sexta-feira, junho 17, 2005

Morreu Corino de Andrade, o médico que descobriu a doença dos pezinhos

por Andrea Cunha Freitas
Público, 17 de Junho de 2005

A Universidade do Porto colocou as suas bandeiras a meia haste para homenagear a vida e a obra do cientista português

Dizem que nos últimos meses o corpo e a mente foram perdendo a força e vitalidade que sempre o caracterizaram e conseguiam surpreender tudo e todos. Ontem, aos 99 anos, comemorados na sexta-feira passada, o neurocientista Mário Corino de Andrade não resistiu a uma paragem cardiovascular, resultante da doença cardíaca e enfraquecimento que o prendeu à cama nos últimos anos. Os amigos, colegas ou, numa palavra, os admiradores da sua vida e obra lamentaram a perda do único médico português que descobriu uma doença e, sobretudo, do homem que todos consideram extraordinário. A Universidade do Porto colocou as suas bandeiras a meia haste. O corpo de Corino de Andrade estará hoje, em câmara-ardente, no Instituto Ciências Biomédicas de Abel Salazar (ICBAS), no Porto. O funeral realiza-se sábado.
Uns realçam os sucessos da carreira, com 50 anos dedicados à investigação, que o levaram à descoberta da paralimóidose, a doença de Andrade, conhecida vulgarmente por doença dos pezinhos. Outros sublinham o homem com leve sotaque alentejano e uma cultura geral impressionante, que reagiu e resistiu ao regime fascista. Outros ainda preferem valorizar o amigo que ouvia os desabafos e o companheiro de muitas viagens. Todos lamentaram ontem a perda do professor Corino de Andrade.
O neurocientista licenciou-se em medicina e cirurgia em Lisboa e, em 1931, viajou para Estraburgo para trabalhar no Laboratório de Neuropatologia da Faculdade de Medicina, num esforço que lhe valeu o Prémio Déjerine.
No regresso a Portugal, em 1938 instala-se no Porto, cidade que nunca mais abandonou, mais precisamente no Hospital Geral de Santo António, onde no início dos anos 40 cria e dirige o Serviço de Neurologia. Em 1952 faz a descoberta que lhe mereceu o reconhecimento mundial.
A partir da observação de doentes, Corino de Andrade identificou e tipificou cientificamente a paramiloidose. À margem do exercício da medicina, Corino convivia com os homens de ciência do Porto e outros que se opunham ao regime de ditadura, como Bento de Jesus Caraça, Ruy Luís Gomes, Abel Salazar e Mário Soares. Logo após a queda do regime fascista, Corino de Andrade e o médico Nuno Grande integraram, desde 1974 a 1980, a comissão instaladora do ICBAS. Na década de 70, Corino de Andrade formou uma equipa de investigação com Paula Coutinho, tendo-se dedicado ao estudo da doença neurológica de Machado-Joseph.

Uma vida e obra de excelência
Corino de Andrade fez anos no dia 10 de Junho. E, como sempre, recebeu os amigos em casa, no Porto. Nuno Grande, médico e professor jubilado do ICBAS, visitou-o com um cesto com compotas embaladas. "Fez as perguntas habituais, sobre o tempo e outras coisas vulgares", lembrou ontem o, sobretudo, amigo.
"Estou triste", resumiu Nuno Grande, recordando "um calor" que Corino lhe transmitiu nesse último encontro, no dia do aniversário. No momento da despedida, sobram os imensos pormenores. Como os jogos que fazia com as visitas - "talvez por receio de lhe estarmos a esconder algo" -, fazendo as mesmas perguntas às pessoas, para cruzar informação. "Tinha um sentido de previsão extraordinário de tudo o que se passava no mundo. Era vulgar ouvi-lo a fazer previsões que, mais tarde, se confirmavam", notou Nuno Grande, tentado a contar uma história para quem não acredita nessas "profecias".
"Acho que nunca contei isto mas. Uma vez íamos sentados no carro - ele ao meu lado, porque nunca quis conduzir, nem quis tirar a carta - e ele estava a ler numa revista um artigo que falava no elevado número de crianças com malformações na União Soviética. Disse-me, nessa altura, estão com graves problemas económicos: "Esta economia vai cair. Oxalá caia devagar senão vai arrastar tudo atrás." Estávamos em 1976, dez anos antes da queda que acabou mesmo pró acontecer."
Em 2002, foi lançada uma biografia intitulada Corino de Andrade. Excelência de Uma Vida e Obra, da autoria da jornalista Maria Augusta Silva.
O livro dedica muitas páginas ao único médico português que "descobriu" uma doença. Fala das suas viagens e descobertas, do investigador persistente e do neurologista brilhante. Mas também do menino nascido em Moura, no Alentejo, que brincava com soldadinhos de chumbo em cima do mapa, da sua relação com o pai, do carinho pelo seu gato Chiquito e por outros animais, do estudante que fez greve, do preso na cela da PIDE, da sua maneira de ver o mundo, das suas cartas, do seu "pensar e dizer". De uma forma de excelência de estar na vida.

História de uma descoberta

Corino de Andrade estava a trabalhar no Hospital Geral de Santo António e, nos anos 40, observou 64 pessoas da região da Póvoa de Varzim que se queixavam do "mal dos pezinhos". Em 1952, o médico neurologista publicou o artigo na revista Brain descrevendo a doença que identificou como paramiloidose ou polineuropatia amiloidótica familiar (PAF).
Nos primeiros tempos, foi tida como uma doença exclusiva do território português; no entanto, a paramiloidose acabou por ser detectada em vários pontos do mundo e com quatro variantes. O tipo que ocorre em Portugal, associado a uma mutação no gene da transtirretina e que Corino de Andrade descreveu, regista-se também no Japão, na Suécia, em Palma de Maiorca e no Brasil.
A paramiloidose é uma doença genética que se manifesta normalmente entre os 25 e os 35 anos. Os primeiros sintomas são formigueiros nos pés e uma perda de sensibilidade ao frio e calor. Reza a história que Corino de Andrade detectou a doença após a observação de pescadores poveiros que não sentiam dor quando se cortavam nas cordas dos barcos. A doença afecta inicialmente os membros inferiores, alastrando-se aos membros superiores, causando também perturbações a nível do sistema digestivo, problemas cardíacos e do sistema nervoso. Os rins e o coração são atingidos nas últimas fases da doença.
Em Portugal haverá mais de 560 famílias afectadas. Cerca de um terço dos doentes reside ou tem origem recente nos concelhos de Póvoa de Varzim e Vila do Conde. Muitas famílias encontram-se espalhadas ao longo do litoral norte, desde Viana do Castelo até à Figueira da Foz. Depois da Póvoa de Varzim e Vila do Conde, os focos de maior prevalência são, por ordem decrescente, Barcelos, Braga, Figueira da Foz e serra da Estrela (Seia e Unhais da Serra). A.C.F.


Ministério das Ciências

Foi pela mão do doutor Corino de Andrade que dei os meus primeiros passos na carreira de investigação científica. O que ele me transmitiu sobre os desafios na investigação sobre a paramiloidose tem-me sempre guiado. A sabedoria perspicaz e visão aliadas à sua simplicidade fizeram-no uma das pessoas que mais admirei e que continua a ser uma inspiração. É um vulto internacional único que descreveu a primeira forma de amiloidose hereditária, conhecida por doença de Andrade.
Maria João Saraiva, directora da Unidade Amilóide do Instituto de Biologia Molecular e Celular da Universidade do Porto

Tínhamos uma ligação de amizade muito forte. Com o meu pai, passávamos férias juntos. É uma perda grande para o país e o Porto. A investigação que fez é de facto única em Portugal, estando nós na altura numa periferia maior do que hoje. Começou a ver doentes e conseguiu fazer uma coisa notável que só um clínico atento faz: ver que existia uma doença diferente. Descreveu uma doença clínica primeiro, e depois ultrapassou o limite clínico e fez a investigação básica que permitiu saber que a doença é provocada por mutações genéticas e leva a um conjunto de disfunções. Ele e a sua escola fizeram a história de uma doença, desde a clínica, a genética até à investigação básica - o que é uma coisa muito bonita e rara no mundo inteiro.
Leonor David, investigadora do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto

Corino de Andrade era importante como homem. E como médico descobriu uma doença, abriu um caminho de pesquisa que continua até hoje para doenças degenerativas do sistema nervoso central. Na história da ciência entrou pela porta grande. Resta-nos a certeza de que, por tudo o que fez e disse, se tornou imortal.
Nuno Grande, Amigo de Corino de Andrade, médico e professor jubilado do Instituto Ciências Biomédicas de Abel Salazar

A sua morte deixa mais pobre a ciência portuguesa, a comunidade científica e o povo português. O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, José Mariano Gago, comunga da consternação causada por esta notícia e apresenta as sinceras condolências à família de Mário Corino da Costa Andrade.
Comunicado do Ministério da Ciência