sexta-feira, março 10, 2006

“Sem condições para continuar”

Abel Maia voltou à advocacia depois de oito anos na câmara municipal

Cinco meses depois de ter deixado a vice-presidência da Câmara Municipal de Vila do Conde, Abel Maia aceitou, finalmente, falar sobre o processo conturbado que levou à sua saída. O advogado vila-condense admite que o facto de ter sido uma segunda escolha precipitou a «colisão» com o executivo camarário. Apesar de tudo, o ex-autarca não quer fazer frente a Mário Almeida nas eleições, deste mês, para a liderança da Comissão Política Concelhia do Partido Socialista.

Paulo Vidal (texto)/José Freitas (fotos), in PJ, 10 de Março de 2006

Passaram cerca de cinco meses depois das eleições autárquicas, o que tem feito desde que deixou a vice-presidência da Câmara Mu-nicipal de Vila do Conde?
Tenho estado a preparar o regresso à minha profissão, à advocacia, na medida em que tinha suspenso a actividade em 1997 quando fui para a câmara e na altura encerrei mesmo o meu escritório. Durante este período, desde finais de Outubro do ano passado, estou a preparar o escritório e a fazer actualizações pessoais na medida em que algumas matérias foram alteradas e criadas as condições para um regresso normal à actividade que eu já tinha exercido durante 13 anos e que, portanto, necessitou deste tempo, cerca de seis meses, para eu poder dizer que agora estou em condições de exercer a minha própria actividade profissional.

Muito se especulou sobre a sua saída da Câmara Municipal de Vila do Conde. Afinal foi ou não conturbado o seu processo de abandono da vice-presidência?
Temos que perceber na vida quando devemos estar nos sítios e quando devemos sair. Percebi já há algum tempo que se calhar do ponto de vista pessoal e do ponto de vista político tinha chegado a altura de eu parar e de sair da câmara. Portanto, foram criadas condições para, que efectivamente, no último dia de apresentação das listas, eu pudesse dizer ao engenheiro Mário Almeida que não queria ficar.

Mas chegou a ser convidado para continuar?
Sim fui convidado pelo engenheiro Mário Almeida para ficar no cargo de vice-presidente e no último dia em que ele apresentou publicamente as listas tive oportunidade de lhe dizer que não queria ficar.

Porque motivo comunicou a sua decisão apenas no último dia do prazo de apresentação das listas candidatas às eleições?
Fi-lo porque senti que do ponto de vista político tinha de sair. Temos que perceber do lado das lideranças quais são as suas intenções e do ponto de vista externo e do ponto de vista interno. É obvio que a legitimidade da escolha da equipa pertence ao presidente. A Comissão Política do PS deu ao engenheiro Mário Almeida poderes para escolher a sua equipa e eu entendi, da forma como o processo correu, que a minha saída poderia interessar a todos e acabei por decidir nesse sentido, não obstante o engenheiro Mário Almeida me ter feito o convite.

Esse momento, a sua saída da câmara municipal, marca o início da ruptura com o aparelho do Partido Socialista?
Não há qualquer ruptura como aparelho do Partido Socialista. Continuo a ser militante do PS com gosto e vou continuar a ser no futuro, não há qualquer ruptura. O que aconteceu foi que terminou naquele momento, porque eu considerava que deveria ser a primeira pessoa a ser contactada, isso não aconteceu e foi o motivo suficiente para que eu decidisse que tinha terminado ali a minha colaboração no executivo com o engenheiro Mário Almeida.

Houve portanto um episódio que terá precipitado a sua decisão?
É evidente que sim, já o disse e já o escrevi. Não fiz disso um cavalo de batalha porque acima de tudo estavam os interesses do meu partido e estávamos muito próximo de um acto eleitoral, mas é evidente que deixei de ter condições políticas de ficar na equipa do engenheiro Mário Almeida.

Ficou magoado por ter sido uma segunda escolha?
Não é problema de não gostar, não aceitaria nunca que assim fosse e por isso tudo o resto são conversas do passado que para mim já morreram. O engenheiro Mário Almeida é uma pessoa a quem Vila do Conde muito deve e naturalmente que eu tenho que perceber que acima de tudo importa salvaguardar também as lideranças que são vitoriosas. O engenheiro Mário Almeida demonstrou e tem demonstrado ao longo da sua carreira política que é uma pessoa que ganha eleições e que cumpre os seus mandatos e por isso eu só tinha que perceber isso e sair.

Podemos então concluir que embora se mantenha filiado no Partido Socialista deixou de pertencer à facção de apoio ao engenheiro Mário Almeida?
Não há facções de apoio ao engenheiro Mário Almeida, ele já teve desde que é presidente da câmara, quatro ou cinco vice-presidentes. A escolha do vice-presidente e a escolha dos vereadores pertence, não só aqui em Vila do Conde mas em todos os concelhos, aos líderes e portanto não foi pelo facto de terem saído outros vice-presidentes que as pessoas deixaram de se interessar pela sua terra e pelo seu partido. O engenheiro Mário Almeida entendeu que eu não seria a pessoa com quem ele deveria falar em primeiro lugar, fez essa análise, mais tarde e depois de um conjunto de conversas que tivemos fez-me o convite, mas já era tarde. Eu considerei que, por tudo aquilo que representei nos últimos anos, por tudo aquilo que eu fiz e por toda a lealdade e solidariedade que tive para com o PS e para com o engenheiro Mário Almeida, que eu deveria ser a primeira pessoa com quem ele deveria falar sobre estas questões.

É verdade que chegou a recusar o cargo de candidato à presidência da Assembleia Municipal de Vila do Conde?
É verdade, porque não tendo condições políticas para continuar na câmara é obvio que também não tinha condições para pertencer à assembleia municipal e muito menos como presidente. As coisas são muito claras na política, ou estamos nos lugares em absoluta coesão com as lideranças ou quando não estamos, por qualquer motivo, o que temos de fazer é sair e eu optei pela saída porque deixei de ter condições para trabalhar com esta liderança.

O facto de ter apoiado o candidato Manuel Alegre, nas últimas eleições presidenciais, foi a prova da existência de uma ruptura com o Partido Socialista de Vila do Conde que optou por apoiar o candidato Mário Soares?
Não sei se o PS em Vila do Conde apoiou Mário Soares porque em termos de resultados eleitorais houve muitos vila-condenses que estiveram com Manuel Alegre. As eleições presidenciais são eleições muito próprias, muito específicas. Estamos a eleger uma pessoa e não estamos a eleger um partido nem uma equipa, estamos a escolher a pessoa que nos vai representar enquanto Presidente da República. Por isso, entendi, por diversas razões e que na altura foram públicas, manifestar o meu público apoio, valendo o que ele vale, a Manuel Alegre porque considerei que Mário Soares, na minha área política, não tinha condições para ser o Presidente da República que eu projectava para o meu País. Acabou
por não ganhar nem um nem outro, penso que a questão não tem a ver propriamente com esta divisão, tem a ver com outras análises, mas fiz uma opção pessoal.

Falou em divisão. Admite portanto que haja nesta altura uma divisão no Partido Socialista de Vila do Conde?
Não. Há apenas uma liderança muito forte que é feita pelo engenheiro Mário Almeida, há um compromisso com os vila-condenses durante quatro anos no sentido de governar Vila do Conde e portanto eu, como socialista, muito embora não esteja na câmara nem em nenhum órgão de eleição, vou continuar a apoiar no sentido de que as promessas eleitorais sejam cumpridas e o PS possa no final deste mandato apresentar-se de novo aos vila-condenses dizendo que cumpriu a sua obrigação, cumpriu as promessas que fez aos vila-condenses.

Defende que seja necessária uma renovação dentro do próprio partido?
Penso essa questão tem de ser discutida no interior do próprio partido. O engenheiro Mário Almeida tem dito de uma forma repetida que este é o último mandato. Do ponto de vista legal ele ainda pode ser candidato mais uma vez. Se eventualmente decidir que é o último mandato penso que o PS tem que pensar no futuro, tem que se realinhar para novas estratégias e novas lideranças. Se não for o último mandato é evidente que o PS em Vila do Conde tem tido um líder ganhador e nessa medida com toda a legitimidade interna no PS e externa do ponto de vista eleitoral, e por isso essa decisão vai caber em primeira mão ao engenheiro Mário Almeida.

Deduzo das suas palavras que só avançará para uma possível candidatura à liderança do Partido Socialista se Mário Almeida sair no final deste mandato autárquico?
Se o engenheiro Mário Almeida decidir continuar na liderança do executivo municipal por mais um mandato é evidente que todos os socialistas devem estar unidos em torno da sua candidatura e eu serei um deles. Penso que nenhum socialista com responsabilidades vai questionar a liderança do engenheiro Mário Almeida em Vila do Conde e eu nunca o farei. Se ele entender que é o último mandato e que não se vai recandidatar é evidente que depois a palavra vai caber aos militantes e eu serei um militante como os outros milhares de militantes do PS em Vila do Conde.

Acha que o PS tem soluções para a sucessão a Mário Almeida?
Há muitas soluções. O PS é um partido extremamente rico em termos de pessoas que podem no futuro servir o partido, há muitas soluções em Vila do Conde para o PS.No entanto, se por ventura o engenheiro Mário Almeida não for candidato nas próximas eleições é obvio que o PS tem que se encontrar a si próprio com uma nova liderança. Não faz sentido escolher um novo presidente da câmara se ele não for líder do PS. O PS tem que fazer a indicação do novo candidato a presidente da câmara, desde que este tenha legitimidade política. O futuro presidente da comissão política deve, na minha opinião, ser candidato à Câmara de Vila do Conde para ganhar legitimidade interna.

Vai concorrer às eleições para a Comissão Política Concelhia do Partido Socialista?
Este ano não sou candidato, daqui a dois anos logo se verá. Nesta altura o PS tem que estar unido em torno da liderança do engenheiro Mário Almeida e eu também estou. Se ele não avançar admito discutir isso com os camaradas do meu partido.

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Abel Maia
Abel Manuel Barbosa Maia nasceu em Angola, no dia 6 de Março de 1960, completou portanto 46 anos na passada segunda-feira. Casado, pai de um rapaz, o advogado vila-condense exerceu durante dois mandatos (oito anos) o cargo de vice-presidente da Câmara Municipal de Vila do Conde. Foi vereador do Desporto, Urbanismo, Movimento Associativo, Desenvolvimento Económico, Administração e Finanças e Contencioso. Abel Maia é militante do Partido Socialista desde 1993, presidente da Comissão de Jurisdição Distrital e membro da Comissão Política Concelhia de Vila do Conde.