha crescido mais nos últimos 25 anos do que em todo o século anterior. A justificação estava numa relativa paz, lei e ordem pouco habituais para o país (e de acordo com padrões chineses), juntamente com alguma tecnologia soviética e organização estalinista. Mas não bastava. A China estava cada vez mais pobre e fraca comparativamente ao resto do mundo e a lutar para diminuir a sua população, sempre em crescimento.

O capitalismo foi a solução encontrada por Deng. Introduziu preços de mercado para os agricultores, que à medida que iam enriquecendo puderam começar a comprar bens de consumo, estabeleceu alguns direitos de propriedade (pela primeira vez de 1949), permitiu que cidades e aldeias tivessem indústria leve, abriu a China ao comércio e investimento estrangeiro para poder importar tecnologia. Era o "socialismo de características chinesas" em que "enriquecer é glorioso".

Nos 20 anos que se seguiram, o país cresceu a uma média anual de 9,7 por cento. Cerca de 20 por cento da população (200 milhões de pessoas) saíram do limiar da pobreza. Centenas de milhões podem agora escolher onde gastar o seu dinheiro.

A abertura económica trouxe à China alguma abertura política: "Quando comparamos o princípio dos anos 80 com o início dos anos 2000, vemos uma mudança drástica no estilo de liderança entre as elites", diz ao PÚBLICO Lawrence Reardon, coordenador dos Estudos Asiáticos da Universidade de New Hempshire (EUA). "Deng Xiaoping foi uma figura de transição, talvez não tão autocrático como Mao Zedong, mas foi um líder que determinou a direcção geral da política."

A actual liderança de Hu Jintao, da chamada quarta geração, não tem a mesma relação com o poder, que está agora mais descentralizado. "Precisa, por isso, de reunir consensos e estar disposta a admitir os seus erros, como aconteceu no ano passado com a pneumonia atípica", continua. "Esta mudança foi em parte introduzida pela descentralização do poder económico que começou nos anos 80. E também foi influenciada pela adopção de um sistema legal parcialmente imposto pela adesão da China à OMC [Organização Mundial do Comércio]".

As repercussões sentem-se a vários níveis. "Nas áreas rurais e urbanas, os líderes têm de responder cada vez mais a grupos locais de representantes. A nível local, em algumas aldeias, já foram mesmo realizadas eleições directas. Tem sido dito que esta é uma forma de o Partido Comunista afastar as críticas", diz ainda Reardon. "Estas mudanças eram apenas um sonho há duas décadas quando o antigo líder do PCC, Hu Yaobang, começou a discutir uma maior democratização do controlo".

Outro dos sinais de mudança surgiu no último Congresso partidário, com a despedida da presidência de Jiang Zemin, ao incluir-se a classe empresarial no tecido social chinês.

"O sistema político que está a emergir talvez não seja o exuberante sistema democrático, com liberdades para todos, que existe na Coreia do Sul, ou em Taiwan", acrescenta o analista. "Mas será semelhante ao sistema 'democrático' autocrático de Singapura. Isto é, por si, uma mudança significativa".

China-Crescimento Galopante Ou Suicídio Ecológico?

Por FRANCISCA GORJÃO HENRIQUES
Publico, Domingo, 29 de Agosto de 2004

É um dos desafios mais urgentes que o Governo de Pequim tem pela frente: conciliar o seu incrível crescimento económico com a preservação do ambiente: nove das dez cidades mais poluídas do mundo são chinesas.

De acordo com o Banco Mundial, a poluição do ar custa ao país 25 mil milhões de dólares por ano em gastos com a saúde e perda de produtividade.

Vinte e cinco milhões de trabalhadores chineses contactam regularmente com poeiras tóxicas e substâncias perigosas potencialmente mortais, escreve a "National Geographic" de Maio. As cidades com pior qualidade do ar situam-se sobretudo no Norte, onde as poeiras sopradas pelo vento se combinam com os poluentes industriais.

O país continua a depender em 75 por cento do carvão como fonte de energia, libertando cerca de 17 milhões de toneladas de dióxido de enxofre por ano e contribuindo de maneira decisiva para as chuvas ácidas. Apenas um terço das 340 cidades sob controlo ambiental respira ar que cumpre os níveis de qualidade chineses, já de si abaixo das normas da Organização Mundial de Saúde. No interior das casas, acrescenta ainda a "National Geographic", "a poluição ambiente provocada pela combustão de carvão ceifa mais de 700 mil vidas por ano e as doenças respiratórias causam quase um quarto de todas as mortes ocorridas no campo".

Se o ritmo de crescimento se mantiver, dentro de três décadas a China poderá ultrapassar os EUA como maior emissor mundial de gases com efeito de estufa associados ao aquecimento global.

Nos últimos 20 anos, 200 milhões de chineses abandonaram os campos em direcção às cidades, onde a média de rendimentos é três vezes superior. A disparidade está a dar azo à maior migração humana da história: em 2010, quase metade da população chinesa vai estar a viver nos centros urbanos. Nada disto contribui para deter o "boom" da construção que está também a pôr em risco a vida selvagem - mais de metade do cimento produzido no ano passado teve a China como destino.

Para além disso, um relatório do Banco Mundial adianta que a China tem um dos piores níveis mundiais de erosão do solo, cuja causa remonta às políticas agrícolas de Mao Zedong e que foi agravada por anos de seca. O deserto cobre cerca de 25 por cento do país, como resultado da desflorestação e degradação da terra, e de ano para ano vai conquistando centenas de milhar de quilómetros quadrados ao solo arável.

O sector agrícola chinês gasta seis vezes mais água do que o americano. Mas este é um bem escasso. Mais de 75 por cento dos rios chineses são tão poluídos que não conseguem ter peixes, nem ser aproveitados para água potável. E em dois terços das principais cidades existe grave escassez de água limpa e cerca de 700 milhões de pessoas bebem água poluída com resíduos humanos e animais, adianta a "National Geographic". "Para tratar a curto prazo algumas das suas dores de crescimento, o país recorre a novas estações de saneamento básico, ou condutas de gás natural para reduzir a dependência face ao carvão. (...) Mas devido às enormes necessidades existentes, como é o caso da água, a tendência parece continuar a encaminhar-se no sentido de gigantescos projectos de engenharia, como o canal adutor actualmente em construção que desviará parte das águas do Yangtze até mais de 1500 quilómetros para norte, para Pequim e Tianjin. As repercussões ambientais deste ambicioso projecto são ainda impossíveis de conhecer".

Cada vez mais, os chineses começam a abandonar formas de deslocação ecológicas, como a bicicleta. Só em Pequim, há mais mil carros a circular a cada dia que passa, adianta a BBC. O carro tornou-se num símbolo de estatuto social.

No ano passado, os chineses utilizaram mais 1,8 milhões de viaturas nas suas estradas, elevando o parque automóvel para mais de dez milhões de veículos. "À taxa de crescimento actual [75 por cento num ano], este número poderá duplicar em cada três ou quatro anos", escrevia a "National Geographic". "Se a propriedade de automóveis alguma vez se aproximasse dos níveis dos EUA, haveria cerca de 600 milhões de viaturas nas estradas da China, mais do que o total de veículos hoje existente no planeta".

Começou a ser necessário melhorar as estradas. Existem actualmente mais de 15 mil projectos de construção de auto-estradas em marcha, o que se traduz em 162 mil quilómetros de estrada no país: o suficiente para dar a volta ao mundo quatro vezes, avançava o "The New York Times" de 4 de Julho.

Nos últimos 20 anos, Pequim tem vindo a tomar alguma consciência dos problemas ecológicos. Criaram-se instituições, aplicaram-se leis e desenvolveram-se programas. No fim dos anos 80 foi criada a Agência Nacional de Protecção Ambiental, em 80 foi aprovada legislação para tentar controlar os danos da poluição industrial. E o regime também permitiu o aparecimento de organizações não governamentais (ONG) que tomaram para si os combates ecológicos. Em 1993, apareceu a primeira ONG ligada à questão ambiental; doze anos depois, existem cerca de 230 mil organizações do género.

A Graça das Colunistas

Por HELENA MATOS
Publico, Sábado, 28 de Agosto de 2004

Ando há anos para fazer uma crónica sobre a princesa Diana. Esta minha intenção arreigou-se no dia em que fui arrancada da cama e das férias por um telefonema que me avisava: "A princesa Diana morreu." Vivia-se naquele Verão o empolgante romance entre Diana e Dodi sendo para mim causa de enorme assombro que o mesmo estatuto de história de amor não fosse concedido a Carlos a Camila.

A resposta parece-me hoje óbvia: Diana comportava-se como se espera que as mulheres se comportem e Camila não. Diana aparentava um ar frágil, era bonita, quando entrevistada dizia muitas vezes que "sim" com a cabeça... características que em muito a distinguiam do ar arrogante de Camila. São exactamente essas características da defunta princesa de Gales que encontrei referidas como as mais apreciadas pelos directores de recursos humanos na hora de contratarem mulheres. De acordo com um estudo do British Psychological Society, as raparigas que tiverem uma atitude modesta, que evidenciem alguma timidez, olhando para o chão, têm muito mais possibilidades de serem contratadas do que aquelas que olham os entrevistadores de frente e demonstram confiança nas suas respostas.

Lembrei-me novamente de Diana e Camila ao ler este estudo. E lembrei-me mais uma vez delas ao ser confrontada com a polémica agora instalada no "Diário de Notícias" a propósito dum texto de opinião da jornalista Fernanda Câncio. Este texto deveria ter sido publicado nas páginas que o director daquele diário definiu como "páginas 'light', adequadas a esta época do ano". Não deixa de ser curioso que estando os jornais cheios de homens enfadonhos, que escrevem textos ainda mais enfadonhos do que eles, se venha pedir às mulheres que façam de "majorettes", animando os leitores q.b. para enfrentarem as sisudas colunas assinadas pelos doutos senhores. De alguma forma, a cruz das mulheres nos jornais é que, tal como aconteceu com a Virgem Maria, continuam a dizer-lhes: "Bendita sejas tu cheia de graça." Por isso, quando as mulheres mandam a graça às malvas, os homens não se zangam, amuam. Sentem-se desiludidos por aquelas que eles escolheram não estarem à altura daquilo que eles sonharam para elas. Assim, à Fernanda Câncio e a tantas outras mulheres que deviam ter páginas de opinião e não têm, recomendo vivamente um conjunto de regras para serem colunistas cheias de graça.

O primeiro item passa por arranjar uma mulher-a-dias. A mulher-a-dias desempenha um papel nas crónicas das mulheres que só tem equivalente no coro das tragédias gregas. A figura da mulher-a-dias permite até distinguir as colunistas mais à direita daquelas mais à esquerda: à direita, as empregadas são, em geral, velhíssimas, já um pouco alquebradas das costas, e estão ao serviço da família desde a festa de pedido das mães das ditas colunistas. Acresce que estas empregadas não fazem nada, mas produzem aforismos como se tivessem saído de um romance de Agustina. Mais à esquerda, temos umas mulheraças que, duas a três vezes por semana, enquanto arredam um móvel ou dão um jeito na cozinha, se põem a jeito para criar o inevitável cómico de situação: "Ó dona Céu o que aconteceu àquelas fotografias que aqui estavam?", pergunta a colunista já a entrar em pânico. Indiferente, a dita mulher a dias responde das profundezas do reino do Sonasol Verde: "O quê? Está a falar daquelas fotografias em que a 'sôdoutora' estava com aquele albornoz que não se dava passado, ao lado daquele homem que, Deus me livre, parece ainda mais parvo que o meu Augusto?! Ora foram para o lixo que quem visse aquilo até havia de dizer que cá em casa não há ferro." Este diálogo serve de introdução mais que óbvia a considerandos sobre aquele casaco japonês, aquele "luxo burguês" por que a autora perdera a cabeça e vestira naquele dia em que, após três horas de conversa, se deixara fotografar naquele velho bar da Irlanda, ao lado daquele escritor de fama mundial que a autora trata tu cá tu lá, mas que a dona Céu, imagine-se!, desconhece quem seja.

Em segundo lugar há que arranjar um homem. Marido, namorado... qualquer coisa. Na verdade, não interessa nada o que ele faz. Só interessa o que ele não faz. É a cozinha que fica à beira do caos na noite em que ele resolveu fazer o jantar, as crianças vestidas de palhaço na manhã em que ele as arranjou sozinho para irem para a escola... Esta desastrada figura masculina, inoperante no mundo e presume-se que funcional na cama e no comando da televisão, é em alguns casos devidamente complementada com o seu simétrico, ou seja aquele fantástico amigo que tem a casa sempre um espanto, que sabe analisar as subtis diferenças entre um "soutien" Dim e um La Perla... enfim, aquele amigo "gay". Caso a Fernanda Câncio tivesse descrito a sua ida a uma sapataria primeiro com um homem do tipo A e depois do tipo B estava a rainha de Verão das colunistas, em vez de andar com textos para cá e para lá no conselho de redacção.

Umas crianças também dão muito jeito neste universo. Não só compõem a coisa, como permitem que das suas boquinhas saiam verdades óbvias, tão óbvias quanto as das mulheres-a-dias, só que mais poéticas. Acresce que, quando pequenas, as crianças propiciam sempre aqueles relatos de chuchas a saírem das malas, em vez da agenda numa reunião importantíssima, para já não falar das descrições sobre as saídas apocalípticas de casas todas as manhãs - a propósito quem terá sido a casta alma que concebeu o anúncio de umas alegadas salsichas afrodisíacas? Teremos de convir que, com tantas crianças e com tal dieta, não me parece que haja libido que sobreviva. Ademais sendo as salsichas um alimento tão em conta, não se percebe por que não lhes sobra dinheiro para a pílula. Mas esta é uma questão que deixo para ser resolvida pela drª Liv Ulva, também ela personagem de Verão deste jornal e que, coitada, tem dias!

Outra possibilidade para as mulheres candidatas a colunistas é optarem pela linha sonsa-espiritual. À força de tanto pregarem a harmonia entre o casal; o casal e os filhos; o casal, os filhos, os avós e os vizinhos (inclusive os do 9º andar que não pagam condomínio porque dizem não usar elevador já que se teletransportam pela força da mente)... elas mesmas ganham uma espécie de aura. E não há nada mais embaraçoso para um homem que enfrentar uma mulher destas. Mesmo os mais ímpios parecem umas crianças com medo das bruxas só de pensarem na possibilidade de as criaturas lhes começarem a dizer que eles têm o "ying" e o "yang" desarranjados; que rejeitam as maravilhas clarividentes que elas escrevem simplesmente porque trabalham em escritórios cheios de energias contraditórias e que aquilo que eles estão a precisar é de reencontrar-se.

Fernanda, para a próxima que te derem uma coluna pensa nos meus conselhos e se alguma coisa eles não tiverem previsto pergunta-te o que teria feito a princesa Diana em tais circunstâncias. E, entretanto, não te esqueças, aparenta um ar frágil, diz muitas vezes que "sim" com a cabeça e quando tirares os olhos do chão que seja para falares das emoções.

China - O País em que se tornou

Por FRANCISCA GORJÃO HENRIQUES
Público, Sábado, 28 de Agosto de 2004

A FÁBRICA DO MUNDO

s analistas gostam de recorrer a metáforas para descrever o comportamento da economia chinesa - e a verdade é que elas não lhes faltam: balístico, sísmico, meteórico... Não é para menos, tendo em conta que no ano passado o crescimento se cifrou em 9,1 por cento (e o número foi de 9,8 no primeiro trimestre deste ano). Tornou-se imperativo travar este "boom" e todos esperam agora que o Governo de Pequim tenha meios para amortecer a queda (a começar pelas próprias autoridades chinesas). Os dados estatísticos deixam assustados os Estados Unidos, ao ponto de uma comissão do Congresso ter praticamente apelado à guerra comercial com a China.

Há sinais de que as medidas de desaceleração tomadas pelo Governo - como restrições aos empréstimos bancários e aos investimentos em fábricas - estão a surtir efeito. A produção industrial em Maio subiu 17,5 por cento, abaixo dos 19,1 por cento de Abril. E o investimento em infra-estruturas - como estradas, fábricas de aço, ou pontes, que estão a tornar a China no maior estaleiro do mundo - aumentou 18,3 em Maio, quando no mês anterior rondava os 35 por cento. O aumento do investimento causou faltas de energia, saturou a rede de transportes, fez crescer a inflação - em Maio, os bens de consumo subiram 4,4 por cento em relação ao ano anterior.

A 21 de Junho, o primeiro-ministro, Wen Jiabao, assegurou que a economia conseguirá uma "aterragem branda" sem causar danos aos vizinhos asiáticos. A meta é que o número final de 2004 seja de sete por cento, um ritmo mais sustentável. O Fundo Monetário Internacional desconfia e ainda esta semana alertou que "uma aterragem branda ainda não está garantida".

Porque é que o país se tornou tão perigosamente competitivo? Principalmente porque consegue produzir a custos baixíssimos, tem altos índices de produtividade e concede um acesso fácil ao financiamento. Fala-se na revolução industrial chinesa, e Stephen Green, do Royal Institute of International Affairs, em Londres, diz que ela tornou o país "a fábrica do mundo". Como foi isto? "Principalmente com um custo baixíssimo da mão-de-obra", diz o analista ao PÚBLICO. Para além de barata, a mão-de-obra chinesa é extremamente ordeira e competente.

O milagre económico começou por tornar a China no maior produtor mundial de brinquedos, sapatos, vestuário... Agora, é já quem mais produz produtos electrónicos, como televisões, DVD's e telemóveis. Começa a entrar no sector da alta tecnologia. "Nenhum país alguma vez escalou tão rapidamente todos os degraus do desenvolvimento económico", sentenciou o "The New York Times".

Para alimentar esta economia em rápido crescimento, e com mais 11 milhões de pessoas a cada ano que passa, o país mostra uma avidez ilimitada por matérias-primas. A China tornou-se o segundo maior consumidor de combustível do mundo, ultrapassando o Japão, com um aumento da procura de 30 por cento em 2003 (o que tem ajudado à subida dos preços do petróleo).

A China aumentou também substancialmente a procura de alimentos, em especial produtos agrícolas. Subiram imenso as importações de soja (cabia-lhe 11 por cento do consumo mundial em 1997 e no ano passado já era de 19 por cento), mas principalmente agitou o mercado do trigo (em menos de um ano, passou da importação de menos de 80 mil toneladas para 1,4 milhões, de tal forma que a americana Kellogg's, líder dos cereais de pequeno-almoço, foi obrigada a rever os seus preços).

Em termos globais, a China tornou-se um país importador de produtos agrícolas, o que é preocupante para os seus líderes. Há as razões estratégicas, mas também as históricas, já que os seus dirigentes têm bem presentes as grandes fomes por que o país passou nas décadas de 1950 e 1960.

"São os primeiros abalos antes do sismo", escreveu Lester Brown, um economista especializado em agricultura, num artigo publicado pelo Earth Policy Institute. A degradação do ambiente na China, falta de água para irrigação e rápido crescimento urbano, reduziram tragicamente a superfície cultivável, e o país deve por isso recorrer maciçamente às importações, numa altura em que os "stocks" existentes são já reduzidos - os níveis mais baixos dos últimos 30 anos.

"A China é o primeiro grande produtor de cereais onde os aspectos ambientais e económicos se combinaram para reverter o histórico aumento da produção. Este declínio nas colheitas cerealíferas num país com mais de um quinto da população mundial vai afectar-nos a todos". E acrescenta: "Isto significa que o excedente da produção de cereais e comida barata da última metade do século pode brevemente passar à história. Um aumento dos preços dos produtos alimentares poderá tornar-se um aspecto permanente da paisagem económica".

"Os EUA e as economias mundiais devem todos estar preocupados com o impacto do crescimento económico chinês na inflação global", diz ao PÚBLICO Lawrence Reardon, coordenador dos Estudos Asiáticos da Universidade de New Hempshire. "O actual preço das matérias-primas tem sido exacerbado pela procura continuada dos consumidores chineses. Cada vez mais, os chineses procuram carros em vez de bicicletas, erguem apartamentos de luxo em vez de casas de um piso. Ao mesmo tempo que o melhoramento da economia urbana do litoral tem tido um impacto benéfico na economia chinesa, tem também levado a uma procura cada vez maior dos bens de consumo globais".

O problema, adianta Reardon, tenderá a agravar-se com o crescimento da actual "classe média" chinesa, calculada em cem milhões de pessoas. "Apenas uma pequena percentagem da população está a beneficiar do aumento rápido no nível de vida. À medida que o crescimento alastra ao interior e Oeste, a economia global estará sob ainda mais pressão para fornecer bens e materiais. Ao mesmo tempo que isto é uma oportunidade para os negociantes internacionais, colocará grande pressão em todos os mercados globais no futuro".

Antigamente, a Escola... (II)

Por JOÃO BÉNARD DA COSTA
Publico, Sexta-feira, 27 de Agosto de 2004

A minha última crónica acabou algo abruptamente. A verdade é que não expliquei as razões que me levaram ao reitor do Camões. Prometi, logo a abrir, que o faria "mais adiante". Mas ia tão lançado que, quando cheguei ao tal "adiante", já não tinha tempo e, sobretudo, já não tinha espaço.

É o mal (ou o bem) das "conversas fiadas". Já experimentaram, no fim de uma noite delas, recapitular o percurso, contando os atalhos, os desvios e as encruzilhadas? Se fosse só misturar alhos com bugalhos, ainda nos podíamos agarrar às rimas, mesmo que nos tivéssemos agarrado onde não devíamos. Mas as livres associações são muito mais subtis, como sabemos desde os tempos do dr. Freud, do jogo dos cinco cantinhos e dos "cadáveres esquisitos". Se há quem seja perito em levar a água ao seu moinho, a maior parte já perdeu o moinho, quando a água lá chegou. E só não continuo para não me acontecer segunda vez a mesma coisa.

À primeira qualquer cai, à segunda cai quem quer.

2. A verdade é que a nascente que me levou ao reitor, ao Camões e aos meus 16 anos foi um excelente artigo de M. Fátima Bonifácio, chamado "Mais dinheiro para a educação?" (PÚBLICO, 15 de Agosto de 2004). A autora é das que não se deixam levar pelas ondas das paixões dos engenheiros Guterres e Sócrates. Como ela bem disse: "Reformas e dinheiro, de nada serviram." Tem carradas de razão.

Mas houve uma confissão que me deixou pensativo. É quando ela, recordando os 25 anos que leva de professora de História numa universidade de Lisboa, afirma: "Convenci-me ultimamente de que o panorama não melhoraria significativamente nem que os programas e os professores fossem todos excelentes."

Fiquei a matutar na convicção recente de M. Fátima Bonifácio. Terá ela razão ao dizer que professores "todos excelentes" e bons programas não fariam bulir nem uma folha no "panorama"?

Comecei a pensar no meu caso, quer como aluno, quer como professor. E assim me lembrei de um professor (reitor até, no caso) que mudou, plausivelmente, o curso da minha vida.

Fátima Bonifácio dir-me-á (ou dir-me-ia) que faço batota. A história que eu contei passou-se há mais de cinquenta anos e na escola do antigamente. É incomparável. Ela própria sublinha que "em tempos tive alunos que são hoje meus colegas e académicos brilhantes. Essa raça desapareceu". Tanto eu como ela - ela muito mais nova - faríamos parte de uma raça em vias de extinção. Provavelmente é mais lúcida do que eu e, além disso, é professora, coisa que eu deixei de ser há muitos anos. Mas, mesmo descontando a história do meu reitor (e dos meus tempos), continuei cogitativo.

3. Fátima Bonifácio não traça qualquer panorama idílico da escola de outras eras e tenho boas razões para pensar que não é essa a visão dela.

Mas, quando tanto se fala em professores de vinho e rosas, eu comecei a fazer as minhas contas e, ao longo dos meus oito anos de liceu (o que então se chamava ensino secundário), não contei mais do que seis professores a cuja memória me abrigue. Nomes? Venham eles: Maria Manuel Barroso, que foi minha professora de Português do 1º ao 3º anos e me ajudou a saber ler e escrever, além de, involuntariamente, me ter ajudado a saber que os bebés não vinham de Paris (não fui nada precoce nessa matéria); Oliveira Simões, que foi meu professor de Ciências Naturais nos 3º e 4º anos e que, além do quartzo, feldspato e diamante, me ensinou a não descer as escadas com as mãos nos bolsos; Carlos Miguel, que foi meu professor de História no 4º ano e me levou da Batalha de Hastings à Invencível Armada, com crescente fervor; Alberto Beirão, que foi meu professor de Matemática no primeiro 5º ano e, apesar da minha confrangedora ignorância na matéria, me fez pensar em mais do que na morte da bezerra nas aulas dele; Amália Borges, que no mesmo 5º ano me revelou que eu tinha sangue francês nas veias, aproveitando-o para me pôr a falar e a ler a única língua estrangeira em que me exprimo à vontade; Gaspar Machado que, nos 6º e 7º anos, em Literatura Portuguesa, me revelou Fernão Lopes e Bernardim, e me levou de "O céu, a terra, o vento sossegado" ao tempo em que "caem co'a calma as aves". Estes são os senhores e as senhoras em que os olhos ponho, quando "me desponho /e me quero afirmar se foi assi". O resto, mais ou menos ignorante, foi de fugir ou serviu para amenas cavaqueiras que, nos melhores casos, disfarçavam a pouca pachorra que tinham para preparar qualquer aula.

Na universidade, estive três meses em Direito. Confirmo a merecida reputação de Marcello Caetano, mas dos outros nada recordo. Arrepiei caminho e passei para Letras (Ciências Histórico-Filosóficas, assim se chamavam então). Delfim Santos, Vieira de Almeida, Mário Chicó, Virgínia Rau, são nomes a escrever com letra grande e "happy few" devem imenso a Ribeiro Soares, quando ele e esses "few" partilhavam gostos singulares. Mas dos outros (estava-me a esquecer e não devia de Ferreira de Almeida), sobretudo no que tocava à Filosofia, quem não saiba é melhor nunca ter experimentado. Era nossa convicção (nossa, dos alunos) que deviam a cátedra ao estado disto, pois que a qualquer sabedoria ou inteligência não a deviam certamente. O saudosismo actual é muita bondade nossa, ou muito má memória. Embora seja verdade que, na mesma Faculdade e nos mesmos anos, coexistiram com Nemésio e Lindley Cintra, com Orlando Ribeiro e com o Padre Manuel Antunes, que, infelizmente, não foram meus professores.

O caso do prof. Francisco Vieira de Almeida é bem paradigmático. Regia a cadeira de Lógica. Para ele, esta ou era lógica matemática ou era uma batata (ou uma batota). Perante alunos que, em 99 por cento dos casos, tinham ido para Letras por horror à matemática, de que ignoravam os mais rudimentares elementos (nessas aulas, a situação não era muito diferente da descrita por Maria de Fátima Bonifácio), que fazia ele? Não perorava sobre Lógica, mas conversava brilhantemente sobre os mais diversos assuntos. Quem se interessasse em segui-lo, não ficava a saber de matemática, mas descobria como era "ilógico" o mundo em que se movia e as coisas que se aprendiam. A gramática era, logicamente, um dos seus terrenos de eleição. Jamais esquecerei a história do rapazinho de 10 anos, convidado a dividir orações num texto que começava assim: "Rui e o irmão entraram para o velho calhambeque do pai." O miúdo obedeceu: "Raul e o irmão entraram para o velho calhambé", primeira oração. "O quê?", berrou a atónita professora. "Nunca se passa por cima dum 'que'", papagueou o miúdo, ufano. "Ah, meus senhores", exclamava deliciado Vieira de Almeida, "se eu fosse examinador, o rapaz tinha logo 20." Vieira de Almeida, ele, pelo menos quando lhe fui aluno, não dava mais do que 11 nem menos do que 10, fora casos excepcionalíssimos. Chumbar não valia para nada, 11 lá ajudava a perpetuar calhambeques.

4. Da minha experiência como professor, que durou cinco anos, entre 1959 e 1964 (experiências posteriores, como professor universitário arregimentado, não me servem, porque foram pescatos de ocasião em que eu me meti, para mal dos meus pecados, a 10 por cento), não me ficou ideia muito diferente sobre o nível geral dos então meus colegas. É certo que os havia excepcionais (do Camões, recordo eu Mário Dionísio, Vergílio Ferreira, Marina Pestana), mas os alciões não fazem verões, nem primaveras. Frio, frio, era o que havia à minha volta.

Só que estes raros exemplos me convenceram (como outros que doutra maneira me ensinaram) que, se todos os professores fossem como eles, a paixão dos engenheiros teria razões de ser. Posso ser muito parcial mas acredito que, se a formação de professores (tema dominante do pensamento de homens como, por exemplo, Delfim Santos) tivesse sido levada a sério e feita a sério, não se tinha chegado onde se chegou. Poesia? Preconceito? É bem possível e não vim aqui polemizar, caso em que esta crónica seria bem fruste. É que mesmo nas tais esporádicas "experiências" recentes (anos 90) eu nunca vi, diante de mim, as tais "máscaras de apatia". Ignorância, sim, imensa, acompanhada, em gerações mais recentes, pela arrogante ignorância dessa própria ignorância, o que é a mais explosiva mistura que imaginar se possa. Mas a apatia pode ser vencida e, daí ao resto, há um passo possível.

George Steiner contou, algures, o que lhe aconteceu numa universidade americana, onde deu um curso de Literatura Comparada no férvido ano de 68. Os colegas explicaram-lhe o que se estava a passar e tentaram dissuadi-lo. Primeira aula e um barulho dos diabos, com os mimos da moda. Steiner conseguiu o silêncio suficiente para que eles o ouvissem dizer isto: "Eu estou aqui para vos ensinar algo de que vocês não sabem nada e de que eu sei tudo. Proponho-me inverter a proposição a vosso favor." A acreditar nele, nunca curso nenhum lhe correu tão bem. Mas, como é evidente, o milagre só aconteceu porque ele sabia mesmo tudo e não estava a viciar o jogo. Se não soubesse, jamais o conseguiria. Como o não conseguiria se se pusesse a trabalhar "em grupos", a adular os néscios ou a fingir que eram eles quem o devia ensinar.

5. Aqui há uns anos, esteve em Portugal o prof. Mel Ainscow, da Universidade de Manchester, para cheirar um bocadinho dos perfumes reinantes.

Para lá de muitas outras, duas coisas o deixaram particularmente estupefacto: que as escolas ou os liceus não tivessem "um" director ou "um" reitor ("um" responsável em suma) e que o corpo docente andasse numa jigajoga, escola aqui, escola acolá, sem se fixar num único estabelecimento.

Como se sabe, foi "conquista de Abril" acabar com os reitores e substituí-los por um órgão colegial eleito "interpares", em que os eleitos são obviamente quem mais facilita a vida aos eleitores. Todos se protegem mutuamente. Também foi "conquista de Abril" a "rotatividade" do corpo docente.

Nunca nenhum ministro, nunca nenhum responsável, reparou nisto? É evidente que reparou. Mas não parou. Porque, se o fizesse, teria contra ele o omnipotente Sindicato dos Professores, com recurso fácil à arma suprema, chamada greve. Não há nada que os pais mais temam, e as autoridades também, que meninos à solta e sem o merecido descanso das aulas. De modo que nos santinhos (os professores) não se toca nem com uma flor. Ou tocam os alunos, mas isso até ajuda a tornar as aulas mais "participativas". Foi assim, e com os programas escritos em "pretoguês", aprendidos em "estruturalês" e em "linguês" que se chegou até ao que Maria de Fátima Bonifácio descreve.

E vai ser pior, muito pior. É só esperar mais uns aninhos, gastar muito mais dinheiro, fazer muitas mais reformas, ter muitas mais paixões, e esperar que Maria de Fátima Bonifácio e a geração dela passem também e sejam substituídas pelos alunos delas. "Encore un effort..."

P.S.: Nas próximas cinco semanas não há A CASA ENCANTADA. Vou de férias. Se Deus quiser, regresso a 8 de Outubro

Reportagem - 07

Por MARION VAN RENTERGHEM
Publico, Sexta-feira, 27 de Agosto de 2004

ok-Wai Tchao entrou no quarto. Pequeno, curvado para a frente, a mão nas costas para aliviar muitos anos de esforços. Os seus olhos rasgados dão a impressão de que tudo o diverte, mesmo se já nada o divirta. Naquele dia, de uma vez só, a vontade de recomeçar tomou conta dele. Um pé após o outro, devagar. O joelho alto, parado no ar, em equilíbrio. Os braços em pose artística, a concentração levada até à ponta dos dedos, numa pose de estilo tai-chi. Ele ri, fecha ainda mais os olhos. Num tom de "monsieur Loyal", com um incorrigível sotaque chinês, articula: "Voilà, c'est l'opéra!"

No seu apartamento em Paris, apenas a mulher, Pui-Ling, assiste ao seu número. Na China, nos tempos do seu esplendor, acorriam de todas as aldeias pessoas para ver Kok-Wai Tchao dançar, cantar e tocar música com o seu grupo de ópera. Isso passava-se no Sul do país, num recanto da província cantonesa. Uma rapariguinha vinha com os seus pais assistir às representações. Por nada deste mundo perderia Pui-Ling uma peça em que entrasse Kok-Wai Tchao: "Era o mais belo, tinha a voz mais bonita, era famoso." Ela casa-se com ele.

Kok-Wai senta-se na sua cadeira, as mãos sobre os joelhos, os pés nas pantufas. Como se tivesse adormecido depois da sua pequena demonstração. Nem pensar em tocar o seu "erhu", esse instrumento com duas cordas que mia como um gato. Era especialista nele na altura do seu grupo de ópera e de vez em quando tocava em família. Mas agora Kok-Wai está fatigado. Já não tem vontade.

Não tem muita vontade nem de nos falar. Não vê em que é que a sua vida poderá ter qualquer interesse. Repete os seus medos recalcados: "os comunistas" que poderiam vingar-se, "os chineses de Paris" que ficariam invejosos. A contragosto, com um ar obediente, começa a recitar como um aluno da escola primária. "Nasci em 1927, depois de dois irmãos mais velhos, numa aldeia da região de Toishan, a 200 quilómetros no Sudoeste de Cantão." Com pressa de acabar, acrescenta ainda, sem transição. "Depois, chegaram os comunistas e eu fui-me embora. E foi assim." Para evitar a perguntas, Kok-Wai Tchao inventou esta fórmula de delicadeza que repete em qualquer altura. "Os comunistas chegaram e eu fui-me embora. E foi assim."

Medo? Impaciência? Uma das raras fotos de família mostra-o tal como era com sete anos, com a mãe e o irmão. Os três em pose em frente da pintura "kitsch" de uma paisagem chinesa. A avó é ultrachique, o irmão está vestido de aluno modelo, Kok-Wai tem uma "t-shirt" amarrotada. "Tinha recusado vestir-se para a foto", conta a filha, Brigitte. "Era o rapazinho mau da família. Fugia, faltava à escola, só fazia o que lhe dava na cabeça."

A infância na China. A liberdade da família encorajou a preguiça natural de Kok-Wai. Um bisavô deixou vários hectares de arrozais e uma casa a cada um dos seus filhos. O avô de Kok-Wai era médico, o seu pai vendia produtos farmacêuticos, os dois eram pessoas respeitadas na comunidade. Moravam numa pequena casa de um só piso com um poço no exterior. Como toda a família de classe média, compraram uma rapariga para as lides domésticas. Kok-Wai brincava com ela. Ele tinha uma bicicleta, de grande luxo. Divertia-se, era feliz.

"Os meus pais obrigavam-me a ir à escola", explica. "Não percebia porquê, tínhamos tanto arroz quanto quiséssemos! Aos 14 anos, deixei de ir." Ri. Um riso particularmente comunicativo, um "oh-oh-oh-oh" que faz sair de repente com uma nota grave, lábios juntos, queixo para trás, olhos cerrados, batendo nos joelhos.

s imagens regressam. A sala das traseiras da farmácia da aldeia. As "grandes pessoas" que se encontravam para tocar músicas. Saxofone, violino, banjo, "erhu", trompete. Kok-Wai interrompe-se, a palavra trompete alegra-o. "Trompite! Oh, oh, oh, oh, oh!" Depois recomeça, visivelmente entusiasmado pelas suas lembranças. Revê a sua mão a passar pelo banjo, os primeiros acordes, os conselhos dos adultos. "O céu deu-me este dom", diz. "Pegava num instrumento qualquer e tocava. Todas as notas estão na minha cabeça, é automático para mim. Tinha um gramofone, punha um disco, memorizava um pedaço e tocava-o."

No apartamento parisiense, Pui-Ling levanta-se e traz uns cadernos. De caligrafia? Não, partituras de música em chinês. "Ele era trapalhão, mas compunha música tradicional", anuncia ela com um orgulho grave. Kok-Wai ri-se. "Tudo isso é passado!" Agora ocupa os seus dias a ouvir música chinesa. O resto, diz, não compreende nada.

Kok-Wai é dotado. Os seus pais compreendem-no depressa e encorajam-no. Mas inquietam-se: a situação financeira da família sai periclitante da guerra sino-japonesa (1937-1945) e da luta que travam os comunistas, conduzidos por Mao Tse Tung. Na aldeia, apenas uma pessoa tinha um rádio e as informações circulavam de boca em boca. A aviação japonesa ataca. Dado o alarme, todos fogem para os bosques, com comida até ao fim do dia.

Mas Kok-Wai não tem outro objectivo que não seja divertir-se. E aperfeiçoar a sua arte, graças aos músicos de Cantão que vêm à aldeia. Aos 16 anos, forma um grupo com os amigos. As autoridades locais e os ricos comerciantes encorajam-nos. Fazem-se colectas na aldeia e entre os chineses exilados. Músicos aposentados ajudam-nos. O grupo aumenta. Serão em breve uma centena de pessoas, entre eles uma vintena de artistas, para levar à cena peças de ópera chinesa.

Compram "décors", máscaras, fatos. Escolhem peças antigas conhecidas. Histórias de esposas e concubinas, de imperadores e senhores ciumentos, de princesas infelizes, de tratantes castigados. Os actores mimam, dançam, cantam, tocam instrumentos. "Cantávamos durante horas", recorda Kok-Wai. "Fazíamos poucos movimentos. Era muito fatigante." Cada um exibe uma maquilhagem e um fato típico: o bom veste-se de vermelho, o mau de preto, o negociante desonesto, sombrio e cobarde de branco. As máscaras representam demónios. Os cavalos são imitados com paus.

Deslocam-se de aldeia em aldeia, a pé, de bicicleta, em riquexós, ou por via fluvial. A sua chegada era celebrada com grande pompa. "Quando montávamos a nossa tenda", observa Kok-Wai, "as pessoas vinham das aldeias vizinhas. Ficávamos cinco dias no mesmo local e tínhamos mais de 300 espectadores de cada vez! O público adorava as nossas peças. Ofereciam-nos ramos de flores, convidavam-nos para tomar chá. Era fantástico!" Pára, olha para o relógio. A hora de considerar o dever cumprido. "E foi assim. Os comunistas chegaram e eu fui-me embora."

política, Kok-Wai aprendeu a nunca falar dela em voz alta. No seu grupo, evitavam-se discussões. Evoca apenas a instalação progressiva dos "partisans" na aldeia, a "libertação" da China por Mao em 1949, os quadros comunistas a chegar em uniformes militares, acolhidos pelos pobres como os salvadores. Os "senhores" são atirados para a prisão. Os arrozais dos seus pais confiscados.

O pequeno grupo de ópera está sob controlo. Acabaram-se as histórias de imperadores e princesas. Novas peças são impostas. É preciso cantar a glória do partido, enaltecer a coragem e o sacrifício, troçar do antigo regime ou amaldiçoar Xang Kai-chek, o tratante exilado em Taiwan.

"O bom" devia ser camponês; o "mau" o rico burguês, inimigo do povo. As máscaras tradicionais são banidas: o fato do actor é o pijama popular, chapéu na cabeça. "Éramos infelizes. Actuávamos a contragosto, éramos pobres. Os meus pais não tinham outra escolha se não ficar. Mas eu tinha asas. Podia partir." Kok-Wai Tchao pede um visto para França. Passam quatro anos.

ntretanto, a rapariguinha da aldeia vizinha cresceu. Pui-Ling fazia parte das fãs de Kok-Wai, estrela da ópera da região. Ela era deliciosa, tinha sido "miss" da sua escola e tinha tido pequenos papéis nas peças de ópera. As mães entendem-se. Quando o casamento foi arranjado, ela tinha 20 anos, ele 29. Mas a notícia rebenta: Kok-Wai obteve o seu visto e deve partir uma semana mais tarde. A única semana que os recém-casados passam juntos.

Julho de 1956. Kok-Wai Tchao despede-se da sua mulher, que se lhe deveria juntar mais tarde, em Paris. Ele passa por Hong Kong para aprender o ofício de cozinheiro. Em Dezembro, embarca para França. O canal Suez tinha sido nacionalizado pelo Estado egípcio. Era preciso dar uma grande volta, pelo cabo da Boa Esperança. A viagem dura 37 horas. Kok-Wai enjoa. Não tem ninguém com quem falar. Chora a sua vida perdida.

Desembarca em Marselha numa tarde de Janeiro em 1957, às 20h. Um parente vai esperá-lo. Tem um restaurante chinês em Paris e, no dia seguinte, Kok-Wai trabalha na cozinha. Da madrugada à meia-noite, por um salário de miséria. "Não via a luz do sol", disse. Nem tem tempo de escrever à sua mulher. Uma ou duas cartas por ano, não mais. Como os outros chineses que partiram antes dele, envia-lhe dinheiro e diz que está tudo bem. Ao lê-lo, pensar-se-ia que o paraíso ocidental está a seus pés.

Pui-Ling espera pelo seu visto durante seis anos. "Não teve graça", diz, amarga. Quando chega finalmente a Paris, cheia de esperança, em Fevereiro de 1962, as ilusões são desfeitas. "Tinha-me casado com um actor célebre, descobri um cozinheiro", disse deitando a Kok-Wai um olhar reprovador. "Pensava que voltaríamos à China para abrir contas bancárias e andar em belos automóveis. Ele não tinha sequer com que comprar fósforos. Antes, era engraçado e estava sempre de bom humor. Tornou-se triste, cansado, enervava-se por nada. Em seis anos, tudo tinha mudado. Não o reconhecia."

Depois da sua chegada, ela trabalha ao lado dele. Kok-Wai consegue montar o seu próprio restaurante. Moram num minúsculo quarto, numa mansarda, sem aquecimento, e trabalham sem parar. Às três da manhã, ele parte para o mercado. Ela toma nota dos pedidos dos clientes, serve os pratos, lava a louça e faz as limpezas. À força de poupar, adquirem um restaurante maior e um bonito apartamento em Paris.

Nascem duas crianças. Estudam francês. Pascal torna-se operador de câmara, Brigitte professora de Inglês. Da história familiar ela fez um romance ("La Chinoise de Paname", ed. Du Félin). Brigitte é professora do ensino público, o que os seus pais aprovam sem compreender. Depois de uma vida de trabalho passada entre chineses, da cozinha à sala de restaurante, não tinham logrado aprender francês e nunca chegaram a conseguir pronunciar o nome dos seus filhos. "Picite" e "Pacal" falam um cantonês cheio de palavras francesas, uma mistura de línguas cómica e saborosa.

Hoje, Kok-Wai Tchao e a sua mulher estão cansados. Doem-lhes as pernas, as costas. A reforma por que tanto esperaram passam-na a deixar correr os dias no seu apartamento. Alegram-se de poder comer quando têm fome e de ver os seus netos.

Não podem ir ao cinema, não compreendem o francês, nem o mandarim. Por duas vezes voltaram à sua aldeia. Edifícios substituíram as pequenas casas. A antiga comunidade de Toishan é uma cidade enorme (Hui-San), onde já não reconhecem nada. Todos deixaram o grupo da ópera. Foi dissolvido por falta de actores. Alguns foram clandestinamente para Hong Kong. Um vive no Canadá, outro nos Estados Unidos. Kok-Wai telefonou-lhes. "Não tínhamos grande coisa a dizer. Todos estão velhos e doentes. De vez em quando, mandamos um postal de boas festas."

Reportagem - 06

A Miséria do Território: do Constitucionalismo Municipal à Degradação da Governação
Por JOSÉ REIS
Publico, Quinta-feira, 26 de Agosto de 2004

O território, a organização regional do país, o modo como a sociedade portuguesa se articula espacialmente não devia ser uma questão só de especialistas, nem um debate apenas técnico ou académico. É um assunto público e político, e é frequente ele entrar-nos pela janela quando não lhe abrimos a porta. Parece-me que isto se está a tornar claro neste dias, através de episódios que se podem classificar como apenas folclóricos.

Acontece que, nos últimos tempos, os problemas das relações territoriais no país têm vindo a sofrer uma acentuada degradação, ilustrando aliás a degradação da própria governação. Tudo começou quando o governo anterior deliberou, numa insuperável demonstração de demissionismo e de cinismo políticos, que a organização territorial do país devia ser entregue só aos municípios, encarregando-os de organizarem "à la carte" as estruturas administrativas infra-estaduais e de criarem, à medida das circunstâncias e das conveniências, grandes áreas metropolitanas, comunidades urbanas e associações intermunicipais, isto é, entidades supramunicipais que compensem o facto de sermos um dos poucos países europeus sem regionalização.

Os municípios - e só eles - ficaram com este poder e usaram-no através de arranjos de vizinhança que lhe permitissem alcançar certos limiares de população. E apenas isso. A este desequilíbrio de poderes (o poder local merece muitos elogios, mas não tem de ser o único detentor da iniciativa em matéria de organização territorial) chamo "constitucionalismo municipal", e julgo que esta é uma questão basilar da vida colectiva em Portugal. Concentrou-se numa das componentes do Estado o poder de tratar de questões que devem responsabilizar todo o Estado. De facto, com este processo, o Governo, o Estado central, descartou-se de uma assentada do território e entregou a outros as relações territoriais (como acontece sempre que a crise financeira é forte), desbaratando tudo o que a acção conjugada dos actores locais, das políticas públicas e da racionalidade territorial tinha alcançado ao longo de décadas. Mais ainda: tornou o território um assunto localista.

Ora, o território tem de ser também um sério assunto de Estado. A sua organização tem de resultar da conjugação de duas perspectivas: de uma visão do país no seu conjunto, porque esta é uma questão de organização do próprio Estado, e de uma compreensão do modo como o território funciona (atendendo aos actores, aos protagonistas e às estruturas regionais). O que não pode é assentar neste desequilíbrio perigoso e demissionista que Durão Barroso inventou.

É por estas razões, aliás, que o território se gere com uma regionalização administrativa democrática. Este destemperado desequilíbrio da intervenção no território, esta hipervalorização do local e do municipal, esta proliferação desamparada de agregações territoriais (sem centros de racionalidades prestigiados como, na ausência de regionalização, eram as velhas CCR) pode não vir a dar nada em termos concretos. Está a ver-se que foi um fogacho sem substância, que não tem pernas para andar, pois não foram clarificadas funções, não foi definida uma forma própria de legitimidade, não se estabeleceram contratos sérios com meios sérios. Os interessados rapidamente se desligam do assunto. Mas já fez muitos estragos. Desorganizou, confundiu, desbaratou, deixou o território livre para ser invocado em vão, para servir para o folclore e para a inutilidade - é a sua "miséria", sobre os destroços da qual tem, com muitos custos, de vir a organizar-se no futuro uma solução digna e útil.

É por isso que não posso deixar de associar este assunto a duas matérias muito recentes que ilustram o modo como a banalização do território tem más consequências. A primeira é a deslocalização de seis secretarias de Estado para outras tantas cidades, de Braga a Faro. O assunto está abundantemente comentado e os críticos têm razão no extenso rol de razões que foram somando. Trata-se de uma medida inútil, patética, desfuncional e enganadora. Apenas a refiro para mostrar como um governo da estirpe do que agora temos trata o assunto das relações do Estado com o território: com um passe de mágica para enganar tolos. A segunda matéria, que pouca atenção merece, é a proclamação de A. João Jardim, com os seus habituais destempero e incultura cidadã, a apontar a necessidade de se erguerem movimentos regionalistas em cada distrito do continente para preparar o cerco aos políticos e ao sistema. Ao que isto chegou! É óbvio que nenhum cidadão culto, nenhum regionalista inteligente, nenhum português sensato é interpelável por Jardim. Não é preciso, portanto, recusar a sugestão. Mas veja-se onde já vai a miséria do território. Para o que ele é invocado, para o que ele serve!

Ora, a organização territorial do país serve é para outras coisas: para reformar o Estado, para criar coesão, para aproveitar capacidades espalhadas pelo país, para configurar um país mais ordenado. É um assunto de políticas públicas e de actores locais. É uma assunto de democracia e de legitimidade. Não é um assunto de incivilidade madeirense nem de rejeição para as periferias do sistema político. São estas as tarefas dos regionalistas em Portugal, por cima do demissionismo de Barroso e do folclore de Santana e seus apaniguados. Porque há quem tenha intuição acertada acerca do modo como se degrada o Estado e a governação, como se fragiliza a cidadania através da demagogia e do populismo, como se abusa do poder através da redução da democracia.

Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

Reportagem - 05

Por MARION VAN RENTERGHEM
Publico, Quinta-feira, 26 de Agosto de 2004

É um homem do lixo quem a encontra. Um pobre miserável que passava os seus dias na lixeira, em Santiago do Chile, na esperança de ali desenterrar moedas. Viu esta mulher morena que permanecia sentada, com ar selvagem, e compreendeu imediatamente. Verdadeiro conhecedor da lixeira, tinha observado os hábitos. Era lá que "eles" despejavam os prisioneiros vivos de que queriam desembaraçar-se. Os que a tortura não permitira fazer falar.

Para Carmen Yañez, como para todos os chilenos, o 11 de Setembro "é uma data já ocupada": a do golpe de Estado de 1973, quando a junta comandada pelo general Pinochet se apoderou do poder, com a ajuda da CIA, conduzindo à morte do Presidente, Salvador Allende. Sobre as consequências que teve sobre a sua própria vida este regime de violência e terror (mais de 3000 assassínios e desaparecimentos) Carmen Yañez não sabe se chegará a falar. Para começar pede que desculpemos os seus silêncios.

Carmen é, apesar de tudo, uma morenaça, juvenil e de riso fácil, que não aparenta os seus 52 anos. Não tem nada de uma sobrevivente da dor. Depois de vários desencontros, instalou-se nas Astúrias, no Norte de Espanha, numa espaçosa casa de um bairro chique de Gijón, com piscina e jardim. Ali escreve poesia. No segundo andar trabalha Luis, um escritor célebre que faz parte da sua história. No terraço, diante do jardim, Carmen solta toda a sua alegria a falar dele. E dos entusiasmos da sua juventude, quando tudo parecia possível.

Luis teve que pagar duas garrafas de vinho para ser apresentado a Carmen. Uma piada entre rapazes. Está-se em 1967, ela tinha 15 anos e ele 18. Ele é estudante de teatro. Como ela, ele escreve poemas. E, como tantos outros estudantes, neste Sul da América onde o envolvimento político é um dado adquirido, ele milita no partido socialista.

Salvador Allende é o herói de ambos. Eles pertencem a este movimento de esquerda - comunistas diversos, socialistas, ala esquerda da democracia cristã - que apoia a sua candidatura às eleições presidenciais de 1970. O democrata-cristão Eduardo Frei Montalva está ainda no poder. Eles pintam "Viva a Revolução!" sobre os mortos, apoiam a revolta estudantil e as greves operárias, lutam com grupos de direita e manifestam-se contra a guerra do Vietname, ao ritmo dos acontecimentos do mundo. Allende é eleito. Carmen e Luis casam-se.

Em 1972 têm um filho a que chamam Carlos-Lenin. Carlos por causa de Karl (Marx), no caso de Lenin não ser suficiente. "Estava na moda", explica Carmen como para se desculpar. "Havia pilhas de Illitch Gutierrez, de Rosa Rodriguez (para Rosa Luxemburg) e todos os nomes próprios russos passavam por isso." Um ano e meio mais tarde, a ditadura instalada, era preciso falsificar os certificados de nascimento. Carlos-Lenin transforma-se em Carlos-Leonidas.

Carmen radicaliza-se, Luis trabalha na órbita do Governo de Allende. Ela aproxima-se do Partido Comunista Revolucionário (PCR), de inspiração maoísta. "Purista", é contra o uso do desodorizante e do dentífrico, milita na psicanálise freudiana e lava os dentes com cinzas. Luis, menos puro, prefere o desodorizante e a pasta dos dentes. Insultam-se. Ela chama-lhe "porco da burguesia", ele "chinesa febril". No terraço da casa de Gijón, ela sorri com ar maroto. "Éramos tão sérios! E tão ridículos!" O rosto fecha-se, o olhar perdido no horizonte.

Terça-feira 11 de Setembro de 1973: o casal habita a casa de família de Carmen, numa comuna operário do Sul de Santiago. Estrondos de aviões, som de metralhadoras. Há tanques nas avenidas. A rádio anuncia a morte de Allende, saber-se-á mais tarde que se suicidou. Luis, um irmão de Cármen e o seu pai abandonam a casa "para organizar a resistência". Regressam passados alguns dias, de mãos vazias.

Ela recorda os dias que se seguiram ao 11 de Setembro. O recolher obrigatório, a casa muitas vezes revistada. Os "suspeitos" que enchem as casernas e os estádios de futebol, depois transferidos para os campos. As execuções, as torturas. "Tinha medo todo o tempo." O pai, operário e militante comunista, muitas vezes detido, é preso durante vários meses. Torturado? "Não sei. Nunca me contou. O que é que tu queres contar aos teus filhos?"

Em Outubro, Luis exila-se no Sul do país, procurado por ter trabalhado no Governo de Allende. É preso e passa perto de dois anos na prisão de Temuco. Quando Carmen consegue por fim visitá-lo, tinha sido torturado com electricidade. Tem as unhas torcidas.

"Estava cheia de raiva, de dor, de impotência", diz Cármen. "A morte estava por todo o lado. Via-se nas ribeiras, onde flutuavam os cadáveres. Adivinhava-se nos camiões que os transportavam. Se íamos visitar um amigo, havia que esperar encontrá-lo morto, ao lado dos 'milicos' [chuis militares]. Quando se está assim tão perto da morte, age-se sem pensar."

Ela regressa a Santiago e decide militar activamente. Em Dezembro, inscreve-se no PCR. A sua missão é recrutar militantes. Para se infiltrar entre os estudantes, inscreve-se nas aulas nocturnas. Entrega a alguém Carlos-Lenin e muda muitas vezes de domicílio. Acumula profissões: secretária, vendedora, fotógrafa de casamentos.

"E depois foi a minha vez." Estas palavras, Carmen Yañez murmura-as. A voz enfraquece-lhe, fica quase inaudível. Repete: "Foi a minha vez. Fui presa. Nesse momento a repressão estava circunscrita. Eles só procuravam opositores activos."

Em Outubro de 1975, às 3h00 da manhã, os "milicos" surgiram no domicílio familiar. Estão lá os seus pais, a sua irmã e o pequeno Carlos-Lenin, mas é "Pelusa" (a alcunha de Cármen) que eles querem. De olhos tapados, é levada numa viatura, passa um portão, é conduzida para uma sala. É-lhe apontado um projector. "É ela?", pergunta alguém. Uma voz fraca responde: "Sim, é ela."

"824." Carmen Yañez não está perto de esquecer o número que lhe penduram ao pescoço. Na cela para onde a levam há quatro mulheres, as camas sobrepostas, um pano de linho machado de sangue. "Não conseguia acreditar", diz Cármen, os lábios trémulos. "Estava na Villa Grimaldi, um dos mais sinistros centros de interrogatório e tortura erguidos por Pinochet. Eu conhecia pessoas que tinham passado por lá. Sabia o que se sofria ali."

As mulheres da cela tinham marcas da tortura e contavam as suas "sessões". Cármen evita responder às suas perguntas. "Desconfiava de toda a gente, mesmo das prisioneiras." O medo de ser violada é a sua obsessão. Nenhuma fala disso. "Essas coisas não se contavam. Sobre uma de nós eu tinha um mau pressentimento. Vinham buscá-la mais vezes que às outras." De tempos em tempos, a porta abria-se. "Eles" chamavam uma. E eles chamaram Pelusa.

Ela está completamente nua. Os olhos vendados. "Entrou um homem. Podia distinguir o fim das suas calças. Era muito gordo. Cheirava mal. Ataram-me a uma cama de ferro, chamavam a isso 'a grelha".' Ele tinha cheiro de vómito e de excrementos. Puseram a música muito alta, variedades. O homem fixou no meu pulso uma pulseira de metal ligada a uma máquina e ligou a electricidade. Tinha também uma espécie de chave que passeava pelo meu corpo para enviar descargas. Nas têmporas, nos tornozelos, nas pontas dos seios. Não sabia quando vinham. Perguntavam-me quem conhecia, onde estavam as armas, como nos organizávamos. Eu não fazia nada a não ser gritar. Tinha preparado uma mentira que repetia. Isto durou... não sei. Um tempo infinito."

Carmen não regressou à "grelha". Alguns dias mais tarde fizeram-lhe "a picana". "Estás sentada, toda nua. Passam-te a corrente e batem-te ao mesmo tempo." Terceira sessão, idem. "É uma dor indizível, física e moral. Mantinha a mesma mentira, largando pequenas verdades. Para ganhar tempo. Sentia que, se confessasse tudo, seria assada."

A cela das mulheres era ao lado da sala de tortura. "Ouvíamos tudo. Uma sessão foi particularmente penosa. Ouvíamos os gritos de uma mulher, ao ritmo do que imaginávamos serem descargas e golpes. Em seguida, despejaram um pacote para dentro da nossa sala. Aproximámo-nos para ver. Era uma mulher repleta de sangue. Os lábios rasgados."

Essa mulher chama-se Marcia Scantlebury. O seu marido é funcionário da ONU, ela é dirigente do Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR) e já tinha tido uma estadia na Villa Grimaldi. "Senti uma grande confiança nela. Tinha estado sob tortura e ouvia que ela negava tudo. Foi a única pessoa em quem confiei. Cantávamos, recitávamos poemas, falávamos de tudo. Dizia-me que tinha 'orgulho em ser inimiga deles'. Isso agradou-se. Eu partilhava o mesmo orgulho."

Carmen permanece mais de um mês na Villa Grimaldi. No fim da sua "terceira sessão" é colocada numa viatura, um adesivo sobre os olhos. Depois abandonada numa lixeira do Sul de Santiago. "Sentei-me no lixo. Sentia-me suja. A liberdade é uma sensação complicada de reencontrar." Refugia-se no Sul do país com Carlos-Lenin. E recomeça a militar.

Luis volatilizou-se. A maior parte dos camaradas de Carmen já caíram. Foi-lhe fixada residência. "Estava farta." Em 1981, consegue exilar-se na Suécia com Carlos-Lenin. Uma outra vida começa. Campo de refugiados, pequenas ocupações. É varredora de ruas, puericultora. Tem um outro filho, Jorge, e escreve poemas realistas onde o Chile ocupa o seu lugar. "Tinha muito a dizer contra o Chile. Muita dor." Fica 16 anos na Suécia.

Luis, por seu turno, refaz a vida na Alemanha. À saída da prisão, procurara em vão Carmen e abandona o Chile em 1977. Teve uma filha no Equador e três crianças na Alemanha. Quando Carmen lhe encontra o rasto, em 1981, passam a telefonar-se frequentemente. Luis vem às vezes à Suécia ver Carlos-Lenin. Divorciam-se em amizade.

Os anos passam. Luis torna-se um autor de sucesso. O seu nome é Luis Sepulveda. "O Velho que Lia Romances de Amor" vende milhões de exemplares no mundo. Os seus outros romances estão repletos de alusões à história de ambos. No "Um Nome de Toureiro" aparece uma certa Veronica "encontrada numa lixeira ao sul da capital chilena", depois de ter "sofrido todas as formas de tortura".

Há ainda este misterioso romance escrito como uma ode, "A Morena e a

Loira", onde duas mulheres se encontram em Itália. "Elas não se conhecem num jardim, nem num baile, mas nas masmorras de um edifício sinistro chamado Villa Grimaldi. (...) Era noite em Santiago do Chile, quando a morena foi arrancada de casa (...) Era noite em Santiago do Chile, quando a loira foi arrancada de casa..."

A loira é Marcia Scantlebury. O livro é romanceado, mas a história é verdadeira. Carmen nunca esqueceu a corajosa Marcia, sua camarada de tortura na Villa Grimaldi. Durante anos procurou-a e pensava que estava morta. Na Suécia olhava sempre para uma fotografia desta mulher magnífica, que era jornalista no Chile. E um dia de 1998, quando Carmen e Luis estavam em Veneza, Marcia encontrou Carmen. "Telefonaram-me para o quarto de hotel. 'Hola, Pelusa!' 'Quem é?' 'É a Marcia!' Dei um grito. Desci, chorámos, rimos. Tapámos os buracos da história. Ela regressou ao Chile."

Carlos-Lenin (que hoje é apenas tratado por Carlos) é músico na Suécia e tem um filho de dois anos. Quanto a Carmen e a Luis, à força de se telefonarem, de se escreverem, de contarem as suas vidas e as suas dores amorosas, voltaram a apaixonar-se. Carmen deixou a Suécia, Luis a Alemanha. Desde 1997 vivem juntos em Gijón e têm seis crianças entre os dois. Nenhuma fala a mesma língua. "Quando vêm cá, é a torre de Babel. Falo sueco com a minha nora, espanhol com os meus filhos, Luis fala (mal) alemão com os seus. Entre eles tentam comunicar em inglês."

Na última vez, Luis disse a Carlos-Lenin: "Preciso de falar contigo. 'Repeço-te' a mão da tua mãe." Estiveram todos em Gijón no passado fim-de-semana, sábado 21 de Agosto, para o casamento de Carmen e Luis

Reportagem - 04

Por MARION VAN RENTERGHEM
Publico, Quarta-feira, 25 de Agosto de 2004

sther Gorintin marca os seus encontros no La Brioche Dorée, na Rua do Rivoli. É um pequeno "snack" parisiense, onde se senta ao fundo, à esquerda, no banco corrido. Não diz uma palavra, mas trazem-lhe espontaneamente o seu café com leite e a sua "baguette", dia após dia, com o respeito que é devido às grandes senhoras. "Madame Gorintin chega muitas vezes atrasada", avisa a empregada com um orgulho onde se mistura um toque de mistério. É que La Brioche Dorée protege as suas celebridades.

Desde os 85 anos, Esther Gorintin é actriz de cinema. Aconteceu tudo de repente. Para o seu filme "Viagens", em 1999, o jovem realizador Emmanuel Finkiel procurava uma velha senhora que falasse russo e francês e com um verdadeiro sotaque "yiddish". Esther pensou para si própria: "Por que não eu?" Logo nos primeiros ensaios, iluminou o ecrã com a sua ingenuidade travessa e aquele seu olhar estrábico que lhe dá um ar perdido.

Esther tem agora 91 anos e não se cansa de fazer filme atrás de filme. O seu charme e uma sorte extraordinária têm-lhe permitido escapar às adversidades. Milagrosamente, salvou-se da destruição dos judeus da Europa: do "shtetl" (bairro judaico) ao Festival de Cannes.

E está sempre muito ocupada. Se não somos um produtor da Gaumont, é melhor armarmo-nos de paciência para conseguir um encontro. De cada vez que o tentamos, ela dá uma desculpa polida, queixando-se de cansaço, de pressão, de ter "tantas coisas para fazer". O seu filho Armand, 54 anos, monitor de uma escola de condução e militante anarquista, conhece bem a "canção". "Um ser humano", disse, "reconhece que está vivo pelos seus batimentos do coração; uma mãe judia fá-lo pelos seus suspiros."

Esther Gorintin chamava-se Esther Gorinsztejn. Durante a ocupação, era Carmen-Juliette Guérin, nascida Gaillard, cidadã suíça. Ao domingo, ia ao cinema e tentava esquecer a sua vida, passada na angústia de ter de parar num controlo de identificação. Esse medo nunca a deixou. "Ainda vivemos sob a ocupação", ironiza o seu filho, que partilha o seu apartamento na Rua do Rivoli. "Eu moro na parte sul, numa zona livre. A minha mãe, na zona ocupada, no norte. A cozinha está no extremo norte, na zona interdita, e o telefone encontra-se na linha de demarcação. Quanto à Gestapo, cuidado, está sempre ao fundo da rua."

Esther surge, enfim, no La Brioche Dorée, silhueta curvada, saco de plástico "Ed" na mão, os cabelos brancos fixados de modo elegante por ganchos com brilhantes. Calça uns sapatos de tiras igualmente com brilhantes e as unhas estão quase a condizer. Mas nada de uma senhora a suspirar. Com ar malicioso, põe-se a tagarelar, preocupada com as palavras exactas, as vogais marcadas: um "yiddish" muito tradicional.

Nasceu bielorrussa, em 1913, num "shtetl" da Rússia czarista, tornada polaca em 1920, em consequência dos tratados de paz: Sokolka, a pequena vila da sua infância, fazia parte de uma dessas zonas de nacionalidade variável submetidas aos caprichos das alterações de fronteiras. A geração dos pais de Esther falava russo e bielorrusso, as crianças, polaco. Entre judeus, falava-se "yiddish". "Um 'yiddish' literário, muito puro", sublinha Esther com orgulho. "É por isso que Emmanuel Finkiel gostou do meu sotaque."

Esther Gorintin é faladora de nascença - no seu "shtetl", construído de modo linear e onde na rua principal se situa de um lado Grodno e do outro Bialystok, os mexericos são a especialidade local. "Quando alguém espirra do lado de Bialystok, respondem 'viva' do lado de Grodno."

O seu pai era curtidor, uma outra especialidade local. A família vivia no centro, enquanto os camponeses, todos não-judeus, vivam nos subúrbios. Em Sokolka há uma igreja, uma sinagoga, um teatro e... um cinema. Esther vai à sinagoga uma vez por ano e come costeletas de porco com os camponeses. "Isso era muito mal visto."

A casa de Esther situa-se perto do subúrbio. Para ir à igreja, os camponeses paravam lá em casa, deixavam os tamancos lamacentos à entrada e calçavam sapatos de pele. "Vivíamos em boa vizinhança", comenta. "O racismo era um problema sobretudo das cidades." Acrescenta: "Segundo o que me disseram, quase todos os habitantes de Sokolka, mesmo os não-judeus, foram deportados para Treblinka e exterminados."

os 4 anos, Esther sonhava ser bailarina. "O meu pai não quis, porque as dançarinas tinham má reputação. Isso salvou-me a vida. Se tivesse ido estudar dança para Varsóvia, tinha acabado no 'ghetto'." A escolha estava feita: Esther será cirurgiã-dentista. O "numerus clausus", porém, complica o acesso dos judeus à universidade na Polónia e no "shtetl" de Sokolka sonha-se com o país da liberdade: a França.

Em 1932, no percurso ferroviário Varsóvia-Paris, Esther atravessa a Alemanha e a Bélgica. "Das janelas do comboio via as cruzes gamadas nos muros. Foi o começo." Era esperada em Bordéus, onde estava um dos seus irmãos, para fazer os estudos de medicina dentária.

Um dos seus colegas chamava-se David Gorinsztejn e viera também da Polónia. Ela era simpatizante comunista, ele filho de um militante do Bund (partido social-democrata judaico). Em 1938, casam-se. Um ano mais tarde, a guerra separa-os. David Gorinsztejn, que estava na Legião Francesa, foi feito prisioneiro. Na Bordéus ocupada, Esther resiste.

Docilmente, vai declarar-se à Prefeitura. A primeira ordem alemã, de 27 de Setembro de 1940, exige que toda a "pessoa judia" se inscreva num registo especial. Alguns dias mais tarde, a 3 de Outubro, o governo de Vichy promulga o primeiro "estatuto dos judeus": são excluídos, em princípio, da função pública, das profissões liberais, do jornalismo, do teatro, da rádio... e do cinema.

"Não tinha medo", disse. "Não sabíamos dos campos, nem nada disso. Não desconfiava de nada. E eu era mulher de um prisioneiro de guerra. Teoricamente, devia ter um estatuto particular." Em Bordéus estão recenseados 5177 judeus. Entre eles encontra-se Esther Gorinsztejn.

Esther bebe um gole do galão, olha para o fundo da sala. "Já não me lembro bem de como tudo começou. Trabalhava num fotógrafo e vivia no número 15 da rua Maucoudinat, num quarto mobilado em casa de uma viúva de guerra. E depois dei comigo no campo de Mérignac."

A cronologia não é o forte de Esther Gorintin. No apartamento comum, o seu filho Armand faz por vezes intrusões clandestinas na "zona ocupada" para procurar documentos, numa desordem indescritível. "Entre dois pães de chocolate fossilizados", como diz, encontrou indícios: o fio de Ariadne da vida de Esther durante a ocupação. Ela própria, normalmente, tem a cabeça noutro lugar. "Sabe, estou tão ocupada com o cinema!"

13 de Março de 1942, Esther foi presa. "Foi fácil, tinha-me declarado à Prefeitura." Foi conduzida ao comissariado. "Estava muito abatida. Chorava terrivelmente. Um polícia olhou para mim e disse-me: 'Não chores, olha antes para o teu saco', e mostrou-me o fogareiro a gás." Esther procura no saco e encontra um velho pedido de visto para a União Soviética, o inimigo comunista. Deita-no no fogareiro.

É conduzida ao campo de Mérignac, de onde partiam os comboios com judeus em direcção a Drancy e aos campos da morte. Fez aí "uma estadia de seis semanas", diz com um preciosismo de circunstância. "A minha senhoria, Gisèle Soulat, indignou-se com a detenção da sua locatária. Creio que foi ela que me tirou de lá." Os documentos de Esther indicavam que uma associação tinha feito um apelo com base no seu estatuto de "mulher de prisioneiro de guerra". A 24 de Abril, foi libertada.

"Aí, deveria ter percebido", diz Esther. "Deveria ter partido. Em vez disso, retomei tranquilamente o meu trabalho. Tive culpa." Chegado em Junho, o novo secretário-geral da Prefeitura de Gironde, responsável pelas questões judias, era Maurice Papon. A 15 de Julho de 1942, Esther chega a casa, de estrela amarela ao peito. São 20h. Dois "gendarmes" e dois polícias esperam-na no vão das escadas.

"Disseram-me: 'Vem connosco.' O tom não era amável. Não discuti." Esther foi presa no forte de Hâ, em plena Bordéus. No seguimento de uma doença, foi admitida no hospital Saint-André. O polícia que a acompanhou informou-a de que voltaria no dia seguinte, às seis horas. "Compreendi o seu olhar: estava a convidar-me a fugir. Aproveitei uma ida à casa de banho e salvei-me." A 16 de Julho, 172 judeus de Bordéus foram deportados para os campos da morte. Esther não.

O seu irmão Boris, que tem ligações com a Resistência, confia-a a um contrabandista. Destino Lyon, zona livre. "Na altura, era uma expedição engraçada", lembra Esther, com um certo ar "naïf". "Passámos por um pequeno lugarejo mesmo antes da zona livre, La Réole. O nosso carro parou. O contrabandista disse-me: 'Vai, corre!' Corri, tinha percebido puxar. Já não me lembro exactamente. Apanhei um comboio."

A 11 de Novembro de 1942, Esther tinha acabado de chegar à zona livre, mas esta foi por sua vez ocupada. "Lyon, é uma longa história", suspira ela, cheia de lembranças. "Passava o tempo a fugir. Mudava de casa. Nadava em águas turbulentas, sempre desconfiada. Falava o mínimo possível. Esse medo, nunca me consegui livrar dele. Ao domingo, ia ao cinema. Era um grande perigo por causa dos controlos de papéis."

o La Brioche Dorée, Esther Gorintin impacienta-se. Deve partir, tem muito que fazer. Apressada, ainda refere o vigário que lhe deu os seus papéis falsos; os amigos que tinham uma charcutaria conhecida pelas suas salsichas, "que eram muito apreciadas"; o atelier de fotografia onde trabalhava, ornado de fotografias do marechal Pétain; o oficial alemão que a arrastou por uma linha de comboio; a rusga de que escapou com a ajuda de um polícia; uma passageira de comboio que insultava os "porcos judeus"; uma porteira que a acolheu, uma delatora encontrada apunhalada pela Resistência.

A guerra terminou. Tinham sido deportados de França para campos de concentração 76 mil judeus. Os pais de Esther foram assassinados em Treblinka. O seu irmão Boris, apanhado em Bordéus e enviado para Auschwitz, sobreviveu por milagre. O seu marido voltou do campo de prisioneiros. "Vê, levo uma vida muito normal", conclui Esther.

Depois da libertação, Esther e David Gorinsztejn afrancesaram o seu apelido para Gorintin e instalaram-se no actual apartamento na Rua do Rivoli. David é dentista, Esther recebe os seus clientes e limpa os instrumentos. O imóvel abrigava um pequeno cinema, o Rivoli-Beaubourg. A cabina de projecção funcionava no pátio. Quando o projeccionista abre as portas, Esther está quase no cinema. Em 1985, um atentado anti-semita arrasa a sala durante um festival de cinema judaico e faz duas dezenas de feridos. Com a sua sorte habitual, Esther não estava lá nessa noite.

Quando o marido morreu, tinha 73 anos. Fez pintura, "muito inocentemente", depois tentou o seu primeiro "casting", uma dezena de anos mais tarde. Emmanuel Finkiel confiou-lhe o papel de uma avó judia perdida na modernidade de Telavive, onde ninguém compreende "yiddish".

É um sucesso. Esther é convidada para Cannes. A crítica saúda esta nova actriz de 85 anos que tem a promessa de um futuro brilhante. Os convites sucedem-se. Aparece numa dezena de filmes, entre "Le Stade de Wimbledon", de Mathieu Amalric, ou "Depuis qu'Otar est parti", de Julie Bertucelli. Contracena com Alain Corneau, passou dois meses na Geórgia para "Otar" e está de regresso de várias semanas na Ucrânia para um filme de um cineasta russo, Pavel Lounguine. "Faço sempre o papel de velhas senhoras", espanta-se.

A silhueta curvada sai do La Brioche Dorée em passos miúdos. "Desculpe, estou muito apressada. Pavel Lounguine pode telefonar, pode ter cenas para filmar, não sei, é complicado. Sabe, estou nas mãos dele. É assim, o cinema." Exlusivo PÚBLICO/ "Le Monde"

Paris, 1944-03

Eles Têm de Aprender a Ler e a Escrever para Terem Outra Vida"
Por POR ANA CRISTINA PEREIRA (TEXTO) E HUGO CALÇADA (FOTO)
Publico, Quarta-feira, 25 de Agosto de 2004

Não há casas de banho, chuveiros, sequer retrete. Não há água, nem electricidade. Há nortada, lagartos, algumas cobras, ocasionais infestações de ratos e muita areia. Nas dunas de Viana do Castelo, entre pinheiros e eucaliptos, mais de 50 pessoas abrigam-se em tendas de lona ou barracas de madeira ou zinco. "Isto não é jeito de vida!", meneia Celeste Monteiro. "Não é, não é..."

Os olhos verdes de Celeste, belos como se fossem uma pintura, tornam-se errantes. Podiam ilustrar o relatório periódico recentemente apresentado por Portugal na 65ª edição do Comité Para a Eliminação da Discriminação Racial, da Comissão de Direitos Humanos da ONU, que saúda a melhoria das condições de vida dos ciganos, mas mostra preocupação com "as muitas dificuldades enfrentadas por muitos membros dessa comunidade nos campos do trabalho, habitação e educação".

Parece mentira, mas este acampamento progrediu "imenso" por impulso do Rendimento Mínimo Garantido (RMG). A vida já foi pior. Muito pior. Dantes andavam à esmola quase todos.

Não há feirantes nesta miséria acantonada no Lugar das Alminhas, em Viana do Castelo. Nunca houve. "Alguns fazem cestos e mandam as mulheres vender", desfia a matriarca Maria, toda vestida de negro. A sobrevivência garante-se com abonos, pensões de invalidez e RMG. Há uns cinco anos que é assim. Desde que a assistente social Balbina Fernandes foi alertada por uma bebé prematura que deu entrada no centro de saúde local muito mal.

Celeste é ainda jovem. Tem 32 anos, cinco filhos. Recebe 650 euros por mês. Gasta-os em "comida, roupa e calçado para a canalha ir à escola". E há "a cantina, os livros, os cadernos, o gás" e um adulto com graves problemas respiratórios.

À sua frente fervilham, junto a um leitor de cassetes alimentado por uma bateria automóvel, três crianças e um adolescente. O pequeno aparelho solta uma música tradicional cigana e uma menina ergue os braços e enceta uns pezinhos de dança. "Eles têm de aprender a ler e a escrever para terem outra vida", acentua a mãe.

As crianças do acampamento estão todas a estudar. Há seis num infantário e outras seis na escola primária. No ano passado, transitaram nove para o segundo ciclo. E alguns adultos - agora menos - frequentam o ensino recorrente. Não são caso único. O RMG fez com que 44 mil crianças passassem a frequentar a escola e com que 33 mil fossem integradas no sistema nacional de saúde.

"Evidente que os adultos não mudam muito, a aposta tem de ser nas crianças", sublinha Balbina Fernandes, que tratou de integrar esta comunidade no "sistema". Os adultos do acampamento vão desistindo, dizem que "cabeça de grande já não aprende". Balbina Fernandes diz que se impõe "avaliar os métodos e as estratégias do ensino recorrente", que considera "desajustados".

O sonho da casa

É preciso percorrer dois quilómetros para encher os bidões de água destinados ao banho e à cozinha. A roupa lava-se num lavadouro público, situado à mesma distância. "E a canalha, estando na escola, é cada dia uma roupa". Há anos que se pede à Diocese de Viana uma parcela de terreno para construir uns balneários e um lavadouro, mas a caridade cristã tarda...

Celeste mostra a sua habitação - um palácio quando comparada com as rudimentares estruturas de madeira cobertas de lona que albergam algumas das outras famílias. Dentro da casota de tábuas e chão de cimento, há dois sofás virados para um aparador com um televisor e uma aparelhagem. Atrás da cortina, um berço e três camas dispostas em fileira. Dormem todos aqui, menos a filha mais velha, de 16 anos, que fica com o companheiro num quarto encostado à cozinha muito arrumada e dotada e inúmeros tachos reluzentes.

"Quando chove é horrível, fica tudo molhado", lamenta-se a rapariga de longuíssimos cabelos ruivos. As precárias condições de habitabilidade cavam doenças como as sofridas por seu pai. "Tem uma tosse que nunca passa, uma bronquite, uma úlcera, enfim!"

Há muito trabalho invisível feito neste acampamento nos últimos anos. "Encontramos o grau zero, a comunidade estava votada ao mais total abandono", recorda Balbina Fernandes - que tantas vezes aqui andou a ensinar a fazer papas, a dar banhos em baldes ou latas de tinta, a recolher lixo. "Agora, já conhecem os serviços, já mandam os miúdos à escola, já não há pessoas sem vacinas, já têm médico de famílias, já vão às consultas...".

Com a mudança de Governo, a responsabilidade da intervenção que estava nas mãos da Sub-Região de Saúde transitou para a direcção distrital de Segurança Social e "parou tudo". Como pararam muitos projectos em curso em todo o país. Mas já se podia avançar para a inserção laboral - "alguns falam em serem porteiros, outros em fazerem limpezas nas florestas", revela a assistente social. "Era preciso ouvir as pessoas, dar-lhes oportunidades!"

A primeira a fixar-se foi a sogra de Celeste. Maria enviuvou, quis ficar perto da sepultura do falecido que ainda agora visita uma vez por semana. Os filhos cresceram, casaram, vieram netos e bisnetos. "Estou aqui há 26 anos! Dão casas a tanta gente! E nós?"

O estigma comanda a existência desta pobre comunidade - discriminada até por outros grupos ciganos da zona. O clã mistura-se pouco. Tão pouco que já se notam debilidades próprias da consanguinidade. Olhos um tanto loucos - como os da desdentada Conceição, que tem seis filhos e parece desvairada à volta de uma fogueira apagada. É a única que Balbina Fernandes considera não estar preparada para mudar para um apartamento.

Não há voz que não exprima desejo de mudança. Até Isabel, sete anos, pano amarrado à cintura azul turquesa, chinelos rosa bebé: "Não gosto de morar aqui". Porquê? "Tem muita areia!" Onde é que gostavas de morar? "Numa casa". Como os colegas da escola que frequenta e que agora lhe dá férias.

O vento cortante fustiga a tenda de Conceição. A tenda ressoa. Os "alicerces" sentem-se tremer. Lá dentro, quase não há móveis. Sobre o chão coberto de aparas de pinheiro e folhas de eucalipto, há só duas camas desfeitas e roupas amontoadas - muitas, a fazer torres. "Durmo cá fora, cheira muito mal ali dentro!", envergonha-se um filho pequeno. Também ele aspira a uma casa. E aos estudos. Para "ter carta de condução". Para ter "outra vida

Paris, 1944-02

O General Desobedeceu e Paris Não Ardeu...
Quarta-feira, 25 de Agosto de 2004

A 23 de Agosto de 1944, o quartel-general de Hitler transmite uma ordem secreta ao comandante da "Gross Paris" (grande Paris), o general Dietrich von Choltitz: "A defesa da cabeça-de-ponte de Paris é de uma importância vital no plano militar e político.

Ao longo da história, a perda de Paris arrastou sempre a perda de toda a França... A destruição das pontes do Sena será preparada. Paris não deve cair nas mãos do inimigo, ou o inimigo não deve encontrar outra coisa senão um campo de ruínas."

Von Choltitz tinha sido nomeado comandante da "Gross Paris" a 7 de Agosto. O general de 49 anos tem a reputação de ser um militar cruel.

Foi ele que conquistou a fogo e a sangue Roterdão e Sebastopol. E terá sido um dos raros oficiais da Wehrmacht (exército alemão) a nunca ter contestado uma ordem do Führer. Mas, neste mês de Agosto de 1944, a Wehrmacht sofre derrota atrás de derrota.

Os desembarques aliados na Normandia e na Provença obrigam as linhas a alemãs a recuar, a frente de Leste foi um desastre, com a resistência dos russos, e um grupo de oficiais tentou assassinar Hitler, em Berlim.

Von Choltitz vai multiplicar, brutalmente, as execuções sumárias de resistentes em Paris. Mas, por razões que nunca esclareceu - medo de represálias aliadas? Recusa de ser considerado como um criminoso de guerra? Efectivos militares insuficientes? Vontade de não pôr a saque a "mais bela cidade do mundo"? - o general von Choltitz desobedeceu, pela única vez da sua vida, a uma ordem. E Paris não ardeu. A.N.P., Paris

Paris, 1944 - 01

A Insurreição Que Libertou "a Cidade Mais Bela do Mundo"
Por ANA NAVARRO PEDRO, Paris
Publico, Quarta-feira, 25 de Agosto de 2004

Nas suas "Memórias de Guerra", o general Charles de Gaulle escreveu: "Paris, desde há mais de quatro anos, que era o remorso do mundo livre". Era em 1944, e desde Junho de 1940 a capital francesa fora declarada "cidade aberta" pelo ocupante nazi.

Paris caíra sem combater. A França capitulara e Hitler viera à "cidade mais bela do mundo" saborear a vitória. Em Londres, um oficial francês (ainda) desconhecido, Charles de Gaulle, tinha apelado à desobediência e, com a insolência dos grandes homens, afirmara personificar - sozinho, se fosse preciso - a "verdadeira França", a da resistência, oposta à da colaboração e do regime de Vichy. Mas quatro anos vão passar até que a capital francesa comece de novo a sonhar com a liberdade.

O desembarque aliado na Normandia, a 6 de Junho de 1944, é seguido com excitação e angústia na capital. No mês de Agosto, Paris vive os seus dias mais longos. Prostrados com uma vaga de calor, mas exaltados com as notícias dos avanços militares das colunas americanas e britânicas, os parisienses espreitam a faísca que ateará a insurreição da cidade. Que consumirá os sinais de trânsito e os nomes das ruas, reescritos em letras góticas e em alemão pelo ocupante.

Os sinais da derrota não estão longe. Desde 9 de Agosto, o pessoal alemão não militar furta-se à cidade em carros abarrotados até aos tejadilhos com "foie-gras" e garrafas de grandes vinhos. Nos Campos-Elísios, onde os alemães exibiam músculo e botas bem engraxadas durante toda a ocupação, desfilam agora as tropas derrotadas na frente da Normandia. Vão a caminho da Alemanha, sob o olhar dos parisienses vindos todos os dias gozar o espectáculo da humilhação alemã.

O comando militar, confiado ao brutal general Dietrich von Choltitz a 7 de Agosto, multiplica as execuções sumárias de resistentes, mas não consegue manter a ilusão de um ocupante todo-poderoso. O fervor dos parisienses aumenta, esperando uma libertação iminente. No entanto, Paris não é um objectivo estratégico nos planos militares dos aliados. As tropas anglo-americanas previam contornar a capital a norte por Mantes, e a sul pela cidade de Melun. Na realidade, os aliados são hostis a uma sublevação popular em Paris.

Mas o Comité Parisiense de Libertação (CPL), criado pela Resistência, lança desde Julho inúmeros apelos a manifestações patrióticas. Em Agosto, os preparativos da insurreição popular intensificam-se. A 10 de Agosto, as greves começam a paralisar a cidade. A primeira é lançada pelos ferroviários: os carris são arrancados, as locomotivas bloqueadas, e todas as linhas são afectadas. O movimento de greve alastra aos correios e à polícia. A 15, estão criadas as condições para o início da sublevação, preparada na sombra por homens como o comunista Henry Rol-Tanguy, de 36 anos, que tinha a patente de coronel das FFI (Forças Francesas do Interior) ou ainda o gaullista Jacques Chaban-Delmas, que aos 29 anos foi o mais jovem general das Forças Livres do general de Gaulle.

O apelo à mobilização geral dos parisienses foi lançado a 18 de Agosto por Rol-Tanguy. Unidos perante o inimigo, mas rivais no controlo do poder, comunistas e gaullistas começam então uma corrida aos pontos principais da capital, a 19 de Agosto, o "dia D" da insurreição. De revólver em punho, uma centena de polícias à paisana ocupam a Prefeitura sem disparar um único tiro, e hasteiam a bandeira proibida, a da França. "Mas é a revolução!", exclama, ensonado, o prefeito do regime de Vichy, logo substituído por um fiel do general De Gaulle, Charles Luizet.

Ultrapassadas pelos gaullistas na Prefeitura, as FFI investem então o Hôtel de Ville (a Câmara de Paris) com carros a abarrotar de armas. Os combates alastram e os combatentes trocam receitas de cocktails Molotov. Entre os mais valorosos, estarão os espanhóis, republicanos refugiados depois da vitória de Franco, que entendem retribuir à França o gesto de alguns franceses que combateram o fascismo nas Brigadas Internacionais, durante a guerra civil de Espanha.

Os alemães começam a ripostar violentamente pela tarde, e depressa os insurrectos têm falta de munições. Uma trégua é assinada pelo intermédio de um diplomata sueco, Raoul Nordling, mas será pouco respeitada. As tensões causadas na Resistência por esta trégua acabam a 22 de Agosto, quando Rol-Tanguy relança a insurreição.

Paris cobre-se de cartazes apelando: "Todos às barricadas". Velha tradição de todas as revoltas populares da capital francesa, mais de 600 barricadas são levantadas num piscar de olhos, para bloquear a circulação e paralisar as vias de comunicação do inimigo. Von Choltitz recebe ordem de Berlim de combater até ao "último homem". Em Cherbourg, na Normandia, o general de Gaulle tenta convencer o general americano Eisenhower a dar apoio militar à sublevação de Paris. Rol-Tanguy pede socorro às tropas anglo-americanas. E Eisenhower acaba por aceitar modificar os seus planos: o general Leclerc, comandante da 2ª Divisão Blindada (2ªDB) recebe ordem de avançar para Paris com a 4ª Divisão americana em apoio.

A 24 de Agosto, um pequeno destacamento do capitão Dronne entra na capital, em prenúncio à "chegada dos franceses de Leclerc". André Carrel, vice-presidente do CPL, que tem hoje 87 anos, contava recentemente na televisão France2: "Foi uma alegria imensa. Os sinos de Paris começaram a tocar, sabíamos que a vitória não ia tardar. Paris festejava já a libertação, a junção das forças do interior e das forças do exterior, representadas pelo capitão Dronne".

Muitos tiros vão ainda atirar os parisienses por terra, de rastos. Von Choltitz manda ainda fuzilar dezenas de prisioneiros. Mas a hora da capitulação soa para o comando alemão. Sem que Paris seja destruída, ao contrário das ordens de Hitler.

De Gaulle entre em Paris a 25 de Agosto. As suas primeiras palavras ficam marcadas para sempre na história da capital: "Paris ultrajada, Paris prostrada, Paris martirizada, mas Paris libertada".

No dia seguinte, milhões de parisienses desfilam atrás de De Gaulle nos Campos-Elísios. Os habitantes da capital dançam nas ruas e descobrem a música de Glenn Miller.

Reportagem - 03

Por MARION VAN RENTERGHEM
Terça-feira, 24 de Agosto de 2004

uando Lucile Samair fez a mala, meteu pouca coisa lá dentro. Era só para umas férias, uma pequena viagem. O Camboja estava em guerra. Os Khmer Vermelhos e o Exército norte-vietnamita procuravam derrubar o governo pró-americano de Lon Nol.

Em Phnom Penh, a capital, onde ela vivia, as explosões provocavam um susto quase banalizado. Dia após dia, os jornais contavam os mortos. Ela precisava de calma.

Quando fez a mala, em 9 de Abril de 1975, ela só guardou algumas peças para passar algumas semanas com os três filhos no vizinho Laos. O marido, o médico Phalcun Samair, director do maior hospital de Phnom Penh, devia ir ter com eles daí por vinte dias. Acompanhou-os ao carro e despediu-se com um até breve. Em 17 de Abril, os Khmer Vermelhos entraram na cidade.

Lucile Samair sorri longamente, sem nada dizer. É preciso aprender a conhecer os códigos do sorriso que esta mulher, pequena e elegante, infinitamente educada, transformou numa arma. É preciso aprender a desvendar o momento em que ele se torna um esgar, discreto, quando a boca continua a sorrir e os olhos se enchem de lágrimas. "Fechei tudo", diz. "O coração, as recordações, tudo." E desvia a conversa para outros assuntos, alegremente conversadora.

A vida de Lucile começou em 15 de Março de 1937 numa pequena aldeia chamada Neal Loeung: nas margens do rio Mekong, a umas seis dezenas de quilómetros a sul de Phnom Penh. O pai trabalhou duramente, para dar de comer à mulher e aos nove filhos, passando a vida nas sampanas que circulam pelo rio entre o Camboja e o Vietname, onde ele ia vender o seu carregamento de arroz.

Ela lembra-se do "tempo feliz": o protectorado francês até 1954 ("apesar dos tiros da guerrilha Vietminh, à noite, que nos assustavam"); mas acima de tudo do período de independência do país até ao golpe de Estado de 1970. O Camboja é nessa altura um reino independente e neutro. "Era um tempo alegre. Os franceses tinham-se ido embora sem guerra, sem derramamento de sangue. Não havia rancor. Tudo era ainda francês. O príncipe Sihanouk era amado." Há estudantes que regressam de França com ideias revolucionárias, as cabeças cheias do que era dito nas reuniões no Quartier Latin onde participavam. Há jornais e panfletos comunistas que começam a circular, procurando mobilizar a população contra o governo e a família real.

Lucile Samair não os percebe. A política não lhe interessa nada. É uma das raras cambojanas que conduz o seu carro e gosta de ler, sentada num ramo de árvore, por entre o cheiro das mangas e das goiabas. A irmã abriu uma joalharia, e Lucile trabalha em família, com orgulho: a nata internacional desfila pela Joalharia Mekong. "O príncipe Sihanouk encomendou-nos uma jóia para Madame De Gaulle. Também passaram lá o rei e a rainha de Espanha, fizemos fotografias." Essas fotografias, avisa desde logo, já não as tem. "É claro que já não tenho nada. Não imaginava que não voltaria. Nem levei as fotografias das crianças."

A criança pobre de Neak Loeung tornou-se uma notável em Phnom Penh. Os rapazes andam à volta dela. Lucile recusa pedidos de casamento. Aos 29 anos, diz quase com orgulho, não "conheceu o amor". Uma noite, ao fecho da loja, dizem-lhe que um médico do bairro gostaria de pedir a mão dela. Só o conhece de vista: "Magnífico, jovem, cabelo salpicado de branco, porte nobre. Tinha estudado medicina em França." Casam em Agosto de 1970.

Em 18 de Março desse ano, pelas 15h00, os altifalantes tinham anunciado pelas ruas, pela voz do presidente da Assembleia Nacional, Cheng Heng, a destituição do Chefe de Estado, o príncipe Sihanouk. Apoiado pelos norte-americanos, o "putsch" favorece a chegada de Lon Nol à chefia do Governo.

Em Phnom Penh, os bombardeamentos passaram a fazer parte do dia-a-dia. O Camboja é atingido pela guerra civil e pelo alastramento da guerra no Vietname. "Na joalharia", conta Lucile, "ouvíamos um estrondo enorme, não sabíamos de onde vinha e corríamos a baixar a grade de ferro. Todos os dias havia qualquer coisa." É preciso enfrentar a agitação quotidiana, a guerrilha, os tiros de artilharia e os disparos, os tanques americanos nas ruas, o recolher obrigatório, os rumores sobre o avanço no terreno dos Khmer Vermelhos e dos Vietcong, as mortes diárias, o medo.

Mas Lucile é feliz. "Vivia qualquer coisa de extraordinário. Ao lado disso, as bombas não eram uma coisa grave." Descobre o marido, "um homem bom, sério, gentil, divertido." Têm três filhos e vivem felizes. Ele viaja com frequência, ela acompanha-os nas suas missões. A Hong Kong, a Singapura, à Tailândia, ao Japão. Gosta de deixar que o seu sorriso acompanhe estas memórias. Estes cinco anos de guerra são os cinco anos do casamento de Lucile.

ns amigos convidam-nos para ir ao Laos de férias. Residentes estrangeiros e notáveis cambojanos começam a deixar Phnom Penh. "Não nos sentíamos verdadeiramente em insegurança. Mas a atmosfera era difícil", afirma Lucile. Depois segue-se uma estúpida história de datas. Um desses encadeamentos do acaso que desafiam o entendimento.

A partida fica marcada para 3 de Abril. Mas o aeroporto acaba de ser bombardeado pelos Khmer Vermelhos e as reservas são adiadas para 19. Na noite da partida falhada, o marido de Lucile é chamado a assistir um doente cujo filho é director da Air Cambodge. "Se quiser", propõe-lhe, "posso antecipar o voo para 9 de Abril."

Na noite do dia 7, caem obuses sobre o hospital, a dois passos da casa deles. Os pais acordam os filhos, descem os dois andares, escondem-se debaixo da escada em cimento. No dia 8 de manhã, apesar dos sacos de areia dispostos em permanência contra as paredes e as janelas, deparam com a casa cheia de estilhaços de projécteis. "Ainda bem que vocês se vão embora amanhã", diz o marido de Lucile.

Em 9 de Abril, Lucile Samair faz a mala. Leva os três filhos, de quatro e três anos e de dois meses e meio. O marido acompanha ao carro a família que deve reencontrar no Laos no dia 27. Partida para Banguecoque, em escala para Vienciana, a capital do Laos. Sem se mostrar contente, Lucile constata: "Sempre tive sorte, é o meu destino. Se tivéssemos partido a 19, como previsto, estaríamos todos mortos."

No dia 10, de Banguecoque, tenta telefonar ao marido. As linhas estão cortadas. No dia 11, vai aos correios. "É impossível enviar um telegrama para o Camboja", respondem-lhe. No dia 12, fica a saber que deixou de haver aviões entre Phnom Penh e Banguecoque. "Mas o meu marido deve vir a 27!", insiste.

No seu quarto de hotel em Banguecoque, vê sem perceber imagens da televisão tailandesa que mostram as ruas de Phnom Penh invadidas pelos Khmer Vermelhos. Aturdida, não quer acreditar e decide esperar. Recusa o visto que a embaixada de França em Banguecoque lhe propõe.

s economias esgotam-se. De valor só lhe resta o diamante da aliança que o marido lhe ofereceu no dia do casamento. O suficiente para comprar um bilhete de avião. Vende a aliança. "Desta maneira, cortei a ligação entre nós", conta, com o seu sorriso de criança. Mantém-se na mesma posição o máximo de tempo que pode, os lábios comprimidos. E soluça muito, sem conseguir parar, a cabeça mergulhada nas mãos.

Em 25 de Maio, Lucile Samair e os filhos chegam a Paris. O irmão e a irmã dela vivem na capital francesa. "Já não tinha forças, a única coisa que fazia era chorar. Mas tinha os meus filhos, o meu bebé. Disse para mim mesma: 'Minha filha, se te queres safar, esquece tudo.' Então fechei as portas. Até deixei de ver amigos do Camboja que me lembravam demasiadas coisas. A minha família compreendeu: até o nome do meu marido não era dito. Era proibido."

Os pais de Lucile são exilados à força no campo e submetidos a trabalhos forçados. O pai acaba por morrer de fome. A mãe consegue juntar-se a ela em França, em 1978. Aos filhos, Lucile conta que o pai, um médico famoso, ficou a tratar dos pequenos cambojanos. Todos esperam que ele regresse.

O tempo passa. Os meses. Os anos. Lucile vai saltando de trabalho em trabalho: costureira, demonstradora nas Galerias Lafayette, gerente de uma mercearia exótica, criada. Está longe de pensar que os filhos conseguirão ter carreiras prestigiosas, que um dia terá uma loja em Paris e sobretudo o seu próprio restaurante, La Mousson, um minúsculo refúgio cambojano em Paris. Ninguém suspeita que esta mulher pequena e discreta que traz os pratos sorridente, sempre impecável, sobreviveu à dor anotando num caderno o seu destino atormentado.

Quando os vietnamitas põem fim ao regime dos Khmer Vermelhos, em 1980, o Camboja abre finalmente as fronteiras. Chegam refugiados a Paris. Desfeitos, atónitos, o espírito assombrado por imagens impensáveis, perderam filhos e pais. Resgatados dos campos, das torturas e das execuções, do êxodo violento para fora de cidades completamente esvaziadas, da fome organizada, do trabalho forçado nos arrozais, nas barragens, nas florestas que há que abater. Sobreviventes por milagre desse genocídio organizado pelos Khmer Vermelhos, sob a égide de Pol Pot e do Angkar (a Organização, o Partido), em nome da luta contra o imperialismo capitalista: dois milhões de mortos entre uma população de 7,7 milhões. Lucile corre a encontrar estes refugiados nos abrigos onde se acolhem. "Viu o meu marido?", pergunta, cheia de esperança.

As informações são um mercado. O dinheiro pode servir, por vezes, para saber mais. Alguém viu o doutor Samair Phal-cun entre os sobreviventes. Outro viu-o a caminhar por uma estrada, durante o êxodo, na companhia de um cirurgião do mesmo hospital. Um antigo colega dele, nomeado presidente da Cruz Vermelha cambojana, anuncia que entre os 65 médicos cambojanos diplomados no estrangeiro só encontraram quatro até ao momento. Mas há, diz, que manter a confiança. Há uma falta terrível de bons médicos. O marido de Lucile é por isso procurado activamente. O seu nome é mesmo mencionado para ministro da Saúde. Lucile quer acreditar. "Então, é mesmo possível! Se procurarem a sério, acabarão por encontrá-lo."

depois disto mais nada. Pela primeira vez ao fim de 24 anos, em 1999, Lucile Samair regressou ao Camboja. "Sem os meus filhos, para que não me vissem chorar."

Contam-lhe como Phnom Penh foi esvaziada num ápice. Os habitantes pelas estradas, enxotados, incrédulos. Os jovens, os velhos, as crianças. As famílias separadas. Os doentes dos hospitais empurrados porta fora, mesmo os que estão a soro. As casas pilhadas, saqueadas, juncadas de excrementos. As ruas cheias de cadáveres.

Reencontra os sobrinhos, cujo pai era cozinheiro no hospital. Também eles lhe contam pormenores dos dias que se seguiram ao l1 de Abril, o incrível esvaziamento da cidade de Phnom Penh. Lucile ouve-os.

Quando foi a vez do hospital, eles estavam com o doutor Samair. Os militares empurravam toda a gente com as suas Kalachnikovs. "Despachem-se! Despachem-se!" Os sobrinhos partiram de bicicleta. O médico meteu-se num carro com uma tia e duas jovens primas. Um pouco mais adiante, na estrada que vai do hospital à ponte Monivong, em direcção ao sul, os Khmer Vermelhos mandaram parar o carro. Os sobrinhos, de bicicleta, puderam continuar. Depois, pararam na estrada para os esperar.

Esperaram e esperaram. Milhares de pessoas desfilaram diante deles. A pé, em bicicleta, de carro. As horas passaram. Ao fim do dia, o doutor Samair, a tia e as primas ainda não tinham aparecido.

Os sobrinhos regressaram ao local onde se tinham separado. Onde já não havia nada. Nem carros, nem ninguém. Só o vazio. Lucile conclui calmamente: "É um buraco negro. É o fim."

Com os cabelos brancos e os óculos, Samair, o médico, "tinha ar de intelectual". As palavras são de Lucile. Já não faz qualquer esforço para sorrir. Só diz que, sem nunca ter a certeza, aceitou, naquele dia, que não voltaria a ver o marido. E que tem medo, um medo horrível, quando faz a mala. Exclusivo PÚBLICO/"Le Monde"

O Novo Dispositivo Militar dos EUA no Mundo

Por JOSÉ LOUREIRO DOS SANTOS
Publico, Segunda-feira, 23 de Agosto de 2004

O dispositivo militar anunciado pelo presidente Bush, que fará regressar aos Estados Unidos, na próxima década, cerca de 70.000 militares e 100.000 funcionários civis actualmente posicionados na Europa e na Ásia, começou a ser preparado praticamente desde o início de funções da Administração. Teve um especial impulso com o 11 de Setembro e o seu esboço geral apareceu um ano depois, na sequência da Estratégia Nacional Americana então publicada.

O momento escolhido para o tornar público tem a ver com as eleições presidenciais. O Presidente necessitava de prometer o regresso de tropas à América, mesmo que a prazo dilatado, como contraponto ao facto de ser impossível retirar do Iraque um número significativo dos 150.000 militares aí destacados, cujo regresso não parece possível a tempo de produzir efeitos eleitorais que lhe sejam benéficos.

Os conceitos que justificam este desdobramento de forças assentam basicamente na alteração do quadro das ameaças que existiam durante a guerra-fria, por um lado, e na progressiva produção de novos equipamentos militares de mobilidade e flexibilidade crescentes, que a evolução tecnológica dos últimos anos proporcionou, por outro lado.

Derrotada a União Soviética, os EUA, como única superpotência com capacidade de intervenção global de natureza decisiva, precisa de se posicionar para consolidar o estatuto que alcançou, conforme, aliás, consta da sua doutrina estratégica: impedir que qualquer outra potência ultrapasse ou sequer iguale o poder americano.

Os elementos cruciais da ordem internacional que emergiram com o fim da guerra-fria são: 1) a China perfila-se como o actor internacional susceptível de, no futuro, vir a competir com a superpotência; 2) o petróleo é um recurso natural do maior interesse no domínio das relações estratégicas e, provavelmente, continuará a sê-lo durante os próximos 20/30 anos, se não o for ainda por mais tempo; 3) a combinação de estados falhados, terrorismo fundamentalista de base islamista e proliferação de armas de destruição maciça constitui uma mistura muito perigosa, que ameaça a estabilidade e a paz, e põe em perigo as sociedades modernas cujos valores têm por base o respeito pelos direitos humanos.

Daqui se deduzem os principais objectivos que os Estados Unidos poderão ter de atribuir às suas forças armadas: 1) estarem em condições de conter a China e de derrotá-la, se necessário; 2) controlar os fluxos de petróleo; 3) serem capazes de contribuir para estabilizar os estados falhados, combater o terrorismo (redes e estados apoiantes), e para evitar a proliferação de meios de destruição maciça (equipamentos e tecnologias).

Neste contexto, ganham importância: Ásia Central (petróleo e posicionamento em relação à China); Ásia/Pacífico (contenção da China e proliferação de ADM); Paquistão e Índia (contenção da China, combate ao terrorismo e proliferação de ADM); região do Golfo (terrorismo e petróleo); África do Norte (terrorismo), Sahel e África Oriental (estados falhados - terrorismo), África Ocidental (estados falhados - terrorismo e petróleo); América Central (estados falhados - terrorismo).

A Europa perde importância militar para a superpotência, já que continua irrelevante deste ponto de vista. No continente europeu, os principais ingredientes para a estabilidade são de natureza económica e política, estando ao seu alcance dar um importante contributo para fazer face a eventuais focos que a perturbem, se investir minimamente na defesa, a despeito de precisar de apoio militar americano. Nesta área, a sua dependência dos EUA continuará esmagadora. Não é previsível vir a dispor proximamente de forças capazes de fazer face a ameaças de média ou elevada intensidade. Assim, a NATO permanecerá no coma profundo em que se encontra, afinal sem serventia visível...

Para manter a Rússia sem capacidade de constituir um desafio à América, é suficiente a esta disputar-lhe influência no "estrangeiro próximo", o que pode ser feito na sequência das medidas tomadas para atingir os objectivos principais. De caminho, e através de manobras essencialmente políticas, promover-se-á a divisão política da Europa

Face às áreas prioritárias de potencial emprego de forças, convirá deslocar as bases europeias para Leste, posicionar unidades na Ásia Central, colocar e manter forças na região do Golfo, mantê-las na Ásia, e estar em condições de actuar nas regiões onde se revelem estados falhados e focos de agitação e instabilidade.

O domínio do mar e do ar e o controlo do espaço permitem à América obter informação permanentemente e deslocar forças para qualquer destino, sem resistência. A elevada mobilidade estratégica de que dispõe (poderosas aeronaves e unidades navais de grande volume) confere-lhe grande capacidade de movimentação de forças terrestres aptas para qualquer tipo de combate. A melhoria das blindagens (maior resistência à penetração e menor peso dos materiais) reforça as possibilidades de rápido deslocamento.

O ideal seria que todas as forças se encontrassem estacionadas nos Estados Unidos e houvesse possibilidade de as transportar em tempo para os locais de emprego. Esta situação ainda não é totalmente possível, mas já o é em grande parte.

O sistema que será implantado traduz-se no estacionamento das unidades mãe (divisões) no continente, destacando-as quando necessário, por períodos curtos de combate e/ou de treino (seis meses a um ano). As bases no ultramar perderão o peso e a complexidade que actualmente possuem, destinadas a comissões prolongadas, em companhia dos familiares, e assumirão um modelo de estruturas ligeiras, onde residirão, temporariamente, apenas os militares. De preferência, serão destacadas permanentemente apenas unidades de escalão brigada, muito móveis e ligeiras, dotadas de viaturas "stryker".

Razões eleitorais encontram-se na base do anúncio deste novo dispositivo, e também na resposta que lhe foi dada prontamente pelos democratas e por meios de comunicação social que lhes são afectos. Wesley Clark e o "New York Times" consideram-no um verdadeiro erro estratégico, o que parece muito forçado. Baseiam-se no facto de ele, supostamente, contribuir para o afastamento da América dos seus aliados tradicionais, quando é mais necessário reforçar as alianças, tanto na Europa como na Ásia.

Esta dedução é muito discutível. Não só porque o plano foi pormenorizada e longamente tratado entre a Administração americana e os países aliados de onde são retiradas forças (caso da Alemanha e da Coreia do Sul, os mais afectados), mas ainda porque elas fazem mais falta em outras áreas, mesmo para a segurança dos países de onde irão sair. Por outro lado, os movimentos distribuir-se-ão por uma década e não ocorrerão imediatamente, não se verificarão retiradas significativas do Japão e da área de Taiwan, a reorganização na península coreana estava há muito prevista, e é a altura dos europeus e japoneses voltarem a investir no domínio da defesa, até para diminuírem a sua pesada dependência das forças norte-americanas. Note-se ainda que as opiniões públicas (por vezes os governos) dos países de onde são tiradas unidades se têm manifestado contra a sua presença. Pelo contrário, são desejadas pelos os estados que as vão receber.

O plano agora apresentado pelo Presidente parece ter sido cuidadosamente estudado e preparado, e corresponde, a meu ver, às necessidades estratégicas dos inícios do século XXI. É certo que foi gizado em função dos interesses norte-americanos, como qualquer outro Estado o faria em circunstâncias parecidas. Mas, presentemente, a estratégia que o sustenta é do interesse dos países democráticos. Isto desde que estes, à sua medida, reajam - desenvolvendo capacidades militares, afim de colaborarem no esforço necessário e, simultaneamente, terem capacidade para influenciar o comportamento dos norte-americanos. E não se limitem a lamentar-se e a queixar-se do imperialismo (real, mas, se adequadamente correspondido, mais vantajoso do que desfavorável), em vez de avançarem para uma dinâmica de maior equilíbrio militar com o poder americano, única forma de recolher dele vantagens e não somente sofrer inconvenientes.

Reportagem-02

Desconhecidos na História
Por MARION VAN RENTERGHEM
Publico, Segunda-feira, 23 de Agosto de 2004

Tinha escolhido o momento. Estudara a meteorologia, a posição da Lua, a escuridão da noite. Era preciso que houvesse chuva para cobrir os seus ruídos, um vento contrário para enganar os cães, e não podia haver no céu uma só estrela que o pudesse iluminar. Hartmut Richter definira as condições exactas e acabou por se decidir: aquela noite de 26 de Agosto de 1966 seria a noite boa. Aproximou-se do canal, deslizou por entre as ervas, esperou ali algum tempo, para observar. E depois mergulhou.

Tinha então 18 anos. E a sua vida não era insuportável. A República Democrática Alemã não era o país mais mal abastecido do bloco socialista, e a capital, Berlim Leste, era uma vitrina bem cuidada por estar frente a frente com "o outro lado", Berlim Ocidental, orgulhoso enclave do Ocidente democrático em pleno território sovietizado.

Os pais são produtores de fruta perto de Potsdam, a sudoeste de Berlim. Ele foi um bom e fiel elemento dos Junge Pioniere (Jovens Pioneiros), o melhor da sua turma e orgulhoso do seu país. Berlim Ocidental, lembra-lhe a propaganda leste-alemã, só sobrevive por causa da generosidade do Plano Marshall. Nada que possa manchar as virtudes do socialismo. Não, Hartmut Richter não é infeliz.

Mas não foi preciso muito para arriscasse a vida e mergulhasse. Foi preciso um muro e arame farpado. Foi precisa uma inquietação: a obsessão de ser livre quando nos impedem de o sermos.

Nascido em 1948, Hartmut Richter tem um ano quando é fundada a República Democrática Alemã (RDA). Os Aliados dividiram entre eles a Alemanha vencida. Em plena zona de ocupação soviética, uma fronteira atravessa Berlim: capitalista a ocidente, comunista a leste. Nos primeiros anos, a fronteira é porosa. Cerca de três milhões de pessoas aproveitam para "passar para o Ocidente". O Governo da RDA quer travar a hemorragia.

Em 13 de Agosto de 1961, os primeiros rolos de arame farpado são colocados no sítio onde se erguerá "o muro". Há quem vá ver a "protecção antifascista". Hartmut Richter encontra-se nessa altura em Berlim Ocidental, em casa de uns primos. Tem 13 anos.

Numa rua da cidade, a Bernauer Strasse, o muro é construído de tal maneira que as fachadas dos prédios estão no Leste e o passeio no Oeste. Há habitantes que se atiram pelas janelas. "Os do Oeste" amparam-nos com lençóis, mas há quatro que se esmagam no solo. São os primeiros mortos do Muro. "Estas imagens perseguiram-me toda a minha vida", conta, casualmente, Hartmut Richter, com as pálpebras pesadas.

Regressa ao liceu de Potsdam. Os agentes da Stasi (a polícia encarregada da segurança do Estado) têm debaixo de olho os adolescentes que, como ele, andam de cabelo comprido, ouvem os Beatles e os Rolling Stones e procuram desesperadamente as pastilhas elásticas do Ocidente. Num dia de 1965, Hartmut é preso. "Exigiram-me que reconhecesse o meu mau comportamento. Recusei. Cortaram-me o cabelo, arrancaram a etiqueta Levi's das minhas calças. Nada de terrível, enfim. Mas era humilhante. Mais uma ferida."

Fugir. Mas como? Na história do Muro de Berlim, as evasões rivalizam em capacidade de invenção. Túneis escavados, fugas em balão, catapultagem por cima dos prédios. A televisão recorda as tentativas falhadas. Duzentos e trinta e nove fugitivos são executados. Há 5043 que conseguem.

Do lado dos bosques e dos cursos de água, a fronteira é menos estanque que em plena cidade, onde o próprio muro está bem guardado. Amigos de Hartmut conseguiram chegar à Áustria, via Checoslováquia, atravessando a pé uma floresta. Em 29 de Janeiro de 1966, no dia dos seus 18 anos, decide-se, Junta algumas coisas, sai discretamente de casa e apanha o comboio para Praga.

Na fronteira checoslovaca, há um controlo no comboio. Hartmut é notado. Erros de principiante: anda outra vez de "jeans" e cabelo comprido, "a prova de que estava sob a influência do inimigo"; pior, tem consigo todos os seus documentos, da certidão de nascimento aos diplomas escolares. Para já não falar do mapa onde está traçado o seu itinerário de evasão. "Que vai fazer à Checoslováquia?", pergunta-lhe o oficial leste-alemão.

- Vou lá de férias, responde Hartmut.

- E precisa desses documentos todos para as férias?

Hartmut passa três meses na prisão de Potsdam. Partilha a cela com um velho que tinha insultado guardas fronteiriços depois de ter bebido em excesso e que, à falta de um projecto para si mesmo, tal como o abade Faria do "Conde de Monte Cristo", fala a Hartmut do canal Teltow: numa zona do Sudoeste de Berlim, não longe de Potsdam, um curso de água que faz fronteira entre a RDA e Berlim Ocidental. A configuração do canal, a ausência de casas e a fraca vigilância permitem mergulhar no sítio onde começa a "death zone", a terra de ninguém, a um pequeno quilómetro da fronteira.

O velho descreve-lhe o arco que o canal forma nesse local. São 900 metros de comprimento, 25 de largura. Descreve-lhe as árvores e as ervas altas nas margens, a posição da torre de vigia e dos projectores, suficientemente espaçados para deixarem zonas de sombra. Deverá mergulhar mesmo depois da grande ponte que marca o início da "death zone". Oitocentos metros depois, passará sob uma ponte pequena. Mais cem metros e, do lado esquerdo, estará em Berlim Ocidental.

Depois de sair da prisão, em Maio de 1966, Hartmut Richter trabalha em Potsdam e vai com frequência nadar, sozinho, num dos numerosos lagos que rodeiam Berlim. Faz o seu quilómetro diário. Treina-se a suster a respiração, um minuto debaixo de água. Habitua-se à água fria. Aguarda a noite ideal.

E ei-la que chegou. Vento, chuva, nada de lua. Na noite de 26 de Agosto de 1966, sem avisar ninguém, Helmut dirige-se à pequena aldeia de Teltow e segue para o canal. Tem um saco de plástico à volta do pescoço com os documentos e besuntou o corpo com azeite para se proteger do frio. Esconde na margem a "t-shirt" e os sapatos, mas mantém os "jeans" novinhos em folha. Às onze e meia da noite mergulha.

Vai aos ziguezagues entre os projectores: debaixo de água o máximo de tempo possível, da margem direita para a margem esquerda do canal, parando junto da margem, escondido entre as ervas, ao fim de cada diagonal. Aí permanece imóvel, silencioso, à escuta do mais pequeno ruído. Ao fim de duas horas não progrediu mais de 200 metros. "Estava gelado."

O seu primeiro encontro não estava no programa: um cisne. A ave precipita-se sobre ele e ataca-o. "Não me largava, o bater das asas fazia um ruído infernal", conta Hartmut no seu tom imperturbável. "Acabou por se cansar. Esperei escondido nas ervas." O nadador retoma o seu caminho. Estranhamente, a batalha com o cisne parece não ter alertado ninguém.

Ao cabo de três horas, quase chegou junto da ponte pequena. Um cão ladra. "Ruhig!" ("Calado!"), ouve-se. Na ponte, dois soldados patrulham. Hartmut continua colado à margem, sem se mexer. Na ponte, à frente dele, os dois soldados fumam. Os minutos passam, intermináveis. Os soldados não se vão embora. Hartmut, enregelado, bate os dentes. Tem que meter os dedos na boca para abafar o barulho.

Ei-los que se afastam. Hartmut inicia uma nova diagonal. A pequena ponte fica para trás. Há sua direita há uma vigia. Mais adiante, do lado esquerdo, há sinais e arame farpado. Berlim Ocidental! Mais uma centena de metros e será a fronteira.

O velho tinha-o avisado: "Atenção à grelha!" E tinha descrito uma espécie de grade, mesmo a seguir à ponte pequena, com três metros acima da água, para bloquear os barcos. "Deves poder passar por baixo", tinha-lhe sugerido. É o que Hartmut tenta. Inútil: a grelha toca o fundo do canal. Não há outra hipótese a não ser tentar pelos lados, afastando o arame farpado.

O projector da vigia está apontado para esse preciso local. Hartmut encosta-se ao lado direito da grade. Nada acontece. "Eu estava no campo de visão deles. Estariam a jogar às cartas? Seria a hora de serem substituídos? Será que me viram e me deram uma oportunidade?" Não importa, falta pouco. Hartmut nada para a outra margem. Um último esforço para subir para a margem.

Esgotado, gelado, assustado, fica um instante de pé, a olhar para o caminho percorrido. Um cartaz indica: "Hier endet West-Berlin" ("Aqui acaba Berlim Ocidental). Conseguiu. Passou quatro horas na água.

São três e meia da madrugada. De tronco nu, a tremer, Hartmut Richter chega ao "check-point" Dreilinden, o mais próximo. Bate no vidro de um carro. Uma mulher, não muito tranquila, baixa o vidro. "Estou em Berlim Ocidental?", pergunta Hartmut. A mulher percebeu. Abraça-o, dá-lhe as boas vindas e oferece-lhe uma garrafa de "Schnaps" [aguardente]. Helmut bebe de um trago. Depois, insiste: "Estou mesmo em Berlim Ocidental?" "Sim, estás mesmo!", repete ela. E Hartmut desaparece.

A história não acabou. Hartmut Richter fica em Berlim Ocidental, mas corre o mundo a trabalhar a bordo de um avião de carga. Sente porém que há qualquer coisa que não acabou: não ajustou contas com o regime da RDA. Quer que outros aproveitem a sua fuga. Os amigos que ficaram "do outro lado".

As condições políticas são favoráveis. Em Dezembro de 1971, no quadro da aproximação entre as duas Alemanhas, um acordo limita a vigilância do tráfego rodoviário. No mesmo ano, os que se evadiram da RDA e se tornaram cidadãos de Berlim Ocidental beneficiam de uma amnistia no Leste. Hartmut tem o direito de visitar os pais, de ir e vir. "Não controlavam o meu automóvel. Era o momento."

Hartmut passa de evadido a passador. Modifica o seu Ford, aumenta-lhe a mala para caberem duas pessoas, reforça as suspensões traseiras. Dois a dois, os candidatos à evasão vão embarcando. Hartmut Richter faz as contas: entre 1972 e 1975 fez passar 33.

Mas sente-se observado. A Stasi notou que as suas idas e vindas correspondiam ao desaparecimento de cidadãos do Leste: Hartmut não sabe isso, mas pressente qualquer coisa. Passou 33 pessoas, prometeu ajudar mais uma, só mais uma: a irmã mais nova, que tem 21 anos. Ela tem medo, hesita, ele esforça-se por convencê-la. Na noite de 3 para 4 de Março de 1975, entra finalmente, com o noivo, na mala do Ford.

No "checkpoint" Drewitz fazem sinal a Hartmut para encostar o carro. Um cão dá a volta e começa a ladrar para a mala. Acabou-se. Hartmut, a irmã e o namorado são presos e conduzidos ao centro de detenção de Potsdam.

Os acontecimentos seguintes estão meticulosamente registados pela Stasi. Hartmut Richter recuperou o seu dossier depois da queda do Muro, centenas de páginas onde figuram os seus mais pequenos gestos e acções desde que foi preso.

O prisioneiro Richter não é cooperante. No momento de ir a julgamento recusa declarar-se arrependido. "Não ia humilhar-me para conseguir privilégios, quando já tudo estava decidido." A ajuda à evasão do país é um crime que o código penal da RDA qualifica como "tráfico de seres humanos hostil ao Estado". O veredicto: 15 anos de prisão, a pena máxima.

A irmã de Hartmut cumpre dois anos e três meses. "Eu não tinha hipóteses. Mas as 33 pessoas que a RDA tinha perdido por minha causa tornavam-me forte. Na prisão, sentia uma espécie de indiferença." Sempre rebelde, colocado em vários centros de detenção, é várias vezes posto em isolamento. A Stasi qualifica-o de inimigo declarado da RDA. "Não fui torturado. Bateram-me, sim. Mas o hábito era mais de pressão psicológica. Os métodos eram subtis, para te destruírem."

Ao cabo de cinco anos e sete meses de prisão - incluindo em Bautzen 2, célebre campo para presos políticos -, Hartmut Richter é libertado. "Vendido" à República Federal da Alemanha pelo Governo leste-alemão, como foram cerca de 33 mil presos políticos entre 1964 e 1989. Em 2 de Outubro de 1980 chega a Berlim Ocidental.

Às vezes, vai passear ao longo do canal Teltow. A primeira ponte está enferrujada, a segunda desapareceu. O posto de vigia continua lá, inútil, ao lado de um restaurante. O "checkpoint" Dreilinden tornou-se um parque de campismo, a barreira da alfândega foi transformada em canteiro de flores. Hartmut Richter tem uma filha de 12 anos, europeia e alemã, só alemã, nem do Leste nem do Oeste. "Ela está cansada de ouvir as minhas histórias." Exclusivo PÚBLICO/"Le Monde

Vesna Bosanac

Publico, Domingo, 22 de Agosto de 2004

Esta série de seis reportagens fala de pessoas que não são célebres. Homens e mulheres que sobreviveram aos piores dramas da século XX e que agora aceitaram dar o seu testemunho e contar a sua vida a uma jornalista do jornal francês "Le Monde". Hoje é a vez de Vesna Bosanac, pediatra no hospital da pequena cidade croata que viu tudo durante esse Verão de 1991

Amanhã: O evadido de Berlim Leste

onha sempre o mesmo sonho. É uma imagem que passa, escaldante: a cidade deserta, o sol, o silêncio. E ela, sozinha na cidade, caminhando entre os escombros.

Vesna Bosanac regressou a Vukovar. Retomou o seu escritório, o seu lugar, de novo à frente deste hospital nos confins da Croácia, que ela dirigiu durante os três meses de cerco e de bombardeamentos das forças servo-federais, mesmo no início das guerras na Jugoslávia.

De nacionalidade croata, ela manteve a sua equipa, organizou os cuidados aos doentes e aos feridos, contactou em vão as chancelarias ocidentais. Até à queda da cidade, a 18 de Novembro de 1991. Até esse dia estranho em que, de repente, se ouviu o silêncio.

Regressou em 1997, depois de a região ter passado para a administração croata. Reconstituiu uma equipa médica. Com médicos de origem sérvia e croata. Alguns deles, sérvios e croatas, tinham vivido com ela esses três meses de inferno, sobreviventes das selvajarias das milícias e de uma cidade reduzida a nada, tão destruída como Desden em 1945. À semelhança de Vesna Bosanac, alguns regressaram a Vukovar. Habitados, como ela, pela visão dos mortos.

O hospital está como novo. Vemo-lo surgir, impecável, entre alguns pavilhões novos sem alma e várias fachadas-fantasma desordenadas de forma bizarra. Sons de explosões recordam que os arredores continuam cheios de minas.

A directora faz-se esperar. Imaginamos a silhueta miúda cuja energia provocava admiração durante a guerra. Mas é uma senhora gorducha, de cabelos grisalhos, com 50 anos já feitos, que abre a porta do seu escritório. Caminha na nossa direcção pesadamente, com passos pequenos, estende uma mão mecânica e senta-se com um ar cansado. À sua frente estão pilhas de dossiers em desordem, um crucifixo dourado, dois telemóveis, uma fotografia gigante do seu neto, um pacote de cigarros Walter Wolf e um cinzeiro cheio de beatas.

Vesna Bosanac acende febrilmente um cigarro, ouve a primeira pergunta e começa a falar. Sem parar, o olhar vazio. Concentrada a assinar com a sua rubrica, a responder aos seus telefones, a dar instruções. Diríamos que já nada a afecta, nem mesmo o sabor dos cigarros que fuma até à asfixia. E, sem tremer, sem sorrir, com a sua voz rouca e lancinante, rompendo-se por vezes num sorriso penoso, ela conta.

Fala de Vukovar antes da guerra. Uma cidade da Croácia, na margem do Danúbio, até à fronteira sérvia traçada pelo rio. A indústria da borracha e a cultura vinícola tornam a vida fácil. Uma vintena de nacionalidades, essencialmente croata e sérvia, mas também rutena, ucraniana ou eslovaca, coabitam sem fazer (demasiadas) perguntas. Até à explosão.

Depois da morte de Tito, em 1980, o presidente da Sérvia, Slobodan Milosevic, constrói uma Jugoslávia sob domínio sérvio, os albaneses do Kosovo reivindicam a sua autonomia perdida, a Eslovénia consegue fazer a sua secessão sem muitas complicações, a Croácia autoproclama a sua independência. Os conflitos entre as Repúblicas acentuam-se. As minorias inquietas radicalizam-se. A Jugoslávia divide-se. Na rota do nacionalismo da Grande Sérvia na Croácia, a região pluriétnica da Eslavónia Oriental é a primeira que o Exército jugoslavo e os paramilitares sérvios encontram. E Vukovar a primeira cidade. O primeiro alvo.

Antes da guerra, Vesna Bosanac era uma pediatra sem história no hospital de Vukovar. "O ambiente mudou de repente." Para ela é a 2 de Maio de 1991: 12 polícias croatas são mortos por extremistas sérvios nos arredores de Vukovar. Para um dos seus colegas sérvios, a degradação do ambiente começou um ano antes: com a eleição do presidente croata nacionalista Franjo Tudjman, os cartazes ameaçadores colocados na sua casa pelas milícias croatas, os cafés sérvios dinamitados. No hospital de Vukovar como noutros locais, sérvios e croatas discutem ainda sobre "quem começou". Ou calam-se. Como a secretária (sérvia) de Vesna Bosanac: "Já não posso pensar nisso, nem falar. A única coisa que desejo é que tudo isso nunca mais recomece."

24 de Julho de 1991, nesses tempos conturbados, Vesna Bosanac é eleita directora do hospital pelo "conselho dos trabalhadores" (de maioria sérvia). "Sabia que o contexto não tornava a tarefa fácil", diz. "Para mim era um desafio. Sou combatente por natureza. Mas ninguém imaginava o que nos esperava."

E Vesna Bosanac começou a contagem. A guerra cria este tipo de pequenas manias. Desde que o primeiro obus caiu sobre o hospital, em meados de Agosto, ela passou a assinalar conscienciosamente no seu bloco com uma cruz cada vez que uma bomba atingia o edifício. "Desde então, não passou um dia sem que o hospital fosse atingido. Projécteis de diferentes calibres. Como se Vukovar fosse um campo de ensaio para todo o tipo de munições." Ao fim de três meses de ataques, ela faz as contas: mais de 800 cruzes no seu bloco.

Quem é você, Vesna Bosanac? Nem uma vibração na voz. Nem uma pestana húmida. Como única mensagem, cigarros que se sucedem. São precisos os testemunhos dos colegas, sérvios ou croatas, para imaginar uma pequena senhora cheia de tacto, nunca cansada, gerindo o hospital, lançando SOS à comunidade internacional e mantendo-se o que era, pediatra, à cabeceira das crianças feridas.

O cirurgião Juraj Njavro, hoje reformado em Zagreb, recorda-se "do dia em que a doutora Bosanac quebrou: uma avó tinha chegado com um bebé de seis meses nos braços, morto". "Pela primeira vez vi-a chorar. Repetia-nos: 'Façam qualquer coisa!' Dizíamos-lhe que o bebé estava morto, mas ela não queria ouvir. Para ela nada era impossível, tudo se podia fazer, tudo devia ser feito. Mesmo ressuscitar uma criança morta."

Na cidade cercada, sob o ataque incessante da artilharia sérvia, é preciso reorganizar o hospital. Esvaziar os andares e juntar tudo no rés-do-chão e na cave. Os cuidados intensivos no abrigo antiatómico, a cirurgia na "sala do gesso", o resto onde for possível. Recolher a água da chuva e encher os poços das casas em redor, porque as canalizações tinham sido cortadas. Assegurar pelo menos três refeições quentes. Arranjar cadeiras e camas para o pessoal auxiliar e as suas famílias, instalados no local. "Graças a estas medidas", nota friamente Vesna Bosanac, "tivemos apenas dois mortos entre o pessoal: um que tinha saído para uma corrida e um técnico da caldeira que foi atingido por um obus quando fazia uma pausa ao sol."

ortos. Mortos por todo o lado. Os que morrem no hospital e os que aí chegam: cadáveres apanhados na cidade que são levados para ali por não se conseguir chegar ao cemitério. "Era horrível", diz Vesna Bosanac, subitamente agitada. "Os cadáveres submergiam-nos, obcecavam-nos. Entre dez e 20 mortos por dia. E não havia caixões. As portas, as mesas, tudo servia para os fabricar. No início, levávamos os mortos para o antigo cemitério, no centro da cidade. Depois o cemitério foi atingido por uma bomba, os mortos ficaram desfeitos, mais ninguém queria lá ir. Então começámos a abrir valas onde podíamos. Até que estivessem cheias ou fossem atacadas. Por fim, abrimos uma em frente do hospital. Metíamos os mortos em sacos. Quando a cidade caiu, havia 120 cadáveres empilhados aí, em frente da porta."

Vesna Bosanac dá uma passa no seu cigarro, inspira, parece longe. "Desculpem-me. Perguntava-me apenas se tinha medo. Mas a resposta é não. É curioso. Creio que não tinha tempo."

O tempo, reserva-o para os seus princípios: prioridade aos doentes, respeito pelo juramento de Hipócrates. E nenhuma psicologia. Vesna Bosanac cria uma reputação em betão. Em 1992 será nomeada para o Prémio Nobel da Paz. A antiga equipa saúda a sua coragem, a sua humanidade, a sua fidelidade aos princípios de médica. "Ela soube colocar as suas convicções políticas de lado", diz o médico (sérvio) Mladen Ivankovic.

Durante o cerco tratam-se os civis e os combatentes croatas. Mas também os combatentes sérvios e os soldados do Exército Nacional Jugoslavo (JNA), colocados à parte. "No fim", nota a directora, "um obus atingiu o quarto deles e tiveram que ficar uns com os outros nos corredores. Uma situação bizarra".

E depois o silêncio, de repente; o sol; essa famosa manhã de 18 de Novembro, quando a cidade de Vukovar se rendeu ao Exército jugoslavo. A dama de cabelo grisalho perde a sua voz de autómato. Procura as palavras. O súbito vazio, ela tem dificuldade em descrevê-lo. Já não há bombardeamentos, já não há tiroteios, nada. Só o ruído distante de um obus, de tempos a tempos. "O silêncio, já não o conhecíamos. Não sabíamos se devíamos ficar contentes ou ter medo."

Em três dias, 18, 19 e 20 de Novembro, Vukovar é uma página voltada. Os soldados do JNA, o "exército de libertação", entram no hospital. A doutora Bosanac é afastada das suas funções. O hospital passa para o controlo do major Veselin Sljivancanin (em breve julgado no Tribunal de Haia). Ele reúne o pessoal na "sala do gesso".

Durante esta reunião, os militares estão atarefados. A enfermeira principal vê-os. Tal como o oftalmologista Neda Striber, que testemunha em Haia. Da porta da sala do gesso, vêem os doentes serem levados rapidamente para a porta de saída e enfiados em autocarros. Duzentos e sessenta e um "não sérvios" são assim "evacuados" do hospital pelo exército servo-federal. A maior parte será encontrada em 1996: exumados da vala comum de Ovcara, a alguns quilómetros de Vukovar. Tinham sido reunidos numa quinta vizinha, espancados, executados. Depois são enterrados. Foi a primeira grande vaga de limpeza étnica na ex-Jugoslávia. "O meu sogro foi encontrado aí", acrescenta secamente Vesna Bosanac.

Ela não viu nada da evacuação dos feridos. Estava ingenuamente ocupada a exigir aos sérvios que evacuassem o hospital. Esteve presa durante três semanas na prisão de Mitrovica, depois foi entregue às autoridades de Zagreb. Ficou mais de cinco anos na capital croata, "directora do hospital de Vukovar no exílio".

s guerras da Jugoslávia prosseguem o seu caminho. Mais de 200 mil mortos, mais de três milhões de pessoas deslocadas. A Eslavónia Oriental é reintegrada na Croácia. Os sérvios deixam Vukovar, outros ficam. Os croatas deslocados regressam. A ONU tenta impor a "reconciliação". Em Julho de 1997, a directora faz o caminho de volta.

O regresso a Vukovar. Com as suas tensões, os seus ódios, o que não é dito, as acusações. Uma parte da equipa médica croata, expulsa da cidade "libertada", regressa ao hospital gerido durante seis anos por pessoal de origem sérvia. Do primeiro encontro lembram-se todos "como se tivesse sido ontem". Um médico croata recusa-se a dar apertos de mão. Um sérvio deixa a sala. Outro fala da sua "vergonha" e propõe um futuro comum. Vesna Bosanac evita os discursos longos: "Deixem os problemas psicológicos em casa. Mantenham-se profissionais."

Em Janeiro de 2003 vai testemunhar no Tribunal Internacional de Haia contra o antigo presidente sérvio Slobodan Milosevic. "Preparei-me psicologicamente", conta. "Fiz bem. Ele estava impertinente, fechado sobre si próprio, fixo na sua ideia da Grande Sérvia. Não ouvia o que eu dizia. Apoiava-se num registo vindo não sei se onde, contestava o número de feridos, o número de mortos." Ela estará também presente noutros processos, entre os quais o do major Sljivancanin.

A directora do hospital observa com um ar ausente este pós-guerra calmo e moribundo em Vukovar. Só uma bandeira discreta deixa adivinhar a fronteira sérvia, do outro lado do Danúbio. Mas a pequena cidade cosmopolita, que tinha 45 mil habitantes antes do cerco, perdeu metade destes. Os que regressam voltam a partir, porque não há trabalho, ou por mal-estar.

Vesna Bosanac não voltará a partir. O hospital de Vukovar é a sua toca, o seu refúgio, o seu destino. "Carrego às costas a cruz de Vukovar", diz bruscamente. "É algo que habita em mim. Vivo com isto e não compreendo. Revejo a ideologia criada, a Grande Sérvia, as bandeiras com caveiras, os comícios. E depois vejo a cidade arrasada, a espera, este sol que cega, este silêncio assustador. Tudo me surge na cabeça muito rapidamente, como um comboio expresso que passa e volta a passar à minha frente. Apenas um traço que queima."

Eles Vieram Estragar a Festa, Pá (II)

Por HELENA MATOS
Publico, Sábado, 21 de Agosto de 2004

A descolonização é o principal e quase exclusivo tópico da agenda política de Portugal nesse Verão de 1974, em que, recorde-se, o país está ainda muito longe do clima revolucionário das ocupações e nacionalizações que o há-de caracterizar meses depois. Antes pelo contrário, as greves são frequentemente apresentadas como reaccionárias pelo PCP e pelo MFA, sublinha-se mesmo que os trabalhadores portugueses são, na Europa, dos que usufruem horários mais reduzidos e mobilizam-se os trabalhadores para trabalharem um domingo, oferecendo o salário desse dia "à Nação". A revolução podia esperar. A descolonização não.

A expressão "acelerar o processo de descolonização" torna-se recorrente, após o 28 de Setembro, nas páginas dos jornais, na boca dos responsáveis, e alinhava-se, numa desconcertante harmonia, ao longo das colunas dos mesmos periódicos que garantiam, ainda em Novembro de 1974, que Angola teria direito a três deputados na futura Assembleia Constituinte.

Pura esquizofrenia é talvez a expressão que melhor define a forma como nesse Verão de 1974 os jornais portugueses acompanham o que acontece nas então colónias portugueses: celebra-se a sua libertação do colonialismo português e simultaneamente apresenta-se como positivo entregar os destinos desses povos e territórios a líderes não só fortemente antidemocráticos como até, em alguns casos, a movimentos recompostos na urgência da anunciada independência. A este título é exemplar o caso do MPLA que, precisamente há trinta anos, em Agosto de 1974, se reunia em Lusaca para "in extremis" conseguir apresentar um líder e sanar as profundas divergências entre Agostinho Neto, Mário de Andrade e Daniel Chipenda.

Com a mesma reverência com que durante décadas reproduziram as declarações de Salazar, os jornais portugueses enchem, nesse Verão de 1974, páginas e páginas com declarações oficiais. Mas com a diferença substancial de que já não existia censura. Nesse Verão de 1974, sem sombra de lápis azul a cortar-lhes alguma observação menos adequada, os jornais portugueses transformaram-se numa espécie de imenso "Diário da Manhã" (jornal de propaganda do salazarismo). Uma das traves mestras desta imprensa de propaganda é a tese de que África estava a ser libertada e quando alguma notícia sai desta versão oficial é evidente a dificuldade da nova classe política portuguesa em lidar com jornalistas que se assumam como jornalistas e não como amigos, companheiros ou camaradas. Recorde-se, por exemplo, a entrevista que Vasco Gonçalves dá à BBC em Setembro de 1974, e em que é patente o seu desconforto pela cobertura que a BBC fizera da revolta de Lourenço Marques: "A BBC era uma fonte de informação séria no regime anterior ao 25 de Abril. (...) Ora, aquando da rebelião em Lourenço Marques, a BBC deu guarida às afirmações, mentiras e calúnias que esse grupo de mercenários e criminosos atirava para o ar através do Rádio Clube de Moçambique, que tinha ocupado."

Antes pelo contrário, da imprensa portuguesa pouco tinha Vasco Gonçalves para se queixar. De facto, fora como "mercenários e criminosos" que sumariamente foram rotulados por boa parte da imprensa portuguesa aqueles que contestaram quer os acordos de Lusaca quer todos os outros acordos que definiram as condições da independência das colónias. Nesta linha mais de propaganda do que de informação, os jornais portugueses, ao mesmo tempo que faziam títulos como "Libertar o povo de Cabo Verde das grilhetas colonialistas", atiravam, para o final destas empolgadas notícias, umas breves e veladas referências à contestação pelos cabo-verdianos desta independência que os amarrava à Guiné. Mesmo questões simbolicamente tão importantes quanto a reabertura do campo de concentração do Tarrafal são votadas ao silêncio. Aliás, não deixa de ser significativo que ainda hoje raramente se refira que o Campo do Tarrafal, encerrado pelas autoridades portuguesas em 1954, foi reaberto por essas mesmas autoridades, após o 25 de Abril, para aí serem internados vários cabo-verdianos que se opunham ao PAIGC. Note-se, contudo, que o destino destes presos foi apesar de tudo melhor que aquele que foi reservado aos comandos guineenses que haviam integrado o exército português: enquanto estes presos cabo-verdianos do Tarrafal vieram para Portugal, em 1975, com as últimas tropas portuguesas, o fuzilamento foi o destino de muitos dos comandos guineenses.

Os portugueses não queriam ver estragada a sua festa e estavam dispostos a fechar os olhos àquilo que a conspurcasse. Inicialmente Lisboa não quer ouvir falar de ponte aérea entre as antigas colónias e Lisboa. A própria ajuda internacional para os refugiados começa por ser recusada com receio de que imagem de Portugal seja prejudicada.

Enquanto eles não se deitaram à espera de nada no aeroporto da Portela, enquanto não se lhes viram os filhos brancos, pretos e mulatos, enquanto não se lhes viram as mãos e o rosto marcados pelo sol de África, foi fácil estigmatizá-los na figura do grande explorador racista, de chicote na mão. E uma vez chegados a Portugal, muitos deles vão conseguir mais facilmente um subsídio ou alojamento pago pelo Estado português em hotéis de luxo do que inscrever-se num sindicato ou ter acesso a um emprego nas empresas nacionalizadas. Eles não podiam ter sido simples trabalhadores. Eles tinham tido de ser capitalistas. Há escolas em que se aprovam moções contra a admissão de professores vindos das ex-colónias dado o seu reaccionarismo.

Como claramente intuiu Gabriel García Márquez nas reportagens que, em 1975, faz em Portugal: "Uma má solução em Angola obrigará ao regresso a Portugal de 600 mil colonos ressentidos, que irão reforçar as fileiras da reacção e criar conflitos económicos."

Empenhado e militante, Gabriel García Márquez sabia que esses refugiados, a que ele chama não por acaso "colonos ressentidos", serão um forte borrão de dor nesse universo festivo que ele e tantos outros jornalistas desenhavam da revolução dos cravos. Dessa revolução em que se usaram flores em vez de balas. Em que não houve vítimas...

Quando eles chegaram, estragaram a festa. No desespero que traziam estampado nos olhos, os portugueses viram o reverso das utopias libertadoras. Desconheço se a imagem dos seus caixotes arrumados ao longo do Tejo terá contribuído para que algumas chefias militares e políticas que tinham fechado os olhos à catástrofe da descolonização resolvessem dar por encerrado o PREC.

Mas independentemente dos motivos que tenham detonado as acções de cada um dos protagonistas, encontramos um bizarro fio teimando em ligar a agonia do Império ao destino de Portugal: catorze dias depois de o alto-comissário português em Angola ter entregue simbolicamente o poder ao povo angolano tinha lugar, em Portugal, o 25 de Novembro. A festa acabara em Portugal. Em África, a farsa podia continuar. Jornalista